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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Zé Peixe, o herói das marés sergipanas

Foto compartilhada do Google e postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo.

 Artigo compartilhado do site ROACONTECE, de 26 de outubro de 2025  

O Peixe Homem das Águas de Sergipe, Nadando Entre Sonhos e Memórias

Por Emanuel Rocha*

Nas águas sergipanas, o homem-peixe deixou sua marca de luz, coragem e lembranças que desafiam o tempo

Na Semana da Sergipanidade, nada melhor que recordar a história de um homem que fez das águas o próprio lar e da coragem a sua bandeira. Zé Peixe, o herói das marés sergipanas, nadava entre o real e o lendário, desafiando ondas, correntes e distâncias com a leveza de quem nasceu para servir. Filho do rio e do vento, tornou-se símbolo de bravura e simplicidade, um nome que atravessou o tempo carregando a essência do povo de Sergipe: forte, destemido e profundamente ligado à terra e ao mar.

Nas margens do Rio Sergipe, nasceu um menino que parecia feito do próprio mar. Cada onda lhe sussurrava segredos, cada correnteza guiava seus passos, e cada mergulho se tornava uma lição de coragem. Chamaram-no Zé Peixe, filho das águas e guardião das marés, que desde cedo aprendeu que a vida se mede em braçadas e que a verdadeira grandeza se revela na harmonia entre o homem e o rio que o viu crescer

Em 1927, Aracaju respirava ao ritmo do Rio Sergipe. As águas refletiam o céu e carregavam histórias antigas, enquanto o vento trazia o cheiro do mar e o murmúrio das marés embalava a cidade. As ruas ainda eram de barro, as casas baixas, e o cotidiano se desenrolava entre mercados, barcos e redes estendidas ao sol. O rio corria livre, invadia cais e margens e parecia guardar segredos que só quem nascia à sua beira podia ouvir

Filho de Dona Vectúria, professora de matemática, e de Seu Nicanor Ribeiro Nunes , funcionário público, José Martins Ribeiro Nunes, o futuro Zé Peixe, era o terceiro de seis irmãos, cercado pelo riso e pelo burburinho da casa familiar. Entre o sol que brilhava sobre a água e o reflexo das nuvens correndo pela correnteza, ele aprendeu cedo a escutar o rio. Cada onda trazia uma lição, cada maré um segredo e cada barco, um convite ao sonho. Assim, de mãos pequenas e pés molhados, crescia Zé Peixe, menino do rio, alma moldada pela água, pela brisa e pelo infinito movimento das correntes que passavam diante de sua casa

Zezinho iniciou seus estudos no Jardim de Infância Augusto Maynard, fez o primário no colégio de Dona Glorianha Chaves, cursou o ginásio no Colégio Jackson de Figueiredo e concluiu o segundo grau no Colégio Tobias Barreto. Entre lições de livros e ensinamentos do rio, aprendia o equilíbrio entre conhecimento e coragem, entre o mundo escolar e o mundo das águas

Aos quatro anos, o menino que se tornaria Peixe já nadava como poucos. Bastava atravessar a rua Ivo do Prado e pular, onde o peixe se tornava mar. Acostumou-se a atravessar rios e canais, ir chupar caju no outro lado, na ilha, voltando indo e voltando a nado.

Nunca foi fácil entrar via marítima por nenhum dos extremos da ilha, mas para Zé Peixe isso não era problema. Com doze anos, conhecia como ninguém o movimento das areias no leito do Rio Sergipe, podendo conduzir com segurança as embarcações. Cada correnteza, cada banco de areia móvel era, para ele, um mapa vivo, uma partitura de águas que ele dominava com precisão e intuição

Sempre se encontrava com os mais pobres que viviam no mercado, mendigos e transeuntes que já eram fãs de suas aventuras marítimas. Sua generosidade era lendária: desde menino ajudava os desvalidos, doando o que tivesse ao primeiro que pedisse, dividindo parte de seus salários com os pedintes. Dizem os mais antigos que não havia outra generosidade igual e que Zé Peixe, mesmo com fama e respeito, jamais deixou de ser amigo dos humildes

Aos oito anos, quando aviões sofreram um acidente no Rio Sergipe, pegou seu bote, remou com coragem até o local e trouxe, firme, um bilhete do piloto para a Capitania dos Portos. O comandante o repreendeu severamente por se intrometer em assuntos de segurança nacional, mas o gesto marcou o início de sua fama entre os profissionais do mar e os curiosos da cidade, mostrando que, mesmo franzino, era forte, decidido e ágil, feito do mesmo sal que corria nas águas que o moldaram

Em 1938, com apenas 11 anos, o comandante Aldo Sá Brito de Souza, precisando de agilidade numa tarefa urgente, mandou que um marinheiro chamasse Zé Peixe. O marinheiro comentou o codinome dado pelo almirante, que logo se espalhou, consolidando para sempre o nome que o acompanharia. O almirante, embora repreendesse a presença do menino nas atividades da Capitania, às vezes o chamava quando era necessário seu conhecimento precoce das coisas do mar

Ainda menino, mas com a coragem de quem já conhecia o murmúrio das águas, Zé Peixe ajudou a Marinha em momentos de tragédia. Quando os navios Aníbal Benevólo, Bagé, Baependi e Arararaquara foram torpedeados na costa sergipana, ele participou do resgate, recolhendo corpos e auxiliando onde podia. Este serviço não se limitou a um ponto do rio ou da praia: esteve no Mosqueiro, na Atalaia Velha, em Nova e até no Pomonga, enfrentando o mar e a dor com a serenidade de quem sabe que cada vida perdida merece respeito e cuidado. Mesmo jovem, seu gesto de bravura e dedicação já prenunciava o homem que se tornaria símbolo de coragem, generosidade e amor pelo rio que o viu crescer

Ao completar 20 anos, por volta de 1947, José ingressou, por concurso, no serviço de prático da Capitania dos Portos de Sergipe. Ser prático é enfrentar o risco com mãos firmes e olhos atentos: receber navios nas águas abertas, guiá-los até o porto seguro e conduzir a saída, desafiando a barra que se levanta entre rio e mar. Mas para Zé Peixe, o trabalho tornou-se poesia em movimento. Cada navio tornava-se um parceiro de dança, cada onda lhe sussurrava segredos antigos e cada correnteza parecia obedecer ao compasso de sua experiência. Era como se o próprio rio o tivesse moldado, ensinando-lhe a escutar o murmúrio da água e a falar a língua das marés

Enquanto a maioria dos práticos subia nos barcos auxiliares, Zé Peixe seguia outro rumo, o da coragem e da entrega às águas. Na entrada ou na saída da barra do Rio Sergipe, saltava do navio, às vezes de alturas que atingiam 17 metros, como se descesse do céu ao abraço do mar, amarrava roupas e documentos à bermuda e mergulhava sem hesitar. Entregava-se às correntes, nadando com força e elegância, vencendo vento, maré e correnteza, desafiando o rio com a mesma naturalidade com que respirava. Braçada após braçada, percorria de 10 a 13 quilômetros ou mais, como se o próprio mar lhe tivesse confiado segredos ancestrais. E ele dizia, com a serenidade de quem conhecia cada onda: “A chave é seguir o rumo das águas, sem lutar contra elas.” Cada braçada, cada mergulho era lição de valentia, ritmo e harmonia com o mundo que o formou

Naqueles instantes, o rio e o mar não eram apenas elementos físicos, eram parceiros e adversários, e Zé conhecia cada recanto da barra como se conhecesse seu próprio corpo. Cada banco de areia móvel, cada variação da maré, cada sopro do vento costeiro, ele sentia e antecipava como música. Conduzia navios mercantes, de carga ou de passageiros, com a confiança de quem conversa com as águas e a precisão de quem dança ao ritmo das ondas. O rio e o mar, eternos companheiros, moldavam seus gestos, e cada manobra parecia poesia em movimento, escrita pelo corpo de Zé Peixe e pelo compasso das correntes

Zé Peixe nunca passava despercebido pelas ruas. Transeuntes admiravam sua presença serena e firme, e cada um tinha um jeito de chamá-lo: “Zé Peixe”, pelo rio que parecia correr em suas veias; “Zé”, com respeito e carinho; “homem do rio”, reconhecendo nele a alma das águas; ou mesmo “Zezinho”, sussurrado pelos mais íntimos, como quem celebra a ternura e a familiaridade de um amigo que nasceu do mar e das marés

A vida profissional de Zé Peixe reuniu feitos que beiram o lendário. Em 1952, dizem historiadores que ele salvou uma tripulação de remadores do Rio Grande do Norte após naufrágio junto à barra do Rio Sergipe, como se o próprio rio lhe tivesse emprestado braços, coragem e o segredo das águas. Além-mar, jornais e revistas se encantaram com seu modo singular de praticagem. Na Alemanha, escreveram sobre “o homem-peixe”, aquele que nadava dez quilômetros após o navio, tornando bravura e precisão quase em poesia, como se cada braçada fosse verso e cada mergulho, estrofe

Ao longo de sua trajetória, Zé Peixe recebeu condecorações que eram reflexo da alma que habitava seu corpo: a Medalha Almirante Tamandaré da Marinha do Brasil, a Medalha de Ordem do Mérito Sergipano e o título de Cidadão Sergipano do Século XX. Em 2013, o Museu da Gente Sergipana eternizou sua coragem em uma escultura em tamanho real, chamada “O Prático”, lembrança viva da lenda que caminhou, nadou e dançou com as águas, para que a nova geração jamais esqueça que existem homens feitos do rio, do mar e da poesia que corre entre eles

Mesmo com fama e reconhecimento, Zé Peixe manteve a humildade de quem conhece a força do rio e sabe que a verdadeira grandeza não se ostenta. Familiares lembram que autocarros de excursão paravam diante de sua casa para vê-lo e fotografá-lo, mas nada disso jamais perturbou sua serenidade nem desviou sua vida simples

Nos últimos anos, a memória começou a se apagar como a bruma que se levanta das águas ao amanhecer. Recolheu-se à sua casa, afastando-se dos navios que tanto amou e enfrentou silenciosamente a doença de Alzheimer

Em 26 de abril de 2012, num dia em que o sol brilhava mais do que de costume, refletindo em cada onda do Rio Sergipe, e as águas balançavam suavemente, ecoando agradecimentos silenciosos por tudo que Zé Peixe havia dado ao rio e à cidade, ele partiu. Aos 85 anos, a vida do homem-peixe se fundiu com as marés que tanto amou, como se cada correnteza o levasse para sempre em seu abraço eterno. Aracaju se fez mais quieta naquele instante, e o vento parecia sussurrar sua lenda pelas ruas, lembrando que há homens feitos de água, coragem e poesia, que jamais se despedem por completo

O governo decretou três dias de luto oficial em Sergipe, e sua história continuou a correr, lenta e firme, nas águas e na lembrança de todos que conheceram o homem que nasceu do rio, viveu pelo rio e agora se fundia com ele eternamente

Zé Peixe, filho do rio e do mar, homem que transformou seu ofício em gesto poético, fez da água mais do que um meio de vida, fez dela consagração, dança e lenda, um abraço eterno da coragem, da beleza e do mistério que corre entre as correntes. E é por isso que escolas, espaços culturais e a própria política deveriam enfatizar sua vida, lembrando às novas gerações quem foi este homem que, com serenidade e bravura silenciosa, salvou vidas, deu brilho ao rio e ao mar e levou o nome de Sergipe mais longe

Ele foi um herói diferente, brando e calmo, pacífico e generoso, cuja grandeza não se media em títulos ou fama, mas em cada braçada que atravessava correntes, em cada gesto que unia água e coragem, cidade e rio, homem e natureza. Que sua história continue a fluir como as águas que o moldaram, inspirando todos a reconhecer que o verdadeiro heroísmo também habita na gentileza, na coragem tranquila e no amor pelas próprias raízes

Zé Peixe, homem das águas, filho do rio e do vento, merecia mais do que recebeu. Seu nome deveria morar nas avenidas que guardaram seus passos, no leito do rio que embalou seus mergulhos e na ponte que une Aracaju à Barra como símbolo de coragem e entrega. Porque ele foi mais que um homem, foi correnteza mansa que salvou vidas e levou esperança. Mas o tempo, às vezes cruel, tenta esconder o brilho dos que nasceram simples e fizeram da simplicidade o seu maior dom. Ainda assim, o rio o guarda, o mar o chama pelo nome, e as marés sussurram sua história aos que sabem escutar. Pois heróis como Zé Peixe não morrem, apenas continuam nadando na memória do povo e no coração do Sergipe.

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* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor e Repórter fotográfico

Texto reproduzido do site: roacontece com br

sábado, 29 de abril de 2023

Zé Peixe: 11 anos que o homem se tornou um mito

Foto: Divulgação

Publicação compartilhada do site RADAR SERGIPE, de 29 de abril de 2023 

Zé Peixe: 11 anos que o homem se tornou um mito

O professor e historiador da UNIT, Rony Silva, relembra a história do exímio nadador sergipano.

José Martins Ribeiro Nunes, conhecido como Zé Peixe, nasceu no dia 5 de janeiro de 1927, em Aracaju. Ele cresceu em uma casa em frente ao rio Sergipe, aprendeu a nadar com seus pais, seu Nicanor Ribeiro Nunes e dona Vetúria Martins Ribeiro Nunes. O rio tornou-se parte significativa de sua vida, nele encontravam os encantos das brincadeiras juvenis e o desafio de atravessá-lo para buscar cajus maduros na outra margem. O professor e historiador da Universidade Tiradentes (Unit), Rony Silva, relembra a história do homem que se tornou figura folclórica sergipana.

Aos 20 anos, após concurso, iniciou o serviço de prático da Capitania dos Portos de Sergipe, exercendo seu ofício por quase meio século. Sua peculiaridade era a de ser um “homem-peixe”, ou seja, não se utilizava de barcos de apoio, mas nadar até os navios, subindo a bordo, guiando as embarcações para mar aberto. 

“Depois de conduzir o navio, Zé Peixe amarrava suas roupas e documentos na bermuda e saltava do parapeito da embarcação em queda livre de 17 metros até a água, nadava até 10 km para chegar à praia, e percorria a pé mais 10 km até chegar à sede da Capitania dos Portos. O único equipamento que às vezes utilizava era uma prancha, que o ajudava a deslizar nas ondas até as embarcações situadas à distância maior, muitas vezes passava dia e noite aguardando os navios apoiado na boia (12 km da praia) até que a maré favorecesse o desembarque”, conta.

“Foi nessa simbiose entre homem e rio, pele morena do sol e ondas esverdeadas, que Zé Peixe tornou-se uma figura lendária em Sergipe. O ‘homem-peixe’, mesmo já na terceira idade, continuava seu trabalho como prático, surpreendendo tripulações e comandantes que por vezes achavam-no louco. Somente aos 82 anos, enfermo sob os efeitos do alzheimer, Zé Peixe solicitou seu afastamento das atividades junto à Marinha”, explica.

A ilustre figura folclórica recebeu os devidos reconhecimentos de seus feitos que foram diversos. “Destacaria aqui a medalha do Mérito Serigy, e destaque nas mídias, tendo em vista que tantas vezes já salvara vidas ao mar. Sua estátua ocupa o lugar de destaque tanto no Memorial de Sergipe, quanto na entrada do Museu da Gente Sergipana. A obra no Museu da Gente Sergipana, retratando o momento de preparação para um mergulho, batizada de “O Prático” e feita de concreto armado modelado pelo artista visual Elias Santos, foi inaugurada em 25 de setembro de 2013”, ressalta. 

Entre as homenagens está o Espaço Zé Peixe localizado no centro da capital. “O espaço está abrigado no prédio do antigo Terminal Hidroviário Jackson de Figueiredo, que foi construído na década de 1980,e foi desativado com a inauguração da ponte Construtor João Alves. Também encontramos a estátua de Zé Peixe na Capitania dos Portos. Ele também recebeu a medalha Almirante Tamandaré por seus serviços na divulgação e fortalecimento das tradições da Marinha”, completa.

Zé Peixe faleceu em 2012, vítima de insuficiência respiratória. Ele viveu e morreu na simplicidade, e hoje está presente no folclore sergipano como um herói. Sendo uma figura conhecida, seu velório lotou a Igreja de São José com mais de 400 pessoas entre amigos, fãs, colegas e autoridades locais.

Seu jeito vigoroso, corajoso, independente e trabalhador sempre foram vistos como exemplos de caráter e de envelhecimento digno. Ao longo de décadas, foi tema de vários jornais, revistas, livros, entrevistas e reportagens televisivas, tanto nacionais quanto internacionais. Nas diversas homenagens que recebeu, o Instituto Banese fez uma biografia, intitulada ‘Amigo das Águas’.

Em seu último aniversário, Zé Peixe teve a oportunidade de estar presente na inauguração de seu busto na Praça dos Heróis, na Capitania dos Portos. 

Por Ascom/UNIT

Texto e imagem rproduzidos do site: radarsergipe com br

quarta-feira, 15 de março de 2017

Estátua de Zé Peixe, no espaço em homenagem ao mesmo, em Aracaju

Imagem contra a luz, da estátua de Zé Peixe, no espaço
em homenagem ao mesmo, em Aracaju/SE.
Foto: Lívia Marra/folha.uol.com.br/turismo
Reproduzida do Google.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A incrível história de um prático chamado Zé Peixe

 Crédito: Maria Odília/Arquivo JC.

Crédito: Jorge Henrique/Equipe JC.
Fotos reproduzidas do site jornaldacidade.net
Imagens postadas por MTéSERGIPE, com o
fim de ilustrar o presente artigo.

José Martins Ribeiro Nunes, mais conhecido como Zé Peixe (Aracaju, 5 de janeiro de 1927 - Aracaju, 26 de abril de 2012), foi um prático brasileiro que se tornou uma figura lendária no estado de Sergipe, devido a seu modo incomum de exercer sua atividade.

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Publicado no site portosma, em 26/03/2007

A incrível história de um prático chamado Zé Peixe.

Ele nasceu e mora em Aracaju e quase todos os 80 anos foram vividos dentro d’água, buscando navios.

Por Marcia Bindo, do site vidasimples.abril.com.br

Do alto do barco, dá para ouvir a imensidade de mar chamando. Uma voz macia, sussurrada. Ele apruma os pés na beirada, estende os braços para trás, estufa o peito e salta num vôo ligeiro. A água suaviza a queda, envolve-o com um abraço de boas-vindas. Está em casa. Logo os botos vêm chegando, como de costume, para fazer companhia na travessia.

Esta é a história de um peixe chamado José. Há mais de seis décadas ele passa a maior parte do tempo na água. Nada quase diariamente cerca de 10 quilômetros por dia, está habituado a saltar de navios de mais de 40 metros de altura e é capaz de façanhas homéricas no mar – mesmo com seus 80 anos. Zé Peixe, como é conhecido em Aracaju, é reverenciado por marinheiros dos sete cantos por sua humildade, bravura e profundo conhecimento das coisas do mar.

Uma lenda viva

E, como toda lenda, tem suas particularidades. Desde que começou a trabalhar no porto de Aracaju, Zé Peixe nunca mais tomou um bom banho de chuveiro. Para quê, se está sempre na água? Também quase não bebe água doce. Gosta mesmo é de dar uns golinhos de água salgada nos trajetos que nada. “Faz um bem danado à saúde”, diz ele.

Conhece como ninguém os segredos da Boca da Barra, onde o rio Sergipe se abre para o mar e bancos de areia se formam de uma hora para outra, colocando em risco as embarcações. Sabe a profundidade das águas pela cor e as correntezas pela variação de temperatura e direção do vento.

Zé Peixe é o prático mais conhecido do planeta. Prático é o sujeito que ajuda os comandantes a conduzir os barcos na entrada e saída do porto, orientando-os a manobrar com segurança. Sua presença é obrigatória em qualquer cais do mundo no momento de atracagem e saída dos navios. O que faz de Zé Peixe uma espécie rara é a maneira como trabalha: ele vai buscar o navio a nado, enquanto seus colegas recorrem a um barco de apoio. E, quando tira o navio do porto, em vez de voltar de barco ele zapt!, salta no mar. Faz assim: enrola a camisa, coloca junto com os documentos e os trocados em um saco plástico e amarra fi rme no calção; mergulha e volta para casa com braçadas elegantes, ritmadas, sem movimentar as pernas para não atiçar os tubarões. “Se for uma distância mais ou menos, o importante é não se afobar. O jeito é não brigar com as ondas nem ir contra a correnteza”, ele fala, sempre gesticulando suas nadadeiras.

Quando Zé Peixe chega ao porto é uma alegria só. Ele curva seu corpo para cumprimentar funcionários, marujos e capitães, como se os estivesse reverenciando. “Não existe ninguém como ele”, diz um. “Uma fi gura lendária de Aracaju”, afi rma outro. “Peixinho é um ídolo”, conta outro homem do mar.

É certo que o porto de Aracaju não é lá muito movimentado. Mas, por causa de Zé Peixe, ganhou fama internacional, espalhada por navegantes de fora que lá atracaram. “Os gringos me chamam de Joe Fish”, diz. Certa vez, um capitão russo de um cargueiro chegou a pedir que o detivessem quando estava para se lançar ao mar – achou que ele estava se suicidando.

Zé é peixe miudinho. Tem apenas 1,60 metro de altura e 53 quilos. Mesmo franzino, já realizou muitas grandezas. A maior proeza foi quando socorreu o navio Mercury, que ardia em chamas em alto-mar, vindo das plataformas da Petrobrás e com funcionários a bordo. Zé pegou carona num rebocador, ligeiro chegou ao navio e conduziu a embarcação até um ponto onde todos pudessem saltar e nadar para terra fi rme. “Eu só fiz o que tinha de fazer, compreende?” Ele não gosta de falar muito de si mesmo. “Por causa de sua condição física exemplar, ele conseguiu salvar inúmeras vidas”, conta Brabo, o chefe dos práticos, que há 26 anos convive com Peixinho. Em 1941, ele e toda a população de Aracaju viram na praia os corpos de náufragos de três navios bombardeados por embarcações alemãs na Segunda Guerra Mundial. A partir daí, ninguém nunca mais se afogou perto dele.

Maré cheia

Desde menino novo, Zé dá suas pernadas no rio Sergipe. Os pais, dona Vectúria e seu Nicanor, que ensinaram. De sua casa, era só cruzar a rua de terra para dar no rio. Em tempo de maré cheia, a água vinha bater na porta. Moleque arretado, José Martins Ribeiro Nunes aprendeu a atravessar o rio para chupar caju na outra margem do rio. Aos 12 anos já nadava muito bem. Sua casa era vizinha à Capitania dos Portos e logo foi reparado pelos marinheiros. De observar a destreza do menino, um almirante o batizou novamente – virou Zé Peixe. Quando chegou o tempo certo, com 17 anos, formou-se prático. Dos cinco irmãos, Rita era a única que acompanhava as peripécias a nado.

Naquela época, meninas não se banhavam no rio nem podiam sair andando com trajes de banho – só ela, no meio da molecada. Zé lhe ensinou tudo sobre o mar. “Ensinou também meus fi lhos e netos. Ele amarrava nos braços bóias de coco seco, que não afunda”, diz Rita, uma década mais nova, que de tanto nadar com o irmão levou o sobrenome Peixe.

Zé nunca saiu da casa onde nasceu, umas das mais antigas de Aracaju. Nem mesmo quando se casou, há mais de 40 anos (está viúvo há 20 e não teve filhos). Ajeitou uma casa para a mulher, mas não arredou o pé de lá – sempre estava cuidando de alguém da família, ora a mãe, ora um irmão enfermo. “Vou morrer aqui”, diz. “Mas só quando o capitão lá de cima desejar.”

Hoje uma avenida asfaltada o separa do rio. Quando não está no porto, Zé vai até lá para cuidar de seus três barquinhos de madeira ancorados. “Se não tiver um barquinho pra brincar fico doidim.” O casebre por fora é pintado de branco, mas dentro é todo azul. Está entulhado de cacarecos que juntou pela vida, entre eles títulos e medalhas. Não joga nada fora e não gosta que arrumem sua bagunça. Tudo remete ao mar: miniaturas de barcos espalhados pelos cômodos e desenhos de lápis de cor grudados nas paredes. E muitas imagens de santos católicos. Quem chega da família já vai pedindo a bênção. E tem também quem chega para pedir uns trocados. É que Zé costuma distribuir seu salário aos pedintes. Velhos pescadores que não podem mais trabalhar, desempregados e inválidos conhecem de perto sua bondade.

Espécie rara

Mesmo aposentado há mais de 20 anos, Zé Peixe continua trabalhando – por gosto. Acorda cedo, com o escuro. Não tem hora certa para trabalhar. Depende do fluxo de navios no porto. E das marés. Acostumou seu corpo a comer pouquinho, porque barriga cheia não se dá com o mar. Dá gastura. De manhã, basta um pão com café preto. E, depois, só fruta. Quando passa o dia inteiro no porto, faz jejum. O doutor já confi rmou: Zé tem coração de menino. Nunca fumou nem bebeu. Seu vício mesmo é o mar.

Se não está a pé, está com sua bicicleta. Sempre descalço. Só usa sapatos aos domingos, para entrar na missa, ou em ocasiões especiais. “Teve uma época que, para não fazer feio, o danado andava com um sapato. Um dia descobri que o sapato não tinha sola”, confessa o amigo Zé Galera. “Ele é o único que tem autorização para andar maltrapilho no terminal marítimo, sempre de bermuda acima da cintura e pés no chão. Por ser uma raridade, um cidadão totalmente fora do padrão, ele virou uma exceção às regras”, conclui Galera, que aprendeu a nadar com ele aos 6 anos e hoje é seu companheiro na praticagem.

“Ele é meu herói”, diz o deputado Fernando Gabeira. Quando estava exilado na Alemanha, o deputado viu uma reportagem sobre Zé Peixe. A história do bravo nadador chamou sua atenção. Quando retornou ao Brasil, foi conhecer de perto o tal sergipano. “É uma figura extraordinária. Tentei fazer um filme sobre a vida dele, mas ele não quis”, conta.

Zé viveu numa época em que não havia carro nem televisão. Viu o manguezal sendo aterrado e os navios minguando com o impulso rodoviário da década de 50. Enquanto Aracaju é tomada por edifícios e shopping centers que vão transformando os horizontes da cidade, Zé Peixe ainda ensina aos sobrinhos e aos filhos destes os mistérios do rio e do mar. Dizem que o mar não estará para peixe em algumas décadas. Enquanto isso não acontecer, Zé Peixe continuará nadando por lá. E como sempre, ao emergir do mar, fará um pequeno sinal na testa, agradecendo por mais um dia na água.

Texto reproduzido do site: portosma.com.br

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Um espaço para um mito sergipano!

 Zé Peixe em um de seus mergulhos à serviço, no Rio Sergipe.
Foto: Jornal do Beltrão.

Estátua no Espaço Zé Peixe.
Foto: divulgação.

