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terça-feira, 13 de julho de 2021

A Casa Lilás - Memórias de um crime

Legenda da foto: Imagem reproduzida do site da SEGRASE e postada pelo blog para ilustrar o presente artigo.

Texto compartilhado de postagem no Perfil do Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, de 12 de julho de 2021.

A Casa Lilás.

Acabo de ler “A Casa Lilás” do jornalista Luis Eduardo Costa.  O livro relata o chamado “Crime da Rua de Campos”, onde foi vítima o médico Dr. Carlos Firpo, em 1958.  Luis Eduardo tem um dos melhores textos da imprensa sergipana.  Sua descrição sobre a sociedade aracajuana do final da década de 1950 é impagável.  Muito bom.

Luis pesquisou o processo judicial, e chegou a conclusão que o crime teria sido político.  Bom, eu discordo das conclusões de Luís.  Mas não poderia ser diferente posto que, mais de 60 anos após o ocorrido ainda se discute na sociedade sergipana se o crime foi passional, perpetrado pela própria esposa, Milena, e seu amante o Coronel Afonsinho; ou um crime político como chega a conclusão Luis Eduardo.  O fato é que o assassinato do Dr. Carlos Firpo ainda provoca discussões, esquentadas recentemente com o falecimento de Milena, em Salvador, e continua dividindo nossa sociedade.

Luis Eduardo, porém, não entrega a motivação do crime político, nem explicita o mandante.  Deixa a entender, sem isso afirmar, ora que seria Heribaldo Vieira, que como Secretário de Justiça conduziu o inquérito, ora que o governador Leandro Maciel teria pelo menos concordado com o crime.  Mas não desfaz categoricamente o mistério, como seria de se esperar.

Não acredito em crime político.  Como o próprio Luis Eduardo relata, Dr. Carlos Firpo não era político.  Havia ocupado interinamente e por poucos meses o cargo de Prefeito de Aracaju, mas nunca havia disputado uma eleição.  Apesar de filiado à UDN Carlos Firpo não era, nem nunca foi um dirigente partidário.  Não detinha qualquer poder dentro do partido.  Não participava das decisões, não tinha força para barrar ou impor nomes.  Não era empecilho para quem quer que fosse candidato a qualquer cargo.  Quem decidia de fato era Leandro Maciel.

Dr. Carlos Firpo era completamente dedicado ao Hospital Santa Isabel, que atendia os pobres, e isso Luis também relata.  E vivia à busca de verbas para aquela casa de saúde, sempre carente.  Dr. Carlos Firpo estava aventando a possibilidade de ser candidato a Vice-Governador.  Acredito que buscava com isso, e essa é uma interpretação pessoal, uma posição para facilitar sua busca constante de dinheiro para sustentar o Hospital.  Mas não era ele quem definia candidaturas.  Qualquer objeção, bastava um não da cúpula da UDN, ou pessoalmente de Leandro Maciel, que podia chamá-lo e dizer que sua candidatura não dava, e pronto.  Dr. Carlos Firpo não teria força política, e não acredito que teria vontade, para reverter uma negativa.  Ou seja, Dr. Carlos não era um obstáculo nas composições políticas da UDN ou de sua cúpula.  Apesar do crime político naquela época ser algo normal em Sergipe, sempre estava ligada às desavenças, e não me parece que Dr. Carlos Firpo as cultivasse.  E para corroborar com essa visão, é inverossímil pensar que alguém mata uma pessoa por um cargo de vice-governador.

A tese do crime político carece de um motivo plausível.  Carece de um beneficiário com a morte.  Quem ganharia?  O que ganharia?   Heribaldo Vieira que nas entrelinhas aparece como vilão no livro, não tinha rixas aparentes com a vítima, nem seria beneficiado, como não foi.

Luis Eduardo relata as falhas, omissões, e desvios do inquérito.  Chama torturas de “Métodos Empíricos”, conduzidos por Heribaldo Vieira.  Sem querer justificar, mas com uma polícia recheada de jagunços como Alemão e Zé Rozendo, era a polícia que se tinha, então.  Sem embargo que o inquérito hoje seria eivado de nulidades e aberrações.  Mas nem isso autoriza a se concluir pelo crime político, e sim pelo barbarismo da polícia na época.

Heribaldo tinha pretensões de ser governador, mas Leandro Maciel que é quem decidia dentro da UDN optou por Luis Garcia, muito mais maleável e suscetível a se submeter à sua liderança.  Heribaldo reclamou, rebelou-se por algum tempo, mas por fim compôs como candidato ao Senado.  Não era um santo, ao contrário, mas era inteligente demais para fazer besteiras.

Eu era um bebê quando o crime ocorreu, não havia completado três anos.  Mas lá em casa, como em todo sociedade aracajuana, discutiu-se por muito tempo o crime da rua de Campos.  E a tese do crime passional sempre foi tida como certa, ou a mais plausível. 

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

quinta-feira, 1 de julho de 2021

'A Casa Lilás: crime e reconciliação', por Lúcio Prado


Legenda das fotos: F/1 - Dr. Carlos Firpo; F/2 - Casamento de Milena e Carlos Firpo. (Créditos das fotos 1 e 2: Acervo de Aroldo Firpo.

Publicação compartilhada do site do Portal INFONET, de 28 de junho de 2021

A Casa Lilás: crime e reconciliação
Por Lúcio Prado (do blog Infonet)

No dia 29 de abril de 1958, nas primeiras horas da madrugada, foi ferido em sua residência, enquanto dormia, o Dr. Carlos Firpo, diretor do Hospital Santa Isabel e da Maternidade João Firpo, vindo a falecer logo após dar entrada na urgência do Hospital Cirurgia.  O fato, também conhecido como o Crime da Rua de Campos, teve repercussão nacional e até hoje tem sido motivo de debates e discussões. Foi com muita honra que, atendendo convite do presidente da Academia Sergipana de Letras José Anderson Nascimento, coordenei os debates de lançamento do há muito esperado livro “A Casa Lilás”, do jornalista Luiz  Eduardo Costa, no âmbito da Casa de Tobias Barreto, ocorrido em 14 de junho último.

