segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Uma Mulher Alemã em Maruim

Adolphine Schramm

Uma Mulher Alemã em Maruim

Por Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento

Um depoimento de Joel Aguiar, memorialista da vida maruinense, é bastante esclarecedor acerca da importância que teve a família alemã Schramm, na Província de Sergipe, durante o século XIX: “Os Schramm exerceram na cidade de Maruim benéfica influência e a opulência do seu viver, como também a generosidade dos seus gestos ainda hoje são conhecidos. O cônsul Otto Schramm foi, para Maruim, um símbolo de rara cultura e um edificante exemplo de que o trabalho tudo vence.

Velhos de hoje, que moços frequentaram o solar dos Schramm, narraram-me o fausto que ali resplandecia nas largas e claras salas muradas de espelhos e adornadas a rigor; no salão-refeitório, em cuja imensa, pesada e custosa mesa de jacarandá, com pitorescos entalhes, lampejavam os mais finos cristais, tinia um serviço extravagante de prata reluzente, branqueava uma enorme toalha de linho holandês e aromatizavam o ambiente todos os frutos da Europa e todas as especiarias do Oriente. Nas lácteas espáduas e nos alabastrinos colos das sonhadoras filhas do Reno e do Danúbio, rangiam as sedas asiáticas e cintilavam as pedrarias italianas. Era o alto burguesismo comercial de Bremen e de Hamburgo em toda a sua magnificência, neste retalho geográfico da América Austral”.

A dona da casa, a senhora considerava a sua residência aconchegante e na correspondência que enviava aos seus familiares na Alemanha a descrevia em detalhes: duas salas de estar, uma sala de jantar, quarto de dormir, o quarto de vestir do marido Ernst, o quarto de hóspedes, o quarto da empregada, um quarto grande com armários e banheira e uma grande despensa. Todos os quartos davam para um corredor que dividia a casa em duas partes. A residência era toda cercada por varandas e na parte da frente tinha dois andares. Nos fundos estavam situados a cozinha e os estábulos e na parte mais baixa ficava um grande quarto onde dormiam os escravos, a lavanderia, um quarto de passar a ferro e a despensa para vinho, cerveja e batatas.

A casa era muito bem ventilada. Todo o mobiliário era de jacarandá maciço com palhinhas finas, enquanto os móveis dos quartos tinham estilo rococó com pernas recurvas, portères de tule e cortinas. Segundo Adolphine, existiam na casa 13 tipos diferentes de cadeiras de encosto e de balanço. Para administrar a residência ela contava com duas empregadas alemãs. Além da sua casa, a alemã também gostava das noites de lua maruinenses e elogiava o céu cheio de estrelas, as frutas, os pássaros e as borboletas.

Via ainda os hábitos alimentares como outro ponto alto da vida em Maruim, destacando a ótima sopa de carne que consumia diariamente, além da carne cozida com molho picante, as verduras, o maxixe, o chuchu, a abóbora, a farinha de mandioca, a galinha ao molho pardo, o enrolado de carne, os bolinhos de carne, a salada de arenque, os bolinhos de peixe, a carne assada com feijão preto, o inhame, a salada de batata, a carne de carneiro, a carne de porco. O comércio local pareceu a Adolphine Schramm um espaço adequado para se fazer boas compras.

Todo esse refinamento, contudo, não fazia a felicidade da dona da casa, como pode ser compreendido na descrição que faz José Edgard da Mota Freitas, na introdução do livro Cartas de Maruim, acerca da vida de Adolphine Schramm em Sergipe: “um pássaro numa gaiola de ouro”. Apesar de toda a estrutura residencial de que dispunha e da admiração por alguns poucos elementos naturais e pela culinária, foi muito elevado o grau de estranhamento de Adolphine em relação ao ambiente dos trópicos. E, várias vezes, expressou claramente a sua amargura: “a vida aqui está ligada a tantas privações espirituais e naturais! Com as últimas é possível se acostumar, mas, com as primeiras, sente-se cada vez mais”.

Para Edgar Freitas, ela “não conseguiu adaptar-se ao rigor do clima tropical e à estreiteza do meio cultural. Essas dificuldades de adaptação afetaram-lhe (…) não só o corpo, mas também a alma. (…) As suas únicas compensações, para suportar as dificuldades do convívio numa terra distante, cujos costumes eram tão diferentes daqueles da sua terra natal e cujo clima lhe destruiu a beleza física, eram o amor do marido e a esperança de um dia retornar à Alemanha”.

Ao se manifestar sobre o seu estranhamento em relação ao ambiente, Adolphine, através da sua correspondência com seus familiares alemães, reclamava da natureza dos trópicos, que lhe parecia demasiadamente feia, em relação ao ambiente natural europeu.

Texto e imagem reproduzidos do site: sosergipe.com.br

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Homenagem ao sergipano Félix D’Ávila

Imagem extraída de foto de Marcelo Freitas, 
reproduzida do site do Portal Infonet 
e postada pelo blog SERGIPE..., para ilustrar artigos 

Texto publicado originalmente no site Usuário/Web/Infonet/Osmário, em 20/08/2007

Félix D’Avila uma lenda na Educação Física

Por Osmário Santos

Félix D’Avila nasceu a 19 de janeiro de 1928, na cidade de Aracaju/SE, precisamente na rua
São Cristóvão, esquina com Lagarto.

Nome dos pais: Luiz José da Costa Filho Alice Ferreira Cardoso. O pai foi advogado e o primeiro inspetor do Trabalho em Aracaju. Também atuou na política e ensinou no Atheneu. Com ele aprendeu a ter objetivos na vida, a determinação, dignidade e honestidade. Sua mãe se formou em Pernambuco e Félix conta que foi a primeira sergipana a ter um curso superior em Direito, embora tenha exercida a profissão por um curto período. Emplacou uma vida de professora no Colégio Tobias Barreto e cuidou de seus 10 filhos. Admira sua mãe pela sua personalidade e interesse pelos filhos.

A infância do menino Félix foi dividida entre Aracaju e na fazenda do pai na proximidade da cidade de Estância. Recebeu da professora Almerinda as primeiras lições no Colégio Tobias Barreto, onde iniciou os estudos do curso primário, concluído no Colégio Jackson de Figueiredo. "Lembro bem da Judite e do Benedito, expressões da Educação em Sergipe e no Jackson fui aluno das professoras Maria Odete Barreto e Nair Galrão, que me prepararam para o curso de admissão no Atheneu". Aprovado, passa pouco tempo no famoso colégio da rede pública estadual, diante da mudança de residência dos pais para a cidade do Rio de Janeiro, onde termina o ginásio no Colégio 28 de Setembro e faz o curso científico no Colégio Piedade, chegando ao final do curso médio. Na Escola Nacional de Educação Física e Desporto da Universidade do Brasil, hoje UFRJ, depois de enfrentar vestibular em 1955 e estudar por três anos, cola grau no curso superior em Educação Física em 1957. "Na minha época reitor da Universidade era o Pedro Calmon".

O despertar para educação física ficou por conta do seu lado de atleta no tempo de estudante no Rio de Janeiro, onde jogou e bem no times do Colégio 28 de Setembro de voleibol e basquetebol.

Por ter conseguido junto ao então governador do Estado de Sergipe, Leandro Maciel, uma bolsa para custear seus estudos na Escola Nacional de Educação Física, ao receber o diploma, já casado, deixa o Rio de Janeiro em 1958 e volta a Sergipe, fixando residência em Aracaju, onde começa sua vida profissional.

Além de trabalhar para o Estado na condição de professor de Educação Física do Colégio Atheneu, tem tempo para ensinar nos colégios particulares: Jackson de Figueiredo e Salesiano.

