Artigo compartilhado do site NEU FONTES, de março de 2026
Ilma Fontes — Nunca se Curvou!
Por Neu Fontes (Blog do Neu)
Olá, gente boa,
Quando menino, gostava de ouvir escondido as conversas dos meus pais. Meu pai, Seu Irineu, falava do comércio, das representações da Empire, da rádio, da televisão que ajudou a chegar a Aracaju com a repetidora no Morro do Urubu. Minha mãe, dona Susete, cuidando da casa, dos filhos, mas também inventando caminhos para ajudar no sustento, vendendo roupas, bordados e tudo que pudesse virar renda.
No começo da noite, antes do jantar, eles se sentavam na varanda da casa da Rua Divina Pastora. Às vezes com Seu Milson e Dona Lucy. Eu ficava por perto, quieto, fingindo não ouvir — mas ouvindo tudo. Talvez ali tenha nascido esse meu gosto de contar histórias.
De vez em quando, vinha a ordem:
— Vá brincar, Irineuzinho, isso aqui é conversa de gente grande.
Mas na maioria das vezes eram histórias da cidade, dos acontecimentos, da política, dos artistas, dos ousados. E foi ali que conheci nomes que marcaram Aracaju. Gente que ousava, que enfrentava o conservadorismo de uma cidade pequena, cheia de olhos e línguas.
E minha mãe… ah, minha mãe sempre estava do lado da ousadia.
Quando surgia o comentário sobre jovens “rebeldes”, ela dizia:
— Isso é a modernidade.
E quando era uma mulher, ela cravava:
— As mulheres são iguais e têm o direito de viver como quiserem.
Foi assim que fui criado. Cercado de mulheres fortes. Mulheres que não pediam licença para existir.
Foi nessas conversas que ouvi, ainda nos anos 60, sobre dois jovens que “aprontavam”: Ilma Fontes e Mario Jorge. Filhos de famílias conhecidas, inquietos, provocadores. Meu pai comentava, minha mãe compreendia. Ela já enxergava o que muitos não viam: o novo chegando.
Anos depois, já nos anos 70, entendi quem eram aqueles nomes.
Mario Jorge — poeta marginal, vanguardista, inquieto, livre. Um desses que vivem intensamente e deixam marcas profundas. Partiu cedo demais.
E Ilma…
Ilma não era apenas uma mulher.
Ilma era um movimento.
Médica, psiquiatra, diretora do Adauto Botelho — mas, acima de tudo, alguém que escolheu a liberdade. Liberdade de pensar, de criar, de confrontar, de existir fora das caixinhas estreitas de uma sociedade provinciana.
Jornalista, cineasta, escritora, ativista cultural.
Hoje chamariam de “influencer”.
Mas Ilma era muito mais: era inspiração, ruptura.
Uma guerrilheira.
Da palavra.
Da imagem.
Da existência.
Uma mulher que abriu — a ponta de pés, mas com firmeza — as portas fechadas pela intransigência e pela mediocridade de uma sociedade que não estava preparada para ela.
Meu encontro com Ilma só aconteceu nos anos 80, através de outra mulher gigante da minha vida: Lú Spinelli. E não foi fácil.
Dois Fontes. Duas cabeças duras. Dois mundos fortes.
Ela me achava arrumadinho demais. Talvez até pedante. E eu, tentando compreender aquela força indomável.
Mas o respeito veio. E veio forte.
Principalmente quando, já na gestão em Laranjeiras, pude reconhecer publicamente o quanto Ilma foi importante — não só para mim, mas para toda uma geração.
Cada texto.
Cada provocação.
Cada enfrentamento.
Tudo carregado de uma vida intensa, de batalhas ganhas e perdidas, numa sociedade que ainda hoje tem dificuldade de reconhecer o diferente — imagine naquela época.
Ilma escrevia:
“Sabe, meu bem, eu não tenho nada contra quem.
A questão é não negar. Não medir. Nunca.
Hoje ou depois de ontem, o dia é o seguinte.
Sequências. Consequências. Hipotenusas ilusões.
Você tanto pode dizer sim como não.”
E também deixou frases que atravessam o tempo, como:
“É fácil ser Spielberg nos Estados Unidos do que ser Ilma em Aracaju.”
E sobre Mario Jorge:
“Viver como passarinho e morrer a duras penas.”
Ilma foi mundo.
Publicou fora do Brasil.
Levou sua arte à Europa, à África, à Ásia.
Mas nunca saiu de Aracaju.
Seu olhar sempre foi daqui.
Sua alma sempre foi daqui.
Como ela mesma escreveu:
“A vontade de amar, que me impulsiona
O trabalho, vem de Aracaju, de suas noites
Azuis onde sobram mulheres e horizontes.
O hábito de mexericar, que tanto dilacera,
é amarga herança aracajuína.”
Ver hoje a Imagina — Feira de Artes Visuais, realizada pela Rede Colaborativa Mulheres da Imagem Sergipe (MIS), no Museu da Gente Sergipana, dedicada a Ilma Fontes, é mais que uma homenagem.
É um reencontro.
Um reconhecimento necessário.
Com curadoria de Germana Araújo e Maycira Leão, duas gigantes, reunindo obras de mulheres e coletivos do Nordeste, exibição de “Lampião – A Última Semana”, dirigido por Ilma, além de oficinas, debates, performances e música — a feira é a prova viva de que a semente plantada por ela continua germinando.
Mais de 180 mulheres.
Criando.
Ocupando.
Transformando.
Seguindo caminhos que Ilma ajudou a abrir.
Quero aqui agradecer a Gabi Etinger pelo convite e pelo brilhante trabalho sempre, e parabenizar todas as mulheres envolvidas nesse movimento tão potente.
Porque, no fim das contas, Ilma não foi exceção.
Ela foi anúncio.
Anúncio de um tempo que ainda estamos aprendendo a viver:
O tempo das mulheres livres.
Viva Ilma Fontes.
Viva as mulheres.
Texto e imagem reproduzidos do site: neufontes com br

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