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domingo, 9 de julho de 2023

Três anos sem Amaral Cavalcante: a vida lhe quis bem. E nós também!

Legenda da foto: Amaral Cavalcante: poeta, jornalista e cronista de um tempo

Publicação compartilhada do site JLPOLÍTICA, de 6 de Julho de 2023

Três anos sem Amaral Cavalcante: a vida lhe quis bem. E nós também!
Por Roseneide Santana*

Nesta sexta, 7 de julho, serão três anos sem o poeta, jornalista e cronista Amaral Cavalcante. No próximo dia 11 de julho, ele faria 77 anos. Foram apenas 8 meses entre a publicação do primeiro livro A Vida me Quer Bem e a sua partida.

Numa entrevista concedida à Segrase, ele comentou: “Estou feliz porque as pessoas da minha geração estão com meus escritos em casa para lembrar de mim e do nosso tempo”.

Recuperando aqui o delicioso texto desta semana do jornalista Antonio Passos, colega articulista também aqui do Portal JLPolítica & Negócio, eu pergunto: como esquecer um Titã?

Ainda mais um que compôs o quarteto fantástico da agitação cultural e do mundo das artes neste Estado, junto com a Ilma Fontes, Lu Spinelli e Joubert Moraes.

A única queixa que fiz em relação ao precioso livro do Amaral foi o fato de as orelhas terem saído com as letras muito miúdas e brancas, o que poderia dificultar o interesse pela leitura. Ei-las, então.

“Há pelo menos 30 anos que acompanho a produção escrita deste Estado e, obviamente, os textos de Amaral Cavalcante estiveram presentes nessa minha jornada de leitora: jornais, revistas, coquetéis literários, antologias e, mais recentemente, as postagens. Recebi dele um pen drive com quase 400 textos salvos de muitos emails, que trocou com leitores amigos, ou da rede social em que costumou postar nos últimos anos.

- Selecione aí umas 80 crônicas pro meu livro, ele disse. Olhei para o senhor de cabeça branca, mas vi o garoto da Folha da Praia, de rabo de cavalo, espírito realizador e inquieto, tentando me mostrar que sabia exatamente o que queria, mas duvidava de que alguém pudesse dar conta do seu intento. Muitas crônicas reescritas e ele não tinha vontade nem paciência de reler tudo. Quando tentou, gostou de algumas versões e não sabia qual escolher. Eu me lembrei do Gabriel García Márquez contando sua experiência de escrever um livro de contos, que durou 18 anos. Começou com 64 temas e, cada vez que lia, jogava fora alguns, até restarem 18, dos quais ele publicou 12: Doze contos peregrinos. Saber qual a melhor versão? diz Gabo: É um segredo do ofício que não obedece às leis da inteligência, mas à magia dos instintos, como a cozinheira que sabe quando a sopa está no ponto.

Entendi que precisava dar uma resposta rápida de sistematização e de compreensão do trabalho especial que me fora encomendado. Comecei, então, minha intromissão. A crônica “A Cascatinha”, por exemplo, tinha três versões. Em uma havia um episódio com o saudoso colunista Barrinhos; em outra, uma peripécia do Joubert Moraes. Já em “A morte da agenda velha”, reescrita quatro vezes, havia belas metáforas, detalhes que estavam em versões diferentes, mas não modificariam a essência da crônica se fossem reunidos em um só lugar. Primeira solução para o livro: fusão das versões.

Depois, a leitura foi apontando quatro partes mais ou menos definidas: memórias do menino, homenagens a figuras do seu convívio, causos e bares da cidade. Extraí das próprias crônicas títulos ou expressões para nomear essas partes: 1. No mundo doce de açúcares imemoriais; 2. A vida me quer bem; 3. Guardiã de inúteis segredos; e 4. De bar em bar.

À medida que  lia, avisei ao escritor: impossível somente 80 ou 100. Ele liberou até 150. Foi uma experiência sem igual. Parafraseando o Jorge Luis Borges, sinto orgulho do que li. Ao mesmo tempo sei, como leitora contumaz e ávida interessada na vida de escritores, que estive diante de um escritor. Amaral Cavalcante escolheu a crônica e escreveu sobre suas próprias experiências. Pode parecer arrogante se dizer um escritor por contar histórias da própria vida: o dilema para qualquer cronista.

Foi salpicando suas histórias aqui e acolá, mas relutou em ter sua capa/contracapa/orelha/prefácio. Graças ao bom Deus, mudou de ideia. Volto ao Gabo, após os 18 anos de labuta até publicar seus contos: “Aqui estão, prontos para ser levados à mesa depois de tanto andar de déu em déu lutando para sobreviver às perversidades da incerteza”.

De modo que, quando o Pirão de capão deixar de ser comida para ser poesia; quando “restar no quebra-queixo [de Joana Doceira] o gosto primordial da maravilha: o sabor das goiabas amassadas, um gosto de chão arrematado das frutas do quintal, maduras de preguiça e alumbramento”; quando o “herói da tarde” com sua “espada de pau” for acionado para destruir uma perigosa casa de marimbondos... sorria: você está sendo dominado pelas deliciosas crônicas de Amaral Cavalcante”.

P.S. No dia de hoje, em que uma tragédia tirou a vida do grandioso Zé Celso, trarei também o fragmento da crônica Augusto Franco, que infelizmente não entrou no livro, na qual Amaral deixou registrada a passagem estrondosa do renomado dramaturgo por Sergipe, em 1979.

“Ocorreu que o amaldiçoado Zé Celso Martinez, ícone da resistência cultural naqueles anos de chumbo, criador do Teatro Opinião e abertamente defensor da liberdade plena às expressões artísticas, estava excursionando pelo Brasil com um recital dito “orgástico e antropofágico”, bem ao seu estilo. Luiz Eduardo Costa, atento aos benefícios que essa pregação libertária traria aos artistas locais, consentiu em patrocinar, pela Subsecretaria, duas apresentações no Teatro Atheneu. O teatro encheu. No palco, tudo o que feria os brios dos milicos de plantão e que a censura vigente proibia, sob pena de cadeia, foi apresentado. Achincalharam os símbolos nacionais, jogaram uma melancia espatifada na cara dos expectadores provocando a imediata indignação da tradicional família sergipana, sem contar com os nus artísticos, tão surpreendentes quanto escandalosos. No outro dia, a caretice da cidade acordou em polvorosa! Fora! Fomos ultrajados! Não os queremos mais! Como é que uma repartição do governo patrocina este tipo de coisa? Nós, os funcionários da SUCA, começamos a arrumar as gavetas, aguardando a iminente demissão. Foi então que o governador Augusto Franco, convocando Luiz Eduardo Costa ao seu gabinete, deu-lhe as ordens: − Os meninos do teatro ficam e o Atheneu é deles, até quando eles quiserem. Sergipe é governado pela democracia. Vocês avaliem a grandiosidade do gesto!”.

Antônio Amaral Cavalcante - 11.07.1946 - 07.07.2020 - José Celso Martinez Corrêa - 30.03.1937 – 06.07.2023.

* É mestra em Letras e técnica em Educação da UFS. 

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br/articulista

quarta-feira, 13 de julho de 2022

'Amaral, esse adeus não dado', por Carlos Cauê

Publicado originalmente no Perfil do Facebook de Carlos Cauê, em 11 de julho de 2022

Amaral, esse adeus não dado.
Por Carlos Cauê

Digo num poema que a partida de Amaral Cavalcante não causou ainda a justa dor da nossa perda. Imersos na esquizofrenia do isolamento causado pela pandemia, deslocados por uma realidade inesperada, atônitos, começamos a naturalizar a morte. Milhares iam-se para sempre, todos os dias. E a gente numa janela esquisita da vida, máscara na cara, impotentes. Aí ele se foi. 

Era sete de julho e, a quatro dias dali, num 11 de julho que ele não viveu, faria anos. Não esperou. Cingido por “malinculias” que foram aos poucos lhe arrancando o costumeiro vigor e inquietude, o poeta ia das invasivas hemodiálises aos já incorporados cuidados com o diabetes e outros males, com a galhardia com que sempre trilhou seus quase setenta e quatro anos. As últimas vezes que fora lá em casa, já recusando as bebidas e os complexos manjares, pilotava uma cadeira de rodas, e ainda achava jeito de divertir-se com sua falta de senso de direção. Tirava onda da sua própria dor.