No campo de trabalho que começava atuar bons professores já tinham emplacado a nova metodologia da Educação Física em Sergipe, a exemplo dos professores Edilberto Reis Cunha, Adalberto Silva, José Calazans, José Carlos Barbosa, professor Adalberto e outros. Mas quando do seu retorno a Aracaju conta que só tinha com nível superior o professor Edilberto que dava aulas na Escola Técnica e no Atheneu. Também coordenou atividades a Educação Física nas escolas da rede estadual de ensino.

Como prestou concurso público para o Ministério da Educação e com aprovação, não demora muito e retorna em 1962 ao Rio de Janeiro para trabalhar como inspetor de ensino do MEC.

Com a fundação da Universidade Federal de Sergipe em 1969, o seu primeiro reitor, professor João Cardoso do Nascimento Júnior, consegue liberação do professor Félix junto ao ministro da Educação Jarbas Passarinho e a partir daí mais outra história de trabalho, iniciada no Centro de Civismo, Educação Física e Desporto criado por João Cardoso e com sede na praça Camerino. "Assumi a direção do centro, que estava recém-criado e cuidei de toda sua estrutura organizacional".

Em 1972, ano da autorização depois de participar do todo o processo de criação o Ministério da Educação autoriza o funcionamento do Curso de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe que tem em Félix D´Ávila seu primeiro diretor. Foi mantido no comando do curso até o ano de 1979, quando é convidado para fazer um trabalho na Universidade do Paraná, sendo colocado a disposição da universidade pelo então reitor da UFS. "Depois de quatro anos de trabalho, no momento do meu regresso a Aracaju, o reitor de lá não me deixou voltar. Veio até Aracaju e conseguiu do então reitor da UFS, Gilson Cajueiro de Holanda, minha transferência para o Paraná, onde fiquei até 1991, quando em aposentei. Lá ministrava duas disciplinas e coordenava a pós-graduação em Educação Física da Universidade Federal do Paraná".

Ao se aposentar, recebe convite do Departamento Nacional do Sesi, através do seu superintendente e amigo, o sergipano Rui Nascimento, para trabalhar em Brasília, onde presta serviço até 2000.

Da vida de professor e passagem pela UFS por várias turmas, inclusive como paraninfo, sente-se gratificado. "Quando a gente vê alunos da época a gente sente que a nossa missão foi cumprida. Um Déda, governador do Estado, por exemplo. Benedito Figueiredo e Walter Franco foram ex-alunos do Salesiano. Como professor é uma satisfação muito grande constatar o sucesso dos meus ex-alunos".

Das homenagens recebidas: "Hoje sou o único professor de Educação Física no Brasil com título de Professor Emérito. A primeira era a professora Maria Lenk, que morreu no ano passado e foi homenageada com seu nome no Complexo de Natação onde aconteceu o Pan. O segundo sou eu. Não existe mais ninguém no Brasil. Ela recebeu o Título pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e eu pela Universidade Federal de Sergipe".

Além de professor é jornalista profissional. "Em Aracaju atuei fazendo crônicas no jornal ‘A Cruzada’. No Rio de Janeiro trabalhei na Revista do Rádio do Anselmo Domingos, na Vida Doméstica, também escrevendo crônicas. No rádio carioca trabalhei Na Rádio Cruzeiro do Sul no programa do Celso Garcia, que era Cruzeiro pelos Teatros. Nós transmitíamos toda a terça-feira uma peça de algum teatro. Como sempre gostei de escrever, hoje em dia tenho uma coluna aos sábados no Jornal do Dia sobre educação física, desporto e lazer".

Casou com a mineira Terezinha Brito e com ela quatro filhos: Marcos, Omar, Maria Tereza e Félix Filho. Do segundo casamento, com Maura Costa Lobo, a filha Melanei Costa D´Ávila. Tem sete netos.

Texto reproduzido do site: usuarioweb.infonet.com.br/~osmario

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Texto publicado originalmente no site Clientes/Infonet/Serigy/Site, em 08/02/2008

Félix D'Ávila: 80 anos de vida, 50 de magistério

Por Luiz Antônio Barreto

Félix D’Ávila, filho do advogado e intelectual Costa Filho e de Alice Ferreira Cardoso, nasceu em Aracaju no dia 19 de janeiro de 1928. Estudou no Colégio Jackson de Figueiredo o curso primário, de 1937 a 1940, mudando para o Rio de Janeiro, para estudar o curso ginasial no Colégio 28 de Setembro, de 1941 a 1944.  e o Científico no Colégio Piedade, de 1945 a 1947, ingressando, em 1955, na Escola Nacional de Educação Física e Desportos da Universidade do Brasil, ainda no Rio de Janeiro, concluindo o curso em final de 1957.

Apesar de exercer, enquanto estudante, atividades em jogos e competições, Félix d’Ávila iniciou sua carreira de professor de Educação Física em 1958, em Aracaju, nos colégios Estadual de Sergipe (Ateneu), Jackson de Figueiredo, Nossa Senhora Auxiliadora (Salesiano) e Pio Décimo, ampliando sua participação na então Cidade de Menores, nos primeiros quatro anos de atividades docentes em Aracaju.

O Ginásio Pio Décimo, situado na rua de Estância, tinha um grupo respeitável de professores, liderados pelo Diretor, Manoel Joaquim Soares de Lima, ele próprio professor de Matemática, que mais tarde transferiu-se para Salvador, criou o Colégio Nobre, e morreu em plena atividade pedagógica. Sua mulher Letícia Sobral Lima, filha do velho professor Joaquim Sobral, morreu meses depois, enlutando a educação sergipana, no capítulo das décadas de 1950 e 1960. O Ginásio Pio Décimo contava com o professor Jugurta Franco, ensinando Latin, ele ex-padre, ordenado por Dom José Tomás Gomes da Silva, no Seminário Sagrado Coração de Jesus, com o professor João Costa, de Português, um dos mais jovens do grupo, com a professora Maria Augusta Lobão Moreira, de História, firme nas convicções, serena no trato, com o professor Joaquim Sobral, experiente mestre, velho Diretor do Ateneu, ícone de uma época, com o professor Jouberto Uchoa de Mendonça, que cumpria as funções de Secretário e era uma espécie de “faz-tudo” que dava vida e alma ao pequeno Ginásio. Felix d’Ávila não podia ter começado em melhor meio, experimentando a prática docente em algumas das melhores escolas dos anos de 1950.

A partir de 1962 o professor Félix d’Ávila deixou novamente Sergipe, fixando-se no Rio de Janeiro, onde deu fôlego ao seu trabalho de professor. Na década de 1970 andou por Brasília e voltou a Sergipe, sempre colaborando, na teoria e na prática, com o ensino da Educação Física. Pós graduou-se pela Universidade de São Paulo, em 1976, fez cursos de Extensão universitária na Universidade de São Paulo,vários cursos de Aperfeiçoamento e de Atualização técnico-pedagógica, e ligou-se aos Jogos Estudantis Brasileiros e a outros eventos que destacaram o seu nome, em todo o País. Nos anos de 1980 foi para o Paraná, e naquele Estado construiu um currículo repleto de méritos, que tornou sua biografia de mestre ainda mais importante.

Saindo e voltando, o professor Félix d’Ávila concorreu para modernizar o ensino da Educação Física, o desporto estudantil, o desporto social, dando uma contribuição da mais alta qualificação, cujo exemplo de vida o faz credor do reconhecimento público e da admiração dos sergipanos. São 80 anos de vida, 50 de magistério, datas que referenciam o talento, a disposição, a responsabilidade, a dedicação a uma causa que abraçou, realizando uma biografia notável, que merece todos os elogios dos seus conterrâneos.

