quarta-feira, 21 de julho de 2021

'Luís Adelmo foi brilhar com a estrela Dalva', por Clara Angélica Porto

Legenda da foto: Imagem reproduzida do Facebook/Luiz Adelmo Soares de Souza e postada pelo blog

Texto publicado originalmente no Perfil do Facebook de Clara Angélica Porto, em 20 de julho de 2021

Luís Adelmo foi brilhar com a estrela Dalva
Por Clara Angélica Porto

Conheci-o ainda adolescente. Dançamos muitos carnavais, caminhamos muitas noites de conversas e gargalhadas pela Ivo do Prado, namorando o rio Sergipe. No Rio de Janeiro, dirigiu Leila Diniz no show por ele criado Tem Banana na Banda, com participação especial de Dalva de Oliveira. Fez questão que eu fosse. E fui! Estava de visita ao Brasil e ao Rio. Leila, com a bebê Janaína no camarim para amamentar, abusava, vestida de vedete com muitas plumas e paetês, de mostrar o corpo perfeito de dois meses de parida. Enchia o show de cacos, reescrevia tudo. Maravilhosa, solta, escolhia o mais sisudo cavalheiro da plateia para sentar no colo e mostrar o peito cheio de leite, perguntando se ele estava com sede. O público se deliciava. Leila podia fazer tudo, o que lhe desse na cabeça e todo mundo amava. Luís Adelmo estava no auge do sucesso que teve no Rio. Na plateia, eu, toda orgulhosa dele, Denner, Chico Buarque e Tarso de Castro. Nosso plano secreto era ele dar um jeito de eu dançar com Chico, mas Chico estava bêbado e dançou com Denner. E como resistir às pantufas de cetim bordado de Denner? Eu dancei com Tarso de Castro, no auge do Pasquim, por obra e graça de Luís. Bem, é verdade que Tasso ficou bem alegrinho em dançar com a moça de 22 anos. A pedido de Luís, Leila também chegou pra mim e disse que eu estava branquinha daquele jeito porque tinha chegado dos States. O show era lindo, todo solto, cada noite novas loucuras iam enriquecendo o texto. Quando Dalva entrou pra cantar, já bem idosa, ao soltar aquela voz imensa e tão bela, causou um verdadeiro delírio da plateia. Leila dizia depois que Dalva cantava porque o show precisava de alguém que sabia fazer alguma coisa, “porque eu não sei fazer nada, mas vocês gostam, não gostam?” Não tinha como não amar Leila Diniz e sair do show apaixonado. A intimidade das celebridades presentes com Luís Adelmo era a mesma que tinham entre si. E o humor cortante dele mais forte do que nunca, bem nutrido pelo sucesso do momento. Luís Adelmo viveu se reinventando. Aventurava-se, ousava, subia e descia sem nunca deixar de dançar a vida. Parecia daquelas pessoas que existem para sempre. E viveu assim, dessa maneira, até o fim. Fazia humor da própria doença que o consumia: “meu médico disse que já tenho câncer no corpo inteiro. Ainda bem que não tenho metástase”. Vou sentir a sua falta, Luís Adelmo. Tenho muitas lembranças boas de você.

Texto reproduzido do Facebook/Clara Angélica Porto

terça-feira, 20 de julho de 2021

"O Barracão de Luiz Adelmo", por Amaral Cavalcante

Foto reproduzida do Google

Foto reproduzida Facebook/Nestor Amazonas e postada pelo blog

Texto publicado originalmente no Perfil do Facebook/Amaral Cavalcante, em 9 de junho de 2017

O Barracão de Luiz Adelmo
Por Amaral Cavalcante

Viajávamos num submarino amarelo, movidos pelo gás psicodélico da contracultura. Nosso destino eram os oceanos de paz e amor que banhavam o mundo. Na colorida década de sessenta, éramos Hippie, sim senhor.

Aqui em Aracaju, como no resto do mundo ocidental, a juventude tinha dois modos de resistir aos fundamentos de uma civilização que caducava: o engajamento no ativismo político partidário ou o choque de costumes, a reinvenção de posturas existenciais pregadas pelo movimento Beat.

De qualquer modo, era a juventude lutando pelos ideais de plena liberdade e de respeito aos direitos individuais, acima de tudo.

Reconfigurava-se a cabeça dos bem nascidos e bem instalados no topo da pirâmide social, uma galera rica de nascença contida no sufoco de uma Aracaju provincial, querendo igualar-se em curtição e consumo ao glamour do mundo lá fora. Mas precisávamos de algum lugar, aqui, que desse guarida às nossas inquietações.

Foi então que voltou Luiz Adelmo regressando de experiências cariocas onde aprendera as demandas do consumo cultural e suas possibilidades comerciais. Trazia histórias empolgantes: Intimidade com as estrelas, notícias de um mundo fantástico que existia pra lá do Vaza Barris, no Sul Maravilha do Teatro Opinião, nos bares de Ipanema e nas luzes estreboscópicas do Hippopótamus.

Adelmo sempre foi um visionário e voltou para cá na hora certa.

Abriu o primeiro bar multicultural de Aracaju, o “Barracão”, em imóvel alugado na Atalaia. Virou point obrigatório. Foi o Bar que nos acostumou a rumar para a praia, fosse como fosse: de carona ou dissimulado no transporte da Bonfim para encontrar consonância e abrigo psicodélico num bar que reunia tudo. Todo mundo ia!

E como era chique o bar de Luiz Adelmo! Primeiro, ele pintou grandes margaridas sob fundo azul no muro da calçada e decorou o ambiente com profusas flores de papel crepon. Tudo na linha despojada, como convém a um bar na beira da praia, mas já era uma ousadia estética na mesmice provinciana.  Depois, inventou noites temáticas como a do “Amor e paz”, devidamente decorada com o símbolo do movimento Hippe. Tratou de armar matinês políticas onde a turma dos “engajados” pudesse tramar a derrocada do poder, encorajados pela valentia etílica de vários engradados de cerveja. Logo depois, teve de consentir bailes de máscara e outros rococós, para contentamento da freguesia gastante. Tudo bem! E se não fosse ali, onde haveríamos de estar? A pista que trazia Aracaju à Atalaia nunca estivera tão congestionada!

Mas a missão de Luiz Adelmo não era tão fácil! Toda vez que ele promovia uma festa ela acabava em briga de murro. Rapazes brigões se afirmavam assim, no esfrega-esfrega da luta corporal. Mesas de pernas pro ar, contas sem dono, prejuízo irrecuperável e intimações policiais resultavam sempre. Chegou o dia em que não deu mais pra segurar e Luiz Adelmo foi tratar de vida melhor em outros ramos.

Voltou a inovar com a Galeria de Artes “Horácio Hora”, onde, por muito tempo, fez da incipiente arte plástica sergipana um empreendimento lucrativo. Graças a Luiz Adelmo começamos a entender a função essencial do marchand e a instituir por aqui um mercado de artes plásticas.