Publicado pela Editora do Diário Oficial do Estado de Sergipe, o livro tem capa e diagramação de Clara Macedo, revisão de Yuri Gagarin, pré-impressão de Dalmo Macedo e contém em torno de 300 páginas. A apresentação é do saudoso governador Marcelo Déda, o prefácio é do jornalista Ancelmo Gois e, ao final, traz um curto mas conciso depoimento de Dílson Bento de Faria Ferreira Lima, escritor e doutor em teologia, filho de Afonsinho – o Coronel Afonso Ferreira Lima, personagem importante nessa obra-prima da literatura policial, envolvendo temas que despertam grande interesse na sociedade e na imprensa: sexo, dinheiro e política.

Numa terça-feira de junho, mais pontualmente no dia 10 de junho de 2008, abrindo as páginas centrais do Jornal do Dia, deparei-me estupefato com um título: Um copo de cristal, um grito na madrugada, que iniciava a série de artigos do jornalista Luiz Eduardo Costa, em capítulos, sobre o assassinato do médico Carlos Alberto de Menezes Firpo. A cada semana, aguardava com ansiedade mais um capítulo da incrível trama policial, que culminou no capitulo 36 com a pergunta: O sangue na faca já secou? Colecionei toda a série em recortes e montei um dossiê pessoal, ao qual incorporei reportagens, depoimentos, fotos e arquivos diversos da biblioteca do colega e amigo Petrônio Gomes. O acervo ficou na minha biblioteca como uma preciosidade que ninguém mais possuía, salvo o autor, claro! Hoje, passados treze anos, a trama   definitivamente está ao alcance de todos. A Casa Lilás, finalmente, chegou para traz mais luz sobre a tragédia.

A Casa Lilás reforça definitivamente a minha convicção pessoal sobre a questão, a de que a morte de Firpo não foi um crime passional. O ponto de partida para o meu interesse pelo tema foi a música feita pelo médico Antônio Garcia Filho, amigo do casal Milena e Carlos, despertando a minha curiosidade inicial. Depois ouvi relatos informais da minha mãe Natália e da minha tia Iara, colegas de Milena no “Colégio das Freiras”, reiterando o caráter e a sólida formação moral dela. Depois tive acesso à série de reportagens do Jornal Última Hora, do Rio de Janeiro e, finalmente, e mais recentemente a reação do clã dos Firpos, ao ser informado por mim da morte de Milena Mandarino Firpo, em dezembro de 2020, na cidade de Salvador.

Um dos atuais líderes da família, Aroldo (neto de João Firpo, médico sergipano irmão de Carlos), que reside atualmente na Flórida, emitiu pelas redes sociais um documento dirigido à família, assim redigido: É com pesar que informo o falecimento de Milena Mandarino Firpo, com mais de 90 anos, ontem, 4 de dezembro 2020, em Salvador, BA. Gostaria que Maria das Graças, Juju e netos recebessem os mais sinceros sentimentos de pesar, meu e deste grupo Firpo. Milena, católica, mãe dedicada ao marido e filhos até os últimos dias. Sempre manteve a cabeça erguida lutando pela união da família e professando o amor a Carlos Firpo. Sofreu amargamente com as consequências da política num período onde as disputas se faziam pela eliminação do adversário com morte em vez de ideias e no voto. É comum, na vida, pessoas inocentes serem acusadas, caluniadas e julgaras pela opinião pública. A distorção dos fatos apresentados em jornais e rádio da época teve grande influência das pessoas com o poder, os quais tinham interesse na desinformação. A família muito sofreu, divisões foram criadas e animosidades para com Milena por parte de outros Firpo foram claras e evidentes. É chegado o momento que os descendentes Firpo se reconciliem com a verdade, apoiem as duas filhas e netos, além de pedirem perdão por tamanha injustiça por tal longo tempo. Eu peço perdão pela injustiça que meus pais tiveram para com Milena e família. Hoje, sei da verdade, pois tive acesso a fatos nunca revelados anteriormente. A partir desse depoimento, toda a família se manifestou favorável ao depoimento de Aroldo, que findou por chegar ao conhecimento de uma das filhas de Milena, Maria das Graças, que assim se manifestou:

Aroldo,

Foi com emoção que li sua mensagem. Ela levou-me até a noite de 29 de abril de 1958, quando a criança de oito anos que eu era viu seu mundo começar a desmoronar com a violenta morte de seu pai e foi apresentada de forma súbita e irrevogável (não era sonho) à maldade humana. Realmente minha mãe passou por profundas injustiças que seu caráter e sólida formação religiosa impediram que sucumbisse às calúnias da época. Colocou como meta de vida compensar as filhas da grande perda sofrida e fazer com que nós, minha irmã e eu, crescêssemos sem alimentar sentimentos negativos e tivéssemos a solidariedade e a justiça como base de nossa estrutura de valores. Pensava que dessa forma nos instrumentaria para olhar e usufruir o que de belo a vida tem para apresentar. E assim foi. Acolho com carinho sua mensagem. Sensível, justa, verdadeira e corajosa – é preciso coragem para pedir perdão – e em nome de Juju e no meu agradeço a você e aos demais que se manifestaram nesse nosso momento de dor.

Passados sessenta e três anos do hediondo crime, onde vidas foram destruídas, relacionamentos afetados, calúnias assacadas sem perdão e piedade, tramas urdidas na calada da noite, a canção de Garcia – Injustiçada – reacendeu mais vívida e luminosa: “Não, não te lamentes não…, que a dura verdade, virá depor. Deus, não esquece o coração, que sempre foi fiel, no amor. Tu, tão meiga e delicada…, de prendas e virtudes, e tão injustiçada… Não, não te lamentes tanto agora, que sobre a noite da calúnia, ressurgirá a aurora.”

