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sábado, 23 de junho de 2018

ALESE homenageia o poeta João Sapateiro

 Foto reproduzida do site: youtube.com

Foto: Jadilson Simões

Texto publicado originalmente no site Expressão Sergipana, em 21 de junho de 2018

ALESE HOMENAGEIA POETA POPULAR JOÃO SAPATEIRO

De Redação

No dia em que João Sapateiro completaria 100 anos se estivesse vivo, a Assembleia Legislativa de Sergipe prestou uma bela homenagem ao poeta popular sergipano. A deputada estadual Ana Lula, autora da propositura que permitiu a outorga, entregou nas mãos do filho do poeta, Joselino Franco, a homenagem da ALESE.

Artesão negro em uma sociedade onde os papéis eram fixos e, normalmente, intransponíveis, João Sapateiro driblou o destino prosaico e a obscuridade com sensibilidade e versos. Conhecido por todos pela poesia, mas também por sua inteligência e ternura, como bom artista proletário, João Sapateiro mirava para além da paisagem, e registrava com sagacidade crítica as desigualdades sociais que marcaram seu tempo e permanecem presentes até hoje.

“Na sua oficina, onde ele tecia o couro e contribuía para o andar de cada um, ele também tecia a escrita, com expressões poéticas. A poesia não só lírica, mas a poesia que expressa a vivência e o sofrimento cotidiano do nosso povo”, destacou Ana Lúcia.

Após agradecer a homenagem, Joselino Franco, filho do homenageado que representava a família durante a solenidade, destacou que seu pai foi homem simples. “Meu pai passou pouco tempo na escola, precisamente seis meses. Como era de costume, os filhos mais velhos precisavam cuidar dos demais. Meu pai teve que deixar de estudar e partiu para as fazendas para trabalhar”, destacou sobre a infância de João Sapateiro.

“Laranjeiras é uma cidade felizarda, pois meu pai deixou um legado gigantesco para aquela cidade. Nós, que fazemos a família João Sapateiro, vamos lutar para que este legado se multiplique”, finalizou Joselino, apelando às autoridades presentes que priorizem a literatura enquanto expressão artística e cultural.

TEATRO E EXPOSIÇÃO

Durante a homenagem, a Companhia de Teatro da ALESE emocionou familiares, amigos admiradores de João Sapateiro presentes, com uma esquete que remontou parte da vida do homenageado, permeado por muita poesia lírica e de crítica social.

A entrega da honraria marcou ainda o lançamento da exposição “João Sapateiro, nosso poeta popular”, que conta um pouco mais da sua história e de sua arte. Realizada pelo mandato democrático e popular da deputada Ana Lúcia, a exposição conta com nove banners, que ficarão disponíveis para serem expostos em escolas e outros espaços públicos.

SOBRE JOÃO SAPATEIRO

Nascido em Riachuelo, foi na cidade de Laranjeiras que o artista ganhou notoriedade, ao expor em sua sapataria aberta ainda na década de 30, versos que retratavam com sensibilidade as belezas da cidade, mas também a profunda divisão social de seu tempo.

Nascido em Riachuelo no ano de 1918, primogênito de muitos irmãos, João Carlos Franco foi mais uma criança trabalhadora de engenho e depois engraxate nas ruas de Aracaju. Iniciou-se na arte da sapataria pelas mãos de seu pai, em uma oficina instalada… na Rua de Laranjeiras. Em 1938, transferiu-se para a cidade onde viveria até o final de seus dias, 50 anos deles morando na Rua da Alegria.

Ali tornou-se João Sapateiro, mas foi em função dos poemas, que escrevia com letras sempre maiúsculas, proporcionais aos seus quase dois metros de altura, que João se fez mais conhecido.  João Carlos Franco usava sua sapataria para mostrar a todos os versos que escrevia, sempre em folhas de cartolina e papel almaço que cobriam as paredes de adobe da oficina. Personagem obrigatório da memória cultural de Laranjeiras, querido e admirado por sua generosidade e por seus versos, ganhou lugar na história de Sergipe.

Texto reproduzido do site: expressaosergipana.com.br

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

João Sapateiro

Imagem extraída do site YouTube e postada pelo blog "SERGIPE, sua terra e sua gente",
para ilustrar o presente artigo.

Texto publicado originalmente no blog Koka Laranjeiras, em 21/06/2016.