O seu memorável bar, o Barracão, foi o precursor da Atalaia que temos hoje: um lugar onde curtimos os refrigérios da cidadania e demos vazão à nossa recém descoberta rebeldia.

Texto reproduzido do Facebook/Amaral Cavalcante

Câncer mata o jornalista Luiz Adelmo

Publicação compartilhada do site DESTAQUE NOTÍCIAS, em 20 de julho de 2021

O jornalista Luiz Adelmo dirigiu a Galeria Álvaro Santos por muitos anos

Câncer mata o jornalista Luiz Adelmo

Por Destaquenoticias

Vítima de câncer, morreu, nesta terça-feira (20), o diretor da Galeria Álvaro Santos, jornalista Luiz Adelmo Soares. Pelas redes sociais, o prefeito Edvaldo Nogueira (PDT) lamentou: “Muito triste com o falecimento de Luiz Adelmo Soares, jornalista, cerimonialista, atual diretor da galeria Álvaro Santos e grande impulsionador cultural. Tinha muito respeito e admiração pelo seu trabalho e pela sua pessoa. Toda minha solidariedade aos familiares e amigos”. O jornalista era irmão da ex-deputada federal Tânia Soares, ex-esposa do prefeito.

O também jornalista Luiz Eduardo Oliva registrou, com tristeza, a perda do amigo: “A morte do multifacetado Luiz Adelmo leva com ele o símbolo de uma época, o espírito irrequieto do seu tempo. Se digo multifacetado cabe-lhe também a alcunha de homem plural, porque ele era único e ao mesmo tempo tantos como no Samba da Benção de Vinicius de Moraes!

Marcou a cena cultural sergipana, saindo de Estância e filho do riachãense Seu Aderbal. Passou pelo seminário (pensou em ser frade) e depois foi ao Rio de Janeiro e logo se integrou à cena artística. Ainda lembro garoto e o orgulho dos sergipanos ao vê-lo no célebre programa da TV Tupi “Almoço com as Estrelas” apresentado por Lolita Rodrigues.

Atuação no Rio de Janeiro

No Rio desenvolveu o talento para as artes plásticas e também se voltou para a produção quando foi um dos produtores do espetáculo “Tem Banana na Banda” uma espécie de teatro de revista com a lendária Leila Diniz dos anos 70, produção que lembrava sempre co. orgulho.

No final dos anos 70 voltou para Sergipe e aqui introduziu a tapeçaria como arte, com a técnica macramê com muitos seguidores. Inovou a coluna social e pode-se dizer que inaugurou a noite aracajuana na Atalaia com o Barracão no final dos anos 60, e já nos anos 80 comandou a Boate 147 à época a mais badalada casa noturna de Aracaju.

Fundar a Galeria Horacio Hora na Avenida Barão de Maruim nos anos 70 foi um ato de coragem e ousadia que movimentou o comércio das artes plásticas. Lá conheci o grande Zé de Dome. Luiz Adelmo era o irmão mais velho da ex deputada Tânia Soares e também das educadoras Yarinha e Ana Soares, as duas também já falecidas. Foi também empresário em Sergipe e Alagoas no ramo de decoração. Ultimamente era Diretor da Galeria de Arte Álvaro Santos.

Tinha uma inteligência sagaz, um extraordinário senso de humor, às vezes sarcástico mas sempre humor!

Há pessoas que incorporam o espírito de um tempo. Luiz Adelmo foi dessas, aconteceu e fez acontecer. Cabe-lhe a poesia da partida. Todas as homenagens a esse gigante sergipano. Aqui na terrinha, que tanto amou, ficamos com a sua saudade. Minha benção meu amigo, que tanto rimos e também tanto brigamos! Mas sobretudo tínhamos a amizade e a recíproca admiração. Saravá, como diria Vinicius de Moraes”.

O jornalista Elton Coelho também lamentou a morte de Luiz Adelmo:

“Luto. Quadrilha Maracangaia

Essa postagem, pessoal, se deve em função de ter sido o jornalista Luiz Adelmo um grande entusiasta da Maracangaia. Sempre que encontrava a mim ou Gilberto, falava e defendia nosso trabalho. Estimulava. Dizia que a gente era referência da tradição e que nunca deixássemos a causa. Registro meus sentimentos por esta perda. Um grande intelectual.

Elton Coelho, ex-componente e ex-presidente da Maracangaia”.

Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias.com.br

"A morte do multifacetado Luiz Adelmo..." (Luiz Eduardo Oliva)

Texto original do Facebook/Luiz Eduardo Oliva, em 20 de julho de 2021

A morte do multifacetado Luiz Adelmo leva com ele o símbolo de uma época.  Se digo multifacetado cabe-lhe também a alcunha de homem plural, porque ele era único e ao mesmo tempo tantos como no Samba da Benção de Vinicius de Moraes!

Marcou a cena cultural sergipana, saindo de Estância e filho do riachãense Seu Aderbal. Passou pelo seminário (pensou em ser frade) e depois foi ao Rio de Janeiro e logo se integrou à cena artística. Ainda lembro garoto e o orgulho dos sergipanos ao vê-lo no célebre programa da TV Tupi "Almoço com as Estrelas" apresentado por Lolita Rodrigues.

No Rio desenvolveu o talento para as artes plásticas e também se voltou para a produção quando foi um dos produtores do espetáculo "Tem Banana na Banda" uma espécie de teatro de revista com a lendária Leila Diniz dos anos 70, produção que lembrava sempre com orgulho.

No final dos anos 70 voltou para Sergipe e aqui introduziu a tapeçaria como, com a técnica macramê com muitos seguidores. Inovou a coluna social e pode-se dizer que inaugurou a noite aracajuana na Atalaia com o Barracão no final dos anos 60, e já nos anos 80 comandou a Boate 147 à época a mais badalada casa noturna de Aracaju.

Fundar a Galeria Horácio Hora nos anos 70 foi um ato de coragem e ousadia que movimentou o comércio das artes plásticas. Lá conheci o grande Zé de Dome. Luiz Adelmo era o irmão mais velho da ex deputada Tânia Soares e também das educadoras Yarinha e Ana Soares, as duas também já falecidas.   Foi também empresário em Sergipe e Alagoas no ramo de decoração.  Ultimamente era Diretor da Galeria de Arte Álvaro Santos.

Tinha uma inteligência sagaz, um extraordinário senso de humor, às vezes sarcástico mas sempre humor!

Há pessoas que incorporam o espírito de um tempo. Luiz Adelmo foi dessas, aconteceu e fez acontecer.  Triste com a perda do grande amigo. Todas as homenagens a esse gigante sergipano.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Luiz Eduardo Oliva

'O elegante e sábio Luiz Adelmo partiu no dia do amigo..." (Antônia Amorosa)

Postagem original do Facebook/Antônia Amorosa Sergipana, em 20 de julho de 2021

Nosso último encontro aconteceu na Exposição em homenagem ao poeta das sínteses, Araripe. Você ficou encantado com tudo que viu e maravilhado com um cantinho especial, criado por @marimalb - "Este espaço está perfeito!" Exigente como você sempre foi, um elogio seu representava nota 10 em uma prova. A precisão do seu olhar, a sagacidade da sua opinião, o bom gosto transbordando em tudo que fazia, a ousadia de não levar para casa nenhum desaforo, o seu silêncio gritante quando percebia que era ignorado por quem você escolhia amar, marcava seu estilo de ser. Mas, quem ganhava seu coração tinha acesso a um mundo de inteligência e saberes. Sergipe fica mais pobre sem você! Acredito, inclusive, que Sergipe teve um gênio que não foi verdadeiramente reconhecido.