PS – Em fevereiro de 2008 publiquei aqui, no meu blog do Portal Infonet “O Assassinato de Carlos Firpo”, onde relaciono ao final todas as fontes consultadas para a elaboração do artigo. Duas foram as principais motivações: conhecer a vida e a obra de um dos mais importantes médicos sergipanos do século XX e seu fim trágico, e a canção Injustiçada, de Antônio Garcia Filho, oferecida a Milena Mandarino na cadeia. Um grande cantor nacional à época, Alcides Gerardi, interpretou e gravou a composição pela gravadora Colúmbia e o cantor sergipano Antônio Teles incluiu no seu repertório nos shows e nos programas radiofônicos. Em junho de 2008, o jornalista Luiz Eduardo Costa começou a publicar uma série de artigos semanais no Jornal do Dia intitulada “O Crime da Rua de Campos”. O livro deveria sair em seguida, mas uma ação judicial impediu a sua publicação. Resolvida a pendenga na Justiça, o autor finalmente lançou o tão esperado livro, alterando o seu título para A Casa Lilás.

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

sábado, 29 de maio de 2021

Luiz Eduardo Costa lançará o livro “A Casa Lilás” (assassinato de Carlos Firpo)

Legenda da foto: Jornalista e escritor Luiz Eduardo Costa conta a história do crime de Carlos Firpo

Entrevista publicada originalmente no site SÓ SERGIPE, em 23 de maio de 2021

Luiz Eduardo Costa lançará o livro “A Casa Lilás” contando a história do assassinato de Carlos Firpo

Por Antonio Garcia

O assassinato a facadas do médico e ex-prefeito de Aracaju, Carlos Firpo, ocorrido em fins de abril de 1958, dentro da própria residência, na rua de Campos, abalou a sociedade aracajuana daquela época e teve repercussão nacional. Passados 63 anos, o crime segue envolto em mistérios, com depoimentos conseguidos à base de tortura, assassinato de testemunha e trapalhadas jurídicas. A história, digna de “thriller policial”, é contada pelo jornalista Luiz Eduardo Costa, no livro “A Casa Lilás – Memórias de um Crime”, que já foi para o prelo da Edise e nas próximas semanas estará nas livrarias.

Esse é o primeiro livro de Luiz Eduardo Costa, 80 anos, que, com o olhar aguçado e faro jornalístico incomparável, fez centenas de entrevistas. Muitas delas várias vezes com um mesmo personagem esmiuçou documentos, leu e releu todo o processo, providenciou exames grafotécnicos para verificar se algumas assinaturas eram verdadeiras ou não, dentre outras investigações.

 

Legenda da foto: Baependy, da Lloyd brasileira, um dos navios afundados em 1942

Crédito da foto: Wikipédia

Com uma linguagem simples e instigante, Luiz Eduardo conduz o leitor a uma viagem no tempo, relatando os torpedeamentos de navios brasileiros na costa sergipana, em agosto de 1942 – portanto 16 anos antes do assassinato de Carlos Firpo – chegando às implicações políticas, que se desencadearam após o crime. É um mergulho numa parte da história sergipana que, diante do crime, ficou dividida e com uma enorme dúvida: o crime foi passional ou político?

O livro mostra que detalhes importantes para investigação de crime de homicídio foram deixados para trás pelas autoridades da época. “O Governo de Sergipe, por exemplo, nunca autorizou a vinda de um agente da Polícia Federal para investigar o crime”, observa Luiz Eduardo, que conta esse fato em detalhes, inclusive com o nome do agente destacado para o trabalho.

O título do livro –  “A Casa Lilás – Memórias de um Crime” – por si só chama atenção por dois motivos:  primeiro foge do lugar comum, pois o assassinato de Carlos Firpo é conhecido como “O Crime da Rua de Campos”; segundo porque  a casa onde ocorreu o assassinato não era lilás, mas cinza. Você só saberá o porquê desse título e de outros detalhes, lendo o livro.

Mas antes de o livro chegar às suas mãos, vale a leitura da entrevista que Luiz Eduardo Costa concedeu ao Só Sergipe.

SÓ SERGIPE – Em 2008, o senhor escreveu uma série, com 36 textos, contando a história do crime da rua de Campos, que teve como vítima o médico Carlos Firpo.  Agora, tudo isso estará reunido num livro que, inclusive, está no prelo. O que o motivou?

Legenda da foto: Médico Carlos Firpo discursa no Hospital dos Pobres, em 1958

LUIZ EDUARDO COSTA – Esse é um caso que acompanhei desde quando eu tinha 17 anos. O crime aconteceu em abril de 1958, tanto que os supostos assassinos chegaram presos em Aracaju, vindos de Paulo Afonso, na Bahia, no dia 1º de maio. Meu pai, Paulo Costa, era jornalista e promotor, amigo pessoal do principal envolvido, que era o então tenente da Aeronáutica, Afonso Pereira Lima, meio-irmão de um promotor colega do meu pai, que também se chamava Afonso Ferreira. O coronel quando vinha a Aracaju frequentava minha casa e meu pai tinha uma gratidão muito grande por ele. Isso porque, meu pai foi preso na ditadura Getúlio Vargas, do Estado Novo, em agosto em 1945, e a censura do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) de Lourival Fontes era ainda implacável. Meu pai escreveu uns artigos que desagradaram muito o interventor e o prenderam sob alegação de que estava com uma arma no bolso. Embora ele tivesse direito de andar armado, levaram-no para a penitenciária. A repressão achava que as pessoas que meu pai, como promotor, havia pedido a condenação, iam matá-lo dentro da penitenciária. Numa dessas ocasiões, quando meu pai havia sido transferido para o quartel dos Bombeiros, o tenente Afonso foi fardado visitá-lo. Naquela época, Afonso correu um risco tremendo por visitar um preso político. E meu pai ficou com essa gratidão. Ele permaneceu três meses preso e foi libertado por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).  Meu pai também era amigo de Carlos Firpo, participavam juntos do Lions Club.