Olhos marejados, peito arfante, dor espetada pelo trajeto de décadas de convivência e cuidados, foi Samuel quem me trouxe a indesejável notícia. E foi com ele no carro, silêncio impedindo qualquer palavra, que acompanhamos o carro funéreo leva-lo. Num veículo atrás de nós, suas irmãs também cumpriam aquele trajeto de despedida. Cruzamos o Vaza-Barris pela ponte Joel Silveira, mas o que poderia ser um bafejo de homenagem era apenas o caminho fatal para o adeus.  

Numa rodovia erma de Itaporanga, ladeado apenas pelo nada, entregamos seu corpo ao crematório solitário que cumpriria as funções finais. Nem um último olhar no caixão, ninguém além da meia dúzia de gente que chegara ali, nem o choro merecido pela perda, nem a rememoração das espetaculares histórias que ele legou à cidade e às pessoas, nem suas crônicas, seus poemas, seus formidáveis maus-humores, sua genialidade sensível e visionária. Nada. 

O sorriso solidário e generoso do funcionário do local deu à cena torturante um pequeno alívio. E ele se foi. Nada mais havia a ser. Nem abraços, nem soluços, nem corpo baixando à terra. Apenas, novamente, o silêncio encravando aquele dia no para sempre até hoje.

Vou ao poema: 

(...) 

É como se não houvesses partido

Fizesses um feriado prolongado

Uns dias sabáticos

Um Hare Krisna de si

Tua partida definitiva

Ainda não mostrou a justa dor

Da nossa perda

Não há dia útil a te retornar

Ao expediente da vida

Praia de onde possas retornar

Campo

Montanha

Nunca mais virás

E a ausência da necessária dor

Põe à prova a minha humanidade 

(...)

Adeus, poeta.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Carlos Cauê

Publicação original no Facebook > https://bit.ly/3uFltUb

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

"Amaral encontra Cleomar", por Marcos Cardoso

Foto: Márcio Garcez

Publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil no Facebook de Marcos Cardoso, em 6 de agosto de 2020

Amaral encontra Cleomar
Por Marcos Cardoso

Assim que se abriu para ele o jardim dos justos, Amaral Cavalcante avistou pessoas que lhe pareciam familiares e ali perto um homem de barba grisalha numa cadeira de rodas folheando calmamente um livro.

- Cleomar! - acenou o poeta, vendo que o baiano lia uma antologia de Drummond.

- Negão! – alegrou-se o amigo cadeirante. - Estava te esperando...

- Você sabia que eu vinha?

- Fernando Sávio passou por aqui e espalhou a novidade.

- Fernando Sávio? – Amaral quase gargalhou, emendando com uma lembrança: - Quando lançamos em 1981 o Folha da Praia, Fernando Sávio era o nosso principal articulista, a novidade literária que orientou a empreitada por uma nova linguagem jornalística em nosso meio. Mas a sua mais inesquecível qualidade era a elegante malandragem, a entrega absoluta aos prazeres da vida; estas coisas que nos fazem eternamente amados e saudosos, porque nos mantêm na lembrança das ruas; elas que, verdadeiramente, detêm o poder de nos acenar com certa imortalidade. Fernando Sávio Brandão de Oliveira era, sobretudo, um boêmio consciente da sua genialidade, um homem emocionado com a própria capacidade de alumbramento, um escritor completo de humoradas convicções, um letrado de bem com a sua escrita e um amigo bom pra caralho! – Percebendo o que acabara de falar, censurou: - Soltei um palavrão. Pode?

- Aqui pode quase tudo, à exceção daquilo que mais nos deleitava, os prazeres da carne, a mesa farta e o álcool que nos fez homens felizes. Mas obrigado a você, Ilma Fontes, pelo teu estandarte de luta, por ter me mostrado, junto com Fernando Sávio, os caminhos aracajuanos que me guardaram, com zelo – respondeu Cleomar, em forma de oração.

Amaral pôs-se a falar: - A casa de dona Jenny, mãe de Ilma Fontes, era o nosso providencial aparelho. Mesa farta, sergipana, o belo cuscuz guarnecido, ora jabá, ao ovo estrelado em manteiga da terra para começar. O pão tostado na chapa, os biscoitinhos de fubá desmanchando na boca e a alva macaxeira com fiapos de lombo! Comer tão bem nos incitava à subversão, tramada sempre para depois do rango, que ninguém é de ferro!

Pensativo, Cleomar manteve-se contemplando os sergipanos: - Em minhas andanças de vida encontrei momentos difíceis e foi bem pesado saber administrá-los. Em compensação, essa mesma vida me propiciou momentos em que tudo valeu a pena. Depois de ter percorrido os caminhos do jornalismo intenso, nunca imaginei que justamente na terra que adotei de coração e pela qual sou visceralmente apaixonado, Sergipe, fosse ser alvo de algumas homenagens que até hoje, só em lembrar, provocam um aquecimento bem morno no meu coração.

- Amaral concordou lembrando de uma tarde vivida pelos dois: - Quando fui visitá-lo, acolheu-me uma mãe heráldica, cabelos brancos, em coque elegante, olhar percuto, postura juvenil: “Cleomar se acordou agora, mas ainda não quis sair da cama...” Saquei na hora. Nessa tarde modorrenta de sexta-feira, Cleomar mandara tudo à puta que o pariu e recolhera-se à lascívia dos lençóis, curtindo o cheiro do próprio corpo nu, desobrigado do fastio das “boas-tardes” protocolares e do cafezinho insosso na repartição. A visita foi curta, mas vi o que me interessava: um fauno saltitante em sua relva memorial, soprando na flauta a canção do seu destino. Absolutamente pagão e belo.

- Cleo fez um sorriso quieto de quem esconde um segredo prestes a revelar: - Com um giro lento de cabeça, ousei encarar a face da loba que resolvera chegar ao começo da madrugada uivando baixo e trazendo-me uma certa perplexidade gerada por aquela voz quente, rasgo de noturno verão, cheiro de doce perigo no ar. A mulher, quando é resolvida, fruta madura, sabe ter a esperteza da loba e sabe sobreviver sem matilha. – E prosseguiu, lascivo: - Nas madrugadas de amor e paixão, saber colher o fruto do suor amigo como o apanhador no campo de centeio. Visitar, como um velho viajante, planícies e dorsos da mulher amada. Palmilhar os quadrantes espalhados na pele morena da menina amada. Lembrar que a tua amada não sua: orvalha.

- Amaral revirou os olhinhos e suspirou como se ainda estivesse aqui: - Os cheiros guardam a senha da minha libido. É num sovaco exalando o fortum do sexo que eu gosto de descansar após o coito. Fico, ali, respirando o cheiro amante, como que revivendo o prazer da conquista, guardando na memória a mais secreta identidade do corpo amado no cheiro do suor compartilhado. Gosto de me enfiar sob lençóis para sentir o cheiro do meu corpo ou de apodrecer dois dias sem banho para curtir o azedume dele em podridões e ocultas putrescências. De vez em quando, nas mais assépticas ocasiões, cheiro disfarçadamente o meu sovaco para aferir se inda sou eu que estou ali.

Riram, alegres e infantilmente!

- O olfato, seguramente, é um dos sentidos mais marcantes na história de cada um – observou Cleomar. Parou pensativo e lembrou que o recém-chegado poderia trazer novidades: - Quero o chicote do salitre raivoso da maré de março estalando no lombo gorduroso dos que se envolveram em contas fantasmas e, hoje, espalham seus glúteos fartos nas cadeiras inquisitoriais das CPIs brasilienses enquanto tentam justificar as falcatruas cometidas contra o erário público!

Mas a lembrança do salitre desviou o pensamento de Amaral foi para outro assunto: - Minha tia Luizita morava na Praia Formosa, numa casinha deliciosa, com varanda para as croas, que se formavam na maré baixa, assim de maçunins e gorés. Do quintal delimitado por uma cerca de varas, via-se um imenso manguezal, de lama escura, quase sem vegetação, que se estendia até um sítio de manjelões, lá longe, onde depois construíram o Batistão. Foi lá que eu conheci o mar em companhia dos meus irmãos.