O elegante e sábio Luiz Adelmo partiu no dia do Amigo, deixando na terra os amigos que ele, seletivamente, escolheu. Quem o conheceu e venceu os níveis da sua exigência, teve ao seu lado, um precioso amigo.

Vá com Deus, Luiz! Foi uma honra para mim, ter lhe conhecido.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Antônia Amorosa Sergipana

Jornalista Luiz Adelmo morre em Aracaju

Publicação compartilhada do site do jornal CORREIO DE SERGIPE, em 20 de julho de 2021

Jornalista Luiz Adelmo morre em Aracaju

Da redação, AJN1

O jornalista e curador da galeria Álvaro Santos, Luiz Adelmo Soares de Souza, 79, morreu na madrugada desta terça-feira (20). A informação é que ele já vinha enfrentando problemas de saúde. Luiz Adelmo já atuou em vários jornais, emissoras de Rádio e TVs de Sergipe, e foi cerimonialista no governo de Augusto Franco. O corpo está sendo velado no Osaf, da rua Itaporanga.

O prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira (PDT), usou as redes sociais para lamentar a morte do jornalista. “Muito triste com o falecimento de Luiz Adelmo Soares de Souza, jornalista, cerimonialista, atual diretor da galeria Álvaro Santos e grande impulsionador cultural de Sergipe. Tinha muito respeito e admiração pelo seu trabalho e pela sua pessoa. Que vá em paz, meu amigo! Toda minha solidariedade aos familiares e amigos de Luiz”.

O ex-governador Jackson Barreto prestou solidariedade aos amigos e a família. “Meus sentimentos e toda solidariedade aos familiares de Luís Adelmo. Um amigo que contribuiu muito com à cultura em nosso estado. Vá em paz amigo”.

A cantora Antonio Amorosa também usou as redes sociais para homenagear o jornalista. “O elegante e sábio Luiz Adelmo partiu no dia do Amigo, deixando na terra os amigos que ele, seletivamente, escolheu. Quem o conheceu e venceu os níveis da sua exigência, teve ao seu lado, um precioso amigo. Vá com Deus, Luiz! Foi uma honra para mim, ter lhe conhecido”, diz um trecho da postagem da artista.

Texto e imagem reproduzidos do site: ajn1.com.br

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Tecnologia não alcança saudade


Publicação compartilhada do site INFONET, de 19 de julho de 2021

Tecnologia não alcança saudade
Por Raquel Almeida (do blog infonet)

No último sábado completamos uma década sem Cleomar Brandi. Como passou rápido!

Para quem não conhece, Cleomar (Cléo para os íntimos) foi um dos mais queridos e competentes jornalistas sergipanos. Baiano com coração dividido por Sergipe, Brandi veio a Aracaju para compor a equipe que colocaria no ar a única emissora de televisão pública do Estado, a TV Aperipê.

Mas ele passou também por diversos outros veículos de comunicação, como a TV Sergipe, TV Jornal, Delmar FM, Jornal de Sergipe, TV Caju e, por muito tempo, foi pauteiro do Jornal da Cidade. Além de ter sido correspondente da revista Veja e atuado na diretoria de Comunicação do Tribunal de Justiça de Sergipe (TJSE).

Sem desmerecer toda a importância do seu trabalho jornalístico, hoje quero escrever sobre a saudade que sinto dele. Do amigo carinhoso que gostava da minha companhia no bar, mesmo sem eu beber uma gosta de álcool. E como eram deliciosas as tardes com ele! Naquelas mesas de bar saiam novas pautas, crônicas e letras de músicas. Todos que se sentavam ou passavam acabavam participando, seja como fonte, personagem ou como um simples insight.

Sinto falta das suas ligações nos meus plantões de trabalho falando “Larga tudo aí e vem para o Pastelão! Já mandei fazer um peixe para nós. Hoje não vai ocorrer mais nada tão grave que mereça uma capa (de jornal)! Desce que Paulinho tá vindo com o violão pra cá também!”.

Sinto falta das conversas sobre política ou dos últimos acontecimentos da cidade; dos seus conselhos profissionais; das amizades que fazia com as mesas vizinhas; das poesias que me escrevia ali mesmo em guardanapos e declamava com alegria.

Cléo não era uma pessoa comum. Basta saber que ele deixou paga a última saideira no bar do Camilo, que fica na Coroa do Meio, para que seus amigos brindassem como ele viveu e não chorasse a sua morte. E “A última Saideira” é também o título de uma de suas crônicas que o leitor pode ler na parede deste mesmo bar.

Cléo era um boêmio inveterado, um amante da vida, da escrita, das artes, de um bom conhaque, e, sem esquecer das mulheres, apelidadas carinhosamente por ele como ‘lobas’. Um cronista maravilhoso! Suas linhas faziam do cotidiano uma peça de reflexão e diversão para seus leitores.

Ele brindava diariamente, mesmo após todas as adversidades que a vida lhe impôs. E sempre me dizia para eu levar a vida com menos seriedade. “Só viva, nem se preocupe, ela vai lhe sorrir”, me dizia.

Tem pessoas que passam por sua vida e deixam marcas, com certeza ele deixou as melhores em mim.

Saudade, amigo.

Aqui o texto que escrevi há dez anos.

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

terça-feira, 13 de julho de 2021

A Casa Lilás - Memórias de um crime

Legenda da foto: Imagem reproduzida do site da SEGRASE e postada pelo blog para ilustrar o presente artigo.

Texto compartilhado de postagem no Perfil do Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, de 12 de julho de 2021.

A Casa Lilás.

Acabo de ler “A Casa Lilás” do jornalista Luis Eduardo Costa.  O livro relata o chamado “Crime da Rua de Campos”, onde foi vítima o médico Dr. Carlos Firpo, em 1958.  Luis Eduardo tem um dos melhores textos da imprensa sergipana.  Sua descrição sobre a sociedade aracajuana do final da década de 1950 é impagável.  Muito bom.

Luis pesquisou o processo judicial, e chegou a conclusão que o crime teria sido político.  Bom, eu discordo das conclusões de Luís.  Mas não poderia ser diferente posto que, mais de 60 anos após o ocorrido ainda se discute na sociedade sergipana se o crime foi passional, perpetrado pela própria esposa, Milena, e seu amante o Coronel Afonsinho; ou um crime político como chega a conclusão Luis Eduardo.  O fato é que o assassinato do Dr. Carlos Firpo ainda provoca discussões, esquentadas recentemente com o falecimento de Milena, em Salvador, e continua dividindo nossa sociedade.