Jornalista, com registro profissional deste 1959, Félix d’Ávila colaborou na difusão da Educação Física, na discussão das formas interativas do desporto brasileiro, e sempre com a palavra acreditada, atualizada, orientando seus leitores, tanto os colegas de profissão, como os leigos nas matérias tratadas. Ativo, ágil, dinâmico Felix d’Ávila chega aos 80 anos de vida feliz por tudo o que pôde fazer pelo seu Estado e pelo País, como atestam a grande quantidade de homenagens, diplomas, títulos, medalhas, que adornam seu currículo. Sergipe deve mais que parabéns a Félix d’Ávila, deve um agradecimento solene pela sua vida de trabalho inovador. Vivendo, novamente, em Aracaju Félix d’Ávila continua colaborando com a Educação Física e com os desportos, e colaborando com o Jornal do Dia, com matérias esclarecedoras.

Texto reproduzido do  site: clientes.infonet.com.br/serigysite 

Professor Felix D'Ávila, faleceu em 10 de setembro de 2013, na cidade de São Paulo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Crônica aos 40 anos do Colégio Jackson de Figueiredo




Texto publicado originalmente no site do Correio do Povo de Alagoas, em 14/08/2017

Crônica aos 40 anos do Colégio Jackson de Figueiredo

Depois da partida do CJF fui direto para Maceió onde passei no vestibular de Física onde cursei na UFAL.

Por Raul Rodrigues 

Há exatos quarenta anos, saía este redator do Colégio Jackson de Figueiredo localizado em Aracaju, na Praça Olímpio Campos. Na época, cercado de pontos comerciais – a Sorveteria Yara, o Bar e Restaurante A Cascatinha, e bem em frente ao colégio, o Cachorro Quente do Seu João, após perdurar interno por três anos ao cursar o Curso Científico, atual Ensino Médio. Ali estudavam alunos internos, e, alunos e alunas considerados externos por não morarem na própria escola. A melhor passagem da minha vida estudantil. Nada superou tamanho aprendizado.

Era uma escola modelo para o país. Indiscutivelmente uma das melhores do Brasil, contando em sua lista de alunos internos com estudantes de todas as partes do imenso país, tamanha era a merecida fama do Jackson de Figueiredo. Os melhores professores do Estado de Sergipe, e os melhores resultados em todas as áreas da educação brasileira. Formava competentes cidadãos a serviço do Brasil.

O casal dona Judite e professor Benedito não ensinavam a viver, mas como viver bem e melhor! A formação do cidadão ficava por conta do casal proprietário da escola de completa amplitude ao formar cidadãos. Os professores – os melhores do estado – primavam com maestria pelo melhor aproveitamento dos conteúdos programáticos de todas as disciplinas. Eram mestres sem mestrados e doutores sem doutorados. Inigualáveis.

A disciplina cobrada e ensinada pelo saudoso professor Augusto – nos períodos da manhã e tarde – nos moldava qual ferro em fornalha para sermos verdadeiros homens de bem na caminhada da vida de cada um. Roberto Calumby, também professor de Biologia com sua marca inesquecível do falar e mostrar o boyce marque ou marca passo, também era o responsável pelo dormitório, onde nenhum aluno ousaria desafiá-lo mesmo ante a sua pequena paralisia de uma das pernas, porém com tórax desenvolvido ao ponto de fazer desistir qualquer adolescente mais atrevido a enfrentá-lo. Calumby impunha respeito pelo amor dedicado a todos, sem nunca perder a brandura de quase pai. Calumby era substituído por vezes para seu merecido descanso por Carlão, uma espécie ainda mais dura ao punir os desatentos. Destaque também Ladislau na disciplina.

Os auxiliares de disciplina – Chico na portaria e Erasmo – no entremeio, quase um faz tudo, não permitia respirar qualquer interno ao aspirar fugir. Os olhares atentos dos dois fazia tremer o mais ousado dos internos que desistia da tentativa de escapar, mesmo como forma de um desafio. A punição seria severa e indiscriminada. Lá não existia melhor nem pior; éramos todos iguais.

O regime de horários, dormir às sete horas em ponto, acordar às cinco horas para tomar banho frio, escovar os dentes e por sua farda impecavelmente limpa e sem dobras fazia parte da rotina diária, bem o obedecer das três palmas para formar filas em frente ao refeitório, a segunda para entrar e a terceira para silenciar totalmente. Ninguém ousava quebrar tais regras. Isto sagradamente durante as três refeições.

Fizemos história no Jackson de Figueiredo, e ele fez mais histórias ainda em nós.

E agora, depois de passados quatro décadas que nos separam os colegas Waldir, Célio, Denise e Nícia que administram o grupo de ex-alunos do período 1975/1977, estão a manter contato com os possíveis alunos da época para a realização de um encontro em Aracaju no dia 15 de setembro, ao qual já confirmei presença.

Texto reproduzido do site: correiodopovo-al.com.br

Hermínia Caldas guardiã da memória cívica do Estado

Maria Hermínia autografando Vultos da História da Educação em Sergipe
Foto: Shirley Rocha

Publicado originalmente no blog Academia Literária de Vida, em 21/08/2018

Hermínia Caldas guardiã da memória cívica do Estado

De Sandra Natividade

    A menina nascida em Santa Cruz do Sítio, município de Propriá/Sergipe, mas registrada na cidade de Japaratuba do mesmo Estado, filha de José de Aguiar Caldas e Maria Silva Caldas é a nossa joia rara, Maria Hermínia Caldas ou simplesmente professora Hermínia. Amiga dedicada e leal, patrimônio da educação e civismo de Sergipe, sua vida marca época, durante o tempo laboral doou saberes à educação em diversos estabelecimentos de ensino, entre eles: Instituto de Educação Rui Barbosa, Colégios Estadual, Atheneu Sergipense, Nossa Senhora de Lourdes, Tiradentes e Pré-vestibulares das Faculdades de Serviço Social e Pio Décimo, ministrando as disciplinas Língua Portuguesa e Literatura, Francês, Espanhol, Latim, Psicologia e Pedagogia essas as disciplinas que se especializou e escolheu partilhar com discentes durante seu trajeto na docência. Professora Hermínia construiu história de vida ao lado dos alunos que tanto amava sem distinção, hoje aonde chega, como toda professora dedicada é circundada por pessoas adultas reconhecendo-a como aquela que sempre ensinou para a construção da vida profissional de muitos.

    Na Secretaria de Educação do Estado assumiu cargos burocráticos, contudo um lhe projetou foi o de maior relevância para o próprio Estado - presidente da Comissão de Moral e Civismo. Para a inesquecível escritora Lígia Pina (in memoriam) em seu livro A MULHER NA HISTÓRIA, “Hermínia é a guardiã da memória cívica do País, em nosso Estado”. Ela respira amor pela pátria e por seu Estado, abrem-se espaços quando a mestra com fala mansa se reporta aos valores pátrios. Professora Hermínia Caldas é escritora, poetisa, autora de projetos consistentes nas áreas social e da educação foi uma das pioneiras da Nova Hora Literária ao lado de catedráticas como Maria Conceição Ouro Reis, Leyda Régis, Yvone Mendonça de Sousa e Cléa Brandão informação que encontrei cotejando A Mulher na História. Essa confraria mais tarde se tornaria Academia Literária de Vida - ALV. O início da ALV se identifica com a Academia Sergipana de Letras, ambas nasceram de confraria.

    Para a escritora ucraniana Clarice Lispector “O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo”, Hermínia trabalhou todo o tempo e mesmo aposentada continua produzindo, isto é não desistir de si mesmo - é uma honra tê-la entre nós - lucidez, disposição e criatividade são suas aliadas de primeira hora, creio logo em breve ter no prelo nova obra de sua autoria, vejo nessa abnegada de passinhos curtos um presente de Deus. Ela escreve e como escreve, produz e cria além da conta, é prazeroso receber anualmente ATIVIDADES um indicativo com as Atividades Gerais da ALV, reunindo controle de pagamento, calendário, endereço completo das acadêmicas com data de nascimento e ainda espaço para as atividades extraordinárias; a criatividade realmente reside nessa catedrática que na forma de folder faz inúmeros fascículos, a exemplo: Boas Festas, Boletim Cívico, Reedição de uma palestra de 1998 de sua amiga Lígia Pina sob o título Nasce uma Capital, Mulheres Sergipanas e ultimamente criou o "Projeto Conheça mais as Acadêmicas da ALV”, iniciando com a biografia da confreira Josefina Cardoso Braz, isto é gratificante.

