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domingo, 4 de fevereiro de 2024

Um dos mais importantes intérpretes do Brasil é sergipano...

Legenda da foto: Manoel Bomfim (Aracaju, 8 de agosto de 1868 — Rio de Janeiro, 21 de abril de 1932)

Publicação compartilhada do site MANGUE JORNALISMO, de 2 de janeiro de 2024 

Um dos mais importantes intérpretes do Brasil é sergipano, mas quase invisível. Livro da professora Terezinha Oliva joga luzes em Manoel Bomfim

Por Cristian Góes, da Mangue Jornalismo - Entrevista 

Manoel José Bomfim. Para muitos, um nome comum que não convoca memória nenhuma. Talvez um parente antigo. Hoje já não se batizam muitos Manoeis. Outros ligam esse nome a uma rua ou uma escola que já ouviram falar. Um grupo reduzido diz que esse sujeito traz uma vaga lembrança de alguém importante na história, mas nada que isso. Para uma minoria da minoria, sim, trata-se de um grande intelectual brasileiro esquecido.

De fato, Manoel Bomfim é um sujeito quase invisível na história, apesar de ser um dos mais importantes pensadores, formuladores e intérpretes do Brasil e da América Latina. Sim, ele nasceu na pobre Aracaju em 1868, no dia 8 de agosto. Manoel foi profundamente silenciado pela elite letrada e reacionária do Brasil por ele tinha fortes críticas ao colonialismo europeu que produziu exploração e pobreza. Também foi apagado porque fazia uma defesa enfática de que a saída para os males dos países invadidos, como o nosso, é o investir em educação popular.

Nos últimos anos, alguns pesquisadores se esforçam para jogar luzes sobre as extraordinárias contribuições de Manoel Bomfim ao pensamento crítico brasileiro e latinoamericano. A professora Terezinha Oliva (UFS), uma das mais importantes acadêmicas sergipanas, fez isso e em 7 de maio deste ano lançou o livro “Manoel Bomfim, um intérprete do Brasil”, editado pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc). É com ela que a Mangue Jornalismo conversou um pouco sobre esse aracajuano tão pouco conhecido para sergipanos e brasileiros.

Mangue Jornalismo (MJ) – Professora, é verdade que Manoel Bomfim somente foi redescoberto em 1984, quando Darcy Ribeiro, em um ensaio, classificou esse aracajuano como “o pensador mais original da América Latina”? Em que reside a originalidade e centralidade do pensamento de Manoel Bomfim, sua importância ontem e hoje?

Terezinha Oliva (TO) – Manoel Bomfim foi um escritor muito conhecido ao seu tempo e teve livros adotados na escola até a década de 1950. Na década seguinte ocorreu o seu silenciamento; os livros didáticos deixaram de ser adotados e as obras de interpretação sobre o país e o continente, não tinham feito seguidores. Darcy Ribeiro leu “A América Latina”, obra de Bomfim, de 1905, durante o exílio, numa biblioteca de Montevidéu. Isso aconteceu entre 1964 e 1968, o período do exílio. Então ele se surpreendeu com o que leu e julgou Bomfim o “pensador mais original da América Latina”. Mas a surpresa e o estranhamento também foram revelados, no mesmo período, por outros leitores, como Vamireh Chacon, estudioso pernambucano, que em 1965 perguntou, espantado: “Por que não se fala nesse Manoel Bomfim?”

MJ – Não se fala porque seu pensamento se chocava com a ideologia oficial, não é isso?

TO – Sim, a leitura provoca choque, porque a visão de Bomfim sobre a colonização europeia e os motivos do “atraso secular” do continente latino-americano, a suposta incapacidade dos seus povos para o progresso e a atribuição, aos colonizadores, de uma superioridade racial, tudo isso é descartado pelo escritor sergipano, que mergulha na História e nos modos de exploração colonial para mostrar o que acontecia no Brasil e nos outros países da América do Sul. A atualidade desse autor decorre de aspectos para os quais ele chamou a atenção e que ganharam mais importância no processo brasileiro. Mas Bomfim foi marcado por diferentes apropriações do seu pensamento, à direita e à esquerda, ainda no seu tempo e hoje ele pode ser inspirador, mas é claro que algumas das suas leituras estão datadas.

MJ – É exatamente em razão dessa originalidade em seu tempo que Manoel Bomfim é rigorosamente invisibilizado pela historiografia brasileira? Digo “em seu tempo” porque as ideias dele estavam em contraposição ao pensamento dominante. É isso?

