Artigo compartilhado de Post do Facebook/Pascoal Maynard, de 1 de abril de 2026
Vidas que guardam saberes
Por Pascoal Maynard *
Há momentos na vida pública em que a função que ocupamos deixa de ser apenas institucional e passa a ser profundamente simbólica. A cerimônia de diplomação dos novos Patrimônios Vivos da Cultura Sergipana foi um desses momentos. Ali, mais do que entregar certificados, reafirmamos um pacto coletivo com a memória, com a identidade e com o futuro de Sergipe.
Na condição de Presidente do Conselho Estadual de Cultura, senti, com intensidade, o peso e a honra dessa responsabilidade. Não se trata apenas de reconhecer trajetórias individuais — ainda que elas sejam grandiosas —, mas de assegurar que os saberes que moldaram nosso povo continuem vivos, pulsantes, transmitidos de geração em geração.
A chamada “Lei dos Mestres”, instituída pela Lei nº 9.118, é, sem dúvida, uma das mais nobres políticas públicas culturais do nosso estado. Ela materializa algo que, por muito tempo, permaneceu apenas no campo do desejo: o reconhecimento concreto daqueles que guardam e compartilham os saberes tradicionais. Ao conceder o título de Patrimônio Vivo, acompanhado de uma bolsa vitalícia e do incentivo à transmissão do conhecimento, o Estado não apenas homenageia — ele protege, fortalece e perpetua.
Ao ver mestres como Josefa Maria da Silva Santos (Zefa da Guia), Cícero José dos Santos (Véio), Antônio dos Santos (Mestre Sabau), José Ronaldo de Menezes (Mestre Zé Rolinha) e Alzira Alves Santos(Alzira Rendeira) sendo diplomados, tive a certeza de que estamos no caminho certo. Cada um deles carrega em si um universo inteiro de práticas, crenças, técnicas e narrativas que não podem — e não devem — desaparecer.
O patrimônio imaterial, por sua natureza, é frágil. Ele não está protegido por paredes, nem guardado em vitrines. Ele vive nas mãos que fazem, nas vozes que cantam, nos gestos que ensinam. E exatamente por isso exige de nós vigilância constante, compromisso contínuo e, sobretudo, sensibilidade.
É nesse ponto que o papel do Conselho Estadual de Cultura se torna ainda mais relevante. Cabe a nós não apenas deliberar ou normatizar, mas compreender profundamente o valor desses saberes e atuar como guardiões de sua continuidade. É uma missão que ultrapassa a burocracia — é, antes de tudo, um compromisso ético com a história viva do nosso povo.
Saí daquela cerimônia com o sentimento de dever renovado. Sabemos que ainda há muito a avançar: ampliar o alcance das políticas, garantir maior inclusão de manifestações culturais diversas, fortalecer os mecanismos de salvaguarda. Mas também sabemos que cada passo dado é significativo.
Celebrar os nossos mestres é, na verdade, celebrar a nós mesmos. É reconhecer que nossa identidade não está apenas no que fomos, mas no que escolhemos preservar e transmitir.
E enquanto estivermos à frente dessa missão, seguiremos firmes — com honra, responsabilidade e profundo respeito — na defesa do patrimônio imaterial de Sergipe. Porque preservar a cultura é, acima de tudo, preservar a própria vida de um povo.
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* Pascoal Maynard é jornalista, documentarista e produtor cultural. Atualmente exerce o cargo de Assessor Especial da Funcap, Presidente do Conselho Estadual de Cultura e apresentador do programa Expressão na Aperipê TV.
Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Pascoal Maynard
