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segunda-feira, 14 de julho de 2025

Lizaldo Vieira: A poesia e a ecologia servidas na bandeja


Artigo compartilhado do site RADAR SERGIPE, de 13 de julho de 2025

Lizaldo Vieira: A poesia e a ecologia servidas na bandeja
Por Luiz Eduardo Oliva *

"A cidade dorme, os sábios brincam de ver o perigo que ronda o entorno. Muitos vacilam, oscilam para o mal, a plebe inerte, nem sente, só a vida não cochila no reinventar dos arranjos do novo amanhã que não se cansa do porvir com águas puras e correndo nas nascentes tranquilas e torneiras que enchem o pote da população...” texto poético de Lizaldo Vieira

Um dos principais nomes dos movimentos ecológicos de Sergipe começou sua vida como garçom atendendo no gabinete do reitor da Universidade Federal de Sergipe no final dos anos 1970. Da causa de servir não mais abandonou, tendo incursionado em outras áreas até vir a falecer em 7 de julho deste 2025, aos 69 anos. Era Lizaldo Vieira, poeta, ambientalista e político. 

Para dizer desse garçom que abraçou a causa da ecologia é necessário remeter um pouco à década de 1980, onde havia um pujante movimento político e cultural dentro da Universidade Federal de Sergipe marcado pela resistência à ditadura militar, pela emergência de novas expressões artísticas e movimentos sociais e pelo início de um novo pensamento voltado para a redemocratização, para os direitos humanos e pelas primeiras lutas por um meio ambiente sustentável e socialmente justo.

Aquele ambiente universitário fez surgir lideranças inovadoras que ocupariam importantes papéis da vida sergipana e brasileira nos anos 90 até os dias atuais. Marcelo Deda, Edvaldo Nogueira, Luiz Alberto, Tânia Soares (primeira deputada federal por Sergipe), Abrahão Crispim, Clímaco, Samarone, Chico Buchinho, Bosco Mendonça, Edval Góis e Lizaldo Vieira são alguns. Os dois últimos começaram como garçons servindo no gabinete do Reitor Aloísio de Campos.  Servindo cafezinho e água logo ficariam atentos ao que acontecia ao derredor e não tardaram a se integrarem aos movimentos que ali acontecia. Edval hoje é o presidente do Partido Comunista do Brasil (PC do B) e Lizaldo migraria para o movimento ecológico onde descobriu o talento para a poesia. 

Acompanhei Lizaldo desde aqueles tempos.  Nascido em Siriri foi criado na Capela e depois migrou para Aracaju. Na sua Capela fica a conhecida reserva ecológica Refúgio de Vida Silvestre Mata do Junco ou simplesmente Mata do Junco cuja biodiversidade vive constantemente ameaçada. Lizaldo abraçou a causa foi um dos fundadores do Movimento Popular Ecológico de Sergipe (MOPEC). Integrou e coordenou o Fórum em Defesa da Grande Aracaju, iniciativa voltada para o planejamento urbano.   Era presença constante em debates, eventos e movimentos ligados à preservação da natureza chegando a integrar, a nível nacional a Coordenação Nacional da Rede de ONGs da Mata Atlântica.

Na política partidária, foi um dos fundadores do Partido Verde (PV) em Sergipe e depois filiou-se ao Partido dos Trabalhadores. Em ambos disputou o cargo de vereador, embora sem sucesso em razão de um eleitorado ainda clientelista e sem percepção para a importância em eleger lideranças dedicadas ao meio ambiente.   

Na Universidade Federal de Sergipe, além do garçom, também atuou administrativamente no Departamento de Direito, no Centro de Ciências Humanas, na Prefeitura do Campus, no Departamento de Administração Acadêmica, na Divisão de Patrimônio, no Centro de Educação a Distância (CESAD) e foi chefe do Horto Florestal. Além de suas funções administrativas, representou os técnico-administrativos nos Conselhos Superiores (CONSU e CONEPE) e integrou a diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos da UFS (SINTUFS).

Paralelamente, mantinha uma produção poética que refletia sua sensibilidade e seu engajamento social, frequentemente compartilhada nas redes e em apresentações culturais. Em 2023 publicou o livro de poesias “Travessia de um deserto” para denunciar o descaso da humanidade para as coisas do meio ambiente. 

De garçom para ambientalista não há muitas distâncias. O garçom serve a pessoas em pequenos ambientes. O ambientalista serve a todos os seres viventes no maior dos ambientes, o planeta terra.  Lizaldo Vieira, em momentos distintos, incorporou essas duas atividades com o mesmo zelo. Na bandeja da consciência entendeu que podia servir muito mais, numa luta que nunca cessa. Na última segunda-feira partiu calmo como viveu, embora fosse irrequieto na luta pelo que acreditava. Deixou um punhado de poemas e a lição de que servir à ecologia é servir ao imenso bar que é o planeta terra. 

