terça-feira, 4 de agosto de 2026

Mangue Jornalismo ENTREVISTA Terezinha Oliva


Legenda da foto: Manoel Bomfim 
(Aracaju, 8 de agosto de 1868 — Rio de Janeiro, 21 de abril de 1932)

Entrevista compartilhada do site MANGUE JORNALISMO, de 2 de janeiro de 2024

Um dos mais importantes intérpretes do Brasil é sergipano, mas quase invisível. Livro da professora Terezinha Oliva joga luzes em Manoel Bomfim

Por Cristian Góes (Repórter)

Manoel José Bomfim. Para muitos, um nome comum que não convoca memória nenhuma. Talvez um parente antigo. Hoje já não se batizam muitos Manoeis. Outros ligam esse nome a uma rua ou uma escola que já ouviram falar. Um grupo reduzido diz que esse sujeito traz uma vaga lembrança de alguém importante na história, mas nada que isso. Para uma minoria da minoria, sim, trata-se de um grande intelectual brasileiro esquecido.

De fato, Manoel Bomfim é um sujeito quase invisível na história, apesar de ser um dos mais importantes pensadores, formuladores e intérpretes do Brasil e da América Latina. Sim, ele nasceu na pobre Aracaju em 1868, no dia 8 de agosto. Manoel foi profundamente silenciado pela elite letrada e reacionária do Brasil por ele tinha fortes críticas ao colonialismo europeu que produziu exploração e pobreza. Também foi apagado porque fazia uma defesa enfática de que a saída para os males dos países invadidos, como o nosso, é o investir em educação popular.

Nos últimos anos, alguns pesquisadores se esforçam para jogar luzes sobre as extraordinárias contribuições de Manoel Bomfim ao pensamento crítico brasileiro e latinoamericano. A professora Terezinha Oliva (UFS), uma das mais importantes acadêmicas sergipanas, fez isso e em 7 de maio deste ano lançou o livro “Manoel Bomfim, um intérprete do Brasil”, editado pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc). É com ela que a Mangue Jornalismo conversou um pouco sobre esse aracajuano tão pouco conhecido para sergipanos e brasileiros.

Mangue Jornalismo (MJ) – Professora, é verdade que Manoel Bomfim somente foi redescoberto em 1984, quando Darcy Ribeiro, em um ensaio, classificou esse aracajuano como “o pensador mais original da América Latina”? Em que reside a originalidade e centralidade do pensamento de Manoel Bomfim, sua importância ontem e hoje?

Terezinha Oliva (TO) – Manoel Bomfim foi um escritor muito conhecido ao seu tempo e teve livros adotados na escola até a década de 1950. Na década seguinte ocorreu o seu silenciamento; os livros didáticos deixaram de ser adotados e as obras de interpretação sobre o país e o continente, não tinham feito seguidores. Darcy Ribeiro leu “A América Latina”, obra de Bomfim, de 1905, durante o exílio, numa biblioteca de Montevidéu. Isso aconteceu entre 1964 e 1968, o período do exílio. Então ele se surpreendeu com o que leu e julgou Bomfim o “pensador mais original da América Latina”. Mas a surpresa e o estranhamento também foram revelados, no mesmo período, por outros leitores, como Vamireh Chacon, estudioso pernambucano, que em 1965 perguntou, espantado: “Por que não se fala nesse Manoel Bomfim?”

MJ – Não se fala porque seu pensamento se chocava com a ideologia oficial, não é isso?

TO – Sim, a leitura provoca choque, porque a visão de Bomfim sobre a colonização europeia e os motivos do “atraso secular” do continente latino-americano, a suposta incapacidade dos seus povos para o progresso e a atribuição, aos colonizadores, de uma superioridade racial, tudo isso é descartado pelo escritor sergipano, que mergulha na História e nos modos de exploração colonial para mostrar o que acontecia no Brasil e nos outros países da América do Sul. A atualidade desse autor decorre de aspectos para os quais ele chamou a atenção e que ganharam mais importância no processo brasileiro. Mas Bomfim foi marcado por diferentes apropriações do seu pensamento, à direita e à esquerda, ainda no seu tempo e hoje ele pode ser inspirador, mas é claro que algumas das suas leituras estão datadas.

MJ – É exatamente em razão dessa originalidade em seu tempo que Manoel Bomfim é rigorosamente invisibilizado pela historiografia brasileira? Digo “em seu tempo” porque as ideias dele estavam em contraposição ao pensamento dominante. É isso?

TO – Vários estudiosos tentam dar respostas a essa invisibilidade que atingiu a obra de Manoel Bomfim. Darcy Ribeiro, que prefaciou “A América Latina: males de origem” no seu reaparecimento, em 1993, mostra como Bomfim foi contra as correntes de pensamento predominantes e as visões de todos os grandes intelectuais brasileiros do seu tempo, como o nosso Sílvio Romero. A teoria da desigualdade inata das raças e o Darwinismo Social tinham status de teorias científicas e a coragem do autor sergipano em desmascará-las, mesmo sendo um evolucionista, o tornou alvo de terríveis ataques para desqualificá-lo. Além disso, a linguagem de Bomfim é reconhecidamente a de um militante, apaixonado e ele enveredou por uma explicação biológica que ficou datada, de modo que, quando, após os horrores cometidos na II Guerra Mundial, as teorias da superioridade da raça branca começam a ser descartadas, sua obra não foi tomada como referência. É realmente estranho o silenciamento do seu nome, mesmo quando o assunto o obrigaria, como a atual retomada dos estudos sobre eugenia e o que eles causaram no país.

MJ – Além de apagado nacionalmente, Manoel Bomfim também é um ilustríssimo desconhecido em Aracaju e em Sergipe. Isso se deu ainda pelas polêmicas discussões entre Sílvio Romero e ele? Romero defendendo, por exemplo, o branqueamento da população como solução para o “defeito de formação” do brasileiro, e Bomfim valorizando a miscigenação e negando a validade científica das teorias racistas. É isso?

TO – Sim, Sílvio Romero escreveu nos jornais e publicou, depois, uma obra com o mesmo título do livro de Bomfim que ele desqualificou, “A América Latina”, na qual, em mais de 400 páginas ele procura destruir o pensamento do seu conterrâneo e apequena-lo intelectualmente. As visões dos dois sobre a questão racial no Brasil são completamente opostas, com Manoel Bomfim vendo na miscigenação racial um fator que facilitaria o progresso no Brasil e Sílvio Romero propagando a tese de que a imigração europeia seria necessária para branquear a população brasileira e assim tornar possível o progresso. O que aconteceu em Sergipe, ao meu ver, é fruto, em parte, da força e do respeito para com a tradição dos intelectuais da Escola do Recife, como Tobias Barreto, Fausto Cardoso e Sílvio Romero, em que não se inclui Manoel Bomfim e o fato de que nenhum dos intelectuais sergipanos do seu tempo retoma as suas ideias. Além disso, embora tendo revelado o seu amor por Sergipe – a quem ele dedica o livro “A América Latina” – Bomfim teve uma passagem pela política local que não prosperou. Ele ocupou a vaga deixada na Câmara Federal pela morte de Fausto Cardoso, um ídolo em Sergipe; em 1907 ele se tornou deputado federal por Sergipe, mas não conseguiu fazer carreira. Hoje temos ruas, escolas, a biblioteca do Instituto Histórico e uma medalha instituída pela Assembleia Legislativa, com o nome de Manoel Bomfim, além de estudiosos locais e obras importantes, publicadas sobre o seu pensamento. Esperemos que isso o faça mais conhecido dos conterrâneos.

MJ – Manoel Bomfim tinha um pensamento crítico sobre a exploração do povo e o saque de nossas riquezas. Em que medida, esse pensar se articula com suas importantes produções no campo da Educação Pública, da Psicologia, da História, da Cultura e do Jornalismo? Desses campos (Educação, Psicologia, História, Cultura e Jornalismo), o que podemos destacar?

TO – Manoel Bomfim fez parte de uma geração de intelectuais que tinha, na frase feliz do historiador Nicolau Sevcenko, “a literatura como missão”. Intelectuais que queriam “salvar” o país do atraso, de certa forma, redimir a nossa trajetória histórica. A questão reside em que ele não repete as teorias externas sobre o Brasil e a América Latina e na contramão delas, não vê a presença europeia no continente como fruto de um processo civilizatório, mas como fruto da exploração capitalista mais brutal, destruindo o meio ambiente, os saberes acumulados, as culturas construídas e os povos. Então, além de teorizar sobre aquele processo, ele acreditou que a saída para os países colonizados estava na educação popular e admitia que a única inferioridade dos seus povos era a ausência do acesso à educação.

