domingo, 16 de agosto de 2026

Homenagem ao artesão Antônio Gonçalves, o Toinho (1951-2026)




Praça Fausto Cardoso: Patrimônio Histórico de Aracaju

Foto: Ronaldo Almeida - Secom/PMA.

Artigo compartilhado do site da PMA, de 24 de março de 2010 

Praça Fausto Cardoso: Patrimônio Histórico de Aracaju
Por Amâncio Cardoso*

Se fosse eleito um núcleo urbano para Aracaju, ele deveria estar inscrito na praça Fausto Cardoso. Ela é uma das primeiras áreas públicas demarcadas pelo engenheiro Pirro em seu desenho fundador da capital, em 1855. Desde os primórdios da cidade que a antiga praça participa da vida aracajuana como um lugar de significativa importância e de diversas funções. Anotemos, assim, algumas histórias que atestam tais qualificações.

Nos idos de 1868, o então presidente da província relatou que aterrara a "Praça de Palácio" para diminuir os pântanos e charcos que alagavam Aracaju.  Neste período, onde hoje está a praça, havia um largo de areia em que se situava o primeiro palácio do governo provincial. Daí a expressão "Praça de Palácio" como primeiro topônimo do lugar. Atualmente, onde funcionava o antigo palácio está a Delegacia Fiscal, do Ministério da Fazenda, na esquina da face norte da praça com a rua da Frente. Quanto ao serviço de aterro, informado no documento, era de extrema importância à época, pois se acreditava que as águas estagnadas no areal sofriam evaporação e infectavam o ar, produzindo gases miasmáticos, os quais provocariam doenças epidêmicas. 

Desse modo, Aracaju e, especificamente, a antiga praça eram um quadrante encharcado que precisou de muito aterro. Prova disso é o registro de um ilustre visitante de nossa capital, oito anos antes, em 1860, o Imperador D. Pedro II (1825-1891). O monarca assim escreveu sobre os charcos da novel cidade: "botaram terra sobre a areia das ruas: não contavam com a chuva de hoje que formou muita lama." .

Por coincidência, foi na antiga "Praça de Palácio" que se hospedaram o Imperador, a Imperatriz e suas comitivas. Além disso, o desembarque imperial ocorreu "em frente à Praça de Palácio" num atracadouro de madeira, hoje conhecido como Ponte do Imperador, outro marco histórico-arquitetônico contíguo à praça. Sendo assim, enquanto a ponte serviu de portão de entrada para Suas Majestades, o velho largo se prestou como ante-sala. Pois, de seus aposentos, no antigo palácio (hoje Delegacia Fiscal), transformado em Paço Imperial durante a visita, o monarca vislumbrou a praça apinhada de súditos em sua reverência.  Até hoje, esta insigne visita marca a memória dos sergipanos, materializada no largo da praça e monumentos contíguos: "ponte" e "palácio" imperiais.      

Ainda no século XIX, foram plantadas, no descampado da praça, palmeiras imperiais importadas; talvez para lembrar a visita de D. Pedro II. Este foi o primeiro esforço de arborização em Aracaju, depois complementado com o plantio de oitizeiros e figos-benjamin; trazidos do Horto Florestal do Rio de Janeiro. A importação de árvores exóticas obedecia a um movimento estético das cidades européias, vistas como modelo civilizador.

Exemplo de embelezamento da Fausto Cardoso, com intenções modernizadoras, ocorre no início do século XX, quando são construídos os coretos que até hoje existem. Estes equipamentos arquitetônicos, além de embelezar, intensificavam a sociabilidade, pois ali ocorriam as retretas - apresentações de banda de música em praça pública -; os discursos políticos, que os utilizavam como palanques; e as missas campais. A partir de 1920, ano do centenário da emancipação política de Sergipe, foram construídos também os passeios externos e internos; instalados os postes de iluminação; assentados novos bancos vindos dos Estados Unidos.  Por conta disso, o lazer, o civismo e o bem-estar serão novos serviços oferecidos pelo velho largo com seus modernos mobiliários.