SÓ SERGIPE – Mas voltando ao livro e ao crime…

 

Legenda da foto: MIlena Mandarino ficou presa dois anos, não foi a julgamento e o STF a libertou

LUIZ EDUARDO COSTA – Quando ocorreu o crime, a sociedade sergipana se dividiu. Uns aceitando a tese da polícia, de crime passional, e outros não. Eu vivi muito aquilo, os traumas, as ameaças. Quando dona Edna, esposa do tenente Afonso, chegava aqui para defender o marido e Milena Mandarino, acusada de ser amante de Afonso, era um problema.  Eu, ainda menino, tive que levá-la várias vezes de carro aos locais que ela desejava com pistoleiros acompanhando a gente e ela ia armada. De modo que o crime teve repercussão nacional, pois jornalistas de fora vieram fazer cobertura.  O tenente estava preso na Base Aérea do Recife e era enviado de avião para os depoimentos e se dizia que com a chegada dele haveria trucidamento. Eu me interessei por aquilo. Fiz várias solicitações a amigos meus que foram presidentes do Tribunal de Justiça de Sergipe que procurassem esse processo. Eu tinha alguns papéis, algumas coisas deixadas por meu pai, que faleceu em 1961, pouco tempo depois do crime, e ele escreveu vários artigos sobre o assunto. Aliás, meu pai foi vítima de um erro médico cirúrgico gravíssimo e morreu.

SÓ SERGIPE – E o senhor seguiu interessado no caso da rua de Campos…

LUIZ EDUARDO COSTA – Eu fiquei com essas coisas do crime na cabeça. Fui demitido dos empregos que tinha em Aracaju e segui para o Rio de Janeiro. Uma vez visitei o já coronel Afonso, no bairro do Rio Cumprido, onde ele morava. Ali, conversamos sobre várias coisas, inclusive sobre o crime que ele estava absolvido pelo Supremo Tribunal Federal e foi promovido de tenente-coronel a coronel. Na época do regime militar de 64, ele estava esperando a promoção para brigadeiro que só saiu pós-morte. Com esses elementos sobre o crime em mãos, resolvi fazer umas memórias em 2008, quando o crime completava 50 anos, e fiz uma série de artigos no Jornal do Dia. Como a coisa alcançou uma repercussão muito grande, acirrou a polêmica e Marcos Vieira, filho do falecido senador Heribaldo Dantas Vieira, que naquela época era o secretário do Interior e da Justiça, resolveu me processar e publicou alguns artigos virulentos contra mim. Tive que responder e tudo. Criou-se uma expectativa muito grande e decidi aumentar isso. Pesquisei, busquei novos depoimentos para publicar o livro. E fiquei esperando a decisão da Justiça para que não houvesse perigo de que o atendimento do filho do Heribaldo, o Marcos Vieira, que era proibir o livro, fosse acatado. Foi quando o juiz Aldo Albuquerque, que eu nem conhecia, deu a decisão favorável para a publicação.  Resolvi publicar o livro, mas queria ouvir a dona Milena Mandarino. Depois ela desistiu de falar comigo. Olha, antes de publicar os artigos no jornal, eu pedia aos sucessivos presidentes do TJ acesso ao processo, todos procuravam, mas não achavam. Um dia, Cezário Siqueira, que era presidente na época, me telefonou e disse que eu fosse ao TJ naquele momento, pois encontraram o processo. Eu fui, levei o processo para casa, mandei digitalizar, devolvi o original e um digital. E esse acesso foi importante.

 
Legenda da foto: Multidão acompanha a chegada de Milena Mandarino ao Fórum Fotos: Acervo de Luiz Eduardo Costa

SÓ SERGIPE – O senhor fez novas descobertas ao estudar o processo?

LUIZ EUARDO COSTA – Sim, fiz uma que é surpreendente. Entre as diversas assinaturas da dona Milena, nos interrogatórios que ela respondeu, havia uma inquirição que era a principal, feita na casa dela antes de prendê-la, no quarto dela, sem testemunhas, só com o Heribaldo Vieira e ela assinou. No outro dia, ela disse que não havia falado aquilo e negou, mas ninguém foi conferir a assinatura. Eu, por uma questão de sorte, conferi a assinatura dela em outros documentos e era totalmente diferente. Pedi a Newton Porto que fizesse uma perícia e, sem me cobrar nada, atestou que era falsa. Quando o Marcos Vieira entrou com o processo contra mim, acusou-me de súcia, que eu e Newton formávamos uma ‘súcia repugnante’. Tempos depois, na Loja Maçônica Cotinguiba, eu conversava com o advogado Genaldo Moura do Amaral, e ele pediu para analisar o documento. O laudo confirmava que a assinatura era falsa. Ou seja, era um processo que começou com essas coisas estranhas, porque mataram a principal testemunha, que era o magarefe José Euclides Timóteo de Lima, e tudo correu dessa forma. Com uma assinatura falsa e a principal testemunha morta, o processo teria sido anulado. Então, achei que era um caso que merecia um debate maior, enfim, que é um mistério.  Nunca chegaram a uma conclusão.

SÓ SERGIPE – É isso que eu pergunto ao senhor. Quem matou Carlos Firpo e por quê?

LUIZ EDUARDO COSTA – As perguntas permanecem em aberto. Quem ler o livro vai encontrar uma carta emocionante de Bento Ferreira Lima, filho do coronel Afonso, na qual ele fala de mistério. Bento era um frade e já faleceu. Ele tinha a convicção de que o pai não participou desse crime.

SÓ SERGIPE – E houve romance entre dona Milena Madarino e o Afonso?

LUIZ EDUARDO COSTA – É outro aspecto. Como eu disse, ele era baiano e, ainda menino, veio para Aracaju terminar o curso ginasial e ficou na casa do meio-irmão que também se chamava Afonso. E a mulher deste meio-irmão Afonso era irmã da esposa de Nicola Mandarino que vem a ser o pai de Milena. Eles foram criados juntos. Ela disse que o tinha como irmão. Depois ele fez Escola Militar, no Realengo, no Rio de Janeiro, e vinha sempre nas férias. Inclusive, quando ele era tenente, veio para o casamento de Milena com Carlos Firpo. Ou seja, vivia dentro da casa. Quando o tenente vinha para Aracaju se hospedava na casa do meio-irmão ou na casa de Carlos Firpo, que morava com o sogro, Nicola, a esposa e mais um bocado de gente.  Agora,  uma coisa estranha é que durante aquele período não se falava absolutamente nada do romance entre eles. Aracaju tinha 80 mil habitantes, tudo se comentava, principalmente envolvendo figuras exponenciais da sociedade.  Milena era muito discreta, só viva em igreja, não se vestia com decote, etc. Ela era uma mulher linda e ela me disse uma vez que eu a achava linda, porque não conhecia a irmã dela, Vanda.