MJ – E Manoel publicou sobre isso, não foi?

TO – Sim, sim, ele usou a imprensa, os livros – e ele escreveu vários títulos didáticos – esteve no grupo que criou a primeira revista infantil no Brasil, O Tico-tico e exerceu cargos de direção nas áreas da educação pública e da formação de professores. O livro didático escrito em parceria com Olavo Bilac, “Através do Brasil”, foi usado nas escolas de vários estados, entre 1910 e a década de 1950. É um compêndio para o Curso Primário com noções de Geografia, de História, de fundamentos da economia e uma mensagem sobre o valor do povo brasileiro. Mas ele escreveu obras de Psicologia, de Composição (escrita), de Ciências, de Didática, foi um incansável divulgador do conhecimento e se dirigiu especialmente aos professores, sobre como tratar as crianças, como fazer funcionar as escolas, enquanto, ao mesmo tempo, mergulhava na História e na Cultura Brasileira, chegando, no seu último livro, “O Brasil Nação”, a formular um programa político para o Brasil.

MJ – Em que medida podemos afirmar que Manoel Bomfim é um dos intérpretes do Brasil no mesmo patamar, ou mesmo superior, de um Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Gilberto Freyre, Josué de Castro, Milton Santos, Raymundo Faoro, Sérgio Buarque de Holanda, Maria da Conceição Tavares?

TO – Darcy Ribeiro citou a maioria dos nomes enumerados nessa pergunta, descobrindo neles “ressurreições” das ideias de Manoel Bomfim, mas diz que eles não foram leitores de Bomfim. Ou seja, ele quis dizer que o nosso conterrâneo divulgou interpretações que se tornariam, em parte, correntes mais tarde. Ele não admite a velha história de “pensador adiante do seu tempo”, porque todo autor é filho do seu tempo, mas dá a entender que o que Bomfim viu e analisou, antes deles, terminou se impondo aqui e ali, embora nunca como um todo, nem mesmo como resultado do conhecimento da sua obra. Vários foram os leitores de Manoel Bomfim que destacaram diferentes aspectos do seu pensamento.

MJ – Por exemplo?

TO – A nossa professora Thetis Nunes, desde os anos sessenta mostrava Bomfim como um dos criadores do nacionalismo brasileiro e do pensamento sobre o desenvolvimento nacional ; Dante Moreira Leite destacou a singularidade do seu pensamento sobre a formação do brasileiro e sobre a natureza da exploração colonial; Flora Sussekind e Roberto Ventura destacaram nos anos oitenta, no livro “História e Dependência”, a interpretação da colonização como uma leitura biológica, descobrindo na linguagem usada por Bomfim uma possível dificuldade à sua divulgação. Zilda Lokói chamou a atenção para a atualidade do seu nacionalismo revolucionário e a preocupação com as classes desprotegidas. Enfim, a partir dos anos noventa do século passado houve um interesse na obra do pensador sergipano, foram reeditadas vários dos seus livros, que hoje são totalmente acessíveis, ele foi biografado, inclusive numa obra premiada, “O rebelde esquecido”, de Ronaldo Conde Aguiar e eu mesma estudei a sua visão do Brasil através do pensamento geográfico, que foi publicada pela editora Seduc, sob o título “Manoel Bomfim, um intérprete do Brasil”.

Texto e imagens reproduzidos do site: manguejornalismo org

domingo, 2 de agosto de 2026

Onde estariam Cleomar Brandi e sua enorme capacidade de ironizar a vida?

Legenda da foto: E aí velho Brandi: se tens notícias daí, nos mande pra cá!

Artigo compartilhado da Coluna JLCULTURA, de 18 de julho de 2026

Onde estariam Cleomar Brandi e sua enorme capacidade de ironizar a vida?
Por Jozailto Lima 

É profundamente enigmático morrer - e os espiritualistas não me venham com explicações piegas nesta hora.

A questão básica aqui é a seguinte: onde estarão Cleomar Brandi e aquela escrachada alegria e a iconoclastia existencial lá dele?

Estas perguntas são feitas a partir da lembrança de que ontem completou 15 anos que capou o gato de entre nós a grande figura Cleomar Brandi e foi sepultado no dia 18 depois de ele deixar uma farra, uma cervejada, paga pro magote de amigos lá no Bar do Camilo. 

O meu amigo engenheiro Leonel Guimarães, um baiano como eu e o próprio Brandi, me manda a foto que ilustra este texto e me ativa a lembrança da data.

Numa piada bem comum de Cleomar, dir-se-ia que hoje/ontem estaria a fazer 15 anos que este camarada retirou seus dois pés daqui deste mundo!

Lembro-me que ele vez por outra frequentava o terraço do Cinform naqueles happy hours promovidos por aquela casa jornalística. 

Numa das vezes, ao se despedir de Antônio Bonfim, o dono da bodega, ele tacou a frase-sacana, em forma de agradecimento irônico e anarquístico que só os descendentes de italianos conseguem: "Bonfim, obrigado, mas nunca mais piso meus pés aqui".

Eu o conheci - como a maioria dos sergipanos - já com uma perna só. Um saci sobre uma cadeira de rodas e nem me pergunte a origem da amputação.

Mais tarde, lá se foi a outra. E desta supressão veio outra piada escatológica deste baiano, que envolvia Dona Cleonice, a mãe com quem ele morou até os 65 anos quando partiu. 

"Eu acho que de mim vai sobrar somente a cabeça, como um João Batista, pra Dona Cleonice me conduzir por aí numa bandeja", dizia.

Não, não sobrou a cabeça para a bandeja. Mas sobraram a lembrança desta grande figura e as perguntas que formulo no começo deste texto: onde cacete estão socados Cleomar Brandi e sua insuportável alegria e capacidade inalienável  de reunir pessoas em torno de boa prosa? Com quem estariam estas respostas? Onde se socam os mortos? Por favor, não me venha com...

Texto e imagem reproduzidos do site: jlcultura com br

segunda-feira, 27 de julho de 2026

A noite ficou mais pobre sem Joubert Moraes

Na foto, Jade, ao lado do pai, Joubert Moraes

Artigo compartilhado do site FAUSTO LEITE, de 27 de julho de 2026

A noite ficou mais pobre sem Joubert Moraes
Por Fausto Leite

Acordei neste fim de semana com uma tristeza que não pediu licença, não bateu à porta e muito menos esperou que eu estivesse preparada. Joubert Moraes morreu, e com ele foi embora uma parte importante das noites que ajudaram a formar quem eu sou. Não falo apenas do pintor reconhecido, do músico celebrado ou do artista que Sergipe aprendeu a admirar. Falo do homem que conheci de perto, com quem dividi mesas, conversas, risadas, silêncios, canções e aquelas discussões culturais que começavam civilizadas e terminavam, algumas horas depois, tentando resolver o destino da humanidade. Joubert tinha essa capacidade rara de fazer uma mesa de bar parecer uma universidade, um palco, um confessionário e, dependendo da hora, uma assembleia constituinte da boemia sergipana.

Convivi com Joubert em muitas noites. Noites de amigos, de saraus, de música, de poesia e de conversas que não precisavam chegar a conclusão alguma para terem valido a pena. Ele gostava da noite porque a noite não exige que ninguém seja convencional. Durante o dia, o mundo cobra documentos, horários, respostas e comportamentos adequados. À noite, Joubert podia ser exatamente aquilo que sempre foi: livre. Cantava, contava histórias, ria com o corpo inteiro, falava de arte, de amor, de política, de gente e da vida com uma intensidade que fazia qualquer assunto banal parecer urgente. Quando pegava o violão, não havia anúncio oficial nem preparação de cerimônia, mesmo quando suas articulações doíam. A música simplesmente acontecia, como se estivesse apenas esperando uma distração dele para escapar.

Joubert não frequentava a cultura sergipana. Ele era parte dela. Estava nos bares, nos encontros, nas galerias, nos palcos, nos ateliês e na memória afetiva de uma Aracaju que ainda sabia se reunir sem precisar fotografar tudo para provar que havia vivido. Sua presença tinha cor, ritmo e personalidade. Ele entendia que a arte não nasce apenas nos espaços solenes, refrigerados e patrocinados por instituições. Muitas vezes, ela nasce numa mesa cercada de copos, guardanapos rabiscados, fumaça de conversa e gente que ainda acredita que uma canção pode modificar uma noite. Joubert transformava esses ambientes porque não separava o artista do homem. Não vestia a arte para sair. A arte já saía com ele.