Sobre seu nome, a vetusta praça experimentou vários topônimos, além do "Praça de Palácio", já foi chamada "do Imperador"; "da República" e finalmente, em 1910, "Fausto Cardoso". Aliado a este último topônimo, ela recebeu em 1912 outra inovação: a primeira estátua pública de Aracaju. Pois o assassinato de Fausto Cardoso (1864-1906) foi eternizado na memória popular no local em que o deputado e advogado falecera. Assim, praça documenta, desde então, uma das tragédias mais lembradas da história política de Sergipe.

Quanto ao episódio da instalação da estátua, o escritor Genolino Amado (1902-1989), lembra que naquele dia a praça estava numa "aglomeração como nunca se viu". Tanto para cultuar, segundo Amado, o mito político; como para "ver e ouvir" o então afamado magistrado Gumercindo Bessa (1859-1913) em sua última manifestação de eloqüência, pois o orador estanciano raramente saía à rua, muito menos para discursar em praça pública.

Outro memorialista da cidade, Mário Cabral (1914-2009), lembra da praça em um de seus momentos mais significativos em termos estéticos. Admira-se Cabral, em 1948: os "jardins [da Fausto Cardoso] são magníficos. Possui dois coretos monumentais, uma fonte luminosa, além de outras obras de arte". Nesse ambiente agradável, continua o memorialista, "aos domingos e feriados, à tarde e à noite, ao som da música, ora da polícia, ora do exército, as moças e os rapazes fazem o seu desfile de elegância e futilidade". Pelo que indica Cabral, o espaço da praça nestes eventos era dominado pela juventude classe média e/ou abastada que desfrutava de um lugar central e privilegiado para ostentar seus símbolos exteriores de poder social e econômico, tais como carros novos e roupas elegantes durante o "footing" pela bela praça.

Neste período, além dos poucos carros particulares, a Fausto Cardoso era ponto dos "carros de praça" (atuais táxis). Aliás, para o memorialista Fernando Porto (1911-2005), as expressões dicionarizadas no Aurélio "carros de praça" (táxi) e "chofer de praça" (motorista de táxi) teriam sido originadas em alusão aos carros e motoristas estacionados na praça Fausto Cardoso.  Segundo outro memorialista de Aracaju, Murilo Melins, em agosto de 1933, "o ponto dos carros de praça foi transferido [da rua de Laranjeiras] para a Praça Fausto Cardoso", que recebeu o nome de "Praça de Carros 131", número de telefone que servia aquele local. Fica patente que os modernos serviços públicos tinham na velha praça seu lugar assegurado. Era e ainda é ponto de referência para todos.

Mas as memórias de Melins registram também outras tragédias de que a praça foi testemunha. A primeira delas diz respeito ao torpedeamento dos navios mercantes na costa sergipana em 1942, durante a 2ª. Guerra Mundial. Da sacada do palácio para o povo assustado na praça, o interventor Augusto Maynard (1886-1957) discursara pedindo "calma, e muita calma" aos sergipanos atônitos. O segundo episódio trágico foi o linchamento do líder trabalhista Lídio Paixão, "próximo à estátua de Fausto Cardoso", durante um ato público no dia do suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954. Como se vê, entre momentos de lazer, festas e romances, a praça parece ter a sina de testemunhar tragédias emblemáticas, como a do personagem que lhe empresta o nome.

No aspecto cultural, uma das manifestações mais tradicionais da religiosidade aracajuana, e que possui íntima relação com a praça Fausto Cardoso, é a procissão de Bom Jesus dos Navegantes, no dia 1º de janeiro. Durante o préstito católico, a praça se torna uma passarela para o embarque e desembarque da charola do Bom Jesus na Ponte do Imperador. Muitas fotografias, tiradas ao longo do século XX, documentam o uso da praça pelos devotos durante a centenária procissão. 

