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quarta-feira, 24 de março de 2021

Prof. Clodoaldo Alencar, Reitor Emérito da Universidade Federal de Sergipe.

Publicado originalmente no Perfil FACEBOOK/JOSÉ VIEIRA, em 13 de março de 2021

Há alguns instantes fui informado do falecimento do professor Clodoaldo Alencar, Reitor Emérito da Universidade Federal de Sergipe.  Um exemplo de homem público com quem tive a honra de trabalhar e de dialogar no curso de minhas pesquisas sobre o ensino superior, o movimento estudantil e a sociedade no contexto do final da ditadura civil-militar e do advento da Nova República.  Em respeito e em homenagem a este intelectual, gestor público e humanista, reposto a foto do nosso último encontro. Meus mais sinceros sentimentos aos familiares, amigos e colegas.

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Publicação de 6 de janeiro de 2018.

"Um silêncio profundamente eloquente" - Clodoaldo de Alencar Filho – Reitor Emérito da UFS (1988-1992)

Por José Vieira da Cruz*

O argumento de que o significado de uma imagem vale mais que mil palavras, expressão popular atribuída a Confúcio, conhecido filósofo chinês, nem sempre é suficiente para abstrair os conteúdos e sentidos que uma imagem contém e pode gerar.

Na foto em tela, registro o encontro com o professor Clodoaldo de Alencar Filho, Reitor Emérito da Universidade Federal de Sergipe (UFS), em um café citadino de Aracaju, ocorrido ontem 05/12/2018. Frente a esse registro fotográfico e ao título atribuído, resta-me, explicar algumas dos sentidos da imagem e do encontro.

Alencarzinho, como muitos o conhecem, foi um dos primeiros reitores eleitos da Universidade Federal de Sergipe, no período de retomada da Democracia Brasileira, após a longa e triste experiência da ditadura civil-militar (1964-1985). Nascido na cidade de Estância/SE, formado em Letras Inglês, pela Faculdade Católica de Filosofia, uma das instituições que deram origem a UFS. Alencar atuou de forma decisiva na cena política e cultural: no rádio, no teatro, na imprensa escrita e na gestão pública municipal de Aracaju na época do prefeito Godofredo Diniz Gonçalves (1963-1967), e, depois na gestão da Universidade como Reitor eleito pela comunidade universitária (1988-1992).

A sua participação e experiência na cena cultural, remonta à década de 1950, quando em contato com o florescer do teatro urbano brasileiro, assiste e ajuda a montar nas terras de Serigy a peça "Eles não usam Black-tie", de autoria de Gianfrancesco Guarnieri, que retrata os dramas de um sindicalista e de sua família premidos entre a lide política e sindical no chão de uma fábrica e os desafios de residir em um morro na periferia de uma cidade brasileira.

Nos idos da década de 1960, Alencar teve atuação destacada na locução de programas na Rádio Cultura, em atividades cênicas do teatro amador, em atividades junto ao Diretório Acadêmico de Letras "Amando Fontes", no Sergipe Jornal com uma coluna sobre o turismo, dentre outras interações junto aos movimentos culturais e políticos que pululavam a época, dentre os quais o da criação da Universidade em Sergipe, fato que só se efetivaria em maio de 1968. Antes disso, a partir de abril de 1964, essas ações lhe valeram algumas "conduções coercitivas" junto ao quartel do 28ª Batalhão de Caçadores (28ª BC), uma das várias divisões do Exército Brasileiro.

A respeito dessa experiência, em setembro de 1998, ainda na condição de estudante do Curso de História, tive a oportunidade de entrevistá-lo, e ao perguntar-lhe sobre os significados do golpe civil-militar de 1964 tive a seguinte resposta:

"Olha, as primeiras 62 horas, foi uma depressão horrível.

Teve gente que foi presa logo no dia. Eu fui preso em

Maio. Ali não era somente o medo de ser preso. Acabou!

O ano parou... E agora? E agora? ... Vou voltar a apoiar

concurso de miss, as dez mais elegantes. Toda a alienação

da sociedade voltou. O que o movimento de política popular

estava começando a inibir, ficou um vazio!.. Ficou um

vazio! Um silêncio profundamente eloquente!"