Cleomar quis voltar ao assunto: - A praia, que era Formosa, escurece suas águas e o cheiro fétido dos restos da “civilização” entristece as águas do rio. Pelo canal Tramandaí, dia e noite, todos os dias, a grande ameaça se expande, sem controle, sem alarde e, enquanto os automóveis circulam pela cidade de Aracaju e os empreendimentos imobiliários anunciam seus lançamentos em jornais e emissoras de TV, o rio sente um cansaço adormecer suas águas.

Amaral insistia com outras lembranças: - Queria viver perto do mar! Transferir-me para o sem fim da praia e escancarar-me ao sol da Atalaia. Queria deixar o mormaço da cidade, com suas ruas bêbadas de piche. A maresia grudada nos cabelos, mergulhar toda manhã sete ondas rasteiras, orando ao sortilégio da imensidão. Viver perscrutando o mar que banha a humanidade. Esse mundão de água e valentia, esse lugar de ninguém. Do mar, eu queria o sal da vida. Eu vivia bem em casa e o mar era meu moleque de recados:

- Vai ali à África levar notícias de mim. Ele ia.

- Corre, vai pegar um caramujo de sol, que eu quero assoprar. Ele pegava e voltava estrondando mundo aos meus pés: meu cão de espumas.

Cleomar: - Quem sabe, assim, a ira dos oceanos nos ajude a exterminar de vez os chacais e hienas mutantes que roubam e tentam se cobrir com o manto da impunidade perigosa.

Amaral recordou-se do menino de Simão Dias: - O mar, tão incompreensível para mim, ainda era uma quimera desconhecida e distante. – E reconheceu-se rebelde ao descobrir outras praias: - Era só descer do ônibus no terceiro ponto da praia 13 de Julho e embarcar nas canoinhas de tábua até o outro lado. O Colodiano, território sem incômodos da lei, oferecia maconha livre e grandes baratos. Era o território livre da contracultura dos anos 1970, bem ali, pertinho dos bem-bons da cidade, mas distante da repressão que nos incomodava.

Cleomar: - É assim que te guardo, Aracaju, compartilhando de cada momento vivido, de cada amanhecer que te visita, como se marcasses no coração da gente uma cumplicidade definitiva dos que te amam.

Amaral: - Algo noturno fez da minha cidade uma aldeia do mundo, eis que ficamos assim, simão-dienses. Ainda hoje, quando sonho com a casa onde nasci, é na cozinha onde a minha saudade vai parar. É lá onde reencontro a família cuidando de prover, com os cheiros do cominho e da hortelã miúda, a memória do meu paladar.

Cleomar lembrou de algo que um dia escreveu: - No intervalo da digestão, cada homem terá o direito de ler os versos de Thiago de Melo, ouvir sua música preferida, quem sabe até receber no rosto a visita de uma brisa da tarde com cheiro de manhãs esperadas.

Amaral: - Minha mãe Corina quis transformar aquela casa em hospedaria. Acho que vem daí, da compartilhada habitação na minha casa ancestral, a capacidade de conviver com pessoas diversas, a respeitar o espaço dos outros, a servir — com dignidade — aos que me solicitam e, principalmente, a me tornar transitável.

- E o que o poeta andava fazendo ultimamente?

- De tardinha, costumava ir ao sorvete. Botava um calçãozinho leve, pós-moderno, uma camisa churriada, que eu mesmo reabilitei aparando as mangas. Gosto delas assim. Dá um tom de bofeca-mas-não-tanto, que me delicia. E ia, luxento e faceiro, a meu Clair de Lune.

- Boêmio que é boêmio não vai somente a um bar um tempo inteiro. Caso aja assim, corre o risco de fazer parte da paisagem ou então se tornar referência do local.

Amaral prosseguiu: - Arquibaldo, também chamado, no Colégio Agrícola, de “Sarrabuio do Cão”, me descobriu lá. Inda me fiz de manco, numa retirada infeliz, que não deu certo. Ficamos, então, na sorveteria, frente a frente, pela eternidade de dois suspiros, até que Arquibaldo me fitou com a meiguice juvenil, que eu julgava perdida: — Tonho, eu me lembro sempre de você. E tocou, como um anjo remido, a minha infame cabeleira branca. A lua inchou em busca de horizontes e eu fui pra casa ouvir Debussy. A vida me queria bem.

- Vamos chegando – atalhou Cleomar e seguiram. À frente, avistaram Fernando Sávio e Barrinhos rindo com Hilton Lopes dizendo cocoré-bico-de-pato. Próximo, estava Araripe Coutinho declamando em voz alta o último poema e ouvido com emoção por Ezequiel Monteiro, Santo Souza, Joel Silveira, Hunald Alencar, Antonio Carlos Viana e Luiz Antonio Barreto.

Amaral lembrou-se do que disse certa vez sobre o mais culto dos jornalistas: - Luiz Antonio Barreto é uma ponte sólida entre a intelectualidade empedernida das academias e o batente fogoso da vida artística. Um elo (creio que insubstituível) entre a realidade cultural sergipana e os alfarrábios da história. Um homem que perseguiu a boniteza da vida com elegante nobreza e se findou respeitado pelo que acertou na vida. Mestre Luiz, guarde-me uma cadeira no cafezinho do céu.

Nem percebeu que atrás deles já vinham José Fernandes e Edgar do Acordeom se dirigindo a Ismar Barreto, que dedilhava um violão e era fotografado por Sidney Leite.

Assim é o céu.

*Citando por inspiração os livros “Os segredos da loba” (2009), de Cleomar Brandi, e “A vida me quer bem – Crônicas da vida sergipana (2019), de Amaral Cavalcante.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Marcos Cardoso

domingo, 12 de julho de 2020

Ave Amaral, Morituri Te Salutant

Na foto: Jorge, AMARAL, Cauê e Luciano - 2014

Publicado originalmente no blog EUCAÇÃO, HISTÓRIA e POLÍTICA, em 07/07/2020

Ave Amaral, Morituri Te Salutant                                               
Por Jorge Carvalho do Nascimento * 
                                        
Salve Cesar, os que vão morrer te saúdam. Assim os gladiadores reverenciavam o poder do Imperador de Roma antes que o combate fosse iniciado. O AVE vem do Latim e foi bastante utilizado no Império Romano para demonstrar alegria, regozijo e felicidade. Servia para cumprimentar uma pessoa de modo efusivo.

É assim que quero me dirigir ao amigo Antônio do Amaral Cavalcante, no triste momento em que ele se despede da vida nos deixando órfãos de inteligência, de fraternidade, de erudição, de agitação cultural. Amaral foi na vida, ao mesmo tempo, gladiador e imperador.

Sabia cobrar e ser ranzinza quando desejava executar os projetos nos quais se envolvia. Editor da revista cultural Cumbuca, no final do ano passado me telefonou falando com muita dureza porque eu deixei de cumprir o prazo de entrega de um texto. Doce, no dia seguinte mandou um motorista na minha casa entregar um bolo diet de laranja, para aplacar a minha mágoa pela bronca que me dera. O fato é que o corretivo funcionou e cuidei de fazer e enviar o texto no mesmo dia.

Exatamente por ele ser criativo, inovador e competente para realizar os projetos, o convidei, em 2013, para exercer a função de editor da revista Cumbuca, criada quando eu era presidente da Imprensa Oficial do Estado de Sergipe e resolvi, juntamente com o governador Jackson Barreto, publicar o periódico. Acertei em cheio. Amaral transformou a Cumbuca num sucesso editorial dirigido por ele até agora. A revista é um dos seus órfãos.

Receber um bolo diet de presente de Amaral me sensibilizava. Também eu gostava de presenteá-lo com este tipo de mimo. Afinal, ambos diabéticos. Todavia, receber o presente vindo de Amaral significava muito. O poeta era conhecido pela parcimônia nos gastos. De acordo com o nosso comum amigo professor Luciano Correia, quem quisesse saber sugestões sobre restaurantes baratos, bastava ligar para o jornalista fundador do periódico alternativo Folha da Praia. Mesmo assim, nenhum de nós dispensava os saraus que algumas vezes Amaral organizava em sua casa. A comida e o vinho, uma delícia. Responsabilizo os maledicentes amigos comuns jornalistas Luciano Correia e Carlos Cauê por esta má fama imputada a Amaral.