Conhecer Joubert era também compreender seus silêncios. Eu sabia quando ele estava apenas observando, quando uma ideia estava sendo construída e quando alguma lembrança havia atravessado seu rosto antes de virar palavra. Sabia do entusiasmo que aparecia quando falava de um projeto, da delicadeza escondida por trás da irreverência e daquela inquietação de quem jamais aceitou viver dentro de uma moldura, embora tenha passado a vida criando tantas. Lamento profundamente não ter podido estar em seu sepultamento. Há ausências que pesam mais justamente porque não foram escolhidas. Eu gostaria de ter me despedido perto dos amigos, da família e daqueles que também aprenderam a reconhecer o som de sua chegada. Mas algumas despedidas acontecem dentro da gente, sem flores, sem discursos e sem plateia.

Sergipe amanheceu culturalmente mais pobre. Perdeu um grande pintor, um grande músico, um compositor, um escultor, um poeta da vida e um dos mais legítimos boêmios de sua história. Os intelectuais perderam um interlocutor inquieto. Os artistas perderam uma referência de liberdade. Os amigos perderam aquela presença que fazia a noite durar um pouco mais e acabar no Pastel Sol. E a própria noite de Aracaju perdeu uma de suas luzes mais originais. Joubert seguirá vivo nas telas, nas músicas, nas histórias e nas lembranças de quem teve o privilégio de caminhar ao seu lado. Eu guardarei as nossas noites, as conversas e os afetos como se guarda uma obra rara. Porque algumas pessoas morrem, mas continuam sentadas à mesa conosco. Joubert será sempre uma delas.

Texto reproduzido do site: faustoleite com br

Morre Wanderley Teixeira de Almeida, referência no transporte em Sergipe

Legenda da foto: Natural de Lagarto, ele foi um dos responsáveis pela expansão do transporte rodoviário no estado - (Crédito da foto: Arquivo Pessoal).

Publicação compartilhada do site INFONET, de 27 de julho de 2026

Morre Wanderley Teixeira de Almeida, referência no transporte em Sergipe

Aos 81 anos, empresário deixa legado na modernização do transporte de passageiros e marcou a história da mobilidade no estado

O empresário sergipano Wanderley Teixeira de Almeida morreu no último domingo, 26, aos 81 anos, no Hospital Sírio-Libanês, em Brasília. Ele estava em tratamento contra um câncer há cerca de um ano. Natural de Lagarto, Wanderley era um dos principais nomes do setor de transporte rodoviário de passageiros em Sergipe e deixa esposa, quatro filhos, 11 netos e dois irmãos.

Por mais de cinco décadas, a família Almeida contribuiu para o desenvolvimento da mobilidade urbana, intermunicipal e interestadual em Sergipe, consolidando um legado que marcou a história do transporte público no estado.

O velório e o sepultamento de Wanderley Teixeira de Almeida ocorrerão no Cemitério Colina da Saudade, em Aracaju. A família informou que a data e o horário das cerimônias de despedida serão divulgados posteriormente.

Trajetória

Filho de Josino José de Almeida, fundador da Empresa Nossa Senhora de Fátima, criada em 16 de janeiro de 1953, Wanderley deu continuidade ao legado da família e ajudou a transformar a empresa em uma das mais modernas do Nordeste.

A frota chegou a contar com mais de 200 veículos e a empresa passou a operar linhas urbanas em Aracaju, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão, além de rotas intermunicipais em Sergipe e interestaduais para Salvador (BA) e Rio de Janeiro (RJ). Ao longo de sua trajetória, a qualidade dos serviços prestados rendeu diversos prêmios e reconhecimentos.

A família Almeida, a partir da empresa fundada pelo pai Josino, ajudou a estruturar a mobilidade intermunicipal, interestadual e urbana de Aracaju e da sua região metropolitana por mais de cinco décadas.

Por Marina de Sena e Aisla Vasconcelos

*com informações da família

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet com br

Artista Plástico Joubert Moraes (1947 - 2026)



domingo, 26 de julho de 2026

Joubert e as cores da memória

Post compartilhado do Facebook/Pascoal Maynard, de 26 de julho de 2026

Joubert e as cores da memória
Por Pascoal Maynard

Há pessoas que partem, mas não vão embora. Permanecem nas ruas por onde caminharam, nas casas onde viveram, nas conversas que despertam sorrisos e, sobretudo, naquilo que criaram. Hoje, com a partida de Joubert, não consigo pensar apenas no artista consagrado. Minha memória insiste em reencontrar o menino e o jovem que fizeram parte da paisagem afetiva da minha infância.

Li, mais uma vez, o belo texto de Mário Britto, e algumas de suas palavras ganharam um significado ainda mais profundo. Ele escreve que Joubert nasceu "no seio de uma família de artistas". É verdade. Aquela casa parecia respirar arte. O pai, poeta e escritor; a mãe, cantora e bordadeira. Não era apenas uma família que apreciava a cultura; era uma família que fazia da beleza um modo de existir.

Nossa proximidade ia além da geografia. Eu morava na Praça Fausto Cardoso. Joubert, na Rua Maruim, entre as ruas Itabaiana e Pacatuba. Eram poucos passos de distância. Naquele centro de Aracaju, onde as ruas ainda tinham o ritmo das conversas nas calçadas e o tempo parecia caminhar mais devagar, as famílias se conheciam, os meninos cresciam juntos e as amizades eram construídas sem cerimônia, como se fizessem parte da própria paisagem.

Naqueles dias, ninguém imaginava que aquele rapaz de fala tranquila carregava dentro de si um universo inteiro de cores, formas e poesia. Mário Britto lembra que, ainda adolescente, Joubert "tinha o hábito de visitar galerias de arte, comparecia a todas as exposições e frequentava, assiduamente, os ateliês dos mestres J. Inácio e Florival Santos". Hoje percebo que aquele jovem já perseguia um destino que só ele conseguia enxergar com nitidez.

Depois veio Salvador, a Escola de Belas Artes, os encontros com outros artistas, as experiências com a abstração. A vida foi ampliando seus horizontes, mas nunca lhe arrancou as raízes. Joubert levava Sergipe consigo. Em cada tela, em cada escultura, em cada cenário que criou, havia sempre um pouco da terra que o viu nascer e da sensibilidade que floresceu nas ruas da velha Aracaju.

Mário Britto encontrou uma definição que dificilmente poderia ser mais feliz: "Joubert tem uma relação completa e visceral com a arte". Talvez porque, para ele, a arte nunca tenha sido apenas profissão. Era respiração. Era linguagem. Era uma forma de compreender o mundo. E quando Britto escreve que "toca violão com a mão direita, pinta com a esquerda e, com ambas, faz as esculturas", desenha, em poucas palavras, um homem inteiro, cuja criatividade parecia desconhecer limites.

Hoje suas obras estão espalhadas pelo Brasil e por tantos outros países. Permanecerão onde sempre estiveram: nas paredes, nos museus, nas instituições, nas praças e nas casas de tantos admiradores. Mas permanecerão, sobretudo, onde Mário Britto tão bem registrou: "na memória e no coração do povo sergipano".

Quanto a mim, guardo outra galeria. Não é feita de quadros. É feita de lembranças. As ruas do centro de Aracaju, os encontros casuais, as famílias vizinhas, o cotidiano simples de uma cidade que nos ensinou o valor da convivência. Quando penso em Joubert, vejo também aquele pedaço da cidade que moldou nossas vidas e que continua existindo dentro de nós, mesmo quando o tempo transforma tudo ao redor.

A morte tem o estranho poder de silenciar uma voz, mas nunca consegue apagar uma presença. Os artistas conhecem esse segredo. Eles sobrevivem naquilo que deixam para os outros. Joubert compreendeu isso sem precisar dizê-lo. Pintou sua permanência em telas, esculpiu-a na matéria e gravou-a na memória de todos que tiveram o privilégio de conviver com sua arte e com sua generosidade.

Hoje Sergipe perde um de seus maiores artistas. Eu me despeço também de um companheiro de paisagem, de um rosto familiar da minha infância e juventude, de alguém cuja trajetória me enche de orgulho por ter acompanhado, ainda que de perto e silenciosamente, os seus primeiros passos.

Costuma-se dizer que a morte encerra uma vida. Talvez. Mas nunca encerra uma obra construída com talento, sensibilidade e amor. A verdadeira arte é uma forma de eternidade.

Joubert encerra hoje sua travessia humana. Paradoxalmente, é também hoje que sua obra se torna ainda mais definitiva. Porque o artista parte, mas a arte permanece. E, enquanto houver um sergipano capaz de se emocionar diante de uma de suas telas, de uma de suas esculturas ou da lembrança de sua delicadeza, Joubert continuará entre nós.

