segunda-feira, 11 de maio de 2026

Clara Angélica em seu último sarau. Adeus, querida!

Legenda da foto: Clara Angélica: uma mulher forte, 
que marcou seu tempo 

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 10 de maio de 2026

Clara Angélica em seu último sarau. Adeus, querida!
Por Marcelo Oliveira *

Clara Angélica Porto se despediu da vida, na madrugada deste 10 de maio de 2026, Dia das Mães, com a mesma sabedoria com que viveu. Mulher forte, jornalista, cronista e uma das vozes de uma geração que ajudou a construir o jornalismo sergipano em tempos de recursos escassos, máquinas barulhentas e apuração feita nas ruas. Atravessou décadas de transformações na comunicação, alcançou o tempo das redes sociais, do jornalismo digital e, também da desinformação organizada, sem perder a elegância intelectual, o senso crítico e a confiança na força da palavra escrita.

Uma despedida sem arremates religiosos, mas profundamente fiel às próprias crenças, valores e escolhas. Admiradora de Spinoza, gostava de recordar uma frase que parecia lhe servir de abrigo diante do inevitável: “O medo da morte é o medo da vida não vivida.” A lembrança foi evocada por sua amiga Eliana Chagas, a quem Clara dedicava um afeto de décadas.

E Clara viveu intensamente. Ultrapassou mais de setenta anos sem receio de enfrentar desafios, defender ideias ou atravessar mudanças. Carregava uma inteligência inquieta, sensibilidade rara e uma coragem silenciosa que nem sempre fazia ruído, mas sempre deixava marcas.

Iniciou no jornalismo antes mesmo dos dezoito anos, como colunista da Gazeta de Sergipe. Esteve entre os nomes que ajudaram a introduzir a televisão em Sergipe, participou de assessorias importantes, como na gestão de Antônio Carlos Franco em Laranjeiras, colaborou com ações da Emsetur em Nova York, atuou como tradutora e atravessou diferentes espaços da comunicação sergipana com elegância intelectual e texto refinado.

Sua geração, aos poucos, vai deixando este plano. Mas permanece um legado difícil de substituir: integridade, domínio da escrita, repertório cultural e uma formação construída num tempo em que a escola ensinava não apenas conteúdos, mas sobretudo elaboração de pensamento, sensibilidade e repertório humano. Talvez por isso Clara falasse tantas vezes dos professores que marcaram sua trajetória.

Hoje, familiares, colegas e amigos se despedem desta jornalista brilhante e pioneira, desta musicista talentosa, mãe amorosa, filha querida, amiga leal e mulher que soube ocupar os espaços da vida com presença verdadeira.

Clara Angélica partiu cercada de afetos. Na presença firme e delicada da irmã Lilia, envolvida pelo cuidado dos filhos Sasha e Vanessa, seus maiores tesouros, amores que carregava em cada palavra e em cada gesto. Muitas vezes dizia, entre versos, lembranças e conversas, que a maternidade havia sido sua maior felicidade.

Partiu em paz. Não sob promessas de eternidade, mas sob a proteção concreta dos afetos que construiu ao longo da vida. E deixou entre nós aquilo que a morte não alcança: sua energia luminosa, sua memória generosa e a delicadeza inquieta de quem jamais atravessou o mundo em silêncio.

Em sua homenagem, a família convida os amigos para “O Último Sarau”, em sua residência, na Atalaia, seguido do cortejo até o Cemitério Santa Izabel, no centro da capital sergipana, porque algumas despedidas não terminam no adeus, transformam-se em permanência, música e memória.

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* É professor, doutor em Ciências Sociais e editor de livros.

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Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br

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