No campo político, no entanto, o evento mais marcante, e que teve a praça Fausto Cardoso como palanque, foi o da campanha das "Diretas Já". Este movimento selou o início da derrocada do Regime Militar após vinte anos de ditadura; sem eleições diretas, inclusive para presidente da República. A campanha se espraiou por todo o Brasil na forma de grandes comícios. Em Sergipe, o evento se realizou num domingo, 26 de fevereiro de 1984. Segundo o Jornal da Cidade, a Fausto Cardoso acolheu cerca de trinta (30) mil pessoas. Dentre as autoridades presentes, estavam o então presidente nacional do PT, Luiz Inácio Lula da Silva (atual presidente do Brasil); e também o então presidente do DCE/UFS, Edvaldo Nogueira (atual prefeito de Aracaju), em cujo mandato se realizou a última reforma de nossa praça.  

No âmbito das artes, a Fausto Cardoso foi musa de vários poetas. Mas destaco o poema de Jacintho de Figueiredo, escrito à época das comemorações do centenário de Aracaju, em que ele chama a praça de "coração da cidade". Eis os versos: "Na praça principal, - coração da cidade -/ (Como é bom recordar o que de bom havia!)/ Um viçoso jardim, e ornando-lhe a vaidade,/ Esplêndida calçada em torno se estendia./ Nas noites de domingo a invariabilidade/ Da Banda no coreto em estos de harmonia;/ Ao longo da calçada, a vida, a mocidade,/ Distraidamente, em grupos, conversava e ria".  O poeta cantava um tempo liricamente idealizado que, para ele, já se finava: das retretas nos coretos; do jardim viçoso; da esplêndida calçada; das alegrias da mocidade. Era como se a velha praça estivesse se extinguindo; como se as mudanças não perpassassem por seus jardins.

Mas a praça vem se revitalizando, a exemplo da última reforma sofrida este ano. Remoçada, o "coração da cidade" voltou a pulsar, recebendo prostitutas; convidando turistas; acolhendo mendigos; esperando estudantes; suspirando com os namorados; bocejando com os comerciários; legislando com os parlamentares e acompanhando as passeatas. Enfim, voltando a ter vida e a ser, como dizia o poeta, a "praça principal".

----------------------------

* Professor do Instituto Federal de Sergipe (IF-SE) 

Sócio do IHGS. E-mail: acneto@infonet com br

-----------------------------

Referência bibliográfica

1- BULCÃO. Antônio de Araújo d'Aragão. Relatório apresentado à Assembléia Legislativa. Aracaju: Typographia do Jornal de Sergipe, 02 de março de 1868. 

2 - SANTOS NETO, Amâncio Cardoso dos. Sob o signo da peste: Sergipe no tempo do cholera, 1855-1856. Campinas/SP: IFCH-Unicamp, 2001. (Dissertação de Mestrado em História).

3 - Diário do Imperador D. Pedro II na sua visita a Sergipe em Janeiro de 1860. Revista do IHGS. Aracaju,

4- Relatório da Viagem Imperial à Província de Sergipe em janeiro de 1860. Bahia, Typographia do Diário, 1860. p. 18 e passim.

5 - BARBOZA, Naide. Em busca de imagens perdidas: Centro histórico de Aracaju, 1900-1940. Aracaju: Funcaju, 1992. p. 43-54.

6 - AMADO, Genolino. Um menino sergipano. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. p. 210.

7 - CABRAL, Mário. Roteiro de Aracaju. 3. ed. Aracaju: Banese, 2001.p 204. (1ª edição em 1948; e 2ª em 1955).

8 - PORTO, Fernando. Alguns nomes antigos do Aracaju. Aracaju: J. Andrade, 2003. p. 178.

9 - MELINS, Murilo. Aracaju romântica que vi e vivi. 3. ed. Aracaju: Unit, 2007. p. 85.

10 - MELINS, Murilo. Aracaju romântica que vi e vivi. 3. ed. Aracaju: Unit, 2007. p. 45.

11 - "Comício reúne mais de trinta mil pessoas". Jornal da Cidade. Aracaju, n. 3641, 28 de fev. de 1984. p. 02.

12 - FIGUEIREDO, Jacintho de. Retretas. In: Motivos de Aracaju. 3. ed. Aracaju: Funcaju, 2000. p. 69.