João Sapateiro
Por: Luiz Antônio Barreto

Laranjeiras produziu, como útero cultural de Sergipe, uma galeria de mulheres e homens que cobertos de glória deixaram seus nomes, estandartizados na memória social daquela que já foi a Atenas Sergipense, e, mais recentemente, Um museu a céu aberto. Assim como os nascidos em Simão Dias são denominados Capa bode, os de Lagarto Papa Jaca, os de Porto da Folha Buraqueiros, quem nasce em Laranjeiras carrega o “gentílico” de Caga Palácio. Alguns dos mais consagrados vultos daquela terra nasceram em outros locais de Sergipe, como é o caso da professora Quintina Diniz, que nasceu em Lagarto, e de João Silva Franco, nascido em Riachuelo. No entanto, a professora e o poeta foram legítimos laranjeirenses, na identidade com a terra e com o espírito dominante no casario assobradado que simbolizou, no século XIX, a riqueza açucareira de toda uma região banhada pelas águas do rio Cotinguiba.

João Silva Franco trabalhou duro para sobreviver. Negro, quase dois metros de altura, teve a vida marcada pelo sobrenome postiço. Profissionalizou-se como sapateiro, remendando o couro, trocando o salto, pondo meia sola nos sapatos da população, independentemente do poder aquisitivo de cada pessoa. Quem podia, é claro, comprava sapato novo, em Aracaju, ou em outra qualquer cidade do País. Mas, quem tinha dinheiro curto, e queria fazer bonito na festa de São Benedito, que é colada na festa de Santos Reis, encerrando o ciclo natalino, entregava seu sapato velho a João Sapateiro, estabelecido nas cercanias do Mercado Municipal. Discreto, mas de boa conversa, o sapateiro exibia na sua oficina de trabalho, folhas de papel pautado, repletas de palavras escritas em letras de forma, fixadas nas paredes e nos poucos móveis do seu canto laboral. Eram trovas, pequenos e longos poemas, que surpreendiam a freguesia. João Silva Franco passou a ser conhecido como João Sapateiro, e reconhecido como o sapateiro poeta.

O pequeno espaço de trabalho de João sapateiro foi, em Laranjeiras, um ponto de encontro, um daqueles lugares que reúne as pessoas para uma conversa animada. Farmácia e barbearia, no interior, terminam sendo locais atrativos, onde são formados grupos para as conversas, passando em revista os assuntos dominantes da cidade. Em Laranjeiras o Cartório de Antonio Gomes, a alfaitaria de Graquinho, e a oficina de João Silva Franco, ao lado da farmácia de Antonio Rollemberg, se constituíram em locais especiais, que assitiram a decadência econômica e cultural da cidade, sentindo o êxodo dos mais  novos, que saíam para estudar, e o desaparecimento dos mais velhos, arrancados da vida. Quando morreu Bilina, Laranjeiras chorou e o toque do Patrão da Taeira silenciou, até que Maria de Lourdes, também já morta, foi buscar o ritmo, as cores e a coreografia para continuar cantando: “Meu São Benedito, eu não quero mais c’roa, quero uma toalha, enfeitada em Lisboa.” Quando morreu Alexandre, os fiéis do culto negro tomaram nos braços o seu caixão e desfilaram pelas ruas laranjeirenses, elevando e baixando a urna funerária, num gesto simbólico da religiosidade dos afrodescendentes.

João Silva Franco viveu quase 90 anos, antes de morrer, placidamente, quinta-feira, dia 9 de setembro de 2008. Sua poesia, tal qual sua arte de consertar sapatos, é um patrimônio de Laranjeiras, um rico exemplo de criação, que nada fica devendo aos vates nascidos naqueles domínios, e que encantaram auditórios, animaram reuniões, motivaram saraus, e deixaram que a alma laranjeirense tocasse as palavras, dispondo-as com a beleza que é matéria prima própria dos poetas. João Ribeiro, Bitencourt Sampaio, entre os mais velhos, Edith Vinhas, entre os contemporâneos, foram artistas da lira, reinventando paisagens e sonhos, para ornar de sutilezas a vida, sem sempre bela, do cotidiano de uma cidade desigual.