É difícil saber que estou perdendo um amigo plúrimo como ele, o poeta que encantou a minha geração. Quando eu o conheci na década de 1970, Amaral havia chegado aos 30 anos de idade, mas era de há muito um irrequieto agitador cultural. Tinha reconhecida a sua competência como intelectual, poeta, jornalista e cronista. Foi bom faze-lo amigo e ser por ele aceito em tal condição. Admiração e amizade que me levaram a saudá-lo quando do seu ingresso na Academia Sergipana de Letras.

O menino de Simão Dias, rebento de Corina Hora do Amaral e José Cavalcante Lima carregou para sempre as marcas educativas do matriarcado familiar e o convívio com os dois irmãos e as duas irmãs, dos quais foi apartado aos quatro anos de idade para viver em Itaporanga D’Ajuda com as tias-avós paternas, nas margens do rio Vaza Barris.

Ali foi forjado o grande poeta e cronista que conhecemos, o bom leitor. Sem ler bem ninguém escreve. Ali recitou com voz impostada os primeiros poemas e discursos festivos, angariando alguns trocados e abrilhantando os eventos sociais da cidade.

Voltou para Simão Dias, estudou. Saiu novamente, adolescente, para ser aluno interno do Colégio Agrícola, em São Cristóvão. Retornou a Simão Dias, onde concluiu o Ginásio. Fez política estudantil e foi liderado pelo padre estanciano Joaquim Antunes Almeida, o Padre Almeida. Fundou o Grêmio Escolar da instituição de ensino onde era aluno, ao lado de Clínio Carvalho Guimarães, sob a influência do seu professor de História, Lauro Pacheco. Concluiu o curso ginasial e foi o orador da sua turma. No tumultuado e tenebroso 1964 Amaral havia, já, vivido 18 anos. A dureza da vida se fez real. Mudou para Aracaju e o comércio foi a alternativa de trabalho que se apresentou, para garantir o próprio sustento e colaborar com a renda da família. À noite, frequentava as aulas do Atheneu.

Ao catapultar-se para Aracaju, na bagagem trouxe os primeiros poemas. Aqui se fez jornalista, escritor e gestor público. O poeta, jornalista, empreendedor e agitador cultural nos deixa. Um senhor de 73 anos de idade. Vida agitada marcada por um temperamento também iconoclasta. Aos amigos, todos órfãos, resta saudá-lo: “Ave Amaral, Morituri Te Salutant”.

* Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.

Texto e imagem reproduzidos do blog educacaohistoriaepolitica

Amaral Cavalcante: Engenho, Arte e Originalidade

 Crédito da Imagem - Edise Instagram Posts

Publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil no Facebook de Gustavo Aragão, em 8 de julho de 2020

No dia 07.07, o ilustre poeta, jornalista e agente cultural sergipano, Amaral Cavalcante, nos deixou. Rendo-lhe uma homenagem singela e sincera, que leu ainda em vida e que faria parte da obra mais recente dele. A Amaral minhas sinceras homenagens por toda a trajetória trilhada e pelas histórias que nos arrebatam e o imortalizam.

AMARAL CAVALCANTE: ENGENHO, ARTE E ORIGINALIDADE
Por Gustavo Aragão Cardoso*

 Ouvia falar, sempre, nas rodas de conversa com escritores e poetas conhecidos, aqui e acolá sobre os feitos e o talento indiscutível do poeta, escritor, jornalista e editor, Amaral Cavalcante, um dos mais emblemáticos nomes do movimento da contracultura sergipana e que marcou, definitivamente, o cenário cultural de seu tempo.

Sempre nos encontrávamos em alguns eventos culturais, em gráficas ou outros espaços da cidade, mas faltava-nos o contato mais aproximado. Foi quando, num certo dia, fui surpreendido com a ligação do Amaral me pedindo alguns poemas de minha lavra para serem publicados na Revista Cumbuca; um periódico extraordinário, editado por ele com extremada competência e esmero,  que cristaliza no tempo e no espaço nossas riquezas culturais; a Cumbuca é uma verdadeiro patrimônio cultural de nossa gente, uma vitrina para escritores já consagrados e para a nova geração de talentos sergipanos, que Amaral – com seu feeling apurado – revela-nos e permite-nos acessar. O convite foi recebido por mim como uma grande honraria.

Tempos depois, fui convidado pelo dileto amigo Mário Britto para participar deste projeto magistral, colaborando como revisor desta obra tão esperada, e que marca, de modo significativo, a trajetória iluminada desse artista plúrimo, que revela na diversidade de seus fazeres a sua genialidade. Foi um verdadeiro deleite para mim, escarafunchar, no reino surdo das palavras poéticas de Amaral, toda a sua magnífica destreza para construir e reconstruir universos, que ganham as linhas de sua crônica e brincriam o explícito e o implícito de modo único.

A crônica de Amaral Cavalcante – tecida com engenho, arte e originalidade – cumpre sua verdadeira função de trazer breves relatos, eivados de memórias, experiências, urdidos em linguagem singular, poética, suscitando reflexões, despertando emoções e sentimentos únicos; tudo isto nos permite dizer, com segurança, que Amaral Cavalcante configura-se como um grande cronista, quiçá, o melhor cronista de seu tempo, não deixando a dever nada a nenhum outro dos grandes figurões da crônica brasileira. Quem lê as crônicas de Amaral Cavalcante não sai ileso; lê-las é como fazer uma espécie de travessia.

* Gustavo Aragão Cardoso - Poeta, Escritor e Revisor. Membro-fundador da Academia de Letras de Aracaju e Membro do Movimento Cultural Antônio Garcia Filho/ASL

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Gustavo Aragão

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Amanhã É aniversário de Amaral Cavalcante.


Publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil no Facebook de Nestor Amazonas, em 9 de julho de 2020

Amanhã É aniversário de Amaral Cavalcante.
Por Nestor Amazonas

Nos anos anteriores, seguindo um ritual já antigo, ele fugia dos abraços e chamegos que a data pede. Mas este ano ele exagerou: primeiro deu susto, depois sumiu e então virou encantado. Coisa de poeta.

Mas não tem nada não, vamos dar o troco. Vamos pegar uma foto dele, botar numa prateleira antiga, daquelas que ainda existe em Simão Dias, lembrança do casarão de Seu Liminha e Dona Corina e começar um assustado, como antigamente, viu Tonho!

Vamos fazer comidinhas de dengo, acepipes que a alma traga por prazer.

Não vai faltar nada, desde as cocadas velhas de Joana Doceira, que você tanto gostava, até as batidas do Manequito. Os vinhos de qualidade, esta nova paixão senhorial, ficam sob a responsabilidade de Cauê e Mário Britto.

De sustança um Pirão de Capão, com batatas-do-reino e farofa de água com ovos desmanchados – lembranças dos almoços comemorativos da festa de Senhora Sant’Ana - comida farta e travessuras infantis que terminavam em castigo e cascudos. De sobremesa, a preferida dele – doce de perruche. Se você não sabe do que se trata, vá atrás, compre o livro A Vida Me Quer Bem, crônicas do próprio, que tem até receita.

Desconfio que deve existir uma festa num universo paralelo, desconfio é pouco...tenho certeza.

Como não imaginar a alegria da chegada de Amaral, arrastando sandálias e saudades, trazendo novidades no sovaco, onde repousa seu livro de crônicas? Na porta, Lu Spinelli grita...Chegou...Barrinhos comenta...tá elegante. Cleomar abre o sorriso e chama o garçom pelo nome...traz um copo para o Poeta. Deda, confabulando com Luiz Antonio Barreto e José Carlos Teixeira, acena a dizer...quero falar com você...Fernando Sávio, de braço com a cabrocha Dina, desfila orgulhoso todo, feliz com a conquista. Jorge Farone avisa para Cabo Tripa...o Old Eight é meu...Num canto, Nubia Marques engata um papo de léguas com João Oliva, isto vai longe...João Costa explica para Gilson Cajueiro de Holanda que babado não é bico e Hilton Lopes abraçado a Carlos Trindade, sentencia...cocoré bico de pato, quem refresca cú de pato é lagoa. Siomara Madureira não larga o braço de Amaral, quer saber de tudo e contar de tudo e mais ainda...uma grande festa, com certeza.