**********

Texto e imagem reproduzidos do site: www aracaju se gov br

sábado, 15 de agosto de 2026

Joubert Moraes Seu tempo, um ciclo

Artigo compartilhado do site RADAR SERGIPE, de 15 de agosto de 2026 

Joubert Moraes Seu tempo, um ciclo
Por Luiz Eduardo Oliva*

As barricadas de Paris e a magia woodstoquiana ecoaram no Parque Teófilo Dantas, moldando uma geração que ousou quebrar estruturas.

Final dos anos sessenta o mundo vivia um reboliço, literalmente. “1968 foi o ano que não acabou” disse Zuenir Ventura. E continua inacabado, como o século XX, enquanto esse que vivemos teima em não acontecer. Em Paris, as barricadas dos estudantes enfrentavam o establishment. Nos EUA, outra onda varria o mundo. Woodstock foi a maior revolução sem disparar um único tiro. Jimi Hendrix e Janis Joplin foram as principais referências de uma juventude que resolveu dizer “chega”, que tinha o sentido de um “basta” aos costumes mofentos e corroídos da hipocrisia, um basta às guerras, onde o Vietnã era a Gaza dos dias de hoje. E eu era só “um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones”.

Fato: eu era só um garoto. Mas, antes de mim, já existia uma tribo de jovens sobretudo inconformados. E Aracaju era uma cidade carcomida por uma sociedade centrada no patriarcalismo e no padrão vestal da vida: enquanto ia-se à missa aos domingos, os senhores vestais iam ao Vaticano — não o da Basílica de São Pedro, mas aquele que abrigava os “cabarés” de uma Aracaju noturnamente boêmia. Dá para acreditar? Sim, dá.

Tudo seguia o ritmo natural das coisas, tanto em Aracaju como em alhures. Uma sociedade totalmente revestida de uma moralidade incorporada como dogma. E quem haveria de contestar? Se as barricadas de Paris, os alucinógenos de Woodstock e o som dos Beatles e Rolling Stones davam o tom daqueles anos no mundo, na capital do menor estado do país uma parcela da juventude não ficou indiferente, muitíssimo pelo contrário.

Dizia Marquinhos do Rio (onde andará?) que no Parque Teófilo Dantas, no centro de Aracaju, ficava a “duodécima porta do inferno”, numa alusão aos nove círculos do inferno, pela iconoclastia que se estabeleceu naquela juventude que girava em torno da recém-inaugurada Galeria de Arte Álvaro Santos. O inferno de Dante comportava só nove! E Sergipe, tal qual araruta, teve seu dia/tempo de mingau! E uma geração fez acontecer como no resto do mundo.

O poeta Mário Jorge era a liderança natural, pela sua irreverência, genialidade e criatividade. Ao seu lado, os compositores Alcides Mello, Marcos Chulé e Zenóbio Alfano; os poetas Amaral Cavalcante e Hunald Alencar; a poeta Mara Lopes; o artista plástico Joubert Moraes; a atriz Wilma Rodrigues (Nêga); o cronista João de Barros (o Barrinhos); o cinéfilo Djaldino Mota Moreno; a jornalista, poeta e cineasta Ilma Fontes; as jornalistas Clara Angélica (também cantora) e Lânia Duarte (também artista plástica); o fotógrafo Marinho Neto; o tapeceiro e também colunista Luiz Adelmo; e alguns mais jovens estavam ali como “noviços”, como  Caio Rubens, o poeta Vinicius Dantas e Hugo Julião. Eu via, na “cuca” anotava e depois passei a interagir também.  Claro que não eram só esses, mas aí está um punhado altamente representativo. Muitos já partiram, outros saíram de cena.

No apagar das luzes do último mês de julho, saiu de cena definitivamente um dos mais icônicos daquela troupe, o multifacetado artista, o performático Joubert Moraes. Tendo incursionado na pintura, desenho, escultura, música, cenografia, poesia e diversas outras linguagens artísticas, ele marcou de tal maneira a cena aracajuana que havia até o neologismo “Aracajoubert”.