Algumas décadas depois, aquele jovem estudante de letras, agente cultural e gestor público municipal, torna-se docente da então jovem instituição (UFS) – agora envolta com as comemorações dos seus 50 anos –, e junto com os demais segmentos da comunidade universitária (estudantes, técnicos e docente) participa da luta em defesa da autonomia universitária e da democracia como norte para o ensino superior e para o país.

Neste contexto, entre 1988 e 1992, após o resultado da consulta eleitoral junto à comunidade da UFS, ele assumi o cargo de reitor e cumpri, no contexto de transição política, o papel de consolidar os fundamentos e compromissos institucionais da universidade junto aos valores democráticos e de desenvolvimento humano, social, econômico e de inovação científica.

Eram tempos de (re)construção política, dos quais, pelo menos entre os anos de 1988 a 1989, pode acompanhar de perto, como trabalhador da equipe do seu gabinete, os esforços para manter a essência da Universidade Pública: o tripé ensino, pesquisa e extensão, a gratuidade e o compromisso com a sociedade.

Essa experiência, anos depois de meu ingresso como estudante no Curso de História na UFS, em 1993, resultou no desenvolvimento de pesquisas que desembocaram na minha tese de doutorado e na sua respectiva publicação, em outubro de 2017. 

Há! Já ia esquecendo, uma das razões desse encontro foi o de entregar ao professor Alencar o livro “Da autonomia à resistência democrática: movimento estudantil, ensino superior e a sociedade em Sergipe, 1950-1985”, que narra uma parte dessa e de outras histórias do ensino superior e do País a partir de Sergipe.

Enlaçada por essa breve narrativa, penso que a imagem, capturada na foto em tela, revele significados do encontro e de parte dessa História.

* Doutor em História Social (UFBA), Professor e atual Vice-reitor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/José Vieira

segunda-feira, 22 de março de 2021

Alencar, “O Infiltrado”, por Afonso Nascimento

Legenda da foto: Crédito de imagem reproduzida (com arte) do Facebook/Veldevan Noventa e postada elo blog para ilustrar o presente artigo.

Texto publicado originalmente no site DESTAQUE NOTÍCIAS, em 22 de março de 2021

Alencar, “O Infiltrado”
Por Afonso Nascimento *

Em um documento do serviço de informação do MEC (DSI), datado de 1979, chamado de “Infiltração nos estabelecimentos de ensino”, o seu autor de nome desconhecido faz balanço dos “infiltrados comunistas” em várias universidades federais, no rol das quais está a Universidade Federal de Sergipe.

Eis aqui os nomes dos supostos “comunistas infiltrados” da UFS: Clodoaldo Alencar Filho, Lauro Pacheco, Nilton Pedro da Silva, Stefânio de Faria Alves, José Alexandre Felizola Diniz, Moacir Soares da Motta, Walburga Arns da Silva, José Barreto Fontes, Ovídio Valois, Hélio Araújo Oliveira, Serapião de Aguiar Torres, Luiz Rabelo Leite, João Bosco Mendonça e Maria Thétis Nunes”. Deve ter causado surpresa a qualquer um de nós ler a inclusão do recém-falecido ex-reitor Clodoaldo Alencar Filho, um liberal, encabeçando essa lista de supostos “comunistas infiltrados” Nada direi sobre os demais listados porque não são do meu interesse aqui.

Preciso recuar no tempo para dizer que, em 1964, o professor Alencar foi preso e indiciado em maio daquele ano, acusado de subversão. Entre outras coisas, as acusações eram de que trabalhara como locutor do MEB e que fez três apresentações da peça “Eles não usam black-tie”. É verdade que trabalhava e torcia para o movimento que parecia vir e faria do Brasil um país mais justo e igualitário nos anos 60 do século passado. Foi libertado porque não havia provas contra ele. Em 1975, juntamente com o padre e professor da UFS José de Araújo Mendonça, Enivaldo Araújo e Augusto Prado Leite, o futuro reitor Alencar aparece em uma lista de pessoas, mais uma, que eram cogitadas para governar Sergipe, ou, em outra descrição do posto político, para ocupar cargo em futuro governo estadual. Os arapongas que escreveram o motivo da investigação podem ter cometido algum erro quando escreveram “cogitado” para os cargos de governador ou, quem sabe, secretário de Estado. Essas informações foram retiradas de documento do SNI em 1975, disponível no Arquivo Nacional.