Esta festa, confesso, faz inveja `a nossa, também pudera, o aniversariante nos deixou sem aviso e partiu para o mistério da vida, onde não há culpa ou pecado.

Agora, livre das amarras do corpo, pode brilhar em sua plenitude, nos deixando prenhe de ideias, saudades e desejos.

Feliz aniversário, amigo, onde você estiver, aqui, nunca estarás ausente. A festa continua...

(Este post é uma construção coletiva de frases de autores do livro A Vida Me Quer Bem e lembranças dos que amavam e amam o Poeta Amaral Cavalcante)

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Nestor Amazonas

Amaral Cavalcante Poesia e Arte da Geração Oxente


Texto publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil no Facebook de Ribeiro Filho, em 7 de julho de 2020

Amaral Cavalcante Poesia e Arte da Geração Oxente
Por Ribeiro Filho

Faleceu na madrugada de hoje Amaral Cavalcante, o Poeta, ator de cinema, cronista, Jornalista e membro da Academia Sergipana de Letras. Amaral Cavalcante integrava nos anos de 1970, um grupo de jovens intelectuais que movimentavam cena cultural e artística de Aracaju, que se auto intitulava "Geração Oxente" Joubert Moraes, Mara Lopes, Mário Jorge Meneses, Fernando Sávio, Lu Spinelli, Ilma Fontes, João de Barros, Clara Angelica Porto,  Amaral Cavalcante na década de 1980 fundou o Jornal Alternativo Folha da Praia, o mais importante jornal voltado para as artes, e entretenimento. O Folha da Praia foi o impresso alternativo mais lido, por quase duas décadas. Amaral Cavalcante ocupou o cargo de Presidente da Fundação Estadual de Cultura - Fundesc no governo de Valadares.

O Folha da Praia era um jornal com linguagem moderna e vanguardista, se tornou o mais importante semanário, que circulava nas praias de Aracaju e nos meios intelectuais. O jornal que tinha distribuição gratuita, entrava em circulação nas praias no domingo e também era distribuído nos demais dias da semana no Calçadão da João Pessoa.

Amaral publicou livros de poesia, contos e várias crônicas que revelam traços marcantes do cotidiano da nossa Aracaju, nossos costumes, particularidades e os personagens mais inusitados da cidade. Em novembro de 2019 Amaral Cavalcante lançou o livro "A Vida me quer Bem".

Como ator Amaral participou do premiado filme "Sargento Getúlio", realizado no ano de 1983, dirigido por Hermanno Penna. O filme foi premiado como melhor filme, no Festival de Gramado. Atuou também ao lado de Erê Braz no filme "Arcanos" com a Direção da cineasta Yumah Ilma Fontes. Amaral participou tambem do elenco da minissérie da Globo "Tereza Batista" minissérie de Vicente Sesso, baseada no romance Tereza Batista Cansada de Guerra de Jorge Amado. A direção de Wálter Campos e Fernando de Souza, direção geral de Paulo Afonso Grisolli.

Atualmente Amaral estava levando adiante seu projeto editorial mais importante, ele era Editor da Revista Cumbuca, que através de temas culturais em debate, ele estimulava os intelectuais a escreverem sobre assuntos da cultura sergipana. A convite de Amaral escrevi um artigo sobre o artista plástico de Glória, Veio, que foi publicado na Revista Cumbuca.

Vai em paz grande poeta e cronista, a cena cultural sergipana se despede desse grande empreendedor cultural. Obrigado Amaral por sua contribuição para nossa arte.

Texto reproduzido do Facebook/Ribeiro Filho

"Si el poeta eres tú*", por Luciano Correia

Luciano Correia, Jorge Carvalho, Antonio Passos e Amaral no 
Programa Contraponto, que foi da TV Caju à TV Aperipê

Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em 8 de julho de 2020

Opinião - Si el poeta eres tú*
Por Luciano Correia * (Coluna Aparte)

Essa desgraçada pandemia, mais os afazeres que nunca me deixam e a rotina do poeta Amaral Cavalcante nas sessões de hemodiálise num hospital acabaram por me afastar do convívio dele.

Não sei como ele vinha encarando esses últimos meses em que, além da sombra da morte que ronda a todos, e em particular nós, brasileiros, o prenúncio de sua própria morte já se desenhava.

Há cerca de um mês despachei para sua casa um pesado pacote com dezenas de filmes e livros raros que, antes de propiciar seu próprio deleite, interessava especialmente a mim o resultado de seu olhar luxuoso sobre tais obras.

Filmes que não se vê por aqui nem nos Netflix dessa cultura pasteurizada, e livros que nos tocam nessa quadra da vida, na qual a perspectiva da morte é cada vez mais presente em pensamentos e palavras.

Dias antes, por telefone, constatei pela primeira vez no poeta um cansaço com a vida, o desânimo dos que estão saturados com o próprio calvário. Fiquei muito triste em ver aquele vulcão incontrolável, em vez de disparar sentenças e impropérios contra desafetos, ou engatar sua sonora gargalhada, reclamar, triste e soturno, da falta de ânimo para os papos e vinhos, nosso principal programa em décadas.

Talvez tivesse razão ele, sabedor de tantas alegrias e da história comum que escrevemos, nós e ele. Nós, vale dizer, foram os privilegiados que, como ele dizia, privaram da intimidade de sua cozinha. Foram milhares, quiçá milhares e milhares, as vezes em que invadi sua casa inacabada na rua jornalista Paulo Costa, carregando vinhos, cervejas e uma renca de amigos, como Sales Neto, Cauê, Rian Santos, Antônio Passos, Gilvan Manoel, Tonholeite e outros menos habituais.

Muitas vezes ele fingia que não queria aquela horda bárbara nos horários mais impróprios (leia-se: qualquer hora do dia ou da noite). Olhava pra gente com cara de zanga, mas deixando uma porta aberta para a farra: “E é?”. É poeta, já estamos na cozinha, pegue os copos. E pronto, seu sossego virava festa.

Às vezes acordávamos o poeta com gritos, chamados desaforados para um tipo tão carrasquento e de curtíssimo pavio. Amaral era, como eu brincava, o melhor mau humor da cidade. Isso porque, insultado, ou se achando assim, devolvia inicialmente com urros verbais, mas logo sua fina ironia, o humor cortante, obedeciam ao comando de sua rara inteligência e generosidade, que destruíam os argumentos contrários.

E, no final, ainda sobrava uma doçura que só ele sabia escavar, do fundo de sua aparente brutalidade. Assisti inúmeras dessas refregas ao longo da vida, desde as coisas simples do dia a dia, em brigas que acabavam em beijos no adversário, ou no campo intelectual, como da vez que brigamos, eu e ele, com Joel Silveira.

Guardo até hoje o bilhete do Víbora, com timbre no canto superior da lauda, dizendo, sobre uma furiosa nota que eu publicara na Folha da Praia: “você ainda vai engolir esta merda”. Engolimos, eu e Amaral, muitos desaforos dos que se sentiram atingidos por nossa verve destrambelhada.

Mas, seguros de que estávamos do lado certo, exercíamos tão somente nossa loucura santa. Misturo-me um pouco num texto sobre Amaral porque minha vida sempre foi misturada a ele, meu pai profissional, ao lado de outro também saudoso, o beat sergipano Fernando Sávio.

Foi no longínquo 1982, quando a Folha da Praia contava um aninho, depois de ler uma crônica minha, que ele me convidou para escrever no jornal. Ainda estudante de Jornalismo na UFBA, passei a ser colaborador daquele alternativo vibrante, que revolucionou o jornalismo impresso sergipano, sacudindo a poeira da caretice, retratando nas suas páginas a juventude dourada que desfilava na Praia dos Artistas naqueles verões da abertura, mas sem se descuidar de um papel político, abrindo espaço para centenas de colaboradores de oposição, dos diferentes matizes da esquerda. Era o nosso Pasquim, sem nada a dever ao semanário carioca.

A Folha, nossa bruta FDP, relevou talentos, influenciou a vida sergipana e ganhou respeito, dos extratos do poder local ao melhor (e pior) bas-fond aracajuano. No começo dos anos 2000, concebi e apresentei um programa na extinta TV Caju, o Contraponto, uma deliciosa conversa semanal que tinha como enunciado “o contraponto de tudo por quem não é especialista em nada”.