Adeus, meu querido Joubert.

Texto e imagem reproduzidos de post do Facebook/Pascoal Maynard

Morre Joubert Moraes, um dos maiores nomes das artes plásticas de Sergipe

Legenda da foto: Referência nas artes visuais, Joubert deixa um legado reconhecido dentro e fora do estado - (Crédito da foto: Rodrygo Besteti)

Publicação compartilhada do site INFONET, de 26 julho de 2026 

Morre Joubert Moraes, um dos maiores nomes das artes plásticas de Sergipe

Referência das artes visuais em Sergipe, ele construiu uma trajetória marcada por exposições, esculturas e obras reconhecidas dentro e fora do estado

Morreu neste sábado, 25, o artista plástico Joubert Moraes, considerado um dos principais nomes da história da arte em Sergipe. Natural de Propriá, o artista construiu uma trajetória marcada pela pintura, escultura e música, tornando-se referência na produção cultural sergipana. Ele deixa esposa, uma filha e um neto.

O governador Fábio Mitidieri lamentou a morte de Joubert Moraes e destacou o legado deixado pelo artista. “Sua trajetória, marcada pela pintura, escultura e música, deixa um legado de enorme valor para Sergipe e para as futuras gerações”, afirmou. O governador também prestou solidariedade aos familiares e amigos, em especial à filha do artista, Jade Moraes, servidora da Fundação Aperipê.

O secretário de Estado da Cultura, Valadares Filho, também manifestou pesar. Segundo ele, Joubert Moraes teve uma produção artística que ultrapassou as fronteiras de Sergipe, com obras presentes em coleções públicas e privadas no Brasil e no exterior, influenciando gerações de artistas sergipanos.

Trajetória

Natural de Propriá, Joubert Moraes realizou sua primeira exposição em 1968, na Galeria de Arte Álvaro Santos, em Aracaju. Em 1976, pintou os afrescos da Igreja da Ascensão, em São Francisco do Conde (BA), e, ao longo da carreira, levou sua produção para diferentes regiões do país, com exposições na Igreja do Solar do Unhão, na Bahia, na Galeria Tina Zapolli, no Rio Grande do Sul, e participação em mostra coletiva no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo.

Em 2005, realizou sua primeira exposição dedicada exclusivamente às esculturas, no Hotel Parque dos Coqueiros. Já em 2021, inaugurou a escultura “Formas e Cores”, na Orla da Atalaia, e apresentou a exposição “Antes Arte do que Nunca”, no Centro Cultural de Aracaju. Em setembro de 2024, celebrou seis décadas de trajetória artística com a exposição inédita “Joubert – 60 anos de Arte”, fomentada pelo Programa Funarte Retomada 2023 – Artes Visuais, que reuniu telas e esculturas representando as diferentes fases de sua carreira.

Ao longo de sua trajetória, Joubert Moraes recebeu diversas homenagens, entre elas a Comenda Cultural Tobias Barreto e o Prêmio Mestre da Cultura Popular, em reconhecimento à sua contribuição para a arte e a cultura sergipanas.

Por Verlane Estácio

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet com br

Exposição > 60 anos de carreira de Joubert Moraes

“Eu não desenho, eu plasmo”, afirma Joubert Moraes. (Foto: Divulgação)

Publicação compartilhada do site MANGUE JORNALISMO, de 6 de setembro de 2024

Um mês inteiro para ver as obras que representam os 60 anos de carreira de Joubert Moraes

Por Valter Davi (Repórter)

Com obras que sempre destacaram o mistério, desde telas até esculturas, Joubert Moraes criou um legado artístico em Sergipe e no Brasil. Para comemorar os seus 60 anos de arte, o artista irá expor 20 obras que marcaram a sua carreira. Durante as seis décadas de atividade, Joubert passou por diferentes estilos artísticos, mas manteve a sua característica de desenhar novos jeitos de enxergar e sentir o mundo.

Joubert fez sua primeira exposição em 1968, na Galeria de Arte Álvaro Santos, em Aracaju, e desde então vem espalhando as suas obras em todo o Brasil. Hoje ele tem 76 anos, e foi na infância que o artista de Propriá começou a traçar seus primeiros desenhos.

“As minhas obras sempre foram carregadas de mistério, nos anos 70 pintava com os dedos, desta época tenho telas maravilhosas. Depois vieram os figurativos e abstrações, a fase do Royal Palace que pintei muitas telas vermelhas, as africanidades que deram leveza e movimento, não falar de movimento sem falar dos meus coqueirais que têm a brisa da atalaia. O ‘Cristo Ainda Apaixona’ é o meu clássico que possui reprodução e corre o mundo”, conta Joubert.

Obra ‘O Cristo Ainda Apaixona’, de Joubert Moraes.

A exposição “Joubert – 60 anos de arte” vem para celebrar a carreira do artista, mas o que deixa Jouber mais orgulhoso em abrir a vernissage é tornar as suas obras acessíveis para todos. “Celebrar 60 anos de arte é um privilégio. Reunir obras importantes e torná-las acessíveis ao público é o melhor de tudo. Além das minhas telas e esculturas, quem for ao museu ainda vai poder conferir o meu dvd do show que fiz no Atheneu, em 2021”, afirmou o artista.

Por passar por diversas formas de criar arte, Joubert também se aventurou na música. Compositor, cantor e instrumentista, acompanhou o tempo e percebeu que na contemporaneidade o que mais atrai no público jovem é a música, como conta a sua filha, Jade Moraes. “Joubert faz parte de uma geração que fez história nas artes de Sergipe e deixa um legado imenso na pintura, na escultura e hoje o que mais o conecta com as novas gerações é a música, muitos artistas jovens tocam e cantam suas composições”, explicou Jade, que, além de filha, é também curadora da exposição dos 60 anos de arte de Joubert.

“Meu pai é um dos últimos artistas da sua geração que ainda está vivo, manter sua arte pujante é salvaguardar nosso fazer artístico”, destacou a sua filha Jade.

A abertura da exposição “Joubert – 60 anos de arte” acontecerá no dia 12 de setembro, no Museu da Gente Sergipana, às 19 horas. As obras ficarão abertas para visitação do dia 13 de setembro ao dia 12 de outubro, de terça à domingo, das 10 horas às 15 horas.

A exposição faz parte do Programa Funarte Retomada 2023, que tem o objetivo de fomentar ações relacionadas a atividades artísticas, incluindo diversas manifestações, que englobam desde as técnicas tradicionais como a pintura, desenho e escultura, passando pela arte mural e, também, pelas manifestações contemporâneas e suas possibilidades de interatividade digital.

Edição: Aline Braga

Texto e imagens reproduzidos do site: manguejornalismo org

Morre Joubert Moraes (1947 - 2026)

Post compartilhado do Facebook/Sérgio Borges

Joubert, carne e osso - mais um que se vai!

Legenda da foto: Jouberto Moraes: sobre tela ou dedilhando um violão, causou e deixou uma marca forte na epiderme de Sergipe

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 26 de Julho de 2026

Joubert, carne e osso - mais um que se vai!
Por Rian Santos *

Quando Ilma Fontes  partiu desta para melhor, o jornalista Antonio Passos abriu o próprio baú de memórias e sacou do escuro a mais pura verdade: Lu Spinelli, Amaral Cavalcante, Ilma e Joubert sustentaram sobre os ombros magros, sozinhos, como quatro pilares, uma tal contracultura Serigy.

Faz muito tempo. De tanta beleza e rebeldia, restam apenas versos, traços, histórias, fotografias... Passos acertou na mira!

Tudo mudou. A aldeia arenosa e à beira mar e rio, aliás, mudou muito. Encaretou e ficou mais reaça do que nunca. Até um dia desses, Joubert era o único dos quatro entre nós, carne e osso, ainda lúcido. 

Mas ele acaba de silenciar-se por definitivo. Sergipe perde um naco a mais da sua essência já meio avariada.

Penso nos quatro, mais Fernando Sávio, mais o poeta Mário Jorge Vieira, cuja existência durou a eternidade de um clarão, certo de reafirmar comigo mesmo um compromisso irrevogável com a vida. 

Aos quarenta e seis - tenho muito lembrado nesses dias a idade e os cabelos idos -, carrego o peso de alguma bagagem, o fardo de algumas perdas irremediáveis, tristezas e decepções. 

Vou à praia com meus filhos, no entanto, satisfeito de sentir tanto calor na tarde luminosa da Atalaia, quando ouço um refrão sergipaníssimo nos alto falantes do bar. E fico ainda mais feliz.