* Luiz Eduardo Oliva - Advogado, poeta, professor e membro da Academia Sergipana de Letras Jurídicas

Texto e imagem reproduzidos do site: radarse com br

quinta-feira, 3 de julho de 2025

'Sergipe, de fato, é o país do Forró', por Luiz Eduardo Oliva

Foto: Divulgação/internet

Artigo compartilhado do site RADAR SERGIPE, de 25 de junho de 2025

Sergipe, de fato, é o país do Forró
Por Luiz Eduardo Oliva

Quando o falecido cantor estanciano Rogério (Pedro Rogério Cardoso Barbosa) - resolveu compor a música que virou o hino “Sergipe é o país do forró” teve muito mais de desejo com uma certa dose de vaticínio, do que demonstrava a realidade da época. O sentimento do forró e das festas juninas estava impregnado na alma sergipana, mas não necessariamente com o caráter de grandiosidade que tem nos dias de hoje.

Rogerinho (como é carinhosamente lembrado) percebeu que em Sergipe o forró se fazia presente não apenas em uma localidade, em uma cidade, mas se estendia por todo o estado. À época da composição as festas juninas estavam espalhadas por todo o Sergipe, com uma ênfase maior em Capela, Areia Branca e Estância. Mas eram manifestações simplórias, à base de fogos, fogueiras e quadrilhas improvisadas. Em Aracaju sequer havia o Forró Caju que foi criado no ano de 1993. Aliás a música de Rogerinho ao se referir a Aracaju, se reportou-se apenas ao tradicional logradouro que ainda é a rua de São João: “Quando chega mês de junho/Na Rua de São de João/O Forró vai começar/ Laiá, laiá”

Vou ao Google em busca das origens da música e me deparo com uma entrevista de Rogério na Infonet: “Pensei em tantas cidades, como na Paraíba, que só tem forró mesmo em Campina Grande; Pernambuco, que só tem Caruaru; e nós, aqui em Sergipe, temos umas 12 a 15, ou 20 cidades fazendo forró ao mesmo tempo no São João. Então, eu que sempre gostei do meu Estado, lembrei de Ivan Lins dizendo assim: ‘O amor é meu país. O meu amor é o meu país’. Então eu comecei a brigar pelo forró e dizendo a todo mundo que SERGIPE É O PAÍS DO FORRÓ, que era o meu sonho de que um dia acontecesse isso” (Entrevista a Waneska Cipriano em 23/06/2002).

A música tem somente duas estrofes que se repetem várias vezes e logo cai na memória de quem canta ou ouve. Interessante observar que o título da música é “Chamego Só” e não é “Sergipe é o país do forró” como é conhecida. Aliás o título da música aparece rapidinho no segundo verso da segunda estrofe: “É a noite inteira essa brincadeira, é chamego só” numa rima distante do primeiro verso “Sergipe é o país do forró”

O fato é que o sonho de Rogerinho virou realidade, e quem haverá de duvidar que Sergipe, de fato, é o país do forró? A festa junina cresceu e em várias cidades do interior criou-se o gosto pelo São João, tipo festa de largo, muitas vezes infelizmente, descaracterizando-a com ritmos que não condizem com o forró, com o baião, com a música tipicamente nordestina. Mas arrasta multidões dando lugar também ao “piseiro” e ao “arrocha”. Acrescente-se a suntuosidade que ganharam as quadrilhas, com brilho de evolução, guardando as devidas proporções, comparáveis às escolas de samba. "Exagero” haverão de dizer. “Grandiosidade e beleza” eu insisto em afirmar.

A grandiosidade aliás que se faz tanto no “Forró Caju” (esse ano espalhado nos bairros) como no “Arraiá do Povo” (criado inicialmente como a “Vila do Forró) iniciando já em meados de maio e perpassando por todo o mês de junho, com seus mega espaços, com a imensa quantidade de shows e artistas locais e de todo o país podendo-se inclusive comparar a megaeventos como o Rock in Rio e o Lollapalooza. “Exagero,” dirão mais uma vez os desprovidos do sentimento bairrista da sergipanidade. Mas eu reafirmo: não no país do forró!

Quem vê a festa sergipana, nas suas diversas nuances, em Aracaju ou no interior e não enxerga a grandiosidade que tomou o nosso forró, consolidando o sonho do grande Rogerinho (“era o meu sonho de que um dia acontecesse isso”) não sabe discernir o “estado de espírito” em que a música criada por Luiz Gonzaga e as manifestações tradicionais do ciclo junino transformam esse que é o menor estado da federação, em um verdadeiro país: Sergipe é de fato e de direito o país do forró!   

