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domingo, 27 de abril de 2025

'Rosa Faria: arte e história como missão', por Acácia Rios

A artista plástica Rosa Faria 
Foto: André Moreira

Forno de Rosa Faria, em exposição no Memorial de Sergipe 
Foto: Valéria Vieira

Cine Teatro Rio Branco

Ponte do Imperador

Perfil de Tobias Barreto em prato de porcelana, por Rosa Faria

Memorial de Sergipe/Universidade Tiradentes

Homenageada com nome de rua, no bairro Inácio Barbosa 
Foto: Valéria Vieira

Artigo compartilhado do site SÓ SERGIPE, de 26 de abril de 2025 

Rosa Faria: arte e história como missão 
Por Acácia Rios (*)

Quero morrer ocupando minhas mãos. 
Em uma delas, levarei o terço 
que é a minha profissão de fé; 
na outra, levo o pincel, 
meu eterno e inseparável companheiro, 
e lá de cima, eu ainda quero pintar o sete. 
Rosa Faria

Aexposição de pinturas “Rosa Faria e a arte de retratar Aracaju”, que esteve em cartaz no Palácio Olímpio Campos até o último dia 5 e homenageou os 170 anos da capital, foi, para mim, uma verdadeira viagem temporal. Seus quadros, azulejos e porcelanas me remeteram à casa/museu da artista e historiadora, que ficava a poucos metros dali, na praça da Catedral.

Um dia, a caminho da casa dos meus tios, na Rua de Santo Amaro, a curiosidade de estudante me fez transpor a porta do Museu de Arte e História Rosa Faria, o primeiro que conheceria na vida. E que contava com um acervo com uma característica bastante peculiar: todas as obras eram da sua autoria. O seu trabalho de retratar a História de Sergipe em telas, painéis, azulejos e pratos de porcelanas durou décadas, resultando em um milhar de peças.

Entrar no museu significava ser guiado pela própria artista. As inúmeras obras eram dispostas simetricamente até o teto, quase tocando umas nas outras, formando um mosaico imagético da nossa história. Apesar do acervo numeroso e do pouco espaço para armazenar as obras, Rosa Faria continuava pintando, e o forno, funcionando a todo o vapor.

Durante a visita guiada, Rosa lia trechos dos seus painéis de azulejos e explicava alguns fragmentos. Eu olhava atentamente aquela jovem senhora de postura rígida, circunspecta, que, sem desperdiçar palavras, seguia impassível na sua missão de educar pela arte. Eu era jovenzinha, mas ela não fazia distinção de idade.

Em meio à sua fala, também citava as responsabilidades que envolvia aquele trabalho, levado adiante com recursos próprios. Mais de uma vez mencionou a urgência de ter um forno maior para secar a cerâmica, que aumentava cada vez mais, deixando entrever a necessidade de apoio institucional, ciente que era do seu papel social e do legado que estava construindo.

A poeta e professora Maria Lígia Madureira Pina, em texto publicado no blog Academia Literária de Vida, em 2012, corrobora esse aspecto: “Tudo com recursos próprios. Nunca contou com qualquer ajuda, pública ou particular. Nem as visitas ao museu ela cobrava. Seu único interesse era divulgar a sua arte e vê-la reconhecida”.

A minha admiração só aumentava no decorrer dos anos. Ainda mais ao acompanhar as celebrações do dia 17 de março em frente ao seu museu, momento em que recebia professores, estudantes e autoridades e fazia discursos veementes em defesa da preservação da memória histórica. Esses atos foram incorporados às comemorações de então, tornando-se parte dos eventos oficiais.

Um exemplo da sua dedicação nos é dado mais uma vez por Maria Lígia Pina, no blogue supra-citado: “Foi ela quem sensibilizou o prefeito Wellington Paixão para recolocar a estátua de Tobias Barreto no pedestal, que tinham colocado sobre a calçada numa reforma anterior. E acompanhou todo o trabalho, até a hora da reinauguração”. Paixão governou o município no período de 1989 a 1992.

Além do seu trabalho artístico, também compôs o Hino do 4° Centenário do início da colonização em Sergipe, cuja letra reproduzo aqui. Como o leitor poderá notar, é uma verdadeira declaração de amor à terra. A música é de Leozírio Guimarães. O texto foi publicado no Jornal da Cidade em 03/01/76.

Sergipe quatrocentão
Quem no teu berço nasceu
Há de se orgulhar 
de ser filho teu.

I
Há quatro séculos 
Jesus mandou,
Gaspar Lourenço, 
Seu embaixador
Fazer Cristão
Foi sua missão
Do grande Reino 
Do seu amor!