TO – Vários estudiosos tentam dar respostas a essa invisibilidade que atingiu a obra de Manoel Bomfim. Darcy Ribeiro, que prefaciou “A América Latina: males de origem” no seu reaparecimento, em 1993, mostra como Bomfim foi contra as correntes de pensamento predominantes e as visões de todos os grandes intelectuais brasileiros do seu tempo, como o nosso Sílvio Romero. A teoria da desigualdade inata das raças e o Darwinismo Social tinham status de teorias científicas e a coragem do autor sergipano em desmascará-las, mesmo sendo um evolucionista, o tornou alvo de terríveis ataques para desqualificá-lo. Além disso, a linguagem de Bomfim é reconhecidamente a de um militante, apaixonado e ele enveredou por uma explicação biológica que ficou datada, de modo que, quando, após os horrores cometidos na II Guerra Mundial, as teorias da superioridade da raça branca começam a ser descartadas, sua obra não foi tomada como referência. É realmente estranho o silenciamento do seu nome, mesmo quando o assunto o obrigaria, como a atual retomada dos estudos sobre eugenia e o que eles causaram no país.

MJ – Além de apagado nacionalmente, Manoel Bomfim também é um ilustríssimo desconhecido em Aracaju e em Sergipe. Isso se deu ainda pelas polêmicas discussões entre Sílvio Romero e ele? Romero defendendo, por exemplo, o branqueamento da população como solução para o “defeito de formação” do brasileiro, e Bomfim valorizando a miscigenação e negando a validade científica das teorias racistas. É isso?

TO – Sim, Sílvio Romero escreveu nos jornais e publicou, depois, uma obra com o mesmo título do livro de Bomfim que ele desqualificou, “A América Latina”, na qual, em mais de 400 páginas ele procura destruir o pensamento do seu conterrâneo e apequena-lo intelectualmente. As visões dos dois sobre a questão racial no Brasil são completamente opostas, com Manoel Bomfim vendo na miscigenação racial um fator que facilitaria o progresso no Brasil e Sílvio Romero propagando a tese de que a imigração europeia seria necessária para branquear a população brasileira e assim tornar possível o progresso. O que aconteceu em Sergipe, ao meu ver, é fruto, em parte, da força e do respeito para com a tradição dos intelectuais da Escola do Recife, como Tobias Barreto, Fausto Cardoso e Sílvio Romero, em que não se inclui Manoel Bomfim e o fato de que nenhum dos intelectuais sergipanos do seu tempo retoma as suas ideias. Além disso, embora tendo revelado o seu amor por Sergipe – a quem ele dedica o livro “A América Latina” – Bomfim teve uma passagem pela política local que não prosperou. Ele ocupou a vaga deixada na Câmara Federal pela morte de Fausto Cardoso, um ídolo em Sergipe; em 1907 ele se tornou deputado federal por Sergipe, mas não conseguiu fazer carreira. Hoje temos ruas, escolas, a biblioteca do Instituto Histórico e uma medalha instituída pela Assembleia Legislativa, com o nome de Manoel Bomfim, além de estudiosos locais e obras importantes, publicadas sobre o seu pensamento. Esperemos que isso o faça mais conhecido dos conterrâneos.

MJ – Manoel Bomfim tinha um pensamento crítico sobre a exploração do povo e o saque de nossas riquezas. Em que medida, esse pensar se articula com suas importantes produções no campo da Educação Pública, da Psicologia, da História, da Cultura e do Jornalismo? Desses campos (Educação, Psicologia, História, Cultura e Jornalismo), o que podemos destacar?

TO – Manoel Bomfim fez parte de uma geração de intelectuais que tinha, na frase feliz do historiador Nicolau Sevcenko, “a literatura como missão”. Intelectuais que queriam “salvar” o país do atraso, de certa forma, redimir a nossa trajetória histórica. A questão reside em que ele não repete as teorias externas sobre o Brasil e a América Latina e na contramão delas, não vê a presença europeia no continente como fruto de um processo civilizatório, mas como fruto da exploração capitalista mais brutal, destruindo o meio ambiente, os saberes acumulados, as culturas construídas e os povos. Então, além de teorizar sobre aquele processo, ele acreditou que a saída para os países colonizados estava na educação popular e admitia que a única inferioridade dos seus povos era a ausência do acesso à educação.

MJ – E Manoel publicou sobre isso, não foi?