Em 1976, ocorreriam eleições municipais e as eleições gerais só teriam lugar em 1978. Mesmo assim, foi feito o documento do SNI sobre os quatro “cogitados”. Os três primeiros receberam a avaliação de que poderiam ser aproveitados na administração sergipana, mas o professor Alencar teve a seguinte apreciação final: “não deve ser aproveitado”. Nas “observações” do avaliador era acrescentado que “os registros existentes dão conta de uma atuação intensa, em face da participação em diversos empreendimentos”.

É muito interessante observar o perfil feito pelo serviço secreto sobre o professor Alencar, que transcrevo aqui: “Posição ideológica: esquerdista – Atitude em relação à revolução de 31 marco de 64: contrário. Atividades subversivas: simpatizante. Probidade administrativa: não há registros. Eficiência funcional ou profissional: não há registros. Conduta civil: há registros negativos.” Pelo que sei e ouvi sobre o professor Alencar, ele era um tipo que circulava em diversos grupos, sempre expansivo, o cara que gostava de uma prosa. Acho que posso dizer que ele foi um administrador, um agente cultural e um intelectual.

E por falar em intelectual, como seu pai, o professor Alencar foi membro da Academia Sergipana de Letras, mas não deixou uma grande obra. Com efeito, só escreveu três livros, a saber, “As intemporais (Entrevistas e comentários), 1977”, “Etc. e tal (Folclore e memórias), 1980” e “Caleidoscópio (Crônicas, poemas, contos, ensaios), 1984” (Cf. Anderson Nascimento, livro sobre perfis dos imortais sergipanos). Em relação ao valor literário dos seus livros, deixo esse trabalho para os especialistas em literatura.

Em 1988, foi candidato e venceu a eleição para reitor da UFS. Durante a sua campanha, lançou uma “carta aberta à comunidade da UFS” na qual explica porque é candidato e porque resolveu fazer parte do processo eleitoral para defender a UFS, entre outras universidades federais, contra movimentos que visam a privatizá-la, a torná-la paga e a entregá-la ao governo estadual “para pulverizar, assim, o poder político das universidades e destruir cada vez mais a sua autonomia”. À exceção da ideia de estadualização das universidades federais, o seu discurso parece ser muito atual. Na visão de Clodoaldo de Alencar Filho, a universidade tinha de ser “pública, gratuita, competente, autônoma e democrática”.

Deixei para o final para dizer que, do pedido de informações do SNI de 1975 sobre o professor Alencar, enviado através de telex, constava o seguinte: “Enviar registros que caracterizem nominado como elemento esquerdista”. Não consigo imaginar quem tinha interesse em prejudicar a carreira do primeiro reitor da UFS eleito pelo voto direto da comunidade e referendado pelo Conselho Superior. Não é possível fazer a leitura da caligrafia de quem fez a solicitação de informação sobre o recém-falecido Clodoaldo Alencar Filho.

PS: Agradeço ao professor José Vieira da Cruz por permitir o acesso aos documentos consultados.

* É professor de Direito da UFS

Texto reproduzido do site: destaquenoticias.com.br

quinta-feira, 18 de março de 2021

Professor Clodoaldo de Alencar Filho

Legenda da foto: Imagem reproduzida (com arte) do site de Iran Barbosa e postada pelo blog para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente no site DESTAQUE NOTÍCIAS, em 16 de março de 2021

Professor Clodoaldo de Alencar Filho
Por Angelo Roberto Antoniolli*

A vida segue o seu rumo, traçado pelas próprias contingências do tempo, sem determinismos. Temos vivido momentos de angústias, sobressaltos, ansiedade, mas, também, de esperança, no mundo inteiro, em face da pandemia, que, desde o início do ano passado, assola e amedronta a humanidade.

No Brasil, há muito a ser feito, no caso do combate à pandemia. Tem havido desencontros. E mortes em números lamentavelmente alarmantes. Em Sergipe, não haveria de ser diferente. Entre nós, da Universidade Federal de Sergipe, alguns têm tombado nos últimos meses. Professores e técnicos administrativos. Aposentados ou não. A nossa família vai sendo desfalcada. A cada um (a) que se vai, é um pedaço da UFS que também se vai. É um pedaço de cada um de nós, que dela fazemos parte.