II
Oh’ meu Sergipe 
Oh’ minha terra
Meu grande mundo
Meu lindo torrão
A dar a todos 
os sergipanos
Um mundo novo
Um mundo irmão!

III
Olhando a tela
Da minha terra
Sentindo o Cristo
A me proteger
Pedindo a Ele
Bênçãos divinas
No meu trabalho
No meu lazer!

IV
Com meus amigos
Com minha gente
Com quem da vida 
Já se cansou
A dar semente
do amor da terra
Onde Jesus
Se hospedou!

Antes de deixar a exposição Rosa Faria e a arte de retratar Aracaju, olho suas obras mais uma vez, para gravá-las na retina. Não são imagens isoladas. Com profunda leveza, elas costuram tempo e espaço e nos fazem dialogar com uma cidade anterior a nós mesmos, dando-nos uma geografia poética e afetiva.

Anos depois, ao ver no acervo do Memorial de Sergipe o pequeno forno que usava, compreendi as suas palavras. Um equipamento mais acorde com o seu ritmo de trabalho teria significado, entre outras vantagens, encurtar a corrida contra o tempo na missão de abarcar a história em seu pincel.

Depois de falecer, em 1997, o museu foi fechado e o acervo passou a integrar o do Memorial. A acolhedora sala dedicada à retratista de Aracaju – Rosa Faria: o pincel do tempo – conta com inúmeras das suas porcelanas com preciosas imagens: paisagens urbanas, fatos históricos, breves perfis de vultos literários e políticos compõem a exposição permanente da instituição.

A Ponte do Imperador (1971), o Cine Theatro Rio Branco (s/d) e a Inauguração da Estátua do Dr. Fausto Cardoso (1973) e a fachada da casa de João Ribeiro, em Laranjeiras, por exemplo, são apenas alguns. Vale a pena a visita ao Memorial tanto pela diversidade temática quanto pela proposta museológica.
No que diz respeito ao acervo de Rosa Faria, é algo como estar num museu dentro de outro museu.

A artista

Rosa Faria (1917-1997) nasceu em Capela e aos 29 mudou-se para Aracaju, onde aprofundou seus estudos nas artes plásticas. Formada pela Escola Normal de Capela, foi professora, jornalista, escritora, taquígrafa, telegrafista e artista plástica. Especializava-se e atualizava-se constantemente. Num curso que teve lugar no Rio de Janeiro, foi aluna de Dom Hélder Câmara, do crítico literário Alceu Amoroso Lima e do matemático e escritor Malba Tahan (pseudônimo de Júlio César de Melo e Souza).

Pintou em telas, azulejos e porcelanato e suas pinturas refletiam paisagens de Aracaju como praças, ruas, casas, igrejas, bondes, festas populares, a maioria feita a partir de fotografias antigas. O acervo cresceu tanto que em 1968 criou a sua própria galeria, transformada no mesmo ano no Museu de Arte e História Rosa Faria.
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*Acácia Rios é jornalista, escritora, professora, mestra em Memória Social e Documental pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e doutora em Ciências da Documentação pela Universidade Complutense de Madri. Leciona na Escola de Artes Valdice Teles.
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Texto e imagens reproduzidos do site: www sosergipe com br

quarta-feira, 13 de julho de 2022

'Rosa Faria', por Ismael Pereira

Legenda da foto: Rosa Moreira Faria 28.04.1917 - 01.05.1997

Publicado originalmente no blog Academia Literária de Vida, em  30 de abril de 2022

Saudade 

Rosa Faria 
Por Ismael Pereira*

E um poeta disse: “Fala-nos da beleza”. E ele respondeu:

Onde procurareis a beleza e como a podereis encontrar a menos que ela mesma seja vosso caminho e vosso guia? (Khalil Gibran.)

    Quando nasceu Rosa Faria, ilustre sergipana de Capela, em 28 de abril de 1917, com certeza um coro de anjos celestiais repartiam talentos e dons. Coube a Rosa, por antecipação da sua dignidade e do seu merecimento, o botão da criatividade que se faz arte como fortuna inviolável e herança divina, que a nossa Rosa sabiamente multiplicou, chancelando-a com o selo indispensável do cuidado, do compromisso com a sua vocação, e especialmente pelo amor cívico que dedicou à história do seu país e às pessoas da sua terra. Rosa cresceu como uma flor de rara beleza, suavidade e nobreza, aprendendo com a família: seu pai, o artista João Guimarães Faria, conhecido como João da Luz –, que trabalhava no Serviço de Luz e Força -, e sua mãe, Arminda Faria, pessoas simples e generosas, que lhe deram farto exemplo de convivência humana. Destaca-se a presença da sua avó, Rosa Moreira Frião, professora de ilustres sergipanos, pianista e poetisa que também contribuiu para o aperfeiçoamento intelectual e artístico dos tesouros humanos herdados por Rosa.