TO – Sim, sim, ele usou a imprensa, os livros – e ele escreveu vários títulos didáticos – esteve no grupo que criou a primeira revista infantil no Brasil, O Tico-tico e exerceu cargos de direção nas áreas da educação pública e da formação de professores. O livro didático escrito em parceria com Olavo Bilac, “Através do Brasil”, foi usado nas escolas de vários estados, entre 1910 e a década de 1950. É um compêndio para o Curso Primário com noções de Geografia, de História, de fundamentos da economia e uma mensagem sobre o valor do povo brasileiro. Mas ele escreveu obras de Psicologia, de Composição (escrita), de Ciências, de Didática, foi um incansável divulgador do conhecimento e se dirigiu especialmente aos professores, sobre como tratar as crianças, como fazer funcionar as escolas, enquanto, ao mesmo tempo, mergulhava na História e na Cultura Brasileira, chegando, no seu último livro, “O Brasil Nação”, a formular um programa político para o Brasil.

MJ – Em que medida podemos afirmar que Manoel Bomfim é um dos intérpretes do Brasil no mesmo patamar, ou mesmo superior, de um Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Gilberto Freyre, Josué de Castro, Milton Santos, Raymundo Faoro, Sérgio Buarque de Holanda, Maria da Conceição Tavares?

TO – Darcy Ribeiro citou a maioria dos nomes enumerados nessa pergunta, descobrindo neles “ressurreições” das ideias de Manoel Bomfim, mas diz que eles não foram leitores de Bomfim. Ou seja, ele quis dizer que o nosso conterrâneo divulgou interpretações que se tornariam, em parte, correntes mais tarde. Ele não admite a velha história de “pensador adiante do seu tempo”, porque todo autor é filho do seu tempo, mas dá a entender que o que Bomfim viu e analisou, antes deles, terminou se impondo aqui e ali, embora nunca como um todo, nem mesmo como resultado do conhecimento da sua obra. Vários foram os leitores de Manoel Bomfim que destacaram diferentes aspectos do seu pensamento.

MJ – Por exemplo?

TO – A nossa professora Thetis Nunes, desde os anos sessenta mostrava Bomfim como um dos criadores do nacionalismo brasileiro e do pensamento sobre o desenvolvimento nacional ; Dante Moreira Leite destacou a singularidade do seu pensamento sobre a formação do brasileiro e sobre a natureza da exploração colonial; Flora Sussekind e Roberto Ventura destacaram nos anos oitenta, no livro “História e Dependência”, a interpretação da colonização como uma leitura biológica, descobrindo na linguagem usada por Bomfim uma possível dificuldade à sua divulgação. Zilda Lokói chamou a atenção para a atualidade do seu nacionalismo revolucionário e a preocupação com as classes desprotegidas. Enfim, a partir dos anos noventa do século passado houve um interesse na obra do pensador sergipano, foram reeditadas vários dos seus livros, que hoje são totalmente acessíveis, ele foi biografado, inclusive numa obra premiada, “O rebelde esquecido”, de Ronaldo Conde Aguiar e eu mesma estudei a sua visão do Brasil através do pensamento geográfico, que foi publicada pela editora Seduc, sob o título “Manoel Bomfim, um intérprete do Brasil”.

Texto e imagem reproduzidos do site: manguejornalismo org

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Por que não se fala em Manoel Bomfim?


Publicado originalmente no site Expressão Sergipana, em 01 de abril de 2019

Por que não se fala em Manoel Bomfim? 

Documentário busca dar visibilidade à vida e obra de um dos principais pensadores brasileiros

De Paulo Victor Melo 

“Uma voz que ousava dizer o indizível”, “um pensador que não temia pensar o impensável”, “o rebelde esquecido”. Com essas palavras, o sociólogo Ronaldo Conde Aguiar referiu-se a Manoel Bomfim, um dos intelectuais mais importantes para a constituição da base, corpo e alma do pensamento social brasileiro.

Com um trabalho sobre a vida e obra de Bomfim, Conde Aguiar recebeu, em 1999, o prêmio de melhor tese de doutorado no I Concurso Brasileiro de Obras Científicas da Associação Nacional de Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), demonstrando a importância da contribuição de Bomfim para o entendimento das raízes do Brasil, para a explicação da realidade brasileira e para a compreensão da relação do país com a América Latina.