Todavia, não é só a Covid-19 que nos despedaça. A morte tem nos cobrado o seu tributo por outras causas também. No último sábado, 13, faleceu o eminente professor e acadêmico Clodoaldo de Alencar Filho, que foi reitor da UFS, de 1988 a 1992, no período logo após a queda do regime militar (1964-1985). Aliás, tivemos a honra de homenageá-lo no ensejo das comemorações dos 50 anos da nossa tão querida UFS. Foi, sem dúvida, um momento de emoção e júbilo.

Nascido em Estância, Alencar era formado em Letras/Inglês, pela Faculdade Católica de Filosofia, que seria incorporada à UFS, na sua fundação, e nos deixou aos 88 anos. Do casamento com a igualmente professora e acadêmica Aglaé D’Ávila Fontes, atual presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, deixa os filhos Del Alencar e Jean Marcel.

O professor Clodoaldo foi um ativista cultural dentre os maiores de Sergipe. Um homem multifacetado por tudo que fez na seara da educação e da cultura. A família Alencar, em Sergipe, a partir do patriarca, Clodoaldo de Alencar, renomado poeta, deixou um rastro luminoso. Quatro varões, o pai e três filhos (Alencar Filho, Luiz Carlos e Hunald) pertenceram à Academia Sergipana de Letras. O outro irmão, Leonardo, artista plástico, pertenceu ao Movimento de Apoio Cultural Antônio Garcia Filho da mesma Academia.

Alencar deu mais vida às funções que exerceu. Teve presença marcante por onde passou. Na Rádio Cultura de Sergipe, da Igreja Católica, no tempo de Dom José Vicente Távora, primeiro arcebispo de Aracaju, foi um diretor artístico inovador e criativo. Uma época de ouro para a emissora, no plano cultural. Promoveu eventos que sacudiram a sociedade aracajuana. Na Prefeitura de Aracaju, auxiliou o prefeito Godofredo Diniz (1963-1967), na área da cultura, sendo o idealizador da Galeria de Arte Álvaro Santos. Teve atuação importante no teatro e na imprensa escrita. Publicou os livros “As intemporais” e “Caleidoscópio”.

Na Universidade Federal de Sergipe, Alencar tornou-se um ícone nas salas de aula, admirado e respeitado pelos alunos e colegas. No CECAC – Centro de Extensão Cultural e Assuntos Comunitários, o seu desempenho foi inesquecível, a exemplo de sua atuação na dinamização do Festival de Arte de São Cristóvão. Foi pró-reitor de Extensão e, mais tarde, vice-reitor na gestão de Eduardo Conde Garcia (1984-1988), sucedendo-o.

Ao chegar à reitoria da UFS, Alencar Filho deu oportunidade a jovens professores e técnicos administrativos, agregando-os à sua gestão. Era um homem de temperamento afável, calmo, vivaz, bem humorado, que sabia como receber as pessoas com cordialidade, por mais exaltadas que elas estivessem.

Na administração da UFS, Alencar procurou melhorar a qualidade do ensino e internacionalizar as relações da Universidade, compreendendo, pois, o alcance da globalização nos processos educativos. Criou novos cursos de graduação, desenvolveu promoções de natureza cultural no campo das artes plásticas, cinema sergipano, música erudita, além de incrementar, ainda mais, o Festival de Arte de São Cristóvão. Por ele foi criado o Núcleo de Assuntos Internacionais e construída a sede do CODAP – Colégio de Aplicação.

Devemos ser gratos ao professor Clodoaldo de Alencar Filho por tudo o que ele fez pela UFS e por Sergipe. Que nunca o possamos esquecer. Que Sergipe siga em frente. E que a UFS reencontre o caminho da normalidade, inspirando-se na força produtiva do saudoso mestre.

*Professor e ex-reitor da UFS

Texto reproduzido do site: destaquenoticias.com.br

domingo, 14 de março de 2021

Clodoaldo de Alencar Filho

Texto publicado originalmente no blog EDUCAÇÃO HISTÓRIA E POLÍTICA, em 13/03/2021

Clodoaldo de Alencar Filho
 Por Jorge Carvalho do Nascimento*

Nos anos 70 eu era um jovem repórter no jornal Gazeta de Sergipe e recebi uma pauta para entrevistar o professor Clodoaldo Alencar Filho sobre o Festival de Arte de São Cristóvão. Fui até a sede do Centro de Extensão Cultural e Assuntos Comunitários - CECAC da Universidade Federal de Sergipe.