    Ao escrever o poema sob o título O Ateu, do qual transcrevo o primeiro trecho, a ilustre confreira Hermínia Caldas expõe sem reserva sua veia poética:

Dizes que és ateu
Somente porque queres
Ser maior que o Senhor?
Ou, então pretendes
Do teu viver apagar
Os lumes todos da vida,
As luzes do teu olhar
Para não enxergares longe,
As coisas que te respondem:
Deus realmente há!
Ou talvez, não queiras
Nem um momento ouvir
As queixas do coração
Nem a voz da consciência
Que te diz com insistência:
Deus realmente existe!...

(escrito em 1966) publicado no Jornal da ALV/1997.

    Gosto de observá-la, olhando a placidez de sua face, lembro o que Abraão falou em Gn. 22.8/a “Deus proverá”, é assim que a vejo como se estivesse sempre na vanguarda agradecendo e confiando na provisão de Deus.

    Trago a lume uma passagem que li sobre ela na Revista da ALV editada pela jornalista e confreira Shirley Rocha, à época 2002, em comemoração aos dez anos de existência do sodalício, informando as homenagens prestadas pelos colegas de trabalho de Hermínia Caldas na passagem dos cinquenta anos de magistério da mestra. No artigo/ reportagem, diz taxativamente que a rua onde reside a homenageada parou ao som de música, fogos de artificio e, Hermínia recebendo flores, doces e ouvindo efusivos discursos. A palavra de Deus explica isto com o versículo “Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra”. Rm. 13.7.

    Hermínia é solteira, mas o magistério e seu estilo de ser fizeram-na mãe de filhos incontáveis que a reverenciam com o respeito e atenção que merece.

    Saúde, paz e alegria caríssima confreira professora Hermínia Caldas,

    Deus a abençoe sempre.

Texto e imagem reproduzidos do blog: academialiterariadevida.blogspot.com

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Vale o registro pelo inusitado do fato

Foto: Reprodução/TV Globo

Vale o registro pelo inusitado do fato

Por Ivan Valença

Vale o registro pelo inusitado do fato: poucas vezes  um artista sergipano obteve uma exposição tão fantástica, quanto este notável João Ventura. Ele se apresentou no Programa do Faustão, as sete horas da noite de domingo, ou seja, o horário de pico do programa. Ele e seu indefectível piano.

Os dois entoaram e cantaram músicas de Reginaldo Rossi e outros cantores nacionais, enquanto Faustão anunciava que ele fará shows em São Paulo e Aracaju antes que o mês de setembro termine. Por seu turno, Faustão bradava palavras de ordem sobre Aracaju e suas belezas naturais. Faustão acenou para outros shows de João Ventura no seu programa.

Poucas vezes um artista sergipano conseguiu uma exposição como este. Mesmo nos seus áureos tempos, o cantor Antônio Teles conseguiu um importante espaço como o que logrou agora o João Ventura. Teles foi o vencedor de um concurso famoso nos anos 50 e 60, o ABC de Ouro e por isso conseguiu apresentações em rádios da moda, como a Nacional, a Mayrink Veiga, a Tupi, etc.

Voltando a Aracaju, Antônio Teles conseguiu poucas oportunidades principalmente na sua área, a música. Apresentava-se nas emissoras de rádio e até em programas de auditório, mas nunca essas apresentações repercutiam para fazer bem a sua carreira.

Aqui em Aracaju, Antônio Teles se virava como repórter de um jornal local, a “Gazeta de Sergipe”, mas o seu forte mesmo era o rádio e os shows musicais.  Obtinha espaços em programas comandados pelo radialista Santos Mendonça mas as oportunidades aí não tinham a dimensão que obteve o João Ventura no Programa do Faustão.

Os artistas sergipanos tinham que se contentar com apresentações esparsas em Salvador ou em Maceió. Não chegavam a Recife, que era um mercado maior, principalmente nos tempos de carnaval. E Antônio Teles era um bom entoador de músicas carnavalescas. Sabia como levar a multidão para seguir o seu rítmo.

Texto e imagem reproduzidos do site: alonews.com.br

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Dr. Antônio Leite Cruz


Publicado originalmente no Facebook/Antonio Samarone, em 16/08/2018

MESTRES DA MEDICINA SERGIPANA

Por Antonio Samarone

Antônio Leite Cruz – nasceu em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, em 15 de agosto de 1940. Os pais, Teotônio Narciso da Cruz e Lourdes Leite Cruz, são sergipanos de Carmópolis. O avô, Honorino Ferreira Leite, foi Prefeito. Antônio Cruz possui três irmãs: Carmen, Sílvia e Maria Lícia.

O Pai, oficial da aeronáutica, obrigou Antônio Cruz a levar uma juventude nômade, de cidade em cidade, acompanhando as transferências do pai. Somente em 1958, com a passagem do pai para reserva, é que Antônio Cruz se estabeleceu em Sergipe. Concluiu o científico (2º e 3º ano) no Colégio Ateneu. Foi colega de turma de João Alves Filho. Chegou e se adaptou de imediato, as suas raízes estavam aqui.

Com uma boa formação escolar, Antônio Cruz foi um dos noves alunos aprovados no primeiro vestibular de medicina em Sergipe. Isso mesmo, somente nove aprovados. Os examinadores exageram nas exigências. Durante o curso, Antônio Cruz acompanhou o Dr. Fernando Sampaio, um dos pilares da cirurgia em Sergipe. Como possuía talento para cirurgia, começou a operar logo cedo.

Em um estágio em Propriá, ainda no sexto ano, o Dr. Ciro Tavares, percebendo as habilidades de Antônio Cruz, resolveu tirar férias, deixando o plantão com o estagiário. No período, Antônio Cruz realizou 9 cesáreas, fazendo também a anestesia. Todas sem complicações. No período da Faculdade, Antônio Cruz foi professor de química do Colégio Atheneu de Sergipe.

O Dr. Antônio Leite Cruz decidiu especializar-se em cirurgia pediátrica, frequentando uma residência médica de dois anos. Primeiro no Rio, com o professor José Antônio Lopes, e depois no Hospital das Clínicas em São Paulo, no serviço do professor Virgílio Carvalho Pinto. Bem formado, talentoso, retornou à Sergipe já contratado pela Faculdade de Medicina.

Foi como professor de cirurgia que teve o seu maior destaque. Didática refinada (personalizava as coisas), conteúdo atualizado e, sobretudo, uma postura ética impecável. Foi um professor que deixou lembranças. Quando se fala no professor Antonio Cruz, seus ex alunos reagem com carinho e consideração. Suas aulas sobre equilíbrio ácido/básico e reidratação eram memoráveis. Com certeza, um dos melhores professores que passaram pela medicina da UFS.

Entre 1970/711, durante o Governo de João de Andrade Garcez, o Dr. Antônio Cruz ocupou o cargo de Secretário de Estado da Saúde. Em seu primeiro Governo (1982/86), o governador João Alves Filho criou uma Fundação Hospitalar de Sergipe, visando construir um hospital público de qualidade. Para demonstrar a opinião pública ser uma iniciativa republicana, convidou o Dr. Antônio Leite Cruz para presidi-la.