Eu, editor e âncora, suava frio e passava vergonhas semanais para segurar aquele touro descontrolado, ao vivo, sem cortes, botando em risco a própria continuidade de um programa irreverente e fora dos padrões locais. Nas suas falas, Amaral jorrava vulcões em frases, adjetivos e muito frequentemente nos interrompia, incluindo o apresentador, oferecendo diante do público seus carões e queixas. Das vezes em que trabalho e diversão eram a mesma coisa. Era um espetáculo, que comemorávamos depois em longas rodadas na sua cozinha, sem comidinhas ou tira-gostos, só vinhos e cervejas rolando até o dia amanhecer.

Em 1988, quando fui embora de Aracaju para Maringá, no Paraná, ele fez um bota fora pra mim na lendária casa da rua Luiz Chagas, na Atalaia, que reuniu a fina flor da cultura, da política e dos alternativos aracajuanos, incluindo Joel Silveira, já “de bem” com ele e comigo.

Foi nesta mesma casa que ele recebia artistas que vinham se apresentar em Aracaju, como Jorge Mautner, Moreira da Silva e as meninas do ballet Stagium. Essas últimas, depois de uma apresentação no FASC, ao chegarem na casinha da Atalaia deixaram encantado o compositor Nelson Cavaquinho, maravilhado com a energia e a sensualidade daquelas meninas lindas, um cruzar e descruzar de pernas que botaram o velho Nelson nervoso e “saliente” para os lados delas.

Depois que fui embora de Aracaju mais uma vez, por mais de cinco anos, entre o Rio Grande do Sul e a Espanha, nossos encontros ficaram esparsos, mas na volta, comandando a Fundação Aperipê, ressuscitei o Contraponto na grade de programação da TV, dessa vez sem minha participação, numa formação que incluía os “originais” Carlos Cauê e Antônio Passos, mais Jorge Carvalho, eventual apresentador nas minhas ausências.

Nessa época, Amaral já comandava na Segrase o interessante projeto de revista chamado Cumbuca, publicação que foi seu último mimo, refletindo nas suas páginas a diversidade vigorosa e alegre do editor. Na mesma Segrase, nos encontrávamos com frequência nas reuniões do seu Conselho Editorial, que integrei junto com o próprio Jorge Carvalho, João Augusto Gama, o juiz Anselmo Oliveira, Jussara Jacintho e Ricardo Lacerda.

Reuniões de ricos debates sobre literatura e história, temperadas com os trovejos curiosos do conselheiro Amaral, ora se derramando em amores, ora em ácidas considerações. Mais um momento em que trabalho e festa eram a mesma coisa, graças ao espírito luminoso de uma figura que paralisava os ambientes com um jeito peculiar de ser e de estar no mundo. É este o meu poeta Amaral Cavalcante que agora me faltará para sempre. * “Si el poeta eres tú” é uma canção de Pablo Milanés e que sempre que ouvia, lembrava de Amaral.

* É jornalista e começou sua carreira profissional escrevendo na Folha da Praia.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

Amaral Cavalcante, a vida lhe quer bem!


Publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 8 de julho de 2020  

Amaral Cavalcante, a vida lhe quer bem!
Por Lúcio Prado (Blog Infonet)

Amaral Cavalcante, que já sofria de insuficiência renal crônica, não resistiu aos novos tempos, no isolamento imposto pela pandemia. Não sei se vitimado pelo vírus ou pela solidão! Difícil imaginar ele em quarentena, apesar de que nos últimos anos tenha passado boa parte do tempo recolhido no seu templo da praia, entre plantas, quadros e livros. Resgatado pela Academia Sergipana de Letras e pelo comando da revista Cumbica, da qual era editor-chefe e que a tornou um modelo de publicação para todo o país, Amaral sempre foi um lobo solitário, mergulhado no âmago da sua inteligência profunda e nas contradições da vida. De caráter afirmativo e verdadeiro, dizia o que pensava e por isso chegou a incomodar muita gente, mas a vida lhe queria bem, apesar dos descuidos que tinha com a vida. Coisa de poeta? 

Amaral Cavalcante era da mesma idade do meu irmão Marcos e juntos eles revolucionaram a pacata Itaporanga da década de 50/60. Promoviam jograis literários, rodavam filmes, concursos de miss, para prestigiar as mocinhas da cidade, dos quais eram os organizadores e jurados (ele pegava as medidas do busto e o mano Marcos a dos quadris) e outras peraltices da adolescência. O velho casarão da família Dias era tipo um clube social da cidade, para sessões literárias e culturais e Amaral por lá sempre despontava, com sua inteligência e irreverência, brotando aos turbilhões. E eu, criança de calça curta, ficava com outros meninos da mesma idade, sentado em círculo, extasiado e alegre com todas aquelas manifestações. Mas a diferença de idade entre nós na época era grande, coisa de uns 12 anos e todas aquelas reminiscências ficaram para trás.

Do seu passado, Amaral evoca singela lembrança. “Entre as vastas, mais fugidias margens da memória, as cândidas molecagens nos poções do Vaza-Barris, em Itaporanga d’Ajuda, nadam, pescam siris ovados, camarões espertos. Coisas que o jereré da vida já não nos permite achar, nem sob o lodoso mangue desta cidade Capital – onde vim morar – nem nas gôndolas esquálidas dos seus supermercados. O privilégio da cidade era um rio habitando os quintais. O Vaza Barris cortava respeitoso as trilhas domésticas, como um inquieto horizonte de caudolosas possibilidades. Ele levaria às distâncias do mar a inquietude dos meninos, o zuadento thi-bum dos nossos pulos mortais, levando, lavando os sonhos mais pueris da meninada. Enquanto isso, ao cimo da ladeira do Sapé, o trem de ferro – outro rio a serviço das distâncias – enchia de carvão e fumaça o sonâmbulo destino da cidade. Um dia, todos nós estaríamos longe dali. Como seria o mundo além daqueles rios? Era ela, então, uma pequenina aldeia entre rios, ela mesmo um córrego fiel de silêncios familiares. Tão silenciosa que se podia ouvir nas tardes modorrentas, o alarido das crianças aos sustos e imprecações, provando em acrobáticos mergulhos os seus rituais de incipiente coragem e intrepidez.

O pai de Marcos, o seu Tonico (Antônio Conde Dias) era um grande cronista católico. Escrevia na A Cruzada. Era afável, bem humorado e inteligente. Permitiu que a casa dele se tornasse uma espécie de centro cultural, onde a meninada de Itaporanga podia ler jornais e revistas importantes, o Cruzeiro, Vida Doméstica, inclusive as femininas, de moda, como Burda e Marie Claire, assinadas por Dona Natália e, de vez em quando, nos concedia o beneplácito da sua opinião sobre a nossa incipiente literatura.

   Itaporanga permanece ainda assim, tão querida quanto indelével na memória, mas irreversivelmente aquática: será sempre um rio correndo em priscas eras, onde permanecem submersas as nossas armadilhas jererés.”

Anos depois, em Aracaju, nos reencontramos, dessa vez já adultos, ele envolvido em várias ações como agente cultural profícuo. Marcos entrou na Medicina e os dois nunca mais voltaram a se encontrar de forma regular, um ou outro, aqui ou acolá. Foi a minha vez. O surgimento do Madrigal de Sergipe, organizado pelo maestro Paulo César Prado,  deu a oportunidade de reencontrar Amaral com seu vozeirão afinado de barítono. Com ele, mais Durval e Clóvis, integrávamos o naipe dos barítonos. Foi um tempo inesquecível, com os ensaios aos sábados no Conservatório de Música. O Madrigal de Paulo César fez sucesso com várias apresentações em Sergipe, no Festival de Arte de São Cristóvão e em outros estados na década de 70. Foi a partir daí que passei a ter mais contato com Amaral. 