Texto e imagem reproduzidos do site radarse com br

domingo, 1 de junho de 2025

Cajueiro dos Papagaios e a etimologia da palavra Aracaju


Artigo compartilhado do site RADAR SERGIPE, de 17 de março de 2025

Cajueiro dos Papagaios e a etimologia da palavra Aracaju

Por Luiz Eduardo Oliva*

Cresci vendo um livro sergipaníssimo dentre tantos que meu pai ia enchendo sua estante. Era o “Cajueiro dos Papagaios” de um dos maiores intelectuais sergipanos, o médico (João Batista Peres) Garcia Moreno. Era um livro muito bem editado e impresso para os padrões da época – sem dever a nenhuma das grandes editoras do país -  sob a batuta da mais fantástica editora que em Sergipe já existiu, a Livraria Regina comandada por José Apóstolo Sobrinho.

O livro permaneceu na estante mal lido, a não ser pelo velho e bom jornalista João Oliva (à época era ele um jovem jornalista) que ao levar para a estante os escritores sergipanos nos conduziu ao gosto e ao pertencimento daquilo que hoje chamamos sergipanidade. Haveria também o neologismo “aracajuanidade”?

Recentemente recebi da diretora da Galeria de Arte Álvaro Santos, a produtora cultural Jaci Rosa Cruz, o convite para uma Roda de Conversa na programação de comemoração dos 170 anos de Aracaju: “Cajuístas, somos cajus em terra cajueiro? ”. Logo me ocorreu o velho livro do Garcia Moreno, para entender mais profundamente o que ele dizia da etimologia da palavra Aracaju. Por empréstimos o livro já não foi mais encontrado na estante ainda existente do meu pai. Recorri então ao site “Estante Virtual” e num sebo em São Paulo havia um único exemplar do almejado livro. Nem pensei duas vezes: adquiri.  

De cara, assim que me chegou a preciosidade, logo depois da “página de rosto” uma frase explicava “a melhor hipótese etimológica” para dizer o significado de Aracaju: “na língua dos primitivos donos da terra” Aracaju significa “Cajueiro dos Papagaios”. Nada mais que isso a não ser um punhado de deliciosas crônicas de uma Aracaju bucólica passando por Santos, Paris, Laranjeiras, Maruim, Itabaiana, Lisboa, Dakar.... Note-se que Garcia Moreno reconhece já nos anos 50 os hoje dizimados “primitivos donos da terra”. Valeu o livro mais pela leitura e menos pela já conhecida informação.

A rigor os estudos que apontam para o significado do nome de Aracaju vem do escritor baiano de Santo Amaro, Teodoro Sampaio (1855-1037). É na sua monumental obra “O Tupi na Geografia Nacional” (1901) no capítulo “Vocabulário Geográfico Brasileiro” que está a definição da palavra “Aracaju”. Lá a grafia da palavra está acentuada na última sílaba “ARACAJÚ”. A definição é lacônica: “Ará-acayú, o cajueiro dos papagaios. Sergipe”, nada mais.  Ao buscar, no mesmo dicionário, a palavra “Ara” encontra-se acentuada: “Ará: nome dos papagaios grandes (Psittacus) ”, ou sem acento “Ara: o fruto; o que nasce; o que se colhe” e no “Acaju” encontra-se o “Acã-yú, o pomo amarelo, o caju”. Logo a junção de “ara” com “caju” de fato significa “Cajueiro dos Papagaios”.

Há inclusive, uma explicação da razão do nome da cidade, que no 17 de março de 1855 Inácio Barbosa elevou-a à condição de capital, no mais lacônico dos decretos (dois artigos apenas) um dos quais determinante: “Fica elevado à categoria de cidade, o povoado do Santo Antônio do Aracaju na barra do Cotinguiba com a denominação de cidade do Aracaju”.

Conta-se que os primeiros moradores viam, no lugar onde hoje é a Avenida Ivo do Prado, antiga Rua da Aurora e carinhosamente chamada de “Rua da Frente” vários cajueiros em toda a sua extensão e alguns papagaios e araras pousavam nos galhos para comer e descansar. Daí o nome que une araras e papagaios ao delicioso fruto do caju: “Cajueiro dos Papagaios”. Somos seus frutos, “cajuístas”, nessa cidade que nos abriga e nos acolhe e que faz 170 anos nesse 17 de março. Como diz a poesia, “Ameríndios, europeus, africanos/Filhos e filhas do mar, do sertão, filhos baldios/Aracajuanos, matutos praianos/Astutos, ousados, arredios! ”

* Articulista Luiz Eduardo Oliva - Advogado, professor, poeta, e membro das Academias Sergipana de Letras Jurídicas e Riachãoense de Letras, Artes e Cultura.

Texto e imagem reproduzidos do site: radarse com br