A Fundação presidida pelo Dr. Antônio Cruz realizou, na mais completa lisura, o primeiro concurso público na Saúde do Estado de Sergipe. Os servidores foram contratados dentro de um Plano de Carreira, com isonomia entre médicos e enfermeiros. E um hospital equipado num padrão de excelência foi inaugurado. Nesse período, o Secretário de Estado da Saúde era o Dr. José Alves do Nascimento.

Em 07 de novembro de 1986, foi inaugurado o hospital João Alves Filho (HUSE), com 112 médicos, 30 enfermeiras, 96 auxiliares de enfermagem, e 200 funcionários de apoio. Contudo, o hospital, com 375 leitos, em 13 alas de internamentos, só começou a funcionar em 02 de fevereiro de 1987, já no Governo de Antônio Carlos Valadares.

No início do Governo Valadares o secretário da Saúde foi o Dr. Lauro Maia (o bom Lauro); e o presidente da Fundação Hospitalar Edney Freire Caetano. O primeiro diretor do Hospital João Alves, foi o médico Salvador Antônio de Souza Matos. No segundo Governo, João Alves extinguiu essa primeira Fundação da Saúde.

O Dr. Antônio Cruz, por onde passou no serviço público, deixou o exemplo de abnegação e decência. Na clínica privada, realizou mais de 11.700 cirurgias pediátricas, foi o primeiro cirurgião pediátrico de Sergipe. Só deixou de operar em 2015, sendo a sua última cirurgia em sua cadela de estimação. Black foi atropelada na rua, os veterinários queriam amputar a perna. Antônio Cruz disse não, deixe que eu opero. Durante a entrevista, a cadela saltitava em nosso meio.

Antônio Cruz é pai de 4 filhos, Mário Luiz, André Cruz (médico), Manuela Sobral e Suzana Sobral; e avô de três netos. Aos 78 anos, cabeça boa, domina os computadores, e vive dentro dos princípios com que guiou a sua vida, sem se afastar um milímetro. Antônio Leite Cruz, um dos grandes da medicina em Sergipe.


Post original no Facebook/Antônio Samarone > encurtador.com.br/vwGJY

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Antonio Samarone

domingo, 5 de agosto de 2018

Mestres da medicina em Sergipe - Dr. Melício Machado


Publicado originalmente no Facebook/Antonio Samarone, em 03/08/2018

Mestres da medicina em Sergipe. (Dr. Melício Machado)

Por Antônio Samarone

O Dr. Melício Resende Machado é filho de Melício de Souza Machado, o que nomeia a rodovia do Mosqueiro, e de Maria Resende (Dona Resendinha). O seu pai foi um grande empreendedor, chegou a possuir o maior coqueiral do Brasil. Melício Machado, o Pai, foi quem primeiro industrializou o leite de coco, com a marca “MEMACIA”.

Melício Resende Machado, nasceu em Aracaju, pelas mãos da parteira Amarilha, em 25 de novembro de 1939, à Rua Pacatuba. Estudou o primário com a professora Rosilda Rocha. Menino traquino, passou por vários colégios, para concluir o ginásio e o científico: foi interno em São João Del’ Rei, estudou no Atheneu, no Colégio Jackson de Figueiredo (de Benedito e Judite) e no Colégio Tobias Barreto, dirigido pelo professor Alcebíades Melo Vilas-Boas. No último ano do científico, foi estudar no famoso Colégio Paes Lemes, na Rua Augusta, em SP.

Da infância na bucólica Aracaju, Melício Machado relatou com saudade os banhos do Rio Sergipe, ali na Rua da Frente. Tem viva a memória do grande nadador Gildo Aguiar, fundador do serviço de Salva-vidas em Aracaju. Fiquei imaginando, por que ninguém se lembra que a despoluição do Rio Sergipe não é um bicho de sete cabeças?

Desde cedo, Melício Machado tomou a decisão que queria ser médico. Em 1961, entrou na primeira turma da Faculdade de Medicina de Sergipe. Foi muito amigo do Ex Prefeito Heráclito Rollemberg, e estudaram juntos para o vestibular de medicina. Heráclito foi reprovado na prova de física, por décimos. Na época, muitos acharam injusta a reprovação. A vida continuou, e Heráclito seguiu outro caminho.

Talvez por preconceito, a medicina estava começando em Sergipe, após o primeiro ano, Melício Machado consegue transferência para a Faculdade de Ciências Médicas do Rio de Janeiro, no Hospital Pedro Ernesto (atual UERJ). Não se adaptou na cidade maravilhosa, e conseguiu a transferência para a Faculdade Católica de Salvador, onde concluiu o curso de medicina, em 1969. Especializou-se em obstetrícia com o professor Jorge Resende, na enfermaria 33, no Rio de Janeiro. Isso mesmo, Jorge Resende o autor do famoso “Tratado de Obstetrícia” de Resende, que por muitos anos foi uma referência nacional.

Pouco antes da formatura, casou-se com o amor da sua vida, namorada desde os 15 anos, Dona Maria Helena. O seu pai faleceu 11 dias após a sua formatura, obrigando-o a retornar para Aracaju. Aqui ele encontra o centro de sua vida profissional: vai ser obstetra da Maternidade Francino Melo. Ao lado de Carlos Melo, Dalmo Machado, Albino Figueiredo e Aristóteles Augusto, formaram o melhor time da história da obstetrícia sergipana.

O Dr. Melício Machado exerceu com competência a obstetrícia, sempre voltado para o bom atendimento. Um grande humanista. Sempre discreto, viveu no anonimato, voltado para o trabalho. Não amealhou fortunas com a medicina.

O Dr. Melicio Machado é pai de 4 filhos e avô de 4 netos, vive modestamente a sua aposentadoria, com a alegria de quem tem a consciência tranquila. Inteligente, bem-humorado, fino no trato, ao ser perguntado que mensagem daria aos novos médicos, ele foi sucinto: “que ame os seus pacientes”.


Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Antonio Samarone

sábado, 28 de julho de 2018

A aviação sergipana e o comandante Walmir Almeida

Foto do arquivo de Eduardo Almeida e postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo.

Texto publicado originalmente no Blog Luiz Eduardo Costa 

Artigo de Eduardo Almeida,  filho de Walmir Almeida

Dia do Aviador - A aviação sergipana e o comandante Walmir Almeida 

Nas comemorações do Dia do Aviador e da Semana da Asa, um nome não pode ser esquecido em Sergipe, o do Comandante Walmir Lopes de Almeida.

Sergipano de Riachão do Dantas, Walmir migrou para Aracaju ainda criança, aos 5 anos de idade com a família. Despertado pelo desejo de voar, o menino Walmir acordava ainda de madrugada e, sozinho, escondido da mãe, caminhando em completa escuridão, ia da Rua Estância, onde residia, até o Campo de Aviação, o atualmente extinto Aeroclube de Sergipe, vencendo morros, areais, pistas de lama e mato, vestindo apenas um short, devido às suas poucas condições e lá, encostava na cerca e deleitava-se observando os aviões de guerra decolarem e pousarem em seu ballet aéreo que tanto o encantava. Foi caso de amor à primeira vista e de quem nunca mais se separou, fazendo disso uma relação estável e apaixonada que perduraria até seus últimos dias.

“...Ave! Sobe ao ar, grande bólido alado, linda garça voadora...”

O Campo de Aviação, denominado de Campo de Anipum, era o antigo Aeroporto de Sergipe, onde as pessoas embarcavam para suas viagens a outros estados do Brasil, nos tempos áureos do glamour e do romantismo da aviação, a bordo invariavelmente dos Douglas DC-3, um dos ícones da aviação que interligou o país pelo ar. Depois veio a se tornar Aeroclube de Sergipe.