Apesar de acabar de silenciar-se materialmente, Joubert é vivo. Muito vivo. Os 60 anos de trabalho celebrados em uma exposição recente evocaram os seus feitos e feitios, a brevidade de tudo, como fizeram os nossos maiores poetas, os melhores dias do lugar Aracaju.

Esperasse um pouco mais, e no dia 13 de dezembro - o mesmo de Luiz Gonzaga ou de Araripe Coutinho - e ele faria 80 anos. Até as 17h seu corpo está sendo velado na Capela A do Cemitério Colina da Saudade e a seguir será sepultado ali mesmo. Que a terra lhe seja leve!

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* Articulista Rian Santos - É jornalista profissional e escreve às quartas. A opinião do articulista não reflete necessariamente o posicionamento do Portal JLPolítica & Negócio.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br

domingo, 21 de junho de 2026

'A violência política em Itabaiana', por Antônio Samarone

Euclides Paes Mendonça é o 2º à direita, ladeado por 
Lourival Baptista e Jânio Quadros

Euclides Paes Mendonça e Manoel Teles, os principais 
“coronéis” da política de Itabaiana

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 19 de junho de 2026

A violência política em Itabaiana
Por Antônio Samarone *

Na década de 1960, Itabaiana foi marcada pela lei do mais forte. Quem comandava a política, tudo podia, impunemente. O auge da violência, durou 4 anos.

Nas eleições de 1962, Euclides Paes Mendonça elegeu-se Deputado Federal, o filho, Antonio, Deputado Estadual; e um correligionário, Jose Sizino de Almeida, Prefeito.

Fez barba e cabelo, mandava em tudo, nas coisas e nas gentes. Uma nota: essa violência em Itabaiana, era aliada do crescimento econômico local, criando os espaços urbanos exigidos.

Como nem tudo é perfeito, os adversários (PSD) elegeram o Governador – Seixas Dórea. A contradição era evidente. Euclides perdeu o mando do Fisco (o contrabando) e da Polícia (a violência).

Euclides continuou com polícia própria. Uma milícia (a Guarda Municipal, “armada até os dentes”).

Em 20 de abril de 1963, um sábado agitado, na feira de Itabaiana. Euclides, pessoalmente, resolver relocar a banca de rede de Seu Antonio de Genoveva. “É um desaforo, esse velho pessedista, ficar nesse ponto privilegiado”. A banca do velho, ficava defronte ao armazém de Manoel Teles, o chefe da oposição municipal.

Antonio Joaquim de Santana, Seu Antonio das redes, era um velhinho baixo, cabelos loiros e olhos azuis. Gente de fibra. Esclarecido. Natural das Candeias. Um pessedista raiz, conhecido de Leite Neto, que veio a Itabaiana, para proteger o seu amigo, depois do conflito. Euclides pensava o quê?

A família de Seu Antonio era do engenho Matebe, vizinho a Riachuelo dos Leites. Por isso, ele era pessedista.

O chefe da UDN era acostumado a prender e judiar os adversários. Muitas famílias fugiram, outras sofreram. O vereador Vital da Lapa teve o seu rosto queimado com um charuto, pessoalmente por Euclides.

Nesse tempo, era costume, os presos políticos serem obrigados a encher a caixa d’água da cadeia, carregando água do Tanque do Povo. Entre apanhar, ser esbofeteado, e a humilhação da lata furada, a segunda era uma opção menos dolorosa.

Seu Antonio, era um velho de fibra. Não aceitou a transferência. Cruzou a rua, e foi prestar queixa a Manoel Teles. A coisa ficou feia, arma em punho, xingamentos e palavrões. O que se sabe é que o velhinho ficou.

Seu Antonio de Genoveva era irmão de Erundino das redes, que formou uma grande família, em Aracaju, na Rua Santa Rosa (Padaria Garça). Erundino era avô de Americo Alves, o presidente da Federação Sergipana de Futebol. O outro irmão de Seu Antonio, era Ascendino, meu avô paterno, que eu não conheci.

Antonio Joaquim de Santana, Antonio das redes, foi casado com Zulmira Francisca Teles. Enviuvou, e casou-se dom Dona Ernestina. Antonio das redes era pai de Oliveira, José das redes e Rosália.

O desembargador Vladimir Carvalho, da loja do pai, assistiu pessoalmente o arranca rabo entre os dois coronéis, por conta da resistência de Seu Antonio. “Se Euclides, aquela altura, tivesse atirado, ou determinado que alguém da Guarda o fizesse, Manoel Teles, que estava desarmado, era alvo fácil”

 – Vladimir.

No dia seguinte, domingo, 21 de abril de 1963, a Guarda Municipal, comandada por Sólon e Daniel, e a polícia Militar, comandada pelo Major Teles entraram em combate aberto. A praça da Igreja virou campo de guerra. O Major tombou. Não se mata um oficial impunemente.

Em 08 de agosto de 1963, durante uma passeata estudantil, Euclides (deputado Federal) e o filho (depurado estadual), foram fuzilados no meio da rua.

Em 31 de agosto de 1967, Manoel Teles, o chefe da oposição, foi assassinado, por vingança, na porta de casa, por um pistoleiro de aluguel. Uma vingança simbólica.

A próspera Itabaiana abateu-se, com a violência política.

A ditadura de 1964, acabou com os partidos políticos, e jogou mesmo os mais odientos adversários locais, num mesmo saco (ARENA). Virou tudo ARENA. PSD e UDN. A resistência criou o MDB.

Em Itabaiana, o MDB de Zé Carlos Teixeira foi entregue a professores esclarecidos (Guga), estudantes universitários e meia dúzia de alfaiates. Entre esses, Seu Filadelfo Araújo, que, por circunstâncias, virou Prefeito.

Mesmo com todos na ARENA, a política em Itabaiana não foi pacificada. A violência recuou muito pouco, mas recuou. Foi recuando lentamente.

A ditadura limitou a violência política local, tirou dos chefes os plenos poderes sobre a justiça, a polícia e o fisco. Surgiu uma nova forma de violência em Itabaiana, essa, adversária da economia.

Uma política voltada para dentro dos grupos, para os correligionários.

O novo acirramento político não fazia concessões aos adversários. Qualquer iniciativa empresarial era antecedida com a pergunta: eles votam em quem? O desenvolvimento de Itabaiana foi sufocado pela politicagem. Mesmo iniciativas boas para o município, partindo dos adversários, eram ignoradas.

Foi preciso esperar o século XXI, com a consolidação da liderança Valmir de Francisquinho, voltada para a lógica da conciliação, do bem público e do respeito aos adversários, para a economia itabaianense mostrar a sua cara. A violência política ficou na história.

Com o fim da violência política como regra, com a redução das tensões, dos conflitos e dos ódios políticos, a cidade desabrochou. Os empreendedores tiveram liberdade. A cidade encontrou o seu caminho.

A paixão política em Itabaiana, possui longas raízes. O PSD e a UDN foram extintos em 1965. O AI nº 2, extinguiu 13 legendas e criou o bipartidarismo. O meu pai faleceu no início de fevereiro de 2011, mas continuava pessedista (PSD), extinto há 46 anos.

Papai era analfabeto. Antigamente, antes das eleições, onde analfabeto não podia votar, papai treinava, desenhando o nome, para votar em que ele acreditava ser o herdeiro do PSD, de Leite Neto. Trenei papai, com o punho duro, sem habilidades com o lápis, para ele votar no PSD, de Manoel Teles.

Era uma vingança, ao que fizeram com o seu Tio Antonio. Meu pai tinha medos, não comentava política publicamente. Calado, votava em Zé de Brió. Cochichava pelos cantos, com os amigos. Papai também vendia redes.

Nos últimos 14 anos, Itabaiana passou por uma revolução cultural, com a pacificação da violência política.
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* É médico sanitarista e está secretário da Cultura de Itabaiana.

Texto e imagens reproduzidos do site: www destaquenoticias com br

sábado, 20 de junho de 2026

Morre o fotógrafo Osmar Barreto Matos (1947 - 2026)


Post compartilhado do Perfil do Prof. Dr. Sousa/Instagram, de 20 de junho de 2026

Adeus, amigo Osmar!

O mundo da fotografia está órfão de um de seus mais destacados representantes em Sergipe. Suas fotografias eram verdadeiras obras de arte, capazes de eternizar momentos e emocionar gerações.

Ficam a saudade, o legado e a gratidão por tudo o que você deixou através de sua arte e de sua amizade.