Luis Eduardo, porém, não entrega a motivação do crime político, nem explicita o mandante.  Deixa a entender, sem isso afirmar, ora que seria Heribaldo Vieira, que como Secretário de Justiça conduziu o inquérito, ora que o governador Leandro Maciel teria pelo menos concordado com o crime.  Mas não desfaz categoricamente o mistério, como seria de se esperar.

Não acredito em crime político.  Como o próprio Luis Eduardo relata, Dr. Carlos Firpo não era político.  Havia ocupado interinamente e por poucos meses o cargo de Prefeito de Aracaju, mas nunca havia disputado uma eleição.  Apesar de filiado à UDN Carlos Firpo não era, nem nunca foi um dirigente partidário.  Não detinha qualquer poder dentro do partido.  Não participava das decisões, não tinha força para barrar ou impor nomes.  Não era empecilho para quem quer que fosse candidato a qualquer cargo.  Quem decidia de fato era Leandro Maciel.

Dr. Carlos Firpo era completamente dedicado ao Hospital Santa Isabel, que atendia os pobres, e isso Luis também relata.  E vivia à busca de verbas para aquela casa de saúde, sempre carente.  Dr. Carlos Firpo estava aventando a possibilidade de ser candidato a Vice-Governador.  Acredito que buscava com isso, e essa é uma interpretação pessoal, uma posição para facilitar sua busca constante de dinheiro para sustentar o Hospital.  Mas não era ele quem definia candidaturas.  Qualquer objeção, bastava um não da cúpula da UDN, ou pessoalmente de Leandro Maciel, que podia chamá-lo e dizer que sua candidatura não dava, e pronto.  Dr. Carlos Firpo não teria força política, e não acredito que teria vontade, para reverter uma negativa.  Ou seja, Dr. Carlos não era um obstáculo nas composições políticas da UDN ou de sua cúpula.  Apesar do crime político naquela época ser algo normal em Sergipe, sempre estava ligada às desavenças, e não me parece que Dr. Carlos Firpo as cultivasse.  E para corroborar com essa visão, é inverossímil pensar que alguém mata uma pessoa por um cargo de vice-governador.

A tese do crime político carece de um motivo plausível.  Carece de um beneficiário com a morte.  Quem ganharia?  O que ganharia?   Heribaldo Vieira que nas entrelinhas aparece como vilão no livro, não tinha rixas aparentes com a vítima, nem seria beneficiado, como não foi.

Luis Eduardo relata as falhas, omissões, e desvios do inquérito.  Chama torturas de “Métodos Empíricos”, conduzidos por Heribaldo Vieira.  Sem querer justificar, mas com uma polícia recheada de jagunços como Alemão e Zé Rozendo, era a polícia que se tinha, então.  Sem embargo que o inquérito hoje seria eivado de nulidades e aberrações.  Mas nem isso autoriza a se concluir pelo crime político, e sim pelo barbarismo da polícia na época.

Heribaldo tinha pretensões de ser governador, mas Leandro Maciel que é quem decidia dentro da UDN optou por Luis Garcia, muito mais maleável e suscetível a se submeter à sua liderança.  Heribaldo reclamou, rebelou-se por algum tempo, mas por fim compôs como candidato ao Senado.  Não era um santo, ao contrário, mas era inteligente demais para fazer besteiras.

Eu era um bebê quando o crime ocorreu, não havia completado três anos.  Mas lá em casa, como em todo sociedade aracajuana, discutiu-se por muito tempo o crime da rua de Campos.  E a tese do crime passional sempre foi tida como certa, ou a mais plausível. 

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Covid-19 mata o professor Pedro Amado

Legenda da foto: O professor Pedro Amado dirigiu o Colégio Estadual Atheneu Sergipense na década de 80.

Publicação compartilhada do site DESTAQUE NOTÍCIAS, em 5 de julho de 2021

Covid-19 mata o professor Pedro Amado

 Vítima da covid-19, morreu em Aracaju o professor de matemática Pedro Amado, ex-diretor do Colégio Estadual Atheneu Sergipense. Ele também foi educador do Centro Universitário Estácio de Sergipe. O sepultamento será às 11h desta segunda-feira (5), no Cemitério Colina da Saudade, nesta capital.

O professor Pedro Amado contraiu o coronavírus há cerca de dois meses, período em que permaneceu hospitalizando. Chegou a melhorar, tendo deixado por três vezes a Unidade de Tratamento Intensivo, contudo o seu quadro clínico se agravou nos últimos dias, evoluindo para o óbito na madrugada desta segunda-feira.

Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias.com.br

domingo, 4 de julho de 2021

'João Alves Filho: 80 anos de lutas e glórias', por Igor Salmeron

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, em 3 de julho de 2021

João Alves Filho: 80 anos de lutas e glórias
Por Igor Salmeron*

Neste 3 de julho, João Alves Filho, se vivo estivesse, faria 80 anos. Uma data como esta, não pode passar em branco. Um Estado prospera por grandes edificações à sua comunidade e João nos construiu um legado mais que material, espoliou virtudes que atravessam gerações.

O João Chapéu de Couro, João da Água, João do Povo nasceu na capital de Sergipe, no bairro Santo Antônio no dia 03 de julho, ano 1941. Filho do empresário e construtor João Alves que lhe fez herdar a sabedoria perante as encruzilhadas da vida, e de D. Maria de Lourdes Gomes que legou a sensibilidade que soube levar consigo, bastando observar o seu cuidadoso olhar com relação aos problemas da população nordestina. Do casamento com Maria do Carmo Nascimento Alves, resultaram seus três filhos: Maria Cristina Alves, Ana Maria Alves e João Alves Neto.

Formado em Engenharia Civil na década de 1960, curso que realizou na Universidade Federal da Bahia - UFBA -, já dava os primeiros passos na atividade política, inserindo-se em alguns movimentos estudantis. Em 1965 retorna à Sergipe para exercer atividade de engenheiro-empresário sob a companhia paterna, na Construtora Alves.

Em 1975, assumiu a Prefeitura de Aracaju por indicação administrativa, no período em que o gestor era José Rollemberg Leite. Após exercer cargo de prefeito biônico de 1975 a 1979, conseguiu a proeza de se eleger governador em 1982, obtendo uma nomeação para atuar como ministro de Estado do Interior pelo presidente, na época, José Sarney em 1987. Já em 1990, se lançou como candidato ao governo de Sergipe, tendo uma estupenda vitória somando-se uma cifra de 364.819 dos votos válidos.

Dentre tantas façanhas políticas, destaca-se também a conquista que obteve quando disputou o pleito pelo governo estatal em 2002, derrotando o então senador José Eduardo Dutra. João Alves Filho nos anos compreendidos entre 1982 e 2016 nunca ficou sem participar de uma disputa eleitoral em Sergipe; seja se lançando como candidato ou exercendo indispensável apoio.