De tanto ficar na cêrca, certa feita alguém chamou aquele menino para empurar o avião para dentro do hangar e aí pronto(!), tocando a máquina, despertou definitivamente no menino o vírus das alturas que, depois de infectado, não há mais cura. Em outra ocasião, um dos pilotos o chamou para dar um vôo e lá se foi o menino Walmir, já com pose de aviador ao encontro do que sua alma clamava, tornando presença constante em seus sonhos, dormindo ou acordado, aquele momento mágico.

Tornou-se arrimo de família aos 13 anos de idade com a perda do Pai e dividia seu tempo entre o trabalho, a família e a aviação. Vindo a trabalhar no Palácio do Governo como fotógrafo oficial, obteve a ajuda do Interventor do estado, General Maynard, para concluir seu curso de piloto.

Desde então fez do campo de aviação a sua segunda morada ou talvez, a primeira. Lutou bastante por aquela instituição, se fez presente, ocupou cargos, entregou-se de corpo e alma, sem que houvesse reconhecimento por isso.

A aviação sergipana muito deve ao Comandante Walmir Almeida, pois, sempre comprometido com a aviação e com o próximo, sustentou durante 8 anos, às suas custas, todas as despesas do Aeroclube de Sergipe, em um período de crise, evitando assim seu fechamento e o encerramento das atividades aéreas no estado, sendo considerado um dos Patronos da Aviação Sergipana.

Foi proprietário da Concorde-Distribuidora de Combustíveis de Aviação, único posto do estado, à época, de revenda de gasolina para aeronaves. Venceu competições aéreas e ostenta até hoje o título de maior proprietário sergipano de aeronaves particulares, tendo possuído 13 aviões próprios, além de dedicar sua vida à aviação. Foi o piloto sergipano com maior número de horas de vôo. Visitou todos os países do mundo e um dos feitos de Walmir foi realizar a rota do Correio Aéreo Nacional pela Cordilheira dos Andes, sozinho, em seu próprio avião, em um vôo solitário e perigoso.

Como fotógrafo e cinegrafista aéreo, foi considerado pelos Governadores Leandro Maciel e Lourival Batista como o “Mestre das Lentes”, tendo este útilmo citado “...foram as imagens aéreas mais lindas do nosso estado que já tive o prazer de contemplar!”. Walmir registrou fatos sociais e políticos da época durante vários governos, também do alto, a bordo do seu Cessna que pilotava com maestria, à exemplo das imagens aéreas da inauguração do Estádio Lourival Batista, o 'Batistão', que foram amplamente veiculadas nos jornais do sul do país, bem como em um documentário cinematográfico, realizado pela sua produtora Cine-Produções Atalaia, que tinha como contratado niguém menos que Cid Moreira, sobre a sêca no nordeste que foi exibido em todo o Brasil pelo Canal 100 e pela Ponte Cinematográfica Nacional, bem como em diversos países da Europa, à exemplo da Suécia, Itália, Alemanha, França, entre outros, com imagens aéreas do Rio São Francisco e de algumas cidades do nosso estado, levando ao conhecimento do Brasil e do mundo os problemas enfrentados e que gerou a sensibilização de governos desses países, conseguindo assim ajuda internacional para o combate ao mal que assolava o nosso sertão, sendo inclusive condecorado pessoalmente em Brasíllia pelo Presidente João Goulart por duas vezes.

Seu maior orgulho era ter ensinado seus filhos e seu neto, o "Cmte. Dudu", a voar, inserindo-os na aviação desde os 2 anos de idade, dando-lhes asas, ao invés de raízes, como ele costumava dizer. Foi revendedor de aviões Cessna em Sergipe. Iniciou o primeiro serviço de táxi-aéreo sergipano, utilizando suas aeronaves para transportar autoridades, enfermos e quem necessitasse, entre eles o Ministro Mário Andreazza, Amyr Klink-o navegador solitário, entre outros,  chegando inclusive a pousar nas areias da Praia 13 de julho e na Colônia 13, em Lagarto, contratado por Dom José Vicente Távora para uma inauguração no povoado. Nessa passagem com D. Távora, Walmir, sempre espirituoso e com um tirocínio que lhe era peculiar, foi questionado pelo Padre se eles conseguiriam pousar lá, visto que naquele tempo as estradas eram intransitáveis e Walmir então respondeu rapidamente:

Padre, não se preoucupe, porque lá em cima a gente não fica não!”.

Walmir era um daqueles românticos da aviação, que tinha o voar no sangue e reconhecia aeronaves pelo cantar dos motores e pelo perfume deixado em sua passagem, inebriando-se com isso. Conversas sobre aviação invariavelmente duravam horas, sem que se percebesse a passagem do tempo, pois os ouvintes deleitavam-se em suas histórias e 'causos' da sua experiência de vida, ávidos por aprender a essência dos 'velhas águias'. Todos os anos participava, por força de uma promessa, da Procissão de Bom Jesus dos Navegantes, efeuando evoluções com suas aeronave, tornando-se uma tradição aquele aviador junto à procissão, e elogiado pelo Governador Leandro Maciel, que disse ser “as acrobacias aéreas mais bonitas que já presenciei. Esse rapaz nasceu pra isso e é um talento legitimamente nosso. Dá-nos orgulho!”

Realizava gratuitamente “vôos de coqueluche”, após o encerramento dessa atividade pela FAB em nosso estado e que era um efetivo remédio para os acometidos dessa enfermidade. Mesmo tendo perdido uma de suas aeronaves em um acidente em Vitória, no Espírito Santo, no qual ele comandou uma aterrissagem forçada em um morro e a aeronave logo após explodiu, Walmir, apesar do susto, não abandonou a aviação, ao contrário, narrava em tom jocoso o fato aos alunos. Devido à sua reconhecida e notória experiência na área, foi o único sergipano autorizado pelo Comando da Força Aérea Brasileira a trasladar um avião doado pelo Governo Federal para o ensino de alunos, à noite e sem que a aeronave possuísse equipamentos para vôo noturno! Foi homenageado pela Força Aérea Brasileira no Aeroporto Santa Maria, na Semana da Asa. Membro da FAA-Federal Aircraft Association, foi homenageado na maior feira de aviação do mundo, a Air Venture, em Oshkosh, nos Estados Unidos, a qual visitou por vários anos. Pioneiro na revenda de aeromodelos em Sergipe, deu inicio à modalidade no estado. Foi também capa da maior e mais respeitada publicação mundial sobre aviação, a revista FLYING.

Quando os aviões do Aeroclube se encontravam parados por manutenção ou falta de recursos, Walmir empregava seus aviões gratuitamente para o ensino dos alunos, sempre evitando que a aviação fosse interrompida em nosso estado. Apesar de ter perdido um de seus filhos, o Cmte. Walmir Jr., em um acidente aéreo, Walmir não abandonou a aviação, realizando um vôo solitário poucos dias após; um vôo em homenagem ao filho morto…

O mesmo conselho que dava aos seus filhos e neto, dava aos alunos. Quando algum deles  tinha medo de entrar em nuvens de chuva, ele dizia: “pois é para lá que nós vamos! Feche os olhos e nivele o avião, inclusive nas curvas, aí eu vou saber que você esta preparado. Limpe sua mente, faça de vocês dois um só. O bom avião é como o bom piloto, ele gosta de voar.”.

Um exemplo de homem, cidadão, trabalhador, vencedor em todas as áreas que atuou, fllho, irmão e Pai, infelizmente o espaço que dispomos é muito curto para falarmos de Walmir Lopes de Almeida e da sua extensa experiência de vida, tanto que seu filho, o Cmte.Eduardo ou "Carlinhos", como seu querido Pai o chamava, seu maior admirador, pré-lançou com o Pai ainda em vida, sua biografia, durante seu aniversário, na Maçonaria, no ano de 2010, intitulado "Meu Pai, o Comandante Walmir / A história que se tornou um livro, um livro que se tornará história" e o primeiro de uma série de volumes em literatura de cordel que fará sobre a vida do seu querido Pai.