SÓ SERGIPE – Mas aí, quando aconteceu o crime surgiu a história de um suposto romance entre Milena e Afonso.

LUIZ EDUARDO COSTA – Quando houve o crime, as emissoras de rádio diziam que ela era prostituta de luxo, uma coisa terrível. Nunca vi um clima com mais açodamento verbal como aquele, algo terrível mesmo.  E não se podia fazer o inquérito, um julgamento com tranquilidade naquele clima.

Legenda da foto: Casa que foi de Nicola Mandarino, pai de Milena, hoje é a sede da Ases, na rua Campos

SÓ SERGIPE – No dia do crime estavam todos em casa e uma das filhas de Milena estava gripada.

LUIZ EDUARDO COSTA – Os quartos eram juntos, com as portas abertas e continuam sendo. Hoje, nessa casa, funciona a sede da Associação dos Supermercados de Sergipe (Ases). Eu a visitei lá várias vezes. Milena saiu com Firpo e o pai, Nicola, e foram para o Hospital dos Pobres, chamado de Matadouro de Pobres (hoje Hospital Santa Isabel), pois o Firpo era diretor. Por volta das 23 horas, voltaram e uma das filhas disse que estava gripada e Milena foi dormir com ela. Mas no enredo da coisa,  o matador que foi José Pereira dos Santos, o Pereirinha, descreve a cena dizendo que ela, Milena,  já havia deixado a porta aberta, ou seja, a cena do crime preparada por ela, para que ele, o Pereirinha, matasse o Carlos Firpo.

SÓ SERGIPE – O Pereirinha foi réu confesso?

LUIZ EDUARDO COSTA – Sim, depois de muita pancada. E depois não consegui a carta que ele fez para esposa, Aurélia, que residia em Paulo Afonso, onde ele dizia que sofreu e que a polícia o forçou a dizer que matou Carlos Firpo.

SÓ SERGIPE – Pereirinha e o Timóteo foram presos em Paulo Afonso?

LUIZ EDUARDO COSTA – Pereirinha e Timóteo foram presos no dia 30 de abril. Eles estavam em Aracaju e o motorista que os levou para Paulo Afonso era muito amigo de Carlos Firpo. Antes, eles passaram perto do cemitério e estava acontecendo o enterro. Eles comentaram sobre o crime. No caminho, o motorista suspeitou e ficou com medo de que o matassem. Ele, então, parou num posto da polícia no caminho para Jeremoabo e um guarda conhecia os dois. Esse guarda falou ao motorista que lhe desse os documentos para pegar na volta. Ou seja, deu algum sinal de que ele precisa voltar e os caras perceberam. Ele levou os passageiros até o entroncamento de Jeremoabo, e eles não pagaram o que combinaram, mas o motorista deu graças a Deus por sair vivo. Ao chegar no posto, o guarda disse que os caras eram perigosos, que mataram gente por lá, e aí ele suspeitou que foram esses passageiros que mataram Carlos Firpo. Em Aracaju, o motorista cochilou na casa da irmã em Frei Paulo, e vinha uma caravana de três ou quatro jipes vindo de São Paulo, com Antônio Mendonça, filho de Euclides Paes Mendonça. Quando Antônio viu o carro do motorista, parou, chamou-o e este contou sobre a morte de Carlos Firpo e suspeitava dos bandidos. Em Itabaiana, conversou com Euclides Paes Mendonça e mandou procurar o governador Leandro Maciel. O motorista foi para a delegacia e já encontrou por lá o Leandro Maciel e Afonso, que haviam chegado na véspera com as irmãs de Milena.  O Afonso não teve nenhuma reação ao saber dos pistoleiros. E o coronel Afonso ofereceu a Heribaldo um agente da Polícia Federal para vir apurar o crime. Dali, ele foi embora. Leandro providenciou um carro e foram prender os caras.

SÓ SERGIPE – Carlos Firpo foi morto a facadas. Acharam a arma do crime?

LUIZ EDUARDO COSTA – Sim, foi achada e coloco a foto no livro. O mais estranho é que não fizeram nenhuma perícia para descobrir as impressões digitais, não isolaram a cena do crime, não fizeram nada. O pai do ex-vice governador Benedito Figueiredo, que era policial no Rio de Janeiro e que veio para cá, levantou um bocado de pistas, dizendo por onde tinha entrada o bandido e ninguém levou em conta isso. A vinda do policial federal, que era Hans Peter, foi confirmada pela chefatura de polícia no Rio, e ninguém nunca respondeu ao telegrama enviado para o Governo de Sergipe. O policial não veio e ficou por isso mesmo.

 

Legenda da foto: Pereirinha, na reconstituição do crime

SÓ SERGIPE – Quem foi condenado nessa história?

LUIZ EDUARDO COSTA – O Pereirinha foi condenado a 16 anos; Milena passou dois anos e oito meses; Afonso ficou preso na Base Aérea e numa decisão de 3×2 foram libertados pelo STF.

SÓ SERGIPE – E todos alegaram inocência?

LUIZ EDUARDO COSTA – Todos alegaram inocência. O Pereirinha confessou, mas quando foi desfazer, já estava preso. Ele pegou 20 anos de prisão.

SÓ SERGIPE – Quanto tempo o senhor passou escrevendo esse livro?

LUIZ EDUARDO COSTA – Quando escrevi os artigos para o Jornal do Dia, eu os fazia na véspera da publicação. Mas depois, para o livro, arrumei, desarrumei os capítulos e tudo só ficou pronto em 2018. Uma coisa dizia para mim que Milena iria fazer alguma revelação, mas ela morreu em dezembro do ano passado sem dizer nada, pelo menos que eu saiba.