É fundamental caracterizar os seus áureos tempos como governador, pois nos mostram as lições que refletem a sua importância como homem público, mas sobremaneira, como ser humano. Suas briosas ações se debruçam sobre o homem do campo; por meio do programa Chapéu de Couro, construiu açudes que amenizavam a problemática da seca no sertão.

Dentre outras obras, podemos elencar a criação da Orla de Atalaia, realização que revolucionou e deixou todos atônitos com relação ao setor turístico sergipano. Um diferencial de João Alves Filho, é que ele não se limitava à habilidade política, mas também expande a sua inteligência no campo cultural. Sua contribuição intelectual, como um dedicado estudioso das questões referentes à problemática da população nordestina, se manifesta na autoria de livros marcantes na busca por soluções para atender os mais pobres.

João Alves Filho foi, e continua sendo um ser humano referencial por seus desbravadores projetos de amparo, com medidas voltadas ao combate à pobreza e, sobretudo, à seca que ainda hoje assola os mais desfavorecidos. Ele foi responsável por construir hospital, escolas, adutoras, rodovias, bem como as principais vias aracajuanas; seu nome é gênese do próprio desenvolvimento do estado de Sergipe.

Conclui-se que independente da ideologia partidária, devemos reconhecer o patrimônio de obras concretizado por João Alves Filho. Até mesmo os opositores mais ferrenhos consentem que João é um estadista que jamais se pode permitir ser esquecido na memória afetiva de todos os sergipanos.

* É sociólogo, pesquisador e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

'Dois anos sem João Oliva, meu pai', por Luiz Eduardo Oliva


Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, em 3 de julho de 2021

Dois anos sem João Oliva, meu pai
Por Luiz Eduardo Oliva*

Escrever é um ato complexo, sobretudo se quem escreve busca a isenção da parcialidade. Por mais que se tente, todavia, fazer juízo de valor isento de paixão é extremamente difícil quando você escreve com o afeto de quem vai falar sobre o próprio pai. É natural que filhos exaltem a figura paterna, Mas se vou dizer do meu pai, posso buscar até a isenção de dizer de um homem extraordinário, fora de curva, que deixou um legado para além da própria família, cujo reconhecimento é visível na manifestação de muitos desde que ele partiu, há exatos dois anos (03/07/2019): João Oliva, o jornalista, o escritor, o incansável defensor da democracia, o homem de fé.

De uma escola que teve em Orlando Dantas o principal mestre, o velho Oliva fez parte de uma época romântica dos grandes jornalistas, forjados nas redações dos jornais, onde o aprender a manejar com as facetas da arte do jornalismo se fazia no auto-didatismo ou na troca de informações e idéias com os companheiros de redação. Cresci ouvindo o ritmado som das teclas de uma velha e portátil máquina Olivetti, varando madrugadas para dar conta de editoriais e artigos que ele escrevia para jornais e rádios de Aracaju. Nas redações, meu pai encontrava-se com sua própria alma – alma de escrevinhador diário das coisas da terra, do seu país e do mundo. E, naturalmente reforçava o já combalido orçamento doméstico naqueles anos difíceis de modesto funcionário público, que tinha a carga de educar e manter  (ao lado de minha mãe Maria)  onze  filhos.

É fato que sempre tive a dimensão da sua grandeza. Mas o amor de filho tende a camuflar muito e hoje, depois que ele partiu, vejo que dimensionei até para menos. Há um reconhecimento quase unânime com relação ao valor e legado de João Oliva, nas infindáveis manifestações de intelectuais, escritores, admiradores do grande jornalista e escritor que ele foi. Ancelmo Góis acostumado a viver no meio dos maiores intelectuais brasileiros, ele que é uma das principais referências do jornalismo brasileiro sendo um dos principais colunistas do jornal “O Globo”, ao saber do seu falecimento disse à Folha de São Paulo: “João Oliva foi um dos mais importantes intelectuais que conheci; na época, havia [em Aracaju] um jornalismo voltado às questões locais, quase paroquial. Ele se diferenciava ao olhar para fora. Reunia generosidade e brilhantismo.”.

Luiz Eduardo Costa, referência do maior do jornalismo sergipano escreveu: “esse cidadão, jornalista, advogado escritor, poeta, um frade sem envergar o hábito, viveu profundamente a fé, mourejou no seu dia a dia a prática virtuosa da solidariedade que deve ser o âmago da consciência cristã. João Oliva foi o cidadão de uma época e um exemplo para todas as épocas”. O romancista Francisco C. Dantas, autor de “Os Desvalidos” (Companhia das Letras) e seu conterrâneo do Riachão do Dantas disse: “os textos de Oliva valorizavam o progresso ao mesmo tempo em que buscavam repor as bases da tradição sergipana”.

Vivemos tempos terríveis, obscuros, à busca de luzes. Não que seja algo novo viver tempos assim. As vezes quero crer que o “eterno retorno” de que falava o filósofo Nietzsche é de fato uma categoria que persiste na história da humanidade. Mas é preciso também acreditar que em tempos sombrios, homens e mulheres se sobressaem para combater o ordinário, o banal, o estúpido, ou como dizia São Paulo: combater o bom combate. Meu pai foi uma dessas personalidades, daí o dizer de Luiz Eduardo Costa que ele foi o cidadão de uma época e um exemplo para todas.

Hoje, lendo os textos que saíam daquela velha máquina de escrever, observo o esforço que o velho fazia para camuflar dos censores e dos “linha-dura” do regime militar o que pretendia dizer, na luta incessante para reafirmar suas convicções democráticas, na esperança pela humanização da vida. Não era fácil ser editorialista numa ditadura e defender com fé inabalável a democracia. Há textos até que parece concessão aos opressores e eu um dia lhe perguntei: “porque meu pai?” Ele me respondeu: “Driblar a censura não era fácil. É como alguns jogos. Às vezes você recua duas casas para depois avançar dez, sem sair do jogo”

Que dizer então, como filho, sobre a pessoa que o encaminhou para o pensamento democrático, para não aceitar as injustiças, para trilhar a vida com ética e dignidade? Tento, de forma trôpega, seguir os passos do velho pai, quando escrevo textos para serem publicados, ultimamente mantendo uma rotina quinzenal no Jornal da Cidade.  Às vezes sinto faltar a fé, sobretudo na humanidade, num mundo de mentiras e desilusões. Mas quando leio meu pai e lembro o seu exemplo, e vejo como sua fé era inabalável e tinha um olhar para além do seu tempo, percebo o quanto é difícil e ao mesmo tempo um privilégio ser filho de João Oliva. Então ponho o ceticismo de lado e de imediato renovo a esperança na humanidade, e passo a acreditar que o otimismo é uma energia mais que necessária em tempos tão incertos como os atuais, e que nunca é demais acreditar.  João Oliva para além de ser meu pai é voz permanente a sussurrar em meu ouvido: não desista, a vida não é fácil, lutar é mais que necessário, lutar é viver!

*É advogado, ex-secretário de Estado dos Direitos Humanos de Sergipe, poeta e membro da Academia Sergipana de Letras Jurídicas.