Nos verões da cidade formávamos uma confraria eventual, graças ao elo Armando Rollemberg (Armandinho) e Bosco Mendonça, que nos unia pela música, pela poesia e, podemos dizer assim, pela peraltice. Num desses encontros, ele colocou no papel uma singela prosa poética, denominada China Querida. Assim ele se expressou: 

“Chego em casa ainda com um pé nas nuvens e o outro no chinelo, arrastando histórias, levantando na poeira de outros tempos a memória de grandes amigos. Não sei por onde é melhor firmar o passo: se com o pé na escala sideral do bem querer que esta noite nos trouxe ou mais humano, na vereda fortuita dos gozos terrenos, digamos assim, da alma escancarada. 

           Ai de mim, escancarado na imensidão desses mundos, descompassado que sou e tão atrapalhado, se não me valesse a sua tranquilidade terrena – querida China – e a loucura santa do seu marido Bosco, este sim, guardião de antigas maluquices e amigo sempre, graças a Deus pra caralho. 

Você, mulher, viu Armandinho Rollemberg se desfazer bonito de amor como eu vi, quando Adriana cantou terna e desassombrada? Viu o olho dele soltando estrelinhas de São João? Durval, ninando o filho temporão, tão suave pai se abrindo em confissões? Viu iluminar-se como fogos de artifício, a voz de Lúcio Prado construindo guirlandas no ar e papoucadas, lindas, em derramadas pirotecnias? Viu, mulher?  Percebeu a firmeza do Comandante acostumado a perscrutar horizontes, viu como ele é pousado e sereno? Viajou no teclado daquele menino, ofereceu ao seu deslumbramento à mesa posta perfeita, ao vinho melhor nos aquecendo, rubras quenturas de amor incendiadas? Raramente se recebe assim a nós, as visitas de outrora. 

Anos depois, Amaral chega à Academia de Letras, com toda a sua irreverencia, numa linda festa de possee e discursos antológicos de Marcelo Deda, que fez o seu panegírico e do próprio recipiendário.  No entanto, absorvido por outras atividades que tomavam muito o seu tempo, pouco frequentava a Academia. Lutava pra editar com regularidade o seu “Folha da Praia”. 

Anos depois, em 2016, abria-se vaga para a Cadeira 36, com a morte do professor Acrísio Torres. Comecei a conversar com cada   acadêmico sobre a minha pretensão de sucedê-lo e fui pessoalmente à casa de Amaral, na Atalaia, na certeza de obter o apoio dele. Para minha surpresa, disse que não me daria o voto porque já havia se comprometido com outro candidato. Saí triste, decepcionado, tinha como certo o voto dele, por tudo que já havia relatado acima. Na véspera do dia da sessão, que aconteceria na segunda-feira, estava com a família terminando de almoçar no Restaurante Carro de Bois, quando o telefone toca. Era ele. “Dá pra você passar aqui em casa hoje à noite? De pronto, respondi: passo, mas só se for agora, estou aqui pertinho…Imaginei o que poderia ser. Por via das dúvidas, não queria deixar pra noite. Ele estava à porta da casa com um envelope na mão. “Fiz uma viagem no tempo, lembrei de seu pai e de sua mãe e, principalmente de Marcos”, e me entregou o envelope que identifiquei na hora. Abracei-lhe a sorrir e ele correspondeu com um sorriso maroto. No dia seguinte, em eleição bem disputada, fui aceito para a Academia com apenas dois votos de diferença…!

Depois desse episódio, ele esteve na minha posse na Cadeira 36 da Academia, um privilégio para mim, depois nos encontramos algumas vezes na Edise, a cada lançamento de uma nova edição da Cumbuca, que cheguei a colaborar atendendo convite dele, e por último no lançamento, na Galeria Mário Brito, do seu livro A vida me quer bem, cuja leitura foi meteórica e deslumbrante! Depois, nunca mais o vi! Ficou o vazio! Ficou agora o silêncio do poeta!

Texto e imagem reproduzidos do site:  infonet.com.br

Adeus Amaral, Adeus Poeta!, por Luiz Eduardo Oliva

Na foto um dos meus últimos encontros com o poeta, numa animada
conversa juntamente com Clóvis Barbosa. Amaral já estava em cadeira de rodas

Publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil no Facebook de Luiz Eduardo Oliva, em 7 de julho de 2020

Adeus Amaral, Adeus Poeta! 
Por Luiz Eduardo Oliva

Acordo com a notícia: morreu Amaral Cavalcante.  Inegável o susto e o sentimento.  É como se houvesse recebido um corte na minha própria formação e construção cultural, é saber que calou-se uma das mais brilhantes vozes da cena sergipana, o poeta, o jornalista, o cronista, o editor.

Ícone e referência de uma geração brilhante, a mesma geração do poeta Mário Jorge, da multifacetada Ilma Fontes, do grande compositor Alcides Melo, do artista plástico Joubert Moraes, do músico Marcos Chulé, da atriz Uilma Rodrigues, do cronista João de Barros, o Barrinhos, da bailarina Lu Spinelli, do cinéfilo Djaldino Mota Moreno, da jornalista Clara Angelica Porto, do poeta Hunaldinho Alencar, da historiadora Terezinha Oliva, do jurista Clóvis Barbosa...

Havia nessa geração o desejo de criar e o fez como qualquer outra geração do planeta, antenada, atualizada, talentosa, duma época em que a comunicação jornalística para além dos limites da cidade se fazia pelo fax e se esperava chegar a tarde para receber os jornais do Sul do país ou à noite quando as ondas médias do rádio possibilitavam uma melhor audição dos programas internacionais e com ele, o rádio, saber o que se passava no mundo em tempo real. A televisão estava só começando, mera repetidora com jornais somente no plano local.

No fim dos anos 60 "Vôos Mitos Coloridos" que na cacofonia formava "vômitos coloridos" disse muito daquela geração, uma antes da minha mas que pude beber e alcançar, como um privilegiado, tudo que aquela geração legou.

Amaral era então o poeta, o jornalista que ousou o mais significativo jornal alternativo de Sergipe, o Folha da Praia, uma mistura meio pasquim com tecidos iconoclastas fazendo uma inovação e abrindo oportunidades à escrita fácil sem as exigências do jornalismo engessado, onde até havia a crônica social em forma docemente irônica. Amaral foi a síntese disso tudo.

Como na música de Belchior, Amaral veio do interior (Simão Dias) “sem parentes importantes"  e trazendo na cabeça muito mais que uma canção do rádio e compreendendo que nem tudo era divino e maravilhoso. Morou em pensões, trabalhou como vendedor na livraria alternativa da Galeria Álvaro Santos, sobreviveu. Mas logo sua inteligência fulgurante fez dele uma referência: era o poeta. Mas o poeta que publicou de poesias somente um livro, depois de ter sido o primeiro vencedor do Concurso de Poesia Falada do Nordeste com o magnânimo poema "Romance da Aparição". 

Irriquieto, no início dos anos 80 escrevia uma coluna diferenciada no Jornal da Cidade chamada "Pique Geral" multifacetada, centrada nos costumes e fazeres daquela geração e que inspirou outras colunas como a minha "Artefatos" (Jornal de Sergipe) e a "Resenha" de Jorge Lins (Gazeta de Sergipe) a que juntos em doce ironia, cognominávamos de "colunistas não alinhados" numa referência ao bloco dos países não alinhados da época da guerra fria.

No surgimento das redes sociais Amaral fez do Facebook sua maior trincheira.  Ali com sua pena fina, com o deboche elegante, o uso inteligente do chiste, um estilo próprio e o domínio incomum da palavra, nos brindou com as mais deliciosas crônicas do cotidiano sergipano, trazendo reminiscências sobretudo dos efusivos anos 80, ou mesclando com sua contundente poesia.  Das crônicas veio "A vida me quer bem: crônicas da vida sergipana” o segundo e último livro dele, o seu canto do cisne, que teve a cuidadosa supervisão de edição de Mário Britto e lançado ano passado.

Também foi o editor da   "Cumbuca" a revista cultural da Editora Diário Oficial, única no gênero, uma válvula de escape para o registro da sergipanidade e da cultura sergipana.

Com a mesma engenhosidade com que escrevia suas crônicas Amaral resumiu sua geração:
“Somos uma geração etílica, nós convivemos nos bares, frente a frente na mesa de bar batendo papo, conversando, discutindo a vida e aprendendo, hoje ficamos mais a frente do computador”.  Aliás sou da geração que sequência a de Amaral e que, portanto, quando me dei conta já estava na mesma contemporaneidade.