Todos os anos, o Alto Comando do Ministério da Aeronáutica envia mensagem oficial ao seu filho, parabenizando o Comandante Walmir pela data, agradecendo pela sua valorosa contribuição à aviação brasileira, eternizando-o.

Walmir é um legítimo exemplo dos abnegados, um palinuro da aviação que escreveu seu nome na história para a eternidade criando uma relação de amor puro entre homem e máquina que jamais se extinguiria, fazendo deles um só.

Walmir nos deixou em 2012 e, na sua última mensagem, disse: “Quando eu partir para meu último vôo, não se preocupem comigo, eu estarei bem, estarei nas nuvens, onde eu sempre quis estar. Lá é o meu lugar.”

Fica então a nossa homenagem a esse nosso orgulho legitimamente sergipano.

Câmbio final...

AVE, Walmir!

Texto reproduzido do blogluizeduardocosta.com.br

terça-feira, 10 de julho de 2018

Luciano José Cabral Duarte (21.01.1925 - 29.05.2018)

 Dom Luciano durante a Tarde de Poesia dedicada à  Graziella Cabral ( in-memoriam) em 17.12.2005. Foto acervo ALV

23.10.1981- X FASC - solenidade de reabertura do Museu de Arte Sacra 
São Cristóvão/Sergipe. Foto acervo ALV.

Publicado originalmente no blog Academia Literária de Vida, em 30/05/2018

Dom Luciano Cabral Duarte 

Luciano José Cabral Duarte (21.01.1025 - 29.05.2018)

     Faleceu dia 29 e foi sepultado hoje (30) na Igreja de São Salvador, centro da cidade, o Arcebispo Emérito de Aracaju, Dom Luciano José Cabral Duarte. A fundadora da Academia Literária de Vida, Maria Lígia Madureira Pina, sua ex-aluna na Faculdade de Filosofia, falecida em 2014, sempre dizia do seu bem querer, sua admiração e a sua gratidão ao professor, ao intelectual, ao sacerdote que abriu novos caminhos para a juventude sergipana. Foi como professor universitário, que ele investiu esforços, tempo, estudo, amigos, relacionamento com políticos para fundar a nossa Universidade Federal em maio de 1968, sendo que antes já tinha sido instalas as faculdades de Química, Filosofia, Serviço Social, Economia e Medicina. Anos depois veio o Colégio de Aplicação, destinado a servir de treinamento para os estagiários da Universidade. Sacerdote da Igreja São Salvador por longos anos, depois Bispo Auxiliar de Aracaju e finalmente Arcebispo, sua carreira sacerdotal, social e intelectual tinha respaldo nos estudos pelo Institut Catholique de Paris e o título de Doutor da Universidade de Paris em Filosofia com a mais alta condecoração concedido pela instituição da Sorbonne - “Très honorable”, com a tese “La Nature de I’Intelligence dans le Thomisme et dans la Philosophie de Hume”, Depois publicada em forma de livro. Foi bolsista da Embaixada Norte-Americana. Foi redator e diretor do jornal A CRUZADA, em Aracaju e jornalista correspondente do Brasil para a revista O CRUZEIRO, no Concílio Vaticano II, quando era o Papa João XXIII. Escreveu por vários anos para o Jornal Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e no Jornal do Brasil. Foi presidente do Conselho Diretor da Fundação Universidade Federal de Sergipe e membro do Conselho Federal de Educação, por vários anos. Foi presidente do Departamento de Ação Social do Conselho Episcopal Latino- Americano, e depois eleito o 1º. vice-presidente deste Conselho.

      Dom Luciano fez parte da minha infância, pois minha mãe o ouvia diariamente, através da Rádio Cultura, (que ele trabalhou junto a Dom José Vicente Távora para instalar) em verdadeiros discursos, mas compreensíveis a qualquer pessoa, discorrendo não só sobre religião, mas dos problemas atuais que afligiam o país. Sua oratória era famosa no mundo inteiro, tinha o dom do improviso, quem o ouvia se encantava, sendo considerado o maior orador sacro do País. Seus livros referendados internacionalmente são prova cabal do seu conhecimento, da vida itinerante pelo mundo, exemplos estão nos livros “Europa e Europeus”, “Europa, Ver e Olhar”. Idealizou e organizou junto com o governo da época, o Museu de Arte Sacra de São Cristóvão, tentou a experiência pioneira de reforma agrária através do órgão PRHOCASE - Promoção do Homem do Campo - as terras doadas pela Cúria ele entregou às famílias por cessão por dez anos com a ajuda de governo do Estado, instituições e amigos. Taxado por uns de comunista, por causa disso, no entanto, era ferrenho defensor da democracia e abominava o comunismo, registrado em seus discursos e escritos, mas foi defendido pela maioria. Provou sua lealdade e princípios ao atender apelos de prisioneiros da ditadura, ao ajudar suas famílias, ao recolher estudantes de dentro dos quarteis e trazê-los para salas de aulas na universidade, graças a sua diplomacia junto aos militares. Membro da Academia Sergipana de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e tantas outras instituições, no Brasil e além fronteiras, sempre honradas com sua presença excepcional.

     Dono de uma memória extraordinária, ironicamente, a doença da qual foi vítima, Alzheimer, o fez prisioneiro do esquecimento. Viveu assim durante muitos anos amparado no carinho e cuidados da  irmã Carmem Dolores que sempre procura cultivar seu trabalho através do Instituto Dom Luciano, reunindo livros, discursos, revistas com suas publicações, fotos e objetos. São demonstrativos da admirável pessoa que nos deixou ante a saudade e nossa eterna gratidão, por tudo que fez em prol do seu povo. Descanse em Paz Dom Luciano.

Carmem, sua missão foi cumprida com amor e abnegação.
Nosso  abraço fraterno
Shirley Maria Santana Rocha – presidente da ALV e demais membros: Maria da Conceição Ouro Reis, Yvone Mendonça de Sousa, Maria Hermínia Caldas, Cléa Brandão de Santana. Josefina Cardoso Chagas, Adelci Figueiredo  Santos, Marlaine Lopes de Almeida, Raylane Andreza Dias Navarro Barreto, Sandra Maria Natividade, Jane Alves Nascimento Moreira de Oliveira, Maria Inácia Santos Dória, Tânia Cristina Santos de Souza, Izabel Cristina Melo dos Santos Pereira, Maria Eunice Guimarães Santos Garcia, Maria Edneide dos Santos Lemos, Maria Zélia da Silva Rocha.

Texto e imagem reproduzidos do blog: academialiterariadevida.blogspot.com

sábado, 7 de julho de 2018

Artur: Ontem, Hoje e Sempre




Publicado originalmente no Facebook/Carlos Alberto Déda, em 03 de julho de 2018

Artur: Ontem, Hoje e Sempre
Por Carlos Alberto Déda

Essa última semana de junho foi de grande emoção e tristeza para toda minha família. É que na noite de sexta-feira, dia consagrado a São Pedro, meu querido irmão Artur Oscar partiu para o reino dos Céus. Seguiu os ditames da vida e foi ao encontro dos amigos e parentes que também partiram para outra esfera, deixando imensa saudade.

Artur era um irmão e tanto – este “e tanto” tem um significado muito especial em minha terra: indica que é o máximo, que ultrapassa os limites, que é porreta, supimpa. Ele ultrapassava os limites em preocupação e bondade com todos nós. E liderava toda a família; nos transmitia muita força e tranquilidade.

Na minha infância, o meu apoio era o irmão Carlos Eugênio (dois anos mais velho que eu), até o dia em que ele, ainda muito jovem, foi morar no Rio de Janeiro. Então, daí em diante, o meu protetor passou a ser o irmão Artur Oscar que, na intimidade de criança, chamávamos de Tutu.