Texto reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Edson Alves Macêdo Filho

Publicado originalmente no Perfil do Facebook de Andrezza Macedo, em 30 de junho de 2021

Andrezza Macedo está em Hospital São Lucas, em Aracaju

E juntos terminamos nossa caminhada, eu, Sis e vc pai…Há 90 dias começamos uma longa jornada sofrida, dolorida cheia de dúvidas e de incertezas, nossa única certeza era q Deus e Nossa Senhora estavam do nosso lado nos sustentado e dando sabedoria para lidar diariamente com milhares de coisas q acontecem dentro de hospital em época de pandemia, sabíamos tb q jamais a gente iria te deixar sozinho e assim foi, nunca em nenhum instante vc ficou sozinho, estivemos sempre ao seu lado, esses últimos dias aí meu Deus quanta provação…q luta! Diante de algo q fugia de nosso controle, chegou o dia q  a gente tanto teme, mas algo tão natural q irá acontecer com todos nós e já já a gente se encontra novamente, diante da Pessoa mais importante das nossas vidas, q sonhou por nós…Hoje vc está voltando para casa, siga, que Deus e Nossa Senhora te recebam e te dê a paz…Obrigada por tudo q fez por nós, amamos vc pai.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Andrezza Macedo

'A Casa Lilás: crime e reconciliação', por Lúcio Prado


Legenda das fotos: F/1 - Dr. Carlos Firpo; F/2 - Casamento de Milena e Carlos Firpo. (Créditos das fotos 1 e 2: Acervo de Aroldo Firpo.

Publicação compartilhada do site do Portal INFONET, de 28 de junho de 2021

A Casa Lilás: crime e reconciliação
Por Lúcio Prado (do blog Infonet)

No dia 29 de abril de 1958, nas primeiras horas da madrugada, foi ferido em sua residência, enquanto dormia, o Dr. Carlos Firpo, diretor do Hospital Santa Isabel e da Maternidade João Firpo, vindo a falecer logo após dar entrada na urgência do Hospital Cirurgia.  O fato, também conhecido como o Crime da Rua de Campos, teve repercussão nacional e até hoje tem sido motivo de debates e discussões. Foi com muita honra que, atendendo convite do presidente da Academia Sergipana de Letras José Anderson Nascimento, coordenei os debates de lançamento do há muito esperado livro “A Casa Lilás”, do jornalista Luiz  Eduardo Costa, no âmbito da Casa de Tobias Barreto, ocorrido em 14 de junho último.

Publicado pela Editora do Diário Oficial do Estado de Sergipe, o livro tem capa e diagramação de Clara Macedo, revisão de Yuri Gagarin, pré-impressão de Dalmo Macedo e contém em torno de 300 páginas. A apresentação é do saudoso governador Marcelo Déda, o prefácio é do jornalista Ancelmo Gois e, ao final, traz um curto mas conciso depoimento de Dílson Bento de Faria Ferreira Lima, escritor e doutor em teologia, filho de Afonsinho – o Coronel Afonso Ferreira Lima, personagem importante nessa obra-prima da literatura policial, envolvendo temas que despertam grande interesse na sociedade e na imprensa: sexo, dinheiro e política.

Numa terça-feira de junho, mais pontualmente no dia 10 de junho de 2008, abrindo as páginas centrais do Jornal do Dia, deparei-me estupefato com um título: Um copo de cristal, um grito na madrugada, que iniciava a série de artigos do jornalista Luiz Eduardo Costa, em capítulos, sobre o assassinato do médico Carlos Alberto de Menezes Firpo. A cada semana, aguardava com ansiedade mais um capítulo da incrível trama policial, que culminou no capitulo 36 com a pergunta: O sangue na faca já secou? Colecionei toda a série em recortes e montei um dossiê pessoal, ao qual incorporei reportagens, depoimentos, fotos e arquivos diversos da biblioteca do colega e amigo Petrônio Gomes. O acervo ficou na minha biblioteca como uma preciosidade que ninguém mais possuía, salvo o autor, claro! Hoje, passados treze anos, a trama   definitivamente está ao alcance de todos. A Casa Lilás, finalmente, chegou para traz mais luz sobre a tragédia.

A Casa Lilás reforça definitivamente a minha convicção pessoal sobre a questão, a de que a morte de Firpo não foi um crime passional. O ponto de partida para o meu interesse pelo tema foi a música feita pelo médico Antônio Garcia Filho, amigo do casal Milena e Carlos, despertando a minha curiosidade inicial. Depois ouvi relatos informais da minha mãe Natália e da minha tia Iara, colegas de Milena no “Colégio das Freiras”, reiterando o caráter e a sólida formação moral dela. Depois tive acesso à série de reportagens do Jornal Última Hora, do Rio de Janeiro e, finalmente, e mais recentemente a reação do clã dos Firpos, ao ser informado por mim da morte de Milena Mandarino Firpo, em dezembro de 2020, na cidade de Salvador.

Um dos atuais líderes da família, Aroldo (neto de João Firpo, médico sergipano irmão de Carlos), que reside atualmente na Flórida, emitiu pelas redes sociais um documento dirigido à família, assim redigido: É com pesar que informo o falecimento de Milena Mandarino Firpo, com mais de 90 anos, ontem, 4 de dezembro 2020, em Salvador, BA. Gostaria que Maria das Graças, Juju e netos recebessem os mais sinceros sentimentos de pesar, meu e deste grupo Firpo. Milena, católica, mãe dedicada ao marido e filhos até os últimos dias. Sempre manteve a cabeça erguida lutando pela união da família e professando o amor a Carlos Firpo. Sofreu amargamente com as consequências da política num período onde as disputas se faziam pela eliminação do adversário com morte em vez de ideias e no voto. É comum, na vida, pessoas inocentes serem acusadas, caluniadas e julgaras pela opinião pública. A distorção dos fatos apresentados em jornais e rádio da época teve grande influência das pessoas com o poder, os quais tinham interesse na desinformação. A família muito sofreu, divisões foram criadas e animosidades para com Milena por parte de outros Firpo foram claras e evidentes. É chegado o momento que os descendentes Firpo se reconciliem com a verdade, apoiem as duas filhas e netos, além de pedirem perdão por tamanha injustiça por tal longo tempo. Eu peço perdão pela injustiça que meus pais tiveram para com Milena e família. Hoje, sei da verdade, pois tive acesso a fatos nunca revelados anteriormente. A partir desse depoimento, toda a família se manifestou favorável ao depoimento de Aroldo, que findou por chegar ao conhecimento de uma das filhas de Milena, Maria das Graças, que assim se manifestou:

Aroldo,

Foi com emoção que li sua mensagem. Ela levou-me até a noite de 29 de abril de 1958, quando a criança de oito anos que eu era viu seu mundo começar a desmoronar com a violenta morte de seu pai e foi apresentada de forma súbita e irrevogável (não era sonho) à maldade humana. Realmente minha mãe passou por profundas injustiças que seu caráter e sólida formação religiosa impediram que sucumbisse às calúnias da época. Colocou como meta de vida compensar as filhas da grande perda sofrida e fazer com que nós, minha irmã e eu, crescêssemos sem alimentar sentimentos negativos e tivéssemos a solidariedade e a justiça como base de nossa estrutura de valores. Pensava que dessa forma nos instrumentaria para olhar e usufruir o que de belo a vida tem para apresentar. E assim foi. Acolho com carinho sua mensagem. Sensível, justa, verdadeira e corajosa – é preciso coragem para pedir perdão – e em nome de Juju e no meu agradeço a você e aos demais que se manifestaram nesse nosso momento de dor.