Descanse em paz, amigo!

À família e aos amigos, minhas mais sinceras condolências.

Post compartilhado do perfil do Prof. Dr. Sousa/Instagram

quarta-feira, 10 de junho de 2026

quinta-feira, 4 de junho de 2026

'Nélson de Araújo, 100 anos', por Marcos Cardoso

Legenda da foto: Nélson de Araujo (4/9/1926 – 7/4/1993)

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 31 de maio de 2026

Nélson de Araújo, 100 anos
Por Marcos Cardoso*

Dia 7 de abril passado fez 33 anos da morte de um quase ilustre desconhecido sergipano, Nélson de Araújo, homem que dedicou toda sua vida ao ensino, à pesquisa, ao jornalismo e à literatura, e foi dos mais prolíficos e festejados escritores sergipanos modernos. Jornalista, fotógrafo, tradutor, editor, ensaísta, cronista, romancista, folclorista, teatrólogo, incansável pesquisador da cultura popular e professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, Nélson Correia de Araújo nasceu em Capela, em 4 de setembro de 1926, há quase 100 anos. Foi o último filho do segundo casamento do major Gothardo Correia de Araujo, com Luíza Soares dos Santos.

Ainda menino mudou-se para Aracaju, onde morou com o irmão, o bancário Augusto, e a cunhada, a professora Normélia, na Avenida Pedro Calazans. Estudou no Colégio Salesiano e, aos 23 anos, depois de ser fichado como comunista pela Secretaria de Segurança Pública de Sergipe, migrou para Salvador, onde se tornou um prolífico fazedor de cultura, mas morreu sem conhecer a fama de mestre da ficção, como o chamou Jorge Amado num comentário sobre o livro “1591 – A Santa Inquisição na Bahia e outras estórias”, lançado pela Editora Nova Fronteira em 1991.

Avesso ao marketing, Nélson de Araújo trilhou o caminho oposto ao que é percorrido pelos fabricadores de best-sellers: foi festejado pela crítica, mas não atingiu o grande público. Isso também contribuiu para o desconhecimento que os conterrâneos têm da sua obra. Mas não só isso. Homem de sete fôlegos na produção literária, ele foi uma vítima do provincianismo. Foi embora de Aracaju para fugir do espírito atrasado daqui – coisa que sergipano não perdoa.

Na Bahia, logo mostrou o gosto pela literatura. Sua versatilidade ficou comprovada em 1956, quando começou a trabalhar na Livraria Progresso Editora, onde iniciou a experiência editorial. Segundo contou na abertura do Primeiro Encontro de Editoração da Bahia, em 1990, ali ele foi “um factótum de revisor de provas, inicialmente, a revisor de originais”. Junto com Milton Santos, criou em 1960 a Coleção Tule, seção editorial da Imprensa Oficial da Bahia para dar apoio ao escritor baiano. Nesse mesmo ano, o autodidata capelense foi convidado para lecionar a disciplina História do Teatro na Universidade Federal da Bahia. Mais tarde, foi pioneiro no ensino de Expressões Dramáticas do Folclore.

Foi diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais, da UFBA, onde fundou a Revista Afro-Ásia. Apaixonado pelo Recôncavo Baiano, publicou muito e de tudo, inclusive textos de ficção como as novelas “O Império do Divino visto pelos olhos de Pisa-Mansinho” e “Vida, paixão e morte republicana de Don Ramón Fernández y Fernández”, histórias que junto com “Aventuras de um caçador de arcas em terras, mar e sonho”, foram publicadas em 1987 pela Editora Ianamá, sob o título de “Três novelas do povo baiano”.

“O Império do Divino…” é uma novela contaminada pelo fato folclórico, que exprime “a maneira de ser mais profunda de um povo”, como dizia o escritor, sintetizando uma de suas paixões. A propósito, disse Jorge Amado: “Personagem magnífico, Pisa-Mansinho veio para ficar definitivo na galeria das melhores criações da nossa literatura nos últimos tempos. (…) Aqui estamos diante de um mestre da ficção brasileira. (…) Pequeno e delicioso romance.” O bibliófilo Plínio Doyle acrescentou: “Novela esplêndida/curiosa/agradável à leitura e ao suspense. (…) Obra de fino lavor”.

Na novela “1591, a Santa Inquisição na Bahia e outras histórias”, Nélson de Araújo conta como foi a temporada, em Salvador, de “um emissário da Santa Sé, investido numa missão tão importante, qual a de escoimar a metade do mapa-múndi de pecados, heresias e crimes judaicos”. Em “Aventuras de um caçador de arcas em terra, mar e sonho”, ele faz uma literatura alegórica que mistura o realismo episódico com o realismo mágico. Já em “Vida paixão e morte…”, bela história dos galegos espanhóis na Bahia, predomina a linguagem erudita.

Quanto a “1591, a Santa Inquisição na Bahia e outras histórias”, o amável Jorge Amado reclamava o relativo anonimato de Nélson à falta “de uma edição decente, nacional, capaz de alcançar o público e se impor à crítica do Sul colonizador, em geral grupista e chovinista, os críticos cariocas e paulistas”. Mas a jornalista e escritora Marilene Felinto, então articulista da Folha de São Paulo, publicou (25/1/1992): “É até estranho ler, nos dias de hoje, um livro bem escrito como este — de português bem escrito, tão naturalmente que só poderia ser nordestinamente bem escrito. Afinal, o Nordeste sempre falou e escreveu o melhor português do Brasil”.

O romancista Paulo Amado já havia observado no caderno Ideias/Livros, do Jornal do Brasil (9/11/1991): “Nélson de Araújo, na palavra sempre definitiva de Jorge Amado, quando o assunto é ficção e narrativa, é dono de ‘escrita plena de privilegiado senso de humor’, e é capaz de restituir o prazer de ler, ‘comprometido pelo vasto clã de literatos, tão chatos quanto pretensiosos’. Afirmação que procede, à vista do livro, que não só confirma a maturidade e o talento verbal do autor, mas também a evidência de uma permanência na prosa brasileira: a densidade barroca”.

Por essa versatilidade de dar a cada narrativa um tom apropriado, adequando forma e conteúdo, pelo seu vocabulário riquíssimo e balizado por pesquisas e observações pessoais, Nélson de Araújo foi saudado pela editora carioca como um dos membros da “tríade dos grandes autores baianos de ficção no momento”, junto com Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro.

Só que ele era sergipano e nunca negou suas origens, como bem lembra Jorge Amado, que não se arrisca a classificá-lo de romancista baiano. Outra diferença em relação aos dois baianos está na quantidade de leitores que consomem seus livros. Nélson de Araújo, conforme costumava dizer, era o autor “menos vendido do Brasil”.

Arte de fazer bonequinhos andar na mente

Nélson de Araújo julgava que o drama era secundário na sua experiência literária. Ainda assim produziu pelo menos um texto que lhe agradava, “A Companhia das Índias”, cuja primeira publicação, em 1959, pela editora Progresso, foi vista “com olhos de excessiva generosidade pelo meu bom amigo Glauber Rocha”, segundo observava (a história começou a ser escrita em Aracaju em 1956). Efetivamente, o texto inspirou Glauber e disso deixou o cineasta documento escrito e a confirmação em “Terra em Transe”.

“A Companhia das Índias” foi encenada algumas vezes, inclusive sob a direção do cineasta baiano Orlando Senna, tendo como assistente de direção Deolindo Checcucci, no Teatro Castro Alves em 1998. Em 2024, aconteceu uma leitura do texto no Teatro Vila Velha, com atuação de Ítala Nandi, dentre outros atores.

Ele trabalhou em jornais e iniciou-se na redação de A Tarde como tradutor de telegramas. Nélson de Araújo também adaptou e traduziu grande número de textos para o teatro. Dentre as traduções, gostava de Macbeth, de Shakepeare. Quatro de suas melhores criações para o teatro foram reunidas num opúsculo editado pela Empresa Gráfica da Bahia em 1990: além de “A Companhia das Índias”, o ato único “Joana Angélica”, a adaptação de um conto dele próprio, “Um homem maduro para a morte”, e a história de “A guerra de Magali em São Jorge dos Ilhéus”, fundamentada num fato real ocorrido em 1907, quando nove homens, em uniformes do exército norte-americano, tentaram ocupar à mão armada a cidade de Ilhéus.

“Pequenos Mundos – Um panorama da cultura popular da Bahia”, Tomo I a III, é obra de referência definitiva sobre manifestações dramáticas da cultura popular e aponta o divórcio entre o moderno teatro do Brasil e as raízes populares. Mas a obra de maior fôlego e paciência de Nélson de Araújo é a rigorosa “História do Teatro” (1ª edição: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978; 2ª edição: Empresa Gráfica da Bahia, 1980), biografia básica em todas as universidades brasileiras.