Joubert representou a síntese de sua geração, que abriu caminhos para a minha e as vindouras. Na forma de viver; na casa que tinha justamente na avenida Mário Jorge, seu parceiro e amigo querido; na música que criava e interpretava; na pintura que trazia tons psicodélicos, com cores pastel em movimento, como eram os quadros de coqueirais ao vento. Alguns, como um que tenho, parece mesclar um pouco da pintura clássica sem ser antiga, mas para além do seu tempo, parecendo caminhar livremente entre a justa proporção clássica renascentista, o psicodelismo surrealista e o abstracionismo expressionista.

Vivem-se tempos terríveis. O século XXI teima em não acontecer, há até um retroceder numa espiral de mediocridade que contrasta com a evolução cibernética. A partida de Joubert Moraes nos convida à reflexão. Ele foi um personagem que, sobretudo, ousou. Ousou e quebrou estruturas carcomidas, pensamentos que insistem em querer voltar. Nesse mundo da superfície, mergulhar por alguns momentos em personalidades como a de Joubert, para além da homenagem que se deve prestar ao grande artista, é necessário também refletir sobre o seu legado — não só no fazer artístico, mas no de se posicionar no seu tempo e buscar transformá-lo. Ave, Joubert!

---------------------------

* Luiz Eduardo Oliva é advogado, poeta, professor e membro das Academias Sergipana de Letras Jurídicas e Riachuelense de Letras, Artes e Cultura.

Texto e imagem reproduzidos do site: radarse com br

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Mangue Jornalismo ENTREVISTA Terezinha Oliva


Legenda da foto: Manoel Bomfim 
(Aracaju, 8 de agosto de 1868 — Rio de Janeiro, 21 de abril de 1932)

Entrevista compartilhada do site MANGUE JORNALISMO, de 2 de janeiro de 2024

Um dos mais importantes intérpretes do Brasil é sergipano, mas quase invisível. Livro da professora Terezinha Oliva joga luzes em Manoel Bomfim

Por Cristian Góes (Repórter)

Manoel José Bomfim. Para muitos, um nome comum que não convoca memória nenhuma. Talvez um parente antigo. Hoje já não se batizam muitos Manoeis. Outros ligam esse nome a uma rua ou uma escola que já ouviram falar. Um grupo reduzido diz que esse sujeito traz uma vaga lembrança de alguém importante na história, mas nada que isso. Para uma minoria da minoria, sim, trata-se de um grande intelectual brasileiro esquecido.

De fato, Manoel Bomfim é um sujeito quase invisível na história, apesar de ser um dos mais importantes pensadores, formuladores e intérpretes do Brasil e da América Latina. Sim, ele nasceu na pobre Aracaju em 1868, no dia 8 de agosto. Manoel foi profundamente silenciado pela elite letrada e reacionária do Brasil por ele tinha fortes críticas ao colonialismo europeu que produziu exploração e pobreza. Também foi apagado porque fazia uma defesa enfática de que a saída para os males dos países invadidos, como o nosso, é o investir em educação popular.

Nos últimos anos, alguns pesquisadores se esforçam para jogar luzes sobre as extraordinárias contribuições de Manoel Bomfim ao pensamento crítico brasileiro e latinoamericano. A professora Terezinha Oliva (UFS), uma das mais importantes acadêmicas sergipanas, fez isso e em 7 de maio deste ano lançou o livro “Manoel Bomfim, um intérprete do Brasil”, editado pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc). É com ela que a Mangue Jornalismo conversou um pouco sobre esse aracajuano tão pouco conhecido para sergipanos e brasileiros.

Mangue Jornalismo (MJ) – Professora, é verdade que Manoel Bomfim somente foi redescoberto em 1984, quando Darcy Ribeiro, em um ensaio, classificou esse aracajuano como “o pensador mais original da América Latina”? Em que reside a originalidade e centralidade do pensamento de Manoel Bomfim, sua importância ontem e hoje?