Passados sessenta e três anos do hediondo crime, onde vidas foram destruídas, relacionamentos afetados, calúnias assacadas sem perdão e piedade, tramas urdidas na calada da noite, a canção de Garcia – Injustiçada – reacendeu mais vívida e luminosa: “Não, não te lamentes não…, que a dura verdade, virá depor. Deus, não esquece o coração, que sempre foi fiel, no amor. Tu, tão meiga e delicada…, de prendas e virtudes, e tão injustiçada… Não, não te lamentes tanto agora, que sobre a noite da calúnia, ressurgirá a aurora.”

PS – Em fevereiro de 2008 publiquei aqui, no meu blog do Portal Infonet “O Assassinato de Carlos Firpo”, onde relaciono ao final todas as fontes consultadas para a elaboração do artigo. Duas foram as principais motivações: conhecer a vida e a obra de um dos mais importantes médicos sergipanos do século XX e seu fim trágico, e a canção Injustiçada, de Antônio Garcia Filho, oferecida a Milena Mandarino na cadeia. Um grande cantor nacional à época, Alcides Gerardi, interpretou e gravou a composição pela gravadora Colúmbia e o cantor sergipano Antônio Teles incluiu no seu repertório nos shows e nos programas radiofônicos. Em junho de 2008, o jornalista Luiz Eduardo Costa começou a publicar uma série de artigos semanais no Jornal do Dia intitulada “O Crime da Rua de Campos”. O livro deveria sair em seguida, mas uma ação judicial impediu a sua publicação. Resolvida a pendenga na Justiça, o autor finalmente lançou o tão esperado livro, alterando o seu título para A Casa Lilás.

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Morre Edson Alves Macêdo Filho



Texto publicado originalmente no Perfil do FACEBOOK/LYGIA PRUDENTE, em 30 de junho de 2021

O adeus sempre dói
Por Lygia Prudente

Por mais que inevitável, a passagem para o plano espiritual de um ente querido, nos deixa na condição de arrasados porque a razão nos aponta a ausência física desta pessoa no nosso dia a dia. Hoje, o vazio foi deixado na família, por Edson Alves Macêdo Filho, sempre muito presente nas horas alegres e nas tristes.  Deixa marcas e boas lembranças, confortadas por períodos de convivência partilhados em sua casa de praia, onde nos reuníamos em feriados prolongados, e no quintal da nossa casa nos almoços e jantares frequentes, aos domingos. Nosso compadre - era padrinho do nosso primogênito. Os nossos filhos têm a mesma idade das suas filhas e a proximidade de irmãos, o que os deixa também enlutados pelo adeus à uma pessoa tão próxima, principalmente na infância e adolescência. Luiza, com quem partilhou sua vida e já na glória do Pai, o receberá com o carinho de sempre, amenizando a dor e a tristeza dos que aqui permanecem. Depois de tanto sofrimento, meu compadre, descanse em paz!

Texto reproduzido Facebook/Lygia Prudente

sábado, 26 de junho de 2021

'João Mello – a voz máxima de Sergipe', por Lúcio Prado


Publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 24 de junho de 2021

João Mello – a voz máxima de Sergipe

Por Lúcio Prado (do blog Infonet)

Cantando Sambou, sambou, com o autor

Foi uma noite impossível de esquecer. A espera ia ficando cada vez mais ansiosa, porque os convidados não chegavam. Sentado na varanda, Antônio Garcia Filho, meu sogro, folheava uma revista qualquer e a primeira cerveja foi aberta. Ele, no entanto, preferia uma dose de uísque com gelo e um pouco de água, para diluir o teor alcoólico. Menos volume, dizia ele, para não atrapalhar o sono em visitas ao banheiro. Estava certo, mas mesmo assim eu preferia a cerveja, achava mais adequado ao nosso clima. Finalmente, a companhia tocou, Cristina foi atender e João Alberto e Lenora chegaram acompanhados de João Mello. Surpreso ao avistar Garcia (não imaginava sua presença ali) abriu o sorriso e foi correspondido. E lembrou logo de “Najara”, poema de José Sampaio que Garcia musicou e que ele cantava com frequência nas serestas e nos programas de rádio na década de 40.

Najara foi só o começo…a noite se estendeu com mais música e boa prosa, lembranças de Aracaju de outrora, com o violão de João Alberto iluminando os nossos corações. Depois de umas e outras, muitos anos depois, restabelecia-se ali, naquela varanda, uma convivência comum nos anos passados – Garcia, Sampaio e João – unidos que eram pelos pequenos vícios que os aproximavam, naqueles tempos de então: fumar, beber cerveja, jogar bilhar, amar as mulheres e fazer serenatas.

O autor de Nós Acendemos as Nossas Estrelas partiu muito cedo, ainda na década de 50. Ele era casado com  tia Jaci, irmã de papai.  João Mello, cantor máximo de Sergipe, foi pra Salvador e depois para o Rio de Janeiro, destacando-se na vida cultural e musical das duas cidades e  Garcia, médico humanista clinico que superava a propedêutiva, manteve o seu “pensamento na praça”, até falecer em 1999. João foi mais longe. O quero dizer é que os três deixaram um grande legado, na medicina, na música e na poesia. Na ciência e na cultura, enfim, nas Humanidades!

Essa noite mágica, que entrou pela madrugada com música e poesia, marcou profundamente a minha vida e deu início ao meu caminhar de admiração a João Mello, músico, poeta, ator, principalmente cantor, que encantou a muitos com a sua arte, valorizando sobremodo as coisas de Sergipe e em especial, de Aracaju, cujo povo lhe deu cidadania plena. Baiano de Sete Portas, morou em Boquim com seus pais, depois Aracaju, a partir de 1936, quando passou a frequentar as rodas boêmias da cidade, convivendo com escritores e poetas, ocupando os microfones das rádios, cantando as belezas da capital, como em “Pescador da Praia Formosa” e do estado, com “Sergipinho” – Ah, saudade, saudade do meu Sergipinho, tão pequeninho, mas tão bonitinho, que dá gosto a gente ver…

Mas Salvador estava nos seus planos. Na Boa Terra, integrou o elenco da Rádio Excelsior e da Rádio Sociedade da Bahia. Foi crooner da Orquestra de Napoleão Tavares e seus Soldados Musicais. Com Pinduca e Codó, cantou nas boates Oceania, Monte Carlo e outras. Quando o Hotel da Bahia começou a se impor na vida turística da cidade, brilhou na boate Xangô.