Mas se o legado de Manoel Bomfim cumpre papel determinante para o diagnóstico e as buscas de saídas democráticas sobre/para o Brasil, por que esse autor tornou-se esquecido ao longo do tempo? Essa é uma inquietação presente há algumas décadas na intelectualidade brasileira, desde que Darcy Ribeiro, na metade dos anos 1980, o classificou como “o pensador mais original da América Latina”. Exemplos disso são os textos escritos por Gilson Dantas, em 1997, em que pergunta por quais motivos Manoel Bomfim fica à margem dos livros escolares, e de Aluízio Alves Filho, que afirma ser Bomfim o “ensaísta esquecido”.

Passadas mais de duas décadas dos questionamentos de Conde Aguiar, Gilson Dantas e Aluízio Filho, o cineasta e documentarista argentino, radicado há anos no Brasil, Carlos Pronzato renova as inquietações ao produzir o documentário “Por que não se fala em Manoel Bomfim?”

Com o título não deixando dúvidas sobre os objetivos da obra audiovisual, Pronzato acredita que, embora esquecido, Bomfim permanece atual, mesmo após aproximadamente 87 anos da sua morte. “A voz deste ‘rebelde esquecido’, mesmo enfraquecida, chegou até nós por meio de várias reverberações, e em uma contemporaneidade profundamente marcada pela corrupção política, pela descrença generalizada em várias instituições e por inúmeras mazelas mal resolvidas no plano social, o conteúdo das reflexões do intelectual sergipano torna-se atual e necessário, enquanto instrumento de analise para pensarmos o processo político, bem como as relações entre estado e sociedade no país”, afirma.

Uma das principais hipóteses sobre o “esquecimento” de Manoel Bomfim, abordada no documentário, diz respeito ao caráter revolucionário das suas ideias, tendo sido, por exemplo, uma das mais expressivas vozes dissonantes às teorias racistas de branqueamento da população como solução para os problemas do país, muito em voga à época. Bomfim, no caminho oposto, afirmava que o problema fundamental era uma espécie de “parasitismo social” das elites e defendia a pluralidade étnica como um potencializador do desenvolvimento do país, sendo a educação o caminho para a emancipação das classes populares.

Com lançamento previsto para o início de abril, próximo a data da morte de Manoel Bomfim (21 de abril), o documentário é construído a partir de pesquisa histórica e entrevistas com pesquisadores que produziram e continuam a produzir materiais sobre a obra de Bomfim, como Aluízio Alves Filho, citado anteriormente; Rebeca Gontijo, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e autora do livro “Manoel Bomfim”; José Vieira da Cruz, professor da Universidade Federal de Alagoas, e co-organizador do livro “Manoel Bomfim e a América Latina: a dialética entre o passado e o presente”; e Ricardo Sequeira Bechelli, que escreveu “Nacionalismos anti-racistas: Manoel Bomfim e Manuel Gonzalez Prada”.

Entendendo que a obra de Bomfim está conectada e influenciada diretamente pelo chão que o moldou, o documentário conta com depoimentos de diversos intelectuais, estudiosos e ativistas de Sergipe, estado natal de Bomfim, a exemplo de Terezinha Oliva, historiadora e professora emérita da Universidade Federal de Sergipe; Fernando Sá e Romero Venâncio, respectivamente professores de História e Filosofia da mesma instituição; Aglaé Fontes, integrante da Academia Sergipana de Letras e pesquisadora da cultura sergipana; Ana Lúcia Vieira Menezes, professora e ex-deputada estadual.

Um inquieto de múltiplas áreas

Nascido em Aracaju, em 8 de agosto de 1868, Manoel Bomfim foi um intelectual com contribuição destacada em diversas áreas do conhecimento. Médico, com estudos em Salvador e no Rio de Janeiro; especialista em Psicologia, com curso na França iluminista; sociólogo; historiador. Em todos os campos de atuação, Bomfim se caracterizou pelo rigor acadêmico aliado à contribuição social das suas pesquisas e trabalhos, confirmando-o como um intelectual atento aos problemas do seu tempo e preocupado em contribuir no desenvolvimento do país.

Na área da educação, Bomfim foi também fundamental na defesa de uma educação pública democrática e popular. Convidado pelo então prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Werneck de Almeida, em 1896, Bomfim assumiu o cargo de sub-diretor do Pedagogium, instituição criada seis anos antes para supervisionar as atividades pedagógicas do país à época. Naquele período, pela função que desempenhou, Bomfim formulou diversas iniciativas de reformas e melhorias no ensino público, sendo um crítico do distanciamento entre os planos governistas para a área e a realidade deficitária da educação brasileira. Com o mesmo empenho transformador, Bomfim ocupou, por duas vezes, o cargo de diretor de Instrução Pública no antigo Distrito Federal, entre os anos de 1895 e 1900 e entre 1905 e 1907.