Terezinha Oliva (TO) – Manoel Bomfim foi um escritor muito conhecido ao seu tempo e teve livros adotados na escola até a década de 1950. Na década seguinte ocorreu o seu silenciamento; os livros didáticos deixaram de ser adotados e as obras de interpretação sobre o país e o continente, não tinham feito seguidores. Darcy Ribeiro leu “A América Latina”, obra de Bomfim, de 1905, durante o exílio, numa biblioteca de Montevidéu. Isso aconteceu entre 1964 e 1968, o período do exílio. Então ele se surpreendeu com o que leu e julgou Bomfim o “pensador mais original da América Latina”. Mas a surpresa e o estranhamento também foram revelados, no mesmo período, por outros leitores, como Vamireh Chacon, estudioso pernambucano, que em 1965 perguntou, espantado: “Por que não se fala nesse Manoel Bomfim?”

MJ – Não se fala porque seu pensamento se chocava com a ideologia oficial, não é isso?

TO – Sim, a leitura provoca choque, porque a visão de Bomfim sobre a colonização europeia e os motivos do “atraso secular” do continente latino-americano, a suposta incapacidade dos seus povos para o progresso e a atribuição, aos colonizadores, de uma superioridade racial, tudo isso é descartado pelo escritor sergipano, que mergulha na História e nos modos de exploração colonial para mostrar o que acontecia no Brasil e nos outros países da América do Sul. A atualidade desse autor decorre de aspectos para os quais ele chamou a atenção e que ganharam mais importância no processo brasileiro. Mas Bomfim foi marcado por diferentes apropriações do seu pensamento, à direita e à esquerda, ainda no seu tempo e hoje ele pode ser inspirador, mas é claro que algumas das suas leituras estão datadas.

MJ – É exatamente em razão dessa originalidade em seu tempo que Manoel Bomfim é rigorosamente invisibilizado pela historiografia brasileira? Digo “em seu tempo” porque as ideias dele estavam em contraposição ao pensamento dominante. É isso?

TO – Vários estudiosos tentam dar respostas a essa invisibilidade que atingiu a obra de Manoel Bomfim. Darcy Ribeiro, que prefaciou “A América Latina: males de origem” no seu reaparecimento, em 1993, mostra como Bomfim foi contra as correntes de pensamento predominantes e as visões de todos os grandes intelectuais brasileiros do seu tempo, como o nosso Sílvio Romero. A teoria da desigualdade inata das raças e o Darwinismo Social tinham status de teorias científicas e a coragem do autor sergipano em desmascará-las, mesmo sendo um evolucionista, o tornou alvo de terríveis ataques para desqualificá-lo. Além disso, a linguagem de Bomfim é reconhecidamente a de um militante, apaixonado e ele enveredou por uma explicação biológica que ficou datada, de modo que, quando, após os horrores cometidos na II Guerra Mundial, as teorias da superioridade da raça branca começam a ser descartadas, sua obra não foi tomada como referência. É realmente estranho o silenciamento do seu nome, mesmo quando o assunto o obrigaria, como a atual retomada dos estudos sobre eugenia e o que eles causaram no país.

MJ – Além de apagado nacionalmente, Manoel Bomfim também é um ilustríssimo desconhecido em Aracaju e em Sergipe. Isso se deu ainda pelas polêmicas discussões entre Sílvio Romero e ele? Romero defendendo, por exemplo, o branqueamento da população como solução para o “defeito de formação” do brasileiro, e Bomfim valorizando a miscigenação e negando a validade científica das teorias racistas. É isso?