SÓ SERGIPE – E Julieta e Maria da Graça, as duas filhas do casal Carlos Firpo e Milena?

LUIZ EDUARDO COSTA – Hoje moram no Rio de Janeiro. Mas, uma delas chegou a morar em Salvador e a mãe residia com ela. Milena era uma grande pianista. O coronel Afonso morreu com 58 anos, ainda jovem.

SÓ SERGIPE – E o lado político desta morte de Carlos Firpo?

LUIZ EDUARDO COSTA – Carlos Firpo queria ser vice-governador de Sergipe.  Minha interpretação é que Heribaldo Vieira encontrou no crime o momento de fazer o marketing político dele. Ele tinha certeza que o então governador Leandro Maciel ia indicá-lo para ser seu sucessor no governo do Estado. O crime em abril, a eleição seria em outubro de 1958, e ele fez o marketing. Só que fez dividindo a sociedade: uma parte com raiva dele e outra apoiando. Ele se elegeu senador, ficou com muita mágoa do Leandro e em 1962 se vingou votando em Seixas Dória.

SÓ SERGIPE – Todos os personagens desta história já morreram?

LUIZ EDUARDO COSTA – Sim, todos já morreram. Eu conversei com todos eles. De Seixas Dórea tive vários depoimentos, nós saíamos sempre para jantar. Todos estes personagens eu conversei. Lembro do desembargador Nolasco (José Nolasco de Carvalho), que na época era delegado de polícia e que fez as prisões.  Com todos eles eu conversei.

Texto e imagens reproduzidos do site: sosergipe.com.br

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

O Crime da Rua de Campos, por Paulo Roberto Dantas Brandão

Dr. Carlos Firpo
Imagem publicada pelo blog para
 ilustrar o presente artigo.

Texto publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil no Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, de 14 de dezembro de 2020


O Crime da Rua de Campos
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

Com a morte de Milena na semana passada voltou a discussão o Crime da Rua de Campos, como ficou conhecido o assassinato do Dr. Carlos Firpo. Quando ocorreu, em 1958, eu era um bebê, portanto tudo o que sei foi por leituras e por informações familiares. Mas a verdade inconteste do crime foi para o túmulo, com a morte da esposa do médico assassinado, Milena.

Desde a semana passada foi publicada uma série de artigos sobre o tema. Há três versões para o fato: crime passional, crime político e uma versão de crime familiar por questões patrimoniais. Essa última tardia, só aventada algum tempo depois, e sem qualquer arrimo.

Por que não acredito na versão do crime político? Em primeiro lugar Dr. Carlos Firpo era um médico pacato, sem aparentes inimigos. Não era um chefe político, nem um dirigente partidário. Não ocupava cargos públicos, e apenas aventou a possibilidade de ser candidato a vice-governador nas eleições que ocorreriam logo em seguida. Ora, numa investigação busca-se logo “o motivo” e “quem se beneficia com a morte”. É o básico. Até hoje, mais de sessenta anos depois, ninguém apontou um motivo plausível que embasasse a tese do crime político. Ninguém mata por uma pretensa disputa por um cargo de vice-governador. Isso não existe. Como também até hoje ninguém respondeu quem se beneficiaria de modo cabal com a morte do Dr. Carlos Firpo. Nem o jornalista Luis Eduardo Costa que escreveu uma série de artigos sobre o fato, grande parte baseada em anotações do seu pai, Paulo Costa, que teria atuado como promotor no caso, conseguiu responder a tais indagações.

Já a versão do crime passional, envolvendo a própria esposa do médico, e o Coronel Afonsinho, da Força Aérea, se não deixa uma certeza, apresenta uma série de indícios de força extrema. Era fato público e notório que o Coronel Afonsinho freqüentava a casa do médico, e era do falatório geral que tinha um caso com a esposa deste. Há ainda uma coincidência muito grande dos dois executores do assassinato serem da região próxima a Paulo Afonso, na Bahia, de onde provinha a família do Coronel, e de ontem tinha propriedades. Há outras coincidências mal explicadas, como o fato de Milena não estar dormindo com o marido no momento do crime, e sim no quarto das filhas. São por tais coisas que eu não acredito em crime político e, como muitos, tenho a tendência firme em acreditar em crime passional.

Dr. Carlos Firpo era amigo do meu avô Orlando Dantas, que sentiu muito a sua morte. Quando retiraram os restos mortais do médico do Cemitério Santa Isabel, em Aracaju, deixaram por lá jogada uma placa de mármore, uma homenagem dos colegas do Lions Clube ao morto. Meu avô viu a placa abandonada, e mandou afixá-la na lateral da gaveta onde repousam os restos de Ronaldo, seu filho (portanto meu tio), morto ainda criança. Quem entra no cemitério, ao lado direito da Capela, há as gavetas onde eram enterradas as crianças. Logo na lateral está lá a placa em homenagem a Dr. Carlos Firpo.

O fato de nos últimos dias voltarmos a discutir tal crime, é sinal que a sociedade sergipana até hoje ficou abalada. No livro O Salão dos Passos Perdidos, o advogado Evandro Lins e Silva, que atuou como advogado de defesa de Milena em seu julgamento disse que “o crime foi maior do que a cidade”. Sem dúvida.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Revivendo sensações do passado, por Lúcio Prado



Legendas fotos > Foto1 - Milena Mandarino e Foto2 - Milena Mandarino é entrevistada pelo repórter Walter Melo, sob o olhar do Dr. José Nolasco, diretor da Penitenciária de Aracaju.

Publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 8 de dezembro de 2020

Revivendo sensações do passado

Por Lúcio Prado (Blog Infonet)

   Prezado Lúcio,

   Grato pela sua atenção. Como lhe disse, não poderei estar amanhã no Sarau enfocando o Centenário do médico, escritor, compositor e músico, o nosso querido e lembrado com saudade, seu polifacetado sogro Antônio Garcia. Peço-lhe desculpas. Estarei numa reunião da família de minha mulher, à qual não poderei faltar, em Japaratinga, AL. Envio-lhe o texto sobre a música INJUSTIÇADA. Se achar que merece ser lida fica à sua escolha” (Luiz Eduardo Costa).