O CECAC funcionava na rua Itabaiana, no centro de Aracaju, em um antigo casarão, em frente ao quartel da Polícia Militar do Estado de Sergipe. Eu estava acompanhado pelo fotógrafo Luiz Carlos Lopes Moreira e era uma das primeiras vezes que ia à rua sozinho como “foca” obter informações e entrevistar alguém.

E não era qualquer pessoa. À época, para mim, Clodoaldo de Alencar Filho era uma espécie de “vaca sagrada” inacessível, um tipo de ícone da cultura sergipana. Um intelectual reconhecido. Jornalista, escritor, professor de Literatura Inglesa da UFS, teatrólogo, ex-diretor da Rádio Cultura de Sergipe, fundador e ex-diretor do Departamento de Turismo do Estado de Sergipe, idealizador e primeiro diretor da Galeria de Arte Álvaro Santos.

Ao chegar à antessala do diretor do CECAC fiz a minha apresentação. Pouco depois fui convidado a entrar. Confesso que estava nervoso, sem saber o que dizer a um homem tão erudito. Alencar estava sentado na cabeceira de uma mesa comprida conversando sobre o Festival de Arte de São Cristóvão com duas outras figuras que eram então marcantes na vida da UFS – o jornalista João Oliva Alves e a professora Albertina Brasil Santos.

Levantou-se, veio em minha direção, abriu um sorriso largo, estendeu a mão para um cumprimento e, em seguida, sem que eu esperasse, me deu um abraço de boas-vindas. Quebrou-se o gelo. Assim era Alencar. Percebeu o meu nervosismo e tomou a iniciativa de me deixar à vontade.

Fui convidado a sentar naquela mesa comprida, ao lado de João Oliva e Albertina Brasil, também duas figuras importantes da vida cultural de Aracaju. Serviu água gelada e café para todos nós. Conversava falando sobre cinema com os convivas. Oliva e Albertina se despediram e eu iniciei a entrevista com Alencar. Iniciei talvez não seja o termo apropriado. Percebendo que eu estava perdido e sem saber o que perguntar, ele dirigiu a entrevista.

Sua metodologia foi peculiar. Voltava-se para mim e dizia: você não gostaria de me perguntar qual o orçamento previsto para o FASC deste ano? Eu perguntava e ele respondia laudatoriamente. Em seguida, dizia: cairia bem uma pergunta sobre a concepção artística do FASC deste ano. Eu acatava a sugestão e ele respondia novamente. Foi deste modo que conversamos durante quase duas horas. Saí dali encantado com a simpatia daquele intelectual que percebeu a minha fragilidade e didaticamente, como sabem fazer os bons professores, mostrou o melhor caminho para desvendar o conjunto de informações que eu buscava.

Os anos passaram. Nos tornamos amigos. Em 1989, Clodoaldo de Alencar Filho era o reitor da Universidade Federal de Sergipe e o meu amigo Luiz Eduardo Oliva era Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários. Oliva propôs a Alencar o meu nome para assumir o cargo de Diretor do Centro de Cultura e Arte - Cultart da UFS.

Eu era mestre em História da Educação e professor do Departamento de História da Universidade. Alencar aceitou a sugestão de Oliva e numa reunião em seu gabinete me relembrou daquele nosso primeiro encontro, mostrando a sua prodigiosa memória. Comecei a trabalhar. Como diretor do Cultart coube a mim e a Luiz Eduardo Oliva, o pró-reitor que me chefiava, a organização do Festival de Arte de São Cristóvão daquele ano, justamente o FASC que fora objeto da minha primeira conversa com Alencar.

Trabalhei ao lado de Clodoaldo de Alencar Filho e de Luiz Eduardo Oliva até o encerramento do seu mandato como reitor. Aprendi muito com ambos. A melhor das lições que Alencar me ofereceu foi a da temperança. Era característica dele exercitar a paciência política.

Nos corredores da UFS contava-se que toda vez que Alencar recebia em seu gabinete um auxiliar que se mostrava mais exaltado, ele fazia com que a conversa ficasse mais comprida. Saía da mesa de reitor e sentava num sofá do gabinete ao lado do visitante. Pedia dois sucos de maracujá, água gelada e café. Ao final da conversa, depois que o conviva havia se acalmado, dizia uma frase que lhe era característica: “amigo, temperança... Bronca é arma de otário”.