João Mello no auge da carreira.

Já casado com Lygia e com uma filha pequena, Lenora, seguem de navio para o Rio de Janeiro, então capital federal, que vivia na efervescência dos novos ritmos e espaços musicais, os programas radiofônicos, a chegada das grandes gravadoras e os festivais da canção. Suas composições passaram a ser percebidas e solicitadas pelos cantores da época. Com sua extraordinária percepção musical e alma sensível de artista, passou a descobrir talentos, nas gravadoras em que trabalhou: Sinter, Phillips e Som Livre. Talentos como Jorge Benjor, Djavan e Bete Carvalho, entre outros, foram lançados por João Mello. Sem esquecer suas raízes, fez parcerias, com João Donato, Sérgio Porto e Baden Powell e interpretou músicas de ícones da Musica Popular Brasileira.

No seu regresso definitivo a Aracaju, aposentado da Som Livre, João Mello continuou a sua produção musical, porque músico não se aposenta, dizia ele, e faz mais parcerias, com jovens talentos, como Ismar Barreto, Pantera, João Alberto (que viria a ser o seu genro e herdeiro no violão). Gravou mais um CD – Coração só faz bater, pela Som Livre, nas comemorações dos seus 80 anos, participou de programas de entrevistas com um estilo inconfundível, no programa Videoteca Aperipê Memória, deixando para a posteridade um rico acervo de depoimentos de dezenas de personalidades sergipanas, entre as quais, seguramente, ele definitivamente está incluído, como músico, compositor, produtor e  cantor, integrante do elenco que iniciou a história do Rádio em Sergipe. Muito mais teríamos a contar, no ano do seu Centenário de Nascimento. Mas como disse Alencar Filho, um de seus diletos amigos, falecido neste ano pandêmico, João Mello ou simplesmente o cidadão João Ventura é grande demais para caber num simples depoimento, arrematando: João Mello é João Mello…e fim de papo!

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Alma humana é retratada em novo livro do escritor de Jorge Carvalho

Publicação compartilhada do jornal CORREIO DE SERGIPE, de 19 de junho de 2021

Alma humana é retratada em novo livro do escritor de Jorge Carvalho

Por Wilma Anjos

Jorge Carvalho do Nascimento é um intelectual sergipano muito conhecido e conceituado no estado. Professor aposentado pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), doutor em Educação, jornalista e fotógrafo, ele já ocupou diversos cargos públicos. Em conversa com o Correio de Sergipe (CS), Carvalho deixou transparecer que sua relação com a escrita transcende a formação acadêmica. Seus 24 títulos publicados até hoje são fruto de uma inquietação criativa que o faz escrever diariamente, madrugada adentro. Seu mais novo trabalho, “JULHO”, é uma novela policial recém-lançada, que teve três versões antes de finalmente ser publicada. Na história, Verinha, filha de um professor, tenta desvendar os mistérios que cercam a morte de seu pai e sua irmã, divergindo dos policiais, que considera incompetentes. Jorge Carvalho conta como se deu a inspiração para a elaboração das 111 páginas da obra. Leitores frisaram a predominância da natureza humana na trama, ponto que rendeu elogios ao autor. Confira a conversa:

Correio de Sergipe: Vi o anúncio do seu livro no Portal dos Livreiros. A solenidade de lançamento foi dispensada em razão da pandemia?

Jorge Carvalho do Nascimento: Fazer lançamento de livro em tempos de Pandemia é promover aglomeração. O lançamento do livro ocorreu virtualmente, durante Roda de Leitura realizada na sessão da Academia Sergipana de Letras, transmitida pelo Canal YouTube da instituição, no dia sete de junho deste ano.

CS: JULHO foi seu primeiro romance de gênero policial?

JCN: Foi. Sempre publiquei ensaios acadêmicos nas áreas de Educação, Historia, Antropologia e Sociologia. Em 2020 fiz minha primeira incursão pela literatura propriamente dita, publicando O CARVALHO, um livro de crônicas. Este ano experimentei o romance, na verdade uma novela.

CS: Pretende se especializar em temas policiais?

JCN: Por enquanto a única coisa que sei é que até o final deste ano pretendo publicar a segunda edição do meu livro POSITIVISMO, CIÊNCIA E RELIGIÃO NO BRASIL. A primeira edição circulou em 1994. Este livro se encontra na editora, neste exato momento. Em casa, estou trabalhando em três projetos, concomitantemente. Um livro sobre a formação eclesiástica da Irmã Dulce, no Convento do Carmo, em São Cristóvão, durante a primeira metade do século XX; o livro JORNALISMO E COLUNA SOCIAL EM SERGIPE; e um novo livro de crônicas – O NASCIMENTO.

CS: Apesar de ser uma ficção, alguma personagem ou trama teve influência da vida real?

JCN: Neste campo, assumo a formulação de Aristóteles: “Nada está no intelecto sem antes ter passado pelos sentidos”. A ficção é real. O eu é diferente da realidade na qual ele está envolto, mas é impossível a alguém exprimir ideias sem considerar o seu acervo de experiências. Foi isso que nos ensinou o filósofo espanhol José Ortega y Gasset. Quando você̂ escreve, seja um ensaio histórico ou aquilo que convencionalmente é designado de ficção, expõe experimentos e saberes que observou e viveu. É a experiência, tal como concebida por um outro filósofo, o norte-americano William James. Enfim, estou dizendo que li muito romance policial, muitos ensaios históricos tratando da questão, muitos romances cuidando dos desvarios da mente e da tragédia da condição humana, das questões existenciais. Quando eu era criança e vivia com a minha avó Petrina, nas noites das quintas-feiras, sentados na calçada, à porta de casa, ouvíamos na Rádio Liberdade o programa “Cada Crime Tem Sua história”, com Silva Lima. Lembrei de crimes que me impactaram durante a infância, a adolescência e a juventude. Toda ficção é real, toda realidade é ficcional.

CS: Leitores comentaram no seu perfil que leram JULHO “numa sentada só”. A escrita também foi rápida? Em quanto tempo a obra ficou pronta?

JCN: Outra vez estou me remetendo aos filósofos. A conhecida frase de Hipócrates popularizada por Sêneca explica o que eu penso. “Vita brevis, ars longa”. A vida é curta, a arte é longa. Tom Jobim musicou: “Longa é a arte, tão breve a vida”. Demorei dez anos escrevendo esse trabalho. Tem dez anos que fiz a arquitetura da história. Estabeleci personagens, espaço, tempo, contexto. Escrevi a primeira versão. Não gostei. Dei a alguns poucos amigos que fizeram a leitura e produziram a crítica. Não gostei. Entreguei tudo à crítica roedora das traças, no fundo de uma gaveta. Cinco anos depois, retomei. Escrevi uma nova versão. Pedi a amigos diferentes dos primeiros para criticar. Outras dimensões de crítica. Não gostei. Guardei novamente. No início do ano passado retomei e produzi uma terceira versão. Antes de fazê-la, lembrei dos conselhos de Carlos Drummond de