Com essa carta, o jornalista, escritor e imortal da Academia Sergipana de Letras, anunciou a sua impossibilidade de participar do Sarau “Antônio Garcia Filho, música e poesia”, promovido pela Sobrames Sergipe, para celebrar o Centenário de Nascimento do saudoso médico. Como idealizador e produtor desse inesquecível Sarau, levado a efeito no auditório do Museu da Gente Sergipana em 27 de maio de 2016, frente à impossibilidade de Luiz apresentar o texto introdutório para a música de Garcia, convidei o presidente da Academia Sergipana de Medicina, o Dr. Roberto César Pereira do Prado para fazer o leitura, o que fez com competência. O Sarau foi extraordinário, ao longo de duas horas, dez músicas de Antônio Garcia foram apresentadas ao público que lotou aquela dependência, com arranjos modernos do maestro Ricardo Vieira, cantores da terra, e para cada música um texto introdutório, apresentado por personalidades que conviveram com o homenageado, colegas, alunos e imortais da Academia de Letras. Em breve, o vídeo completo do Sarau estará disponível no Youtube, no canal da Sobrames Sergipe.

Com a morte de Milena Mandarino, ocorrida nesta semana em Salvador, lembranças foram evocadas, sentimentos aflorados e o perdão pela injustiça cometida, finalmente manifestado pela família Firpo, após sessenta e dois anos de incompreensões, dúvidas, silêncio e afastamento. Enfim, sensações do passado foram revividas.

O texto de Luiz Eduardo Costa, para a apresentação da música Injustiçada, de Antônio Garcia Filho, foi primoroso e reproduzo abaixo:

¨Em abril de 1958 ocorreu em Aracaju um crime que traumatizou a sociedade. Dormindo na sua casa o médico Carlos Firpo, cidadão conceituado e querido, foi assassinado com uma facada.

Em crimes dessa natureza, dizem os criminologistas franceses: ¨Cherchez la femme ¨. E não demorou, a mulher foi encontrada.  Era Dona Milena Mandarino Firpo, esposa do médico, que tramara o assassinato, acumpliciada com o amante, o tenente –coronel aviador Afonso Ferreira Lima, amigo da família e freqüentador da residência dos Mandarino – Firpo.  Surgiu um enredo novelesco, que ultrapassou os limites de Sergipe. O militar era personagem de destaque na Força Aérea e ocupava o cargo de Secretário do Conselho de Segurança Nacional. Sua esposa, a professora Edna Faria Lima, era neta  do Ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal, o  jurista  Bento de Faria, e o seu pai, um Procurador Federal no Rio de Janeiro.

  Milena era filha do italiano Nicola Mandarina, homem rico e influente em Sergipe. O trauma causado pelo crime dividiu a sociedade sergipana diante de duas versões antagônicas: uma, a passional, apontada pela Polícia e pelo Ministério Público, outra, a política. O radicalizado clima da época contaminou a discussão, envenenou de tal forma o debate, que logo explodiriam fortes antagonismos e tensas odiosidades.

Milena Mandarino

Milena, até então vista como virtuosa esposa e mãe, católica fervorosa, passou a ser tratada como cruel criminosa e desprezível adúltera.  Foi presa em sua casa numa madrugada chuvosa de junho, e levada à Secretaria de Segurança, depois, à Penitenciária, onde permaneceu dois anos aguardado o julgamento, até o pronunciamento do Supremo, absolvendo os acusados. Jogados à execração pública, Milena e o coronel Afonso, passaram a simbolizar a mais abjeta das traições.

 Nesse caldeirão de ódios que se misturavam com paixões políticas, era difícil encontrar um mínimo de racionalidade, ou mesmo uma concessão generosa à dúvida enquanto   aguardava-se o julgamento. Foi nesse contexto do qual escapava o bom senso, e a condenação já se antecipava no vozerio das ruas, que Antônio Garcia, médico, humanista, intelectual, que unia suas convicções cristãs ao anseio pela Justiça, entendeu que seria preciso remar contra a maré montante da histeria coletiva, para abrir um espaço à reflexão, à sensatez, ou, pelo menos, à piedade, que é parte inseparável da dignidade humana. Antonio Garcia compôs então letra e música de uma canção à qual deu o nome: INJUSTIÇADA.

  Não foi apenas uma música, foi um Hino à Razão, produzido num momento em que atitudes de comedimento eram interpretadas como ofensas traiçoeiras à memória do morto.  Fosse qual fosse o resultado do julgamento, Antonio Garcia, com a sua música, começou a amenizar o ódio da sentença antecipada, fazendo surgir uma racional e justa expectativa civilizada de Justiça.

  A busca pela Justiça em todas as áreas da vida social, foi a preocupação constante desse singular sergipano, Antônio Garcia Filho, referência exemplar no seu tempo, agora, marco virtuoso em nossa História.”

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O crime da Rua Campos, de repercussão nacional, nunca foi totalmente elucidado, os autores materiais foram presos, sendo que um deles, que poderia revelar o nome do mandante, foi torturado até a morte, na calada da noite, na busca de uma confissão ou o que poderia ter sido uma “queima de arquivo”. Milena e Afonsinho, acusados e detidos pela polícia, somente foram liberados dois anos depois, por falta de provas ou inconsistências delas, graças a uma decisão do STJ. Milena, com as duas filhas, foram residir em Salvador e nunca mais regressaram a sua terra.

Em vida, Milena foi de uma fortaleza exemplar para enfrentar as tempestades da vida, as incompreensões e as injustiças, mas viveu com grandeza, caráter e sensibilidade admiráveis. A sua morte, ocorrida na madrugada de 4 de dezembro, é mais um capítulo triste dessa história recente de Sergipe que, após 62 anos, ainda desperta indagações, suspeitas, debates e profundas sensações.