Amaral merece uma biografia que, ao ter sua vida contada, contar-se-ia a história de uma das mais brilhantes gerações do fazer artístico inovador de Sergipe.

Nos últimos dois anos o poeta esteve em uma cadeira de rodas e recebendo com bom humor as sessões semanais de diálise e vivia sob os cuidados de Samuel, seu anjo da Guarda a quem chamava de filho.

Com sua morte na madrugada desta terça feira (07/07) se vai um importante pedaço da nossa cultura. Se vai Amaral Cavalcante em um instante tão triste do mundo, um instante de dor e advertência à humanidade pós Covid, um "instante amarelo" que é o título do seu único e marcante livro de poesia.

Vai levando poesias, um baú de recordações e toda a sua grandeza.

Vá com Deus poeta!

Texto e imagens reproduzidos do Perfil do Facebook/Luiz Eduardo Oliva

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Um adeus a Amaral Cavalcante

Foto: Carlos Cauê

Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em 07 de Jul de 2020

Opinião - Um adeus a Amaral Cavalcante
Por Edson Júnior * (Coluna Aparte)

Nesta terça-feira, 7.7, comecei o dia com uma daquelas notícias que a gente torce que seja uma brincadeira fora de época de 1º de abril - o dia da mentira -, mas que logo descobrimos se tratar de uma terrível verdade.

Na madrugada deste 7, o jornalista e poeta Amaral Cavalcante fez sua passagem para o plano celestial. Sentiu-se mal em sua residência, foi levado a um hospital, mas infelizmente veio a óbito.

O jornalismo e a cultura ficam órfãos desse genial cronista, que contava a vida como se ela passasse em frente ao leitor. Amaral transmutava as pessoas para a cena do que escrevia com um repertório vocabular simples e também erudito. Fazia-se compreendido por todos. 

Ninguém descreveu os movimentos de contracultura e as décadas de 70 e 80 como Amaral, mais um simãodiense de “peia” que brilhou em nosso Estado. Contou muitas passagens desse município, pródigo em talentos da cultura e da política.

Foi também ator, produtor cultural e fundador do jornal alternativo Folha da Praia, onde revelou brilhantes nomes do jornalismo sergipano e fez a alegria nos bares da Orla da Atalaia. A edição do jornal era presença certa nas mesas durante a cervejinha e o caranguejinho domingueiro.

O Folha da Praia era mais aguardado que os petiscos. Entre uma conversa e um gole de cerveja, os olhos bebuns, como periscópios, caçavam o entregador do jornal para disputar um exemplar. Muitas vezes a tiragem não dava para quem queria: chegava e acabava.

Mas o espírito coletivo de Amaral reinava e quem já tinha lido o exemplar cedia para quem estava na orfandade. E o Folha da Praia chegava para todos, como um milagre da multiplicação.

Amaral deixou obras escritas e muitas crônicas em seu perfil no facebook. Um espaço de abstração dos dias chatos. Várias vezes fugi de domingos modorrentos encontrando em Amaral um pouco de anarquia e breve licença da realidade. Sempre me recuperava com seus “causos”. E o dia ficava divertido.

Nosso poeta também integrou a Academia Sergipana de Letras. Tornou-se um imortal. Foi um sopro de alegria e de qualidade nessa confraria de letras que ele desfilou com galhardia e mérito.

Atrevo-me, sem receio, a dizer que ele não apenas foi honrado com a láurea, como fez a academia se sentir honrada com um membro de tão alto calibre, que como poucos conhecia a magia de articular letras, transformando signos em vida bem vivida. Um bruxo das palavras.

E uma de suas alquimias recebe o nome de Cumbuca, revista cultural com a assinatura e editoria de Amaral Cavalcante. Um espaço da sergipanidade, com o refino de quem trilhou esse caminho e o venceu.

“Desde o início procuramos pautá-la (a revista) em função de certa atemporalidade, abordando temas contemporâneos e registrando fatos notáveis da nossa memória cultural, de modo a remetê-la ao interesse dos leitores, agora e num futuro qualquer”, registrou o imortal em entrevista ao Jornal do Dia, edição de 14 de março de 2018.

É e no presente, ou "num futuro qualquer", que sempre encontraremos Amaral Cavalcante, seja em uma leitura, uma lembrança, ou um dia chato para buscarmos nele uma inspiração.

Amaral Cavalcante partiu mas está entre nós através do seu legado de vida, para que hoje e sempre possamos falar dos seus causos como ele os contou, sem tirar nem pôr. Vamos falar de um tal Amaral Cavalcante, poeta que fez da vida um lugar bom para passar os dias. Até breve, Amaral!

* É jornalista.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

A morte nos deixa órfãos de Amaral Cavalcanti

Imagem reproduzida do site da SEGRASE, e postada pelo blog
para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 8 de julho de 2020

A morte nos deixa órfãos de Amaral Cavalcanti
Por Ivan Valença (Blog Infonet)

É com imensa tristeza que registramos o passamento do jornalista e poeta Antônio de Amaral Cavalcanti, que nos deixou ontem de madrugada aos 73 anos de idade, vítima de um câncer miserável. Cavalcanti, natural de Simão Dias, veio para Aracaju ainda na pré-adolescência e aqui fixou residência. Trabalhou em diversos setores da vida pública, mas ficou conhecido como integrante do staff da SCAS (Sociedade de Cultura Artística de Sergipe). No comecinho dos anos 80 legou ao nosso público sua obra-prima, o jornal “Folha da Praia” que, com apenas duas edições, tornou-se o xodó do público leitor aracajuano.  Era impressionante a papelada que ele carregava na hora de editar o jornal. Dono de um bom humor fora de série, Amaral Cavalcanti carregava o “Folha da Praia” nas costas praticamente sozinho. O jornal, porém, foi um sucesso de público extraordinário. Poucos veículos impressos em Aracaju conseguiram o prestígio do “Folha da Praia”, embora sob a coordenação de um homem só. O próprio Amaral Cavalcanti. O jornal era um reflexo de sua personalidade, inclusive o retrato fiel do seu bom humor. Naquela época, estava nascendo o pedaço de praia que ficou conhecida como “Praia dos Artistas”. Amaral e mais uns dois ou três amigos chegavam na praia com os inúmeros pacotes contendo a edição daquele domingo.  Mal iniciava a distribuição e uma multidão o cercava em busca de exemplares.  Do “Folha” Poucas vezes se viu coisa parecida em Aracaju. Só não fazia compor os textos. Pelos próximos 15 anos, Amaral Cavalcanti era o faz tudo do jornal: de editor e revisor, a paginador, repórter e redator de matérias especiais. A ele juntou-se anos depois, um companheiro, chamado Samuel que o ajudava nas tarefas mais difíceis. Nos dias que antecediam a circulação do veículo, Amaral chegava na redação carregando uma pasta cheia de papéis riscados, amarrotados: eram as colaborações e todos que queriam ver seus textos publicados nas prestigiosas página do jornal “Folha da Praia”. No âmbito da Praia dos Artistas, Amaral era cercado por amigos e admiradores, todos atrás de um exemplar, que ele entregava com a maior satisfação. Foi uma rotina de quase 30 anos, desde que o jornal surgiu e foi apresentado ao pública. Amante das letras, Amaral era também um poeta de primeira linha. Chegar a publicar pelo menos dois livros, mas praticamente fugia das chamadas “tardes de autógrafos”. Geralmente, preferia aguardar os amigos e admiradores no interior da Livraria Regina, na Rua João Pessoa e ali punha se autografo. Quem, quisesse encontrar Amaral para troca de ideias agradáveis, era só procurá-lo no segundo andar do edifício da Cultura Artística. Nas noites de sarau, via-se Cavalcanti melhor trajado e recebendo com elegância e bom humor os associados da SCAS. Amaral praticamente conhecia todo mundo em Aracaju. Uma pena que se foi tão cedo, sem se despedir. Soube-se agora que ele era portador de um câncer que não largava do seu pé. Dono de um humor ferino, Amaral Cavalcanti, sem dúvida, vai deixar saudades.  Acrescente-se que nos últimos tempos, ele era o editor da revista “Cumbuca”, de caráter cultural, editado pelo Município.

Texto reproduzido do site: infonet.com.br