terça-feira, 31 de março de 2026

'Ilma Fontes — Nunca se Curvou!', por Neu Fontes

Artigo compartilhado do site NEU FONTES, de março de 2026

Ilma Fontes — Nunca se Curvou!
Por Neu Fontes (Blog do Neu)

Olá, gente boa,

Quando menino, gostava de ouvir escondido as conversas dos meus pais. Meu pai, Seu Irineu, falava do comércio, das representações da Empire, da rádio, da televisão que ajudou a chegar a Aracaju com a repetidora no Morro do Urubu. Minha mãe, dona Susete, cuidando da casa, dos filhos, mas também inventando caminhos para ajudar no sustento, vendendo roupas, bordados e tudo que pudesse virar renda.

No começo da noite, antes do jantar, eles se sentavam na varanda da casa da Rua Divina Pastora. Às vezes com Seu Milson e Dona Lucy. Eu ficava por perto, quieto, fingindo não ouvir — mas ouvindo tudo. Talvez ali tenha nascido esse meu gosto de contar histórias.

De vez em quando, vinha a ordem:

— Vá brincar, Irineuzinho, isso aqui é conversa de gente grande.

Mas na maioria das vezes eram histórias da cidade, dos acontecimentos, da política, dos artistas, dos ousados. E foi ali que conheci nomes que marcaram Aracaju. Gente que ousava, que enfrentava o conservadorismo de uma cidade pequena, cheia de olhos e línguas.

E minha mãe… ah, minha mãe sempre estava do lado da ousadia.

Quando surgia o comentário sobre jovens “rebeldes”, ela dizia:

— Isso é a modernidade.

E quando era uma mulher, ela cravava:

— As mulheres são iguais e têm o direito de viver como quiserem.

Foi assim que fui criado. Cercado de mulheres fortes. Mulheres que não pediam licença para existir.

Foi nessas conversas que ouvi, ainda nos anos 60, sobre dois jovens que “aprontavam”: Ilma Fontes e Mario Jorge. Filhos de famílias conhecidas, inquietos, provocadores. Meu pai comentava, minha mãe compreendia. Ela já enxergava o que muitos não viam: o novo chegando.

Anos depois, já nos anos 70, entendi quem eram aqueles nomes.

Mario Jorge — poeta marginal, vanguardista, inquieto, livre. Um desses que vivem intensamente e deixam marcas profundas. Partiu cedo demais.

E Ilma…

Ilma não era apenas uma mulher.

Ilma era um movimento.

Médica, psiquiatra, diretora do Adauto Botelho — mas, acima de tudo, alguém que escolheu a liberdade. Liberdade de pensar, de criar, de confrontar, de existir fora das caixinhas estreitas de uma sociedade provinciana.

Jornalista, cineasta, escritora, ativista cultural.

Hoje chamariam de “influencer”.

Mas Ilma era muito mais: era inspiração, ruptura.

Uma guerrilheira.

Da palavra.

Da imagem.

Da existência.

Uma mulher que abriu — a ponta de pés, mas com firmeza — as portas fechadas pela intransigência e pela mediocridade de uma sociedade que não estava preparada para ela.

Meu encontro com Ilma só aconteceu nos anos 80, através de outra mulher gigante da minha vida: Lú Spinelli. E não foi fácil.

Dois Fontes. Duas cabeças duras. Dois mundos fortes.

Ela me achava arrumadinho demais. Talvez até pedante. E eu, tentando compreender aquela força indomável.

Mas o respeito veio. E veio forte.

Principalmente quando, já na gestão em Laranjeiras, pude reconhecer publicamente o quanto Ilma foi importante — não só para mim, mas para toda uma geração.

Cada texto.

Cada provocação.

Cada enfrentamento.

Tudo carregado de uma vida intensa, de batalhas ganhas e perdidas, numa sociedade que ainda hoje tem dificuldade de reconhecer o diferente — imagine naquela época.

Ilma escrevia:

“Sabe, meu bem, eu não tenho nada contra quem.

A questão é não negar. Não medir. Nunca.

Hoje ou depois de ontem, o dia é o seguinte.

Sequências. Consequências. Hipotenusas ilusões.

Você tanto pode dizer sim como não.”

E também deixou frases que atravessam o tempo, como:

“É fácil ser Spielberg nos Estados Unidos do que ser Ilma em Aracaju.”

E sobre Mario Jorge:

“Viver como passarinho e morrer a duras penas.”

Ilma foi mundo.

Publicou fora do Brasil.

Levou sua arte à Europa, à África, à Ásia.

Mas nunca saiu de Aracaju.

Seu olhar sempre foi daqui.

Sua alma sempre foi daqui.

Como ela mesma escreveu:

“A vontade de amar, que me impulsiona

O trabalho, vem de Aracaju, de suas noites

Azuis onde sobram mulheres e horizontes.

O hábito de mexericar, que tanto dilacera,

é amarga herança aracajuína.”

Ver hoje a Imagina — Feira de Artes Visuais, realizada pela Rede Colaborativa Mulheres da Imagem Sergipe (MIS), no Museu da Gente Sergipana, dedicada a Ilma Fontes, é mais que uma homenagem.

É um reencontro.

Um reconhecimento necessário.