TO – Sim, Sílvio Romero escreveu nos jornais e publicou, depois, uma obra com o mesmo título do livro de Bomfim que ele desqualificou, “A América Latina”, na qual, em mais de 400 páginas ele procura destruir o pensamento do seu conterrâneo e apequena-lo intelectualmente. As visões dos dois sobre a questão racial no Brasil são completamente opostas, com Manoel Bomfim vendo na miscigenação racial um fator que facilitaria o progresso no Brasil e Sílvio Romero propagando a tese de que a imigração europeia seria necessária para branquear a população brasileira e assim tornar possível o progresso. O que aconteceu em Sergipe, ao meu ver, é fruto, em parte, da força e do respeito para com a tradição dos intelectuais da Escola do Recife, como Tobias Barreto, Fausto Cardoso e Sílvio Romero, em que não se inclui Manoel Bomfim e o fato de que nenhum dos intelectuais sergipanos do seu tempo retoma as suas ideias. Além disso, embora tendo revelado o seu amor por Sergipe – a quem ele dedica o livro “A América Latina” – Bomfim teve uma passagem pela política local que não prosperou. Ele ocupou a vaga deixada na Câmara Federal pela morte de Fausto Cardoso, um ídolo em Sergipe; em 1907 ele se tornou deputado federal por Sergipe, mas não conseguiu fazer carreira. Hoje temos ruas, escolas, a biblioteca do Instituto Histórico e uma medalha instituída pela Assembleia Legislativa, com o nome de Manoel Bomfim, além de estudiosos locais e obras importantes, publicadas sobre o seu pensamento. Esperemos que isso o faça mais conhecido dos conterrâneos.

MJ – Manoel Bomfim tinha um pensamento crítico sobre a exploração do povo e o saque de nossas riquezas. Em que medida, esse pensar se articula com suas importantes produções no campo da Educação Pública, da Psicologia, da História, da Cultura e do Jornalismo? Desses campos (Educação, Psicologia, História, Cultura e Jornalismo), o que podemos destacar?

TO – Manoel Bomfim fez parte de uma geração de intelectuais que tinha, na frase feliz do historiador Nicolau Sevcenko, “a literatura como missão”. Intelectuais que queriam “salvar” o país do atraso, de certa forma, redimir a nossa trajetória histórica. A questão reside em que ele não repete as teorias externas sobre o Brasil e a América Latina e na contramão delas, não vê a presença europeia no continente como fruto de um processo civilizatório, mas como fruto da exploração capitalista mais brutal, destruindo o meio ambiente, os saberes acumulados, as culturas construídas e os povos. Então, além de teorizar sobre aquele processo, ele acreditou que a saída para os países colonizados estava na educação popular e admitia que a única inferioridade dos seus povos era a ausência do acesso à educação.

MJ – E Manoel publicou sobre isso, não foi?

TO – Sim, sim, ele usou a imprensa, os livros – e ele escreveu vários títulos didáticos – esteve no grupo que criou a primeira revista infantil no Brasil, O Tico-tico e exerceu cargos de direção nas áreas da educação pública e da formação de professores. O livro didático escrito em parceria com Olavo Bilac, “Através do Brasil”, foi usado nas escolas de vários estados, entre 1910 e a década de 1950. É um compêndio para o Curso Primário com noções de Geografia, de História, de fundamentos da economia e uma mensagem sobre o valor do povo brasileiro. Mas ele escreveu obras de Psicologia, de Composição (escrita), de Ciências, de Didática, foi um incansável divulgador do conhecimento e se dirigiu especialmente aos professores, sobre como tratar as crianças, como fazer funcionar as escolas, enquanto, ao mesmo tempo, mergulhava na História e na Cultura Brasileira, chegando, no seu último livro, “O Brasil Nação”, a formular um programa político para o Brasil.

MJ – Em que medida podemos afirmar que Manoel Bomfim é um dos intérpretes do Brasil no mesmo patamar, ou mesmo superior, de um Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Gilberto Freyre, Josué de Castro, Milton Santos, Raymundo Faoro, Sérgio Buarque de Holanda, Maria da Conceição Tavares?

TO – Darcy Ribeiro citou a maioria dos nomes enumerados nessa pergunta, descobrindo neles “ressurreições” das ideias de Manoel Bomfim, mas diz que eles não foram leitores de Bomfim. Ou seja, ele quis dizer que o nosso conterrâneo divulgou interpretações que se tornariam, em parte, correntes mais tarde. Ele não admite a velha história de “pensador adiante do seu tempo”, porque todo autor é filho do seu tempo, mas dá a entender que o que Bomfim viu e analisou, antes deles, terminou se impondo aqui e ali, embora nunca como um todo, nem mesmo como resultado do conhecimento da sua obra. Vários foram os leitores de Manoel Bomfim que destacaram diferentes aspectos do seu pensamento.