Neste sábado, 13 de março, recebi a triste notícia da morte de Clodoaldo de Alencar Filho, aos 89 anos de idade. Tem alguns anos que ele sobrevivia com dificuldade de locomoção. Algumas comorbidades senis tomaram conta do corpo do brilhante intelectual que foi Clodoaldo de Alencar Filho.

Para mim ficaram as suas lições de vida, a admiração pelo grande intelectual que conheci e um extraordinário sentimento de gratidão. Vá em paz, meu querido amigo Alencar.

* Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.

Texto reproduzido do blog educacaohistoriaepolitica.blogspot.com

'Um Almoço com Alencar', por Paulo Roberto Dantas Brandão

Legenda da foto: Imagem reproduzida do blog clodoaldoalencar e postada pelo blog

Texto publicado originalmente no Perfil do Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, em 14 de março de 2021

Um Almoço com Alencar
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

Não lembro mais o ano, talvez 1990, ou algo assim.  Havia no Rio de Janeiro um seminário internacional de Política Econômica, organizado por Teotônio dos Santos.  Lá estariam diversos festejados economistas e cientistas sociais ligados à esquerda.  Revolvi ir, e consegui reunir alguns colegas.  Lembro que Paulo Barbosa de Araújo e Antônio Vieira da Costa foram comigo.  O seminário era no Hotel Glória, mas como era um cinco estrelas bem caro, ficamos no Hotel Novo Mundo, bem pertinho, e bem mais barato.  Outra lembrança é que naqueles dias, no Rio, estava fazendo um incomum frio.  Era um frio de rachar.

Lá no Seminário encontrei o então reitor da UFS professor Clodoaldo Alencar Filho.  Quando me viu, cumprimentou-me efusivamente.  E sempre que não estava em algum compromisso, estava lá batendo um papo comigo, e com meus companheiros.

No primeiro dia na hora do almoço, Alencarzinho me pegou pelo braço, e disse vamos almoçar ali.  O ali, era o Restaurante do próprio Hotel.  Seus companheiros de mesa, eram diversos dos intelectuais convidados para palestrantes do evento, tais como Ernest Mandel, economista presidente da IV Internacional Trotskista, e autor de “O Capitalismo Tardio”;  Enrique Iglesias, então diretor da CEPAL, Comissão Econômica para a América Latina, e entre outros que minha memória trai, estava Rui Mauro Marini, economista brasileiro que era professor da Universidade Autônoma do México.  Só aí fiquei sabendo que Marini havia sido casado com uma sergipana, e seus filhos moravam em Aracaju, que por coincidência eu os conhecia.

No outro dia, mais uma vez Alencar me convidou a almoçar.  Dessa vez sua mesa era bem menor.  Quem estava era simplesmente André Gunder Frank, celebrado economista desenvolvimentista. O alemão Frank foi um dos criadores da teoria da dependência, com o próprio Theotonio dos Santos, e foi autor do celebrado livro Acumulação Mundial que eu já havia lido.  Frank morou no Brasil, foi professor da Universidade de Brasília, a convide de Darci Ribeiro, e disse-me então que um dos seus filhos nasceu no Brasil.  Batemos um largo papo, graças a Alencarzinho.  Pude assim conversar com um daqueles caras que a gente ouvia falar, e de forma distante lá nos tempos da Faculdade.

Conheci o Professor Alencar ainda como repórter da Gazeta.  Ele era Assessor de Imprensa da UFS, e me recebia sempre com presteza e de forma cortes.  Depois eu fui para o Instituto Euvaldo Lodi, da Federação das Indústrias, que tinha como missão a integração universidade-empresa, exatamente quando Alencar era Reitor da UFS, e estreitamos ainda mais os nossos laços.

Só posso dizer que a morte de Clodoaldo Alencar Filho, um dos intelectuais mais festejados da nossa terra é uma grande perda.  Foi-se um grande sujeito.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

"Para sempre, Clodoaldo de Alencar Filho!", por Luiz Eduardo Oliva

Legenda da foto:  o último encontro de Luiz Eduardo Oliva com Alencarzinho há uns cinco anos: com Nilton Santana, Alencarzinho - de amarelo -, Nestor Amazonas e Zeza (José Vasconcelos).

Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em 13 de março de 2021 

Para sempre, Clodoaldo de Alencar Filho!
Por Luiz Eduardo Oliva (Opinião/JLPolítica) *

Recebo agora a notícia: o acadêmico Clodoaldo de Alencar Filho, titular da Academia Sergipana de Letras e ex-reitor da Universidade Federal de Sergipe, faleceu. Para mim, Alencarzinho. Para mim só não: para os da minha geração.

Não há como escrever os passos da cultura sergipana dos anos 60 a 80 sem se referir a Alencarzinho, sobretudo a cultura artística. Jorge Lins logo disse: “Mais um dos nossos bruxos que se vai. O mundo tá ficando mais pobre”.

Terezinha Oliva me diz: “Nossa! De quantas mortes teremos ainda que saber? Alencarzinho era o símbolo de uma UFS que abria caminhos, de uma Aracaju cultural instigante, de uma Rádio Cultura realmente preocupada com a cultura. Que pena! Mas ele descansou. Que descanse em paz”.

Nestor Amazonas viu nele um guia: “Uma referência para mim na cultura sergipana”. E wu completei: “Ele foi minha principal referência. No humor, na cultura, na visão alargada. Para sempre Alencarzinho”.

Alencarzinho nos anos 60 do século passado era o homem do teatro. “Eles não usam Black-tie”, de Guarnieri, não foi só sucesso nacional. Também com ousadia, foi montada pela SCAS com João Costa à frente, tendo no elenco Alencarzinho, Aglaé, que viria a ser a parceira e a mãe de seus filhos Del, queridíssima, e Jean Marcel.

Quando Godofredro Diniz foi prefeito de Aracaju nos anos 60 Alencarzinho foi o chefe do Departamento de Cultura da cidade, o embrião dos órgãos culturais.

Mas antes, no finalzinho dos anos 50, Dom Távora chegava para o primeiro arcebispado sergipano. Chegou aqui e Dom Helder Câmara no Recife.

Eram os dois maiores prelados brasileiros, que seguiam a doutrina de João XXIII, que se consagraria no Concílio Vaticano II.

Dom Távora se cercou das melhores cabeças da geração 50/60, e entre estas Alencarzinho e João Oliva. Então à João confiou o jornal A Cruzada e fundou uma rádio, a Cultura, e deu o comando artístico a Alencarzinho. Até radionovela aconteceu.

E nosso Alencar Filho, amigo que era de João Gilberto, o papa da Bossa Nova, o trouxe em 1960 para comemorar o primeiro ano da Rádio Cultura. João veio para fazer um show. Ficou um mês revendo a terra em que morou, estudou e aprendeu violão.

No início dos anos 70, para ser preciso, em 1972, o reitor João Cardoso da recém-criada Universidade Federal de Sergipe, por sugestão de João Oliva criou a comissão para o Festival de Arte de São Cristóvão.

Seria apenas uma comemoração do sesquicentenário da Independência. Alencarzinho foi quem deu o tom de um evento com dimensões nacionais. E o resultado é que é a festividade mais longeva da cultura brasileira.

Alencar criou o Grupo Expressionista de Teatro ao lado de Aglaé Fontes, formando uma geração de atores e atrizes sergipanos. Escreveu “As intemporais”, uma série de entrevistas quando atuava na imprensa sergipana.

Depois escreveu o “Caleidoscópio”, outro livro marcante. Tinha assento na Academia Sergipana de Letras. Foi pró-reitor de Extensão quando eu fui pró-reitor de Assuntos Estudantis no início dos anos 80 e depois reitor da UFS.

Um dia, em 1990, quando eu fazia mestrado em Santa Catarina, o então reitor Clodoaldo de Alencar Filho estava participando ali de um evento do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras - CRUB.

Visitou-me lá em Florianópolis e me disse: “Amigo, Tereza Prado está se aposentando. Quero que você volte para Sergipe para dirigir o Cultart - Centro de Cultura e Arte da UFS”.

Eu ponderei que estava concluindo minha dissertação de mestrado. Três meses depois, retornei. Fui seu diretor do Cultart e depois seu pró-reitor de Extensão. Desde então, não fui a mesma pessoa.

Não pelos cargos, mas por poder estar ao seu lado, aprendendo. Com ele, aprendi a grandeza de amar a cultura da nossa terra. Com ele, vi que viver é sobretudo saber levar a vida com muito humor.

Perspicaz, integrante de uma família altamente cultural - o pai, Clodoaldo, era poeta. O irmão Luiz Carlos, um intelectual do Judiciário, foi ministro do STJ - o ministro Fontes de Alencar.