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

quarta-feira, 17 de abril de 2019

O crime mais rumoroso de Aracaju


Publicado originalmente no site do Portal Infonet, em 14 de abril de 2019

O crime mais rumoroso de Aracaju
Por Marcos Cardoso (Blog Infonet) 

O Brasil é um dos países mais violentos e Sergipe não escapa da epidemia de homicídios que aterroriza a todos. A outrora pacata Aracaju é hoje até citada como uma das cidades mais violentas do mundo, o que é contestado pelas autoridades.

Mas no passado aconteceram crimes que marcaram a história da cidade. O caso mais famoso foi o assassinato do médico e político Carlos Firpo, que ficou conhecido como o Crime da Rua Campos. Já há mais de 50 anos, no dia 25 de maio de 1958, o médico foi morto a facada enquanto dormia, no quarto de sua casa. O crime jamais foi inteiramente esclarecido.

“O impacto que provocou na sociedade foi superestimado sensacionalmente pela imprensa escrita e falada em proporções jamais vistas em Sergipe”, recorda o historiador Ibarê Dantas (“Os Partidos Políticos em Sergipe: 1889-1964”).

“Embora hoje se acredite que o homicídio foi motivado por razões passionais, as explorações desenvolvidas em torno do caso em pleno ano eleitoral foram de tal ordem que nunca ficou inteiramente esclarecido, permanecendo como um exemplo daqueles tempos tumultuados do primeiro governo udenista” de Leandro Maynard Maciel.

Vinculado à UDN, diretor do Hospital Santa Isabel, Carlos Firpo era apontado como provável companheiro de chapa de Heribaldo Dantas Vieira, que pleiteava candidatar-se ao governo do Estado. Seu desejo de candidatar-se contrariava interesses do seu partido.

Insinuou-se na época que o também prestigioso médico e então vice-governador José Machado de Souza teria relação com o assassinato, informação que foi prontamente rechaçada pelas demais autoridades estaduais, que chagaram a fazer uma manifestação de solidariedade e desagravo na porta de sua casa, na rua Pacatuba. Dr. Machado era amigo de Carlos Firpo.

Pires Wynne (“História de Sergipe: 1930-1972”) cita o caso de forma parcial, com o intuito de fazer a defesa do vice-governador, e transcreve um capítulo do livro Sergipe por um Óculo, do general José Lopes Bragança, que tampouco é imparcial e tenta tão-somente provar a inocência da viúva, Milena, e do então coronel da Aeronáutica Afonso Ferreira Lima.

Ela é filha do imigrante italiano Nicola Mandarino, sobre quem, pouco mais de uma década antes do crime, havia se abatido outra desgraça em Aracaju, quando o acusaram — injustamente, pelo que se sabe — de colaborar com os alemães que bombardearam navios na costa de Sergipe. Teve a casa depredada e quase foi linchado.

“No vandalismo, que então se praticou, todo o enxoval de Milena foi perdido. Para quem fosse supersticioso, isso seria considerado mau augúrio para o casamento”, escreveu o general Bragança.

O baiano Afonsinho, assim carinhosamente conhecido, era amigo e frequentador da casa dos Firpo. Ele foi do Grupo de Aviação de Caça, era boa pinta e brilhante profissionalmente. Chegou a ser um dos oficiais aviadores da Presidência da República, no governo João Goulart. Foi caçado pelo Ato Institucional número 1, após o 31 de março de 1964, sendo transferido compulsoriamente para a reserva, já como brigadeiro. É falecido.

Na noite do crime, a vítima estava só no seu quarto. Dona Milena dormia com as duas filhas, Julieta e Maria da Graça, pois uma delas estaria doente. O sogro Nicola e a doméstica Gilena também estavam na casa. O fio do telefone havia sido cortado criminosamente. Após as investigações coordenadas pelo próprio Leandro Maciel, a polícia mandou prender dois indivíduos que tinham sido indiscretos em suas conversas perante um motorista de praça que os transportava para a cidade de Paulo Afonso, terra natal de Afonsinho.

Um dos detidos, o magarefe José Euclides Timóteo de Lima, que na noite do crime teria ficado de atalaia na esquina da rua Campos com Dom José Thomás, foi espancado até a morte num terreno baldio da Jabutiana, após finalmente ter incriminado Afonsinho.

Foi torturado pelos policiais de vulgo Alemão, Zé Rosendo e Carniceiro, sob a “direção pessoal do secretário do Interior e Justiça, Dr. Heribaldo Dantas Vieira, atual senador por Sergipe, com a presença do atual deputado federal João de Seixas Dória, do secretário de Segurança Dr. Antônio Machado e do Dr. Humberto Napolioni Mandarino, cunhado do Dr. Firpo”, segundo relatou o general Bragança, no seu livro editado em Belo Horizonte poucos anos depois do crime.

“Apesar de terem conseguido essa confissão feita no estertor da morte, foi pedida a prisão preventiva para todos os que ocupavam a residência do Carlos Firpo no dia do seu assassinato, exceto suas filhas menores”.

Dona Milena passou dois anos no reformatório penal, após fazer uma confissão que também teria sido forjada. Ela teria confessado um suposto romance com o coronel aviador. Afirmando depois que não disse o que constava no depoimento, foi absolvida em juízo. Sua assinatura no depoimento a Heribaldo Vieira, inclusive, teria sido falsificada.

O clamor que se criou contra ela também provocou piedade. O poeta Antônio Garcia Filho compôs uma música em sua homenagem, “Injustiçada”, que foi gravada por Alcides Gerardi.

O outro preso em Paulo Afonso, José Pereira dos Santos, o Pereirinha, acabou sendo condenado a 20 anos de reclusão como autor material do crime. Ele teria esfaqueado o médico Carlos Firpo. Mas o verdadeiro mandante, que supostamente teria sido Afonsinho, até hoje permanece sob mistério. Suspeita-se que um cunhado dele teria contratado os assassinos.

Quase 51 anos depois o crime permanece um mistério.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br