João Silva Franco era um lírico, mas não cantava apenas o amor. Suas trovas estavam afiadas como navalhas, cortando com cada verso o tecido da realidade. Não calava diante das injustiças, mesmo quando a doçura de seu jeito simples e bom acolhia a todos. Numa de suas quadras, publicada na primeira antologia dos seus versos (Aracaju: Nova Editora de Sergipe, 1965), João Sapateiro corrigia a admoestação de São Paulo, que na segunda Carta aos Tessalonicenses exortava ao trabalho, como única forma de sobrevivência. O poeta, tomado de justa ira, tingiu as linhas do papel pautado com letras  grandes, todas maiúsculas  letras de imprensa, que diziam:

“QUEM NÃO TRABALHA NÃO COME
É CONVERSA MUITO FALHA,
PORQUE SÓ VEMOS COM FOME
O POVO QUE MAIS TRABALHA.”

Ele mesmo, trabalhador e poeta, glória entre os simples, da grande e rica Laranjeiras, fez do pé de cabra e do martelo, da faca afiada e do couro, um ofício fino, para embelezar os pés dos seus contemporâneos, como fez da palavra uma arma, manejada para criar beleza, com a coragem dos bons e dos justos. Os sapatos, gastos, se perdem, mas a poesia continua servida, nos livros que publicou.

Cântico
Aos Laranjeirenses

Minha terna  Laranjeiras,
Terra das lindas palmeiras,
Adoro tudo que é teu;
Admiro os belos prados,
E adoro os lindos trinados,
Das aves que Deus te deu.

O teu passado eu bendigo,
E adoro o “Bom gosto” amigo,
Aonde vou me banhar;
Adoro a meiga corrente
Que canta canção dolente
Andando em busca do mar.

Adoro a tua Matriz,
Aonde a velhinha feliz
Vai rezar o seu rosário;
Amo o teu belo Cruzeiro
Que lá no cimo do outeiro
Nos lembra o Monte Calvário.

Amo a tua marujada,
E adoro a Pedra Furada,
Que nos encanta e fascina!
Gosto da policromia
E da coreografia
Da Taieira de “Bilina”.

Amo os sinos  maviosos
E os teus jardins olorosos
Que te dão tanta beleza!
Amo as igrejas dos montes,
Amo as tuas velhas pontes
Que fazem lembrar Veneza.

Admiro o candomblé,
E o zabumba do José,
Torrentes de poesia!
Amo a face angustiada,
Da imagem cobiçada
Do Senhor da Pedra Fria.

Admiro a Matriana,
Aonde em fins de semana
O povo vai repousar;
E adoro o Barro Vermelho,
Que fez do rio um espelho
Onde vive a se mirar.

Eu gosto dos Penitentes
Que contritos, reverentes,
Rezam por todos do além.
-  E é com orgulho que falo
Na dança de São Gonçalo,
Que nos encanta e faz bem.
  
Eu adoro as procissões
Que povos de outros rincões
Não deixam de acompanhar;
E os teus velórios cantados
Que nos deixam encantados
Esquecidos de chorar.

Amo ao Samba de Tropelo,
Coco, Forró e Martelo,
Bacamarte e Batalhão;
E as tuas garotas belas,
Cantando trovas singelas
Nas rodas de São João.

Amo a vista deslumbrante,
E a brisa acariciante
Do morro de Bom Jesus;
O Serra-Velho, dioso,
E o mês de doloroso,
Que aos namorados seduz.

Adoro o teu céu de anil,
Amo o teu povo gentil,
Amo tudo que é de ti;
Eu amo os tamarindeiros
Eu amo os velhos coqueiros
Onde canta o bem-te-vi.

Admiro os Caboclinhos,
E os Negros do Rei  Raminho,
Lamentando o cativeiro;
E a cantoria bonita
Da turma de João de Pita,
No dia seis de janeiro.

Adoro os velhos sobrados,
Aonde em tempos passados
Se cultivava o lirismo;
E os bancos da Conceição,
Onde sentou-se a paixão
No tempo do romantismo.

Adoro a rua Direita,
Porque quanto mais se ajeita,
Fica bem mais sinuosa;
E o Alto do Xavier
Que mostra pra quem quiser,
O quanto és  majestosa!

Minh’alma também é louca
Por ti, cidade barroca,
Residência do saber;
Terra de João Ribeiro,
Meu amor é verdadeiro,
E te adoro até morrer!

 João Sapateiro.

Texto reproduzido do blog: kokalaranjeiras.blogspot.com.br