Ele era nove anos mais velho que eu e cuidou de minha instrução e orientação em conjunto com meus pais. Em todos os momentos importantes de minha vida, o bom irmão esteve presente, apoiando-me, orientando-me, confraternizando as alegrias e amparando-me nos percalços da vida. Um irmão e tanto, que viverá eternamente na minha lembrança e na de todos nossos familiares.

Há poucos dias, conversávamos sobre assuntos de Simão Dias e nos lembramos dos vários artigos que ele escrevera para o jornal "A Semana", sobre cinema, poesia, as diversões da gente de nossa terra e também sobre futebol.

Ele gostava muito de acompanhar os jogos de futebol. E neste ponto havia uma ligeira divergência: ele era um grande torcedor do Vasco da Gama e eu flamenguista. Mas encarávamos isto com muita brincadeira e humor.

Na atual Copa, quando ocorreu uma exaltada discussão sobre o árbitro do jogo entre Brasil e Suíça, lembrei-me dos velhos tempos em nossa cidade, quando a seleção brasileira enfrentou a equipe húngara, na Copa do Mundo de 1954.

Artur acompanhou o jogo pelo rádio na residência do Dr. Aguiar (Médico cirurgião), que era vizinho de tia Nice, na Rua do Coité. Eu e os colegas ouvíamos a narração no rádio da barbearia de Seu Zeca Barbeiro (oficial de justiça da comarca), que ficava perto, quase em frente ao Bar de Valério.

O Brasil perdeu para Hungria pelo placar de 4 x 2. Fiquei triste, quase chorando. Mas fui consolado pelo irmão que - seguindo a exaltação do brasileiro Mário Viana - culpou o árbitro bretão, Mr. Ellis, pela desclassificação do escrete canarinho. Naquela semana, usando o pseudônimo AROSDE, ele publicou no jornal (edição de 03/07/54, página 4) o artigo “Mr. Ellis derrotou o Brasil”.

Era minha intenção no decorrer desta semana escrever aqui sobre detalhes desses momentos vividos com ele. Não o fiz divido a emoção da despedida eterna do bom irmão. Mas como a Copa de Mundo é assunto que está em pauta nos dias atuais, inclusive com abordagens intensas sobre a atuação dos árbitros, repasso para lembrança de amigos e parentes, o que ele – em seus vinte e poucos anos de idade – escreveu sobre a atuação do apitador naquela partida de 1954.

Também repasso tópicos do seu pensamento expresso em discurso no Tribunal de Justiça de Sergipe, em agosto de 2017, quando foi homenageado no dia dos pais.

Nestes dias, relembrei com imensa saudade muitos momentos de alegria vividos como o querido Tutu. Ele sempre foi um irmão e tanto que permanecerá imortal em nossos pensamentos.

Texto e imagens reproduzidos do Facebook/Carlos Alberto Déda

Link do post original no Facebook > https://bit.ly/2lXZi7I

terça-feira, 3 de julho de 2018

Dom José Vicente Távora

Foto  de Dom Távora, reproduzida do blog de Padre Isaías Nascimento
e postada no blog SERGIPE..., para ilustrar o presente artigo.

Texto publicado originalmente do Facebook/Marcos Cardoso, em 03/07/2018

O “comunista” D. José Vicente Távora
Por Marcos Cardoso

Entronizado há cinco anos, o Papa Francisco areja a Igreja Católica com ideias e práticas mais condizentes com o mundo de hoje. É um avanço para uma Igreja que historicamente vive dando demonstrações não só de conservadorismo, mas de descompasso com o tempo.

É da Igreja ser conservadora. É da sua essência e disso depende até a sua sobrevivência. É dogmático. Mas houve tempos em que a Igreja foi, se não ousada, mais avançada. Pelo menos em questões sociais. Pelo menos no Brasil. Pelo menos em Sergipe. Um desses tempos foi o começo dos anos 60.
Uma ala da Igreja Católica estava sintonizada com a efervescência da época. O mundo passava por mudanças e a juventude brasileira dava sinais de querer mais do que mudar comportamentos sociais. Havia grupos jovens ligados à Igreja e havia um arcebispo ávido por transformações.

Era D. José Vicente Távora, criador e principal dirigente do Movimento de Educação de Base (MEB), que inovou alfabetizando através da Rádio Cultura, também criada por ele em 1959. O movimento ensinou muitas pessoas a ler e escrever, através das aulas de português, matemática e legislação que eram transmitidas pelo rádio.

“O MEB incorporou milhares de pessoas em atividades particularmente criativas, inclusive jovens universitários sequiosos de mudanças, contribuindo decisivamente para o processo de mobilização social”, segundo lembra o professor Ibarê Dantas, no livro “Os partidos políticos em Sergipe (1889-1964)”. “Apesar da tolerância com as manifestações de esquerda e com as reações de direita, D. Távora permaneceu como a principal autoridade do movimento até a véspera do golpe de 1964”.

“Atingindo cerca de 12 mil pessoas em perto de 460 localidades e 57 municípios e contando com quase 550 monitores orientados por 19 supervisores, nenhum movimento, em tempo algum em Sergipe, teve tanta influência, no sentido de proporcionar uma nova consciência aos trabalhadores rurais”, prossegue o historiador, acrescentando que D. Távora acabou sendo perseguido pelo regime militar e denunciado como comunista.

Em 1962, quando Jânio Quadros, candidato a presidente da República, esteve em Aracaju, D. José Vicente Távora propôs a ele um projeto de educação pelo rádio, a exemplo da experiência iniciada em Natal (RN) por D. Eugênio Sales. Aceita a proposta, quando Jânio assumiu a presidência o convênio foi firmado com o apoio da CNBB. Assim surgiu o MEB. O governo federal entrava com os recursos e a Igreja com a administração. Os primeiros sindicatos agrários, de inspiração cristã, nasceram em Sergipe sob a inspiração de D. Távora.

Quando aconteceu o golpe de 31 de março de 1964, a Igreja ficou dividida. “Uma ala mais ligada ao bispo auxiliar, D. Luciano Cabral Duarte, zeloso cooperador do Estado Autoritário, revelou-se simpatizante da nova ordem. Dentro dela, incluem-se alguns sacerdotes e até o bispo de Propriá, D. José Brandão de Castro, que posteriormente se manifestaria intrépido defensor das causas dos trabalhadores rurais e dos índios. A outra ala, vinculada ao arcebispo D. José Vicente Távora, recebeu o movimento como um grande retrocesso político. O próprio arcebispo, promotor do MEB, foi ameaçado de prisão. Com o fogo cruzado dos delatores que abominavam sua obra, além de submeter-se a depoimentos irritantes, esteve por vários dias praticamente confinado no Palácio Episcopal, escapando de maiores hostilidades por interferência do general Juarez Távora, seu parente. A campanha de educação popular, vista pelo patronato como a obra mais nociva à boa ordem, seria severamente afetada”, escreve Ibarê Dantas (“A Tutela Militar em Sergipe – 1964/1984”).

Conta o historiador que, hostilizado pelas autoridades militares locais, D. Távora escreveu ao general Juarez Távora e este enviou a carta ao comando do 28º BC, que mandou chamar o arcebispo, passando-lhe forte reprimenda. Mas, a partir daí, as ameaças teriam diminuído. No entanto, o MEB teve vários de seus funcionários detidos e seria reorientado sob a supervisão de D. Luciano Cabral Duarte. Posteriormente, o MEB se transformaria em “mera linha auxiliar do Mobral”.

O pernambucano D. José Vicente Távora já era bispo da capital quando, em abril de 1960, o papa João XXIII criou as Dioceses de Estância e Propriá e a Província Eclesiástica de Aracaju. Foi, portanto, o primeiro arcebispo metropolitano de Aracaju. E o foi até quando morreu, no dia 3 de abril de 1970.

Texto reproduzido do Facebook/Marcos Cardoso.

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