Embora preferisse a ficção, Nélson de Araújo considerava romance/novela/conto e drama uma só coisa. “A essência é a mesma. Todos são subgêneros de um gênero maior, que é a arte de elaborar o episódio. Noutros termos: a arte de fazer bonequinhos andar na mente humana, seja através do desenho nos livros, no caso do romance, novela ou conto, seja através do desenho ao vivo de atores sobre o palco, no caso do teatro”.

Nélson de Araújo morreu pobre, morando numa rua muito íngreme, a Ladeira do Pepino, com vista para o Dique do Tororó, no dia 7 de abril de 1993. O corpo do mestre foi velado no palco da Escola de Teatro da UFBA, cercado dos muitos colegas, amigos e familiares baianos e sergipanos, dos cinco filhos e das três ex-mulheres. Dentre outras homenagens, em 1982 recebeu o Troféu Martim Gonçalves como prêmio pelo conjunto de suas obras sobre teatro. Em 1985, recebeu o título de Cidadão da Cidade do Salvador, concedido pela Câmara Municipal. Como última homenagem, a Biblioteca da Escola de Teatro ostenta o seu nome.

Bibliografia de Nélson  de Araújo

1 – “Um acidente na estrada e outras histórias”, Livraria Progresso Editora, 1957.

2 – “A Companhia das Índias”, Livraria Progresso Editora, 1959.

3 – “Panorama do conto baiano” (com Vasconcelos Maia), Livraria Progresso Editora, 1959.

4 – “Rosarosae, rosaerosa”, selo editorial O Vice-Rey, anos 1970.

5 – “Auto do Tempo e da Fé”, selo editorial O Vice-Rey, anos 1970.

6 – “Uma Casa em Seu Nome se Ergueu”, selo editorial O Vice-Rey, nas comemorações do tricentenário da Arquidiocese da Bahia, anos 1970.

7 – “Alguns Aspectos do Teatro no Brasil nos séculos XVIII e XIX”, Centro Editorial e Didático da UFBA, 1977.

8 – “História do Teatro”, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978.

9 – “Duas Formas de Teatro Popular do Recôncavo Baiano”, Centro Editorial e Didático da UFBA, 1979.

10 – “O Baile Pastoril na Bahia”, Centro Editorial e Didático da UFBA, 1979.

11 – “História do Teatro” (2ª edição revista, ampliada e atualizada até 1980), Empresa Gráfica da Bahia, 1980.

12 – “Entre Melpômene e Clio” (artigos e ensaios), Edições O Vice-Rey, 1982.

13 – “O Teatro do Pobre – Notas de Cultura Popular” (pesquisa-ensaio), Edições O Vice-Rey, 1982.

14 – “Três Novelas do Povo Baiano” (reunindo três textos lançados separadamente pela Edições O Vice-Rey: “O Império do Divino visto pelos olhos de Pisa-Mansinho”; “Vida, paixão e morte republicana de Don Ramón Fernández y Fernández” e “Aventuras de um caçador de arcas em terras, mar e sonho”), Editora Ianamá, 1987.

15 – “Pequenos Mundos – Um panorama da cultura popular da Bahia”, UFBA/Casa de Jorge Amado, três tomos: 1986, 1988 e 1996 (esse último, obra póstuma).

16 – “Folclore e Política”, UFBA/Ianamá, 1988.

17 – “Quatro textos para encenação”, Empresa Gráfica da Bahia, 1990.

18 – “A história de duas famílias”, Edições O Vice-Rey/Dismel, 1990.

19 – “A Santa Inquisição na Bahia e Outras Histórias” (reunião de quatro novelas do Recôncavo e de Salvador), Editora Nova Fronteira, 1991.

20 – “Oliveira dos Campinhos, passado e presente de um arraial do Recôncavo”, Editora UFBA, 1992.

21 – “O Amor Amargo de Belira e Roque”, Editora UFBA, 1992.

22 – “Editoração, ato de amor ao livro”, palestra de Nélson  de Araújo no I Encontro de Editoração da Bahia, em 1990, que integra o projeto Conversa de Editor, do Instituto Baiano do Livro, 1997.

23 – “Os Sinos do Pilar” (novela), Editora UFBA, 1999.

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(Palestra proferida no auditório do Colégio Imaculada Conceição durante a Roda de Conversa “Semeadores da Cultura”, promovida pela Academia Capelense de Letras, em 29 de maio de 2026. No mesmo evento, o juiz de direito Anselmo Oliveira falou sobre os 110 anos de Manoel Cabral Machado, “primo” de Nélson de Araújo.)

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*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail com

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Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias com br

terça-feira, 26 de maio de 2026

O Anjo Claro que iluminou Clarinha pela vida inteira

Foto compartilhada do Facebook/Clara Angélica Porto e
 postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo

Artigo compartilhado do site do JORNAL DO DIA SE., de 13 de maio de 2026

O Anjo Claro que iluminou Clarinha pela vida inteira
Por Luciano Correia*

Torquato Neto tinha seu anjo torto, aquele, muito louco, que não era um anjo barroco, era um anjo muito louco, torto mesmo, com asas de avião. Tivemos também os anjos maus, como o de uma novela de sucesso na Globo, Anjo Mau, em duas versões – a primeira delas a que consagrou a atriz Suzana Vieira. Anjo Claro foi o título de um certo show no começo dos anos 80, no Teatro Atheneu Sergipense, exibindo as canções, a voz e a performance de uma moça que era mais que cantora, jornalista, atriz, cronista.

Foi assim que conheci Clara Angélica Porto, minha querida amiga Clarinha, de tantos encontros e conversas que já vararam a madrugada, até que os primeiros raios de sol apontassem no horizonte. Clara era assim: envolvente, dona de opiniões firmes, seguras, mas maleável, capaz de contornar os argumentos do seu interlocutor com uma doçura que, no fim, fazia dela uma vitoriosa nos seus argumentos. Cantava bem, num Inglês de quem casou com um estadunidense e lá viveu em diferentes períodos, com o melhor repertório da música do mundo, incluindo jazz e blues.

Mas comigo nem sempre foi assim. Começamos essa relação de amigos, que depois só se fortaleceu nas décadas seguintes, com um pequeno perrengue. Pequeno ou grande, a depender da pele de qual sujeito nos dois lados da briga. Era eu ainda um imberbe e presunçoso estudante de Jornalismo da UFBA na Bahia, mas já fazendo parte daquela tempestade jornalística que incendiou a imprensa sergipana por muitos anos, a Folha da Praia, quando, com minha mania de comprar as brigas dos outros, acabei “comendo uma corda” do editor do semanário, o poeta Amaral Cavalcante.

Amaral era na época o presidente da então Fundesc, a Fundação Estadual de Cultura, órgão que executava a política cultural do Estado em paralelo com a Secretaria Estadual de Cultura. Para essa pasta, o então governador Antônio Carlos Valadares convidara o sergipano Joel Silveira.

Ele mesmo, A Víbora, considerado maior repórter da imprensa brasileira, voltando a Sergipe depois de décadas de sucesso no Sudeste, para uma função pública que o fastiava, o que era totalmente previsível, pelo perfil e personalidade do cáustico Joel.

Joel disse anos depois, já de retorno à sua Copacabana, que em Sergipe só tinha uma pessoa com quem conversar. Era o arcebispo Dom Luciano Cabral Duarte e o assunto das conversas era música clássica e literatura.

Clara Angélica, artista e jornalista, trabalhando com Joel, logo tornou-se mais que uma assessora, uma musa para aquele boêmio romântico admirador da música e das mulheres. Pela diferença de idade, nutria por ela um carinho paternal, cercando-a de mimos e elogios.

Amaral, talvez movido por algum ciúme típico do ambiente das repartições públicas, meteu-se lá em alguma disputa ou divergência com Clarinha. Nem lembro mais o motivo, possivelmente um desses insignificantes assuntos tão presentes na modorrenta vida da burocracia pública.

Ao ouvir na Redação da Folha as queixas do poeta editor, esse intempestivo e imprudente colaborador mandou ver uma daquelas corrosivas notas irônicas que não cumpria nenhuma função jornalística, senão a de dar combustível à intriga.