O outro irmão, Leonardo de Alencar, foi um dos maiores artistas plásticos da sua geração. Hunald de Alencar, o Hunaldinho, era um poetaço. Alencarzinho era brilhante. Tinha uma cultura polimorfa.

Quando presente, virávamos satélite e ele o astro principal. Fazia humor da própria vida. Tinha uma deliciosa gargalhada. Era poeta. Foi ator, jornalista, escritor. O único professor do curso de Letras que foi reitor da UFS, bons tempos que um literato comandava nossa universidade.

Sim, Alencarzinho, presente! Alencarzinho, meu mestre! Alencarzinho, minha referência. Vá em paz amigo. Sergipe e sua cultura muito lhe devem. Para sempre, Alencar Filho!

* É advogado, poeta e foi pró-reitor da UFS na gestão de Alencarzinho. É membro da Academia Sergipana de Letras Jurídicas.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

A UFS comunica, c/pesar, o falecimento do prof. Clodoaldo de Alencar Filho...

Publicado originalmente na Fanpage do Facebook/Universidade Federal de Sergipe – UFS, em 13/03/2021

PESAR | A Universidade Federal de Sergipe comunica, com pesar, o falecimento do professor Clodoaldo de Alencar Filho, reitor da instituição no período de 1988-1992, e vice-reitor durante o mandato de Eduardo Conde Garcia (1984-1988). O sepultamento ocorre neste domingo, 14, às 10h, no Cemitério Santa Isabel.

Clodoaldo de Alencar nasceu em Estancia-se, formou-se em Letras-Inglês pela UFS e era membro da Academia Sergipana de Letras. Administrou a UFS com o propósito de melhorar a qualidade do ensino e internacionalizar as relações da universidade. Criou novos cursos de graduação, desenvolveu promoções de natureza cultural como Mostra de Artes Plásticas e filmes sergipanos, música erudita, além de incrementar o Festival de Arte de São Cristóvão. Criou também o Núcleo de Assuntos Internacionais.

Texto e imagem reproduzidos da Fanpage/Facebook/Universidade Federal de Sergipe - UFS
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Morre Clodoaldo Alencar Filho, ex-reitor da UFS

Legenda da foto: Clodoaldo Alencar Filho atuou, de forma decisiva, na cena política e cultural de Sergipe

Texto publicado originalmente no site DESTAQUE NOTÍCIAS, em 13 de março de 2021

Morre Clodoaldo Alencar Filho, ex-reitor da UFS

Morreu, neste sábado (13), o professor Clodoaldo Alencar Filho, 88 anos. Ex-reitor da Universidade Federal de Sergipe, ele nasceu de Estância (SE). Era filho do poeta Clodoaldo Alencar e de dona Eurydice Fontes de Alencar. Foi casado com a professora Aglaé D’Ávila Fontes, tinha dois filhos: Del e João Marcelo. A sobrinha Moema comunicou a morte do poeta pelas redes sociais: “Esse tio querido, lindo, inteligente, amigo e muito amado, desencarnou naturalmente hoje em casa. Que ele desperte com os seres celestiais, com a luz divina, com o Altíssimo e com seus irmãos e entes queridos. Amor, bem e gratidão, grande professor Clodoaldo Alencar Filho”. Seu sepultamento ocorrerá neste domingo (14), às 10h, no Cemitério Santa Isabel, em Aracaju.

Alencarzinho, como muitos o conheciam, foi um dos primeiros reitores eleitos da Universidade Federal de Sergipe no período de retomada da democracia brasileira. Formado em Letras Inglês, pela Faculdade Católica de Filosofia, Alencar Filho atuou, de forma decisiva, na cena política e cultural: no rádio, no teatro, na imprensa escrita e na gestão pública municipal de Aracaju na época do prefeito Godofredo Diniz Gonçalves (1963-1967), e, depois na gestão da Universidade como reitor eleito pela comunidade universitária (1988-1992). Foi secretário da Educação de Sergipe (1995) e fazia parte da Academia Sergipana de Letras. Clodoaldo Alencar Filho era irmão do ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça e ex-professor da UFS, Luiz Carlos Fontes de Alencar (1933 - 2016), do artista plástico Leonardo de Alencar (1940-2016)  e do poeta e teatrólogo Hunald de Alencar (1942-2016)...

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