MJ – Por exemplo?

TO – A nossa professora Thetis Nunes, desde os anos sessenta mostrava Bomfim como um dos criadores do nacionalismo brasileiro e do pensamento sobre o desenvolvimento nacional ; Dante Moreira Leite destacou a singularidade do seu pensamento sobre a formação do brasileiro e sobre a natureza da exploração colonial; Flora Sussekind e Roberto Ventura destacaram nos anos oitenta, no livro “História e Dependência”, a interpretação da colonização como uma leitura biológica, descobrindo na linguagem usada por Bomfim uma possível dificuldade à sua divulgação. Zilda Lokói chamou a atenção para a atualidade do seu nacionalismo revolucionário e a preocupação com as classes desprotegidas. Enfim, a partir dos anos noventa do século passado houve um interesse na obra do pensador sergipano, foram reeditadas vários dos seus livros, que hoje são totalmente acessíveis, ele foi biografado, inclusive numa obra premiada, “O rebelde esquecido”, de Ronaldo Conde Aguiar e eu mesma estudei a sua visão do Brasil através do pensamento geográfico, que foi publicada pela editora Seduc, sob o título “Manoel Bomfim, um intérprete do Brasil”.

Texto e imagens reproduzidos do site: manguejornalismo org

domingo, 2 de agosto de 2026

Onde estariam Cleomar Brandi e sua enorme capacidade de ironizar a vida?

Legenda da foto: E aí velho Brandi: se tens notícias daí, nos mande pra cá!

Artigo compartilhado da Coluna JLCULTURA, de 18 de julho de 2026

Onde estariam Cleomar Brandi e sua enorme capacidade de ironizar a vida?
Por Jozailto Lima 

É profundamente enigmático morrer - e os espiritualistas não me venham com explicações piegas nesta hora.

A questão básica aqui é a seguinte: onde estarão Cleomar Brandi e aquela escrachada alegria e a iconoclastia existencial lá dele?

Estas perguntas são feitas a partir da lembrança de que ontem completou 15 anos que capou o gato de entre nós a grande figura Cleomar Brandi e foi sepultado no dia 18 depois de ele deixar uma farra, uma cervejada, paga pro magote de amigos lá no Bar do Camilo. 

O meu amigo engenheiro Leonel Guimarães, um baiano como eu e o próprio Brandi, me manda a foto que ilustra este texto e me ativa a lembrança da data.

Numa piada bem comum de Cleomar, dir-se-ia que hoje/ontem estaria a fazer 15 anos que este camarada retirou seus dois pés daqui deste mundo!

Lembro-me que ele vez por outra frequentava o terraço do Cinform naqueles happy hours promovidos por aquela casa jornalística. 

Numa das vezes, ao se despedir de Antônio Bonfim, o dono da bodega, ele tacou a frase-sacana, em forma de agradecimento irônico e anarquístico que só os descendentes de italianos conseguem: "Bonfim, obrigado, mas nunca mais piso meus pés aqui".

Eu o conheci - como a maioria dos sergipanos - já com uma perna só. Um saci sobre uma cadeira de rodas e nem me pergunte a origem da amputação.

Mais tarde, lá se foi a outra. E desta supressão veio outra piada escatológica deste baiano, que envolvia Dona Cleonice, a mãe com quem ele morou até os 65 anos quando partiu. 

"Eu acho que de mim vai sobrar somente a cabeça, como um João Batista, pra Dona Cleonice me conduzir por aí numa bandeja", dizia.

Não, não sobrou a cabeça para a bandeja. Mas sobraram a lembrança desta grande figura e as perguntas que formulo no começo deste texto: onde cacete estão socados Cleomar Brandi e sua insuportável alegria e capacidade inalienável  de reunir pessoas em torno de boa prosa? Com quem estariam estas respostas? Onde se socam os mortos? Por favor, não me venha com...

Texto e imagem reproduzidos do site: jlcultura com br