Bomfim buscou denunciar e refletir sobre os problemas do país também via atuação na imprensa, tendo sido editor e articulista de diversos veículos de comunicação, como O Correio do Povo, O Comércio, Ilustração Brasileira, Notícia, Tribuna e O País, além de periódicos especializados em educação, como Revista Pedagógica de Educação e Ensino e Revista Pedagogium.

Demonstrando a sua inquietação com a desigualdade estrutural do Brasil, Bomfim participou também da política nacional, ocupando o cargo de Deputado Federal no lugar de Oliveira Valladão, com um mandato de pouco mais de um ano, entre agosto de 1907 e dezembro de 1908. Candidatou-se à reeleição, mas sem êxito.

Ligada ao Partido Operário Indepedente, Bomfim participou da criação da Fundação da Universidade Popular de Ensino Livre, instituição centrada na educação de jovens e adultos, que representou um marco na luta por um modelo de educação popular no Brasil.

Em termos de produção intelectual e literária, Manoel Bomfim foi, como já dito, dos principais autores sobre a questão do desenvolvimento social e econômico do Brasil e da América Latina, sempre com uma perspectiva crítica e propositiva. Dentre as suas obras, destacam-se: América Latina: males de origem; O Brasil na América: caracterização da formação brasileira; O Brasil Nação: realidade da soberania brasileira; O Brasil na História: deturpação das tradições, degradação política; Lições e Leituras para o primeiro ano; Crianças e Homens.

Cinema militante

Da mesma forma que a obra de Manoel Bomfim, o cinema de Carlos Pronzato, diretor do documentário “Por que não se fala em Manoel Bomfim?”, coloca o seu fazer profissional a serviço da memória coletiva transformação da sociedade.

Os seus mais de 70 documentários sobre personagens e momentos da história do Brasil e da América Latina são a prova disso, a exemplo de: “O Panelaço, a rebelião argentina”; “Bolívia, a guerra do gás”; “, isto aqui vai virar o Chile, escolas ocupadas em São Paulo”; “Terceirização, a bomba relógio”; “Ocupa Tudo, Escolas Ocupadas no Paraná”; “A Escola Toma Partido, uma resposta ao Projeto de Lei Escola sem Partido”; “1917, a Greve Geral”; “1968, a Greve de Contagem, primeira greve durante a ditadura militar”; “Mestre Moa do Katendê, a primeira vítima”; “A Revolta do Buzu”, “Carabina M2, uma arma americana, Che na Bolívia”, “Madres de Plaza de Mayo, verdade, memória e justiça”, “Marighella, quem samba fica, quem não samba vai embora”, “Pinheirinho, tiraram minha casa, tiraram minha vida”, “Mapuches, um povo contra o Estado”, “A partir de agora, as Jornadas de Junho 2013”, “Dívida Pública Brasileira, a Soberania na Corda Bamba”; “José Calasans, tradutor do Sertão”; dentre outros.

A quantidade e relevância social dos trabalhos de Pronzato – que é também diretor teatral, escritor e poeta, já lhe renderam homenagens do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO), além dos prêmios Roberto Rossellini, em 2009, na Itália, e Liberdade de Imprensa, pelo jornal Tribuna da Imprensa Sindical, do Rio de Janeiro, em 2017.

Ao mesmo tempo em que finaliza “Por que não se fala em Manoel Bomfim?”, Pronzato está prestes a lançar também o documentário “Lama: o crime VALE no Brasil”, sobre o crime ambiental na cidade de Brumadinho, em Minas Gerais.

Num cenário de flagrantes restrições à liberdade de expressão, de criminalização das lutas populares e de retirada de direitos, a obra de Carlos Pronzato – assim como a de Manoel Bomfim – se afirma como parte fundamental da resistência democrática. Assim, é possível colaborar financeiramente com as obras do cineasta, através de depósito na seguinte conta bancária: Banco do Brasil, agência 0346-8, conta corrente: 222.567-0.

* Paulo Victor Melo - Jornalista, mestre e doutorando em Comunicação e Política. Tem experiência com jornalismo sindical, políticas de comunicação na América Latina, mídias públicas e comunicação e direitos humanos

Texto e imagem reproduzidos do site: expressaosergipana.com.br