Com curadoria de Germana Araújo e Maycira Leão, duas gigantes, reunindo obras de mulheres e coletivos do Nordeste, exibição de “Lampião – A Última Semana”, dirigido por Ilma, além de oficinas, debates, performances e música — a feira é a prova viva de que a semente plantada por ela continua germinando.

Mais de 180 mulheres.

Criando.

Ocupando.

Transformando.

Seguindo caminhos que Ilma ajudou a abrir.

Quero aqui agradecer a Gabi Etinger pelo convite e pelo brilhante trabalho sempre, e parabenizar todas as mulheres envolvidas nesse movimento tão potente.

Porque, no fim das contas, Ilma não foi exceção.

Ela foi anúncio.

Anúncio de um tempo que ainda estamos aprendendo a viver:

O tempo das mulheres livres.

Viva Ilma Fontes.

Viva as mulheres.

Texto e imagem reproduzidos do site: neufontes com br

sábado, 14 de março de 2026

Morre aos 84 anos Frei Enoque, ex-prefeito de Poço Redondo-SE.

Publicação compartilhada do site F5 NEWS, de 13 de março de 2026

Morre aos 84 anos Frei Enoque, ex-prefeito de Poço Redondo

Religioso franciscano atuou por décadas no sertão sergipano e também teve trajetória marcante na política do município

Por F5 News

Faleceu nesta sexta-feira (13), em Aracaju, o religioso franciscano Frei Enoque Salvador de Melo, aos 84 anos. Ele estava internado há cerca de um mês em um hospital particular da capital sergipana. A causa da morte não foi divulgada.

Natural de Cachoeirinha, em Pernambuco, Frei Enoque construiu grande parte de sua trajetória no sertão de Sergipe, especialmente na região de Poço Redondo, onde atuou como líder religioso e também como gestor público. O velório deverá ocorrer na Igreja Matriz do município, mas os detalhes sobre o sepultamento ainda não foram confirmados.

Além da atuação religiosa, Frei Enoque também teve participação ativa na política local. Ele foi eleito prefeito de Poço Redondo por três mandatos. No entanto, em 2012, quando estava no último ano da terceira gestão, decidiu renunciar ao cargo após recomendação da Igreja Católica para que religiosos não ocupassem funções políticas.

Mesmo após deixar o cargo, continuou atuando em defesa das comunidades do sertão sergipano, mantendo forte ligação com causas sociais e com a população mais vulnerável da região.

A trajetória religiosa de Frei Enoque começou ainda jovem. Aos 21 anos, ingressou na ordem franciscana, no convento da Ordem dos Frades Menores, em Recife, em 1967. Pouco tempo depois, foi enviado para a Diocese de Propriá, no alto sertão de Sergipe, onde passou a desenvolver atividades pastorais e sociais.

Desde então, permaneceu ligado à região semiárida do estado, onde se tornou uma figura conhecida pela atuação junto às comunidades locais.

A Diocese de Propriá ainda deve divulgar informações sobre as cerimônias de despedida e homenagens ao religioso.

Texto e imagem reproduzidos do site: www f5news com br

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Corpo de Frei Enoque é velado na Igreja

Publicação compartilhada do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 14 de março de 2026

Frei Enoque Salvador morreu num hospital de Aracaju

O corpo de Frei Enoque Salvador de Melo, 84 anos, está sendo velado na Igreja Matriz de Poço Redondo. O religioso morreu, nessa sexta-feira, após cerca de 20 dias internado no Hospital da Unimed, em Aracaju, para tratamento de condições adversas no estômago e intestino. O sepultamento está marcado para às 16 horas deste sábado, no cemitério daquele município do semiárido sergipano.

A Diocese de Propriá divulgou nota informando que Frei Enoque Salvador “dedicou sua vida ao serviço de Deus e aos mais pobres, sendo um verdadeiro testemunho de fé, simplicidade e entrega ao Evangelho. Com seu jeito fraterno e missionário, ajudou na evangelização de muitas pessoas, fortalecendo a fé de nossas comunidades e deixando uma marca profunda na vida de todos aqueles que tiveram a graça de conviver com ele”, frisa.

Três mandatos

Frei Enoque Salvador foi prefeito de Poço Redondo por três mandatos. Em 2012, quando estava no último ano da terceira gestão municipal, renunciou em favor de seu vice Roberto Araújo (PT). A renúncia visou atender a uma determinação da Igreja Católica, recomendando que religiosos não ocupassem cargos políticos. Mesmo tendo deixando o mandato eletivo, Frei Enoque continuou fazendo política com o objetivo de defender as comunidades pobres do sertão sergipano.

Natural de Cachoeirinha (PE), Enoque Salvador de Melo entrou, aos 21 ano de idade, no Convento dos Franciscanos Menor da região de Siriahein, em Recife, em 1967. Recebeu o seu primeiro hábito naquele mesmo ano, tornando-se noviço franciscano. No início de 1970, quando ainda era estudante, vai à Diocese de Propriá (SE), localizada no alto sertão sergipano e que era administrada pelo bispo dom José Brandão de Castro. Desde então, Frei Enoque não abandonou mais a região semiárida de Sergipe.

Por Destaquenotícias

Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias com br