Joel Silveira, sendo Joel, não demorou. Logo em seguida me deparo com uma bomba-bilhete deste intrépido lagartense, em papel timbrado com a poderosa e temida grife do seu nome. A mensagem era curta e grossa: “Você ainda vai engolir esta merda”. Não sei se o destinatário da missiva era eu ou se seria Amaral Cavalcante. Nunca soube, e nunca mais tratamos do assunto.

Joel e Amaral fizeram logo as pazes e, pelo visto, uma das cláusulas do armistício era me incluir da próxima farra, ocasião em que, posso dizer sem falsa modéstia, me transformei em amigo do grande jornalista.

Meses depois eu assumi a Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná e a Folha da Praia organizou um concorrido bota-fora de 48 horas na lendária casa de Amaral na rua Luiz Chagas, na Atalaia, onde aportou gente graúda da política, prefeito e vice-governador da época, colegas do jornalismo, companheiros da militância de esquerda, incluindo o jovem Marcelo Déda, bandeira na mão, discursos e abraços.

Joel Silveira apareceu de surpresa, com um presente delicado, uma fita K-7 com a música de Mozart e uma garrafa de uísque a tiracolo. Acho que não confiava muito no uísque servido na casa do poeta. Desconfio. Clarinha estava lá com sua sempiterna ternura, linda e fulgurante na cabeleira dourada – ela, a razão daquele não-acontecimento que produziu um encontro formidável meu com o monstro sagrado do jornalismo brasileiro. E sempre ríamos disso tudo.

Já numa quadra mais recente, voltou para Nova Iorque, para ficar perto do casal de filhos e netos que vivem nos Estados Unidos desde que os pais se separaram. Eu curtia muito seus textos longos, ricos em detalhes, com análise da política internacional e da vida nos EUA e no Brasil.

Cheguei quase mesmo a ensaiar uma visita para rever Nova Iorque pela mão daquela guia privilegiada, de muitas histórias, como no dia em que seu filho bebê, Sasha, fez xixi no colo do grande poeta beatnik Allen Ginsberg num voo de Boston a Nova Iorque.

Não houve tempo. Logo ela voltou para sua querida Aracaju, onde nos encontramos algumas vezes, prometendo novos encontros na esperança de que teríamos todo tempo do mundo para novas e outras conversas.

Mas, repetindo o velho clichê que todos falam nessa hora, não sabíamos da brevidade – por ora, a dela. Ainda alcancei-a no hospital, por telefone, cerca de um mês atrás, novamente prometendo visitas que minha rotina insana e algum descaso não permitiram que ocorresse. E assim perdi mais uma chance de ver Clarinha, certamente com uma tristeza amarga e profundamente existencial me perguntando: por que a vida é tão banal?

Com sua partida, talvez o mesmo poeta Allen Ginsberg, com seus versos do poema “Canção”, respondesse à pergunta dela: “O peso do mundo/ é o amor.// Eu sempre quis/ voltar/ ao corpo/ em que nasci”. Pois que volte bem, minha querida amiga Clarinha.

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* Luciano Correia, jornalista, é professor da UFS

Texto reproduzido do site: jornaldodiase com br

segunda-feira, 25 de maio de 2026

'Clara Angélica e a luz da memória', por Maria Luiza Falcão Silva

Artigo compartilhado do site BRASIL247, de 11 de maio de 2026

Clara Angélica e a luz da memória
Por Maria Luiza Falcão Silva *

Sua morte deixa um vazio imenso em Sergipe e entre os inúmeros amigos e amigas. Mas deixa também algo mais raro: a permanência de uma luz

A morte de Clara Angélica Porto Caskey, ocorrida domingo, 10 de maio, em Aracaju, encerra uma trajetória singular da vida cultural sergipana. Jornalista, atriz, cantora, cronista, intérprete, pianista, ativista cultural — Clarinha pertenceu a uma geração que ajudou a construir pontes entre arte, comunicação e vida pública num Sergipe ainda marcado pelos limites da província e pelas inquietações de um mundo em transformação.

Mas talvez defini-la apenas por suas atividades seja insuficiente. Há pessoas que deixam currículos. Outras deixam atmosferas. Clara Angélica parecia pertencer a essa segunda categoria rara: a daqueles cuja presença modifica o ambiente ao redor, ilumina conversas, aproxima pessoas e amplia os horizontes culturais de uma cidade.

As homenagens surgidas desde sua partida revelam justamente isso. Em quase todas elas aparece a mesma imagem: luz, alegria, movimento, flores, jardins, música, inteligência e curiosidade diante da vida.

Luiz Eduardo Costa recordou a menina “precoce, curiosa, até abelhuda”, interferindo nas conversas dos adultos e já demonstrando inconformismo diante da “mesmice provinciana” da antiga Aracaju. O pai a repreendia com o cenho fechado, logo desfeito em orgulho silencioso. Havia ali algo que transcendia a irreverência infantil. Era uma inquietação intelectual precoce, uma recusa instintiva aos limites estreitos impostos às mulheres e à própria vida cultural sergipana daquele período.

Muito cedo, Clara Angélica já transitava pelo rádio, pelo teatro e pela música. Cantava, fazia radionovelas na Rádio Cultura, estudava piano e escrevia crônicas. Ainda adolescente, surgia no jornalismo sergipano com um brilho incomum. A professora Jurandyr, sua mãe, levou-a à Escola de Remington para aprender datilografia — habilidade indispensável para o mundo burocrático da época. Mas logo ficou claro que a jovem ultrapassaria rapidamente os limites técnicos das margens e do teclado. O que surgia ali era uma escritora em formação.

Não por acaso, Joel Silveira teria dito mais tarde que Clara Angélica “estava perdendo tempo na pequenez de Sergipe”. A frase talvez revelasse menos desprezo pela província do que a percepção de um espírito naturalmente cosmopolita.

Esse cosmopolitismo se consolidaria quando Clara Angélica se casou com o professor norte-americano Caskey e foi viver em Nova York. Ali mergulhou intensamente no ambiente cultural e político da cidade, convivendo com a efervescência intelectual, os movimentos de contestação e as transformações comportamentais de uma época marcada pela contracultura e pelos debates sobre liberdade, direitos civis e crítica ao poder. Formou-se ali uma consciência crítica, libertária e profundamente humana, ampliada também pelas viagens e pelo contato com diferentes culturas.

Em Nova York nasceram seus filhos, Sasha e Vanessa, que seguiriam caminhos ligados ao conhecimento, à ciência e à compreensão humana — heranças que parecem dialogar naturalmente com a inquietação intelectual e a sensibilidade cultural da mãe.

Mas é significativo que, mesmo depois dessa experiência cosmopolita, Clara Angélica jamais tenha rompido seus vínculos afetivos com Sergipe. Ao contrário. Retornou inúmeras vezes até decidir reenraizar-se novamente em Aracaju.

Talvez porque algumas pessoas carreguem consigo uma relação orgânica com a cidade onde nasceram. Não apenas como pertencimento geográfico, mas como memória afetiva. Clara Angélica parecia ser uma dessas pessoas que atravessam o mundo sem perder a delicadeza das origens.

O depoimento da escritora Tânia Conceição Meneses revela com beleza essa dimensão. Recordando a convivência no Centro Histórico de Aracaju, ela descreve Clara Angélica “como uma manhã de sol, festiva, sorridente, ativa, comunicativa”. Quando foi viver nos Estados Unidos, escreveu Tânia, “a paisagem sergipana perdeu o dourado e a alegria de Clara Angélica”. Décadas depois, quando retornou, “a claridade voltou nas nossas memórias”.

A imagem é poderosa porque expressa algo maior do que a saudade individual. Certas pessoas acabam se confundindo com a própria paisagem emocional de uma cidade.

E talvez a imagem mais bonita de Clara Angélica seja justamente a do jardim descrito por Luiz Eduardo Costa. Depois de atravessar redações, palcos, músicas, viagens e debates culturais, ela desejava revolver a terra, acompanhar sementes, sentir o cheiro do chão e esperar flores. Pediu a um amigo um ipê para plantar diante de casa. Restou sem resposta a pergunta sobre a cor de suas flores.

Mas talvez isso pouco importe agora.

Porque Clara Angélica Porto Caskey parece pertencer justamente àquelas presenças que florescem de muitas formas na memória dos outros. Permanecem nas ruas antigas de Aracaju, nas conversas dos amigos, nas músicas, nos jardins, nas lembranças da juventude e na delicada vida cultural que ajudaram a construir.

Sua morte deixa um vazio imenso em Sergipe e entre os inúmeros amigos e amigas.

Mas deixa também algo mais raro: a permanência de uma luz.

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* Maria Luiza Falcão Silva - PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

Texto reproduzido do site: www brasil247 com/blog