Publicado no Blog do Celi Hotel, em 21 de maio de 2015.

Um espaço para um mito sergipano!

Todo lugar guarda suas histórias, suas lendas e seus mitos. Aqui em Sergipe não é diferente! E esta semana um mito sergipano dos dias atuais recebeu uma grandiosa homenagem: um espaço de turismo com seu nome. O antigo terminal hidroviário de Aracaju, desativado há alguns anos, transformou-se num ambiente modernizado, aconchegante e com uma vista belíssima para o Rio Sergipe, chamado de Espaço Zé Peixe. Os mais novos podem não saber de quem se trata, os mais velhos contam seus feitos como lendas, mas José Martins Ribeiro Nunes, ou apenas Zé Peixe, foi, sem dúvida, o prático mais famoso na marinha brasileira. “Prático”?! Sim, e para quem não conhece a profissão, o sr. José Martins era responsável por guiar as embarcações que vinham de alto mar para o porto local, de modo que elas não encalhassem ao se aproximar da costa; depois, guiava-as de volta ao mar, atravessando o Rio Sergipe. Até aí, tudo bem. Mas o diferencial dele é que seu transporte até os navios era feito sempre à nado!

Parece história de pescador, mas não é, não! Sua fama foi tão longe que se espalhou pelo país em matérias de programas de TV ou entrevistas com medalhões, como Jô Soares e Glória Maria. A vida de Zé Peixe, como ficou carinhosamente conhecido, virou documentário, artigo acadêmico, temática de eventos sobre a história de Sergipe e até livro! Sem falar de todas as premiações que recebeu ao longo dos seus 85 anos de vida, sendo 65 deles como prático: Medalha Almirante Tamandaré, Grão-Mestre da Ordem do Mérito Serigy, Cidadão Sergipano do Século XX, Condecorado com Escudo em ouro do Rio Grande do Norte… Alguns deste prêmios, foram resultados de atos verdadeiramente heroicos, como salvamento de velejadores que vieram do Rio Grande do Norte e quase naufragaram na costa sergipana, entre outros, que chegam a contar mais de 100!

Enfim, uma pessoa que teve tamanha importância e reconhecimento, até em nível nacional, precisava de um espaço para lhe representar. E que espaço melhor do que um prédio que fica às margens do rio que por tantas vezes Zé atravessou? Uma justa homenagem para o prático sergipano e um local que deve ser conhecido pelos turistas, para que descubram um pouco mais sobre Sergipe e sua história. E, finalmente, isto se concretizou!

Falecido em 2012, Zé Peixe recebeu inúmeras homenagens durante toda sua vida. Infelizmente, não está mais presente para conhecer o espaço que leva o seu nome, mas vários representantes da família, como sua irmã e sobrinhos, participaram da inauguração. O espaço, que tem como foco o público turístico que vem à Sergipe, integra o centro histórico de Aracaju e conta com um balcão de informações, lojas com artigos de artesanato, restaurante e um ambiente destinado à contemplação do mar. A estátua de bronze do homenageado que foi erguida no local é uma representação do seu trabalho e do que fez com que o sr. José Martins deixasse de ser apenas mais um prático para se transformar no Zé Peixe, mito sergipano.

Seja sergipano ou turista, conhecer o Espaço Zé Peixe é uma oportunidade de descobrir mais sobre este ilustre sergipano, nossa cultura e ainda admirar a beleza do rio. Um novo cartão postal a ser incorporado à nossa bela cidade. Mais um motivo para conhecer Aracaju e descobrir que Sergipe tem muito a te oferecer.

Texto e imagem reproduzidos do blog: blogcelihotel.files.wordpress.com

sábado, 5 de novembro de 2016

Homenagem a Zé Peixe, no Museu da Gente Sergipana




Homenagem a Zé Peixe, no Museu da Gente Sergipana,
Avenida Ivo do Prado (Rua da Frente), em Aracaju/SE.
Fotos: Levi Freire Jr.
Reproduzidas do blog: umguiapelomundobylevifreirejr.blogspot