    Assim, Rosa Moreira Faria, cresceu e aprimorou seu cabedal artístico-cultural ao fazer o curso de artes plásticas no Departamento Nacional do Serviço de Aprendizagem Industrial, no Rio de Janeiro e o curso de desenho artístico com autorização para lecionar em qualquer parte do território brasileiro, servindo apenas como um complemento, vez que ela ao receber o sopro da vida, concomitantemente foi abençoada pela luz da sabedoria, como dádiva do Criador.

    Mulher admirável, detentora de irretocável formação religiosa, moral e cívica, a nossa Rosa se tornou única, desenvolvendo um dinamismo ímpar, inspirando-se em inesgotável fonte de criatividade. Peculiar, face aos limites da mulher no contexto da sua época, colocou a sua dignidade inteira à disposição do seu talento artístico e das suas múltiplas vocações, exercitando as suas escolhas acadêmicas ou profissionais, sempre com firmeza e suavidade. Foi professora, artista plástica, pesquisadora, historiadora, escritora, biógrafa, telegrafista, jornalista, taquigrafa e poetisa. Foi, portanto uma mulher extraordinária, que se entregou à diversidade e às exigências da sua arte e do seu trabalho, empreendendo os fazeres da vida com tanto amor, probidade e dedicação, e de tal modo se entregou as ações que desenvolveu que hoje, todos nós, capelenses, sergipanos, brasileiros, afortunadamente podemos nos orgulhar e compartilhar a soberania do seu exímio talento no portfólio da sua (da nossa) história.

    Sua obra foi calcada notadamente na inconfundível escola Naif, uma escola de origem francesa transposta para a circunstância cultural brasileira. A paixão de Rosa Faria pela arte Naif, ou primitiva para alguns críticos, se ajusta perfeitamente no que disse o fundador do Museu de Arte Naif do Rio de Janeiro – Lucien Finkeistein: “Uma paixão não se explica, vive-se.” Assim foi a paixão de Rosa Faria, como também foi a paixão dos consagrados pintores Naifs: Henri Rousseau, Louis Vivin, Andre Bauchant, Monsueto, Heitor dos Prazeres, Chico da Silva, Valdomiro de Deus, Antonio Poteiro e outros titãs vinculados ao primitivo moderno. Rosa Faria descobriu no mundo encantado e encantador do Naif, a singeleza das cores básicas e o belo universo das formas simplificadas, sem rodeios e sem os rigores das formalidades programáticas; seus traços, decisivos e firmes, percorriam religiosamente o caminho por ela traçado para chegar onde pretendia no contexto de sua obra, sublimando assim seus mais puros sentimentos estampados na planimetria das telas e na delicada superfície multifacial das peças de porcelana que tão esmeradamente pintou.

    Mulher singular e ao mesmo tempo plural, inquieta, polivalente e perfeccionista, características marcantes da artista da terra do saudoso Padre Juca, Capela, a gloriosa – “princesa dos tabuleiros.” Nos longos caminhos percorridos em vida, Rosa, com seu carisma natural, recebeu muitas rosas, mas também teve que enfrentar com determinação, altivez e coragem a agudeza dos espinhos encontrados no caminhar. Foi assim que a nossa inesquecível artista capelense pesquisou, telegrafou, taquigrafou, com mestria fez poesia, ensinou o que sabia, escreveu, fez noticia para o jornal, bordou e pintou com as tintas de sua alma pulcra os mais sagrados cantos e recantos da sua querida Aracaju, capital do pequeno notável Estado de Sergipe, ao qual Rosa Faria prestou relevantíssimos serviços.  

    Por julgar oportuno, louvo esta tão feliz iniciativa da Associação Sergipana de Imprensa, capitaneada pelo dinâmico Presidente Cleiber Vieira, pois acender todos os seus litúrgicos turíbulos para incensar a memória de tão insigne figura sergipana, é praticar o nobre gesto do necessário reconhecimento. 

Portanto, é importante ressaltar que a nossa Rosa Faria, cuidou muito bem dos tesouros que Deus lhe deu, e por sua persistente vocação, por seus sonhos quase sempre solitários e carentes de apoio à preservação e elevação da nossa cultura, e da nossa memória, essa mulher invulgar construiu com as suas próprias mãos sempre ocupadas com a arte de incomparável talento, uma obra de inestimável valor histórico, seu legado de eterna referência à nossa própria história.

    Finalizo afirmando com a mais absoluta convicção – se mais vida tivesse por amor a Sergipe muito mais “Rosa Faria.”

* Artista Plástico

Texto e imagem reproduzidos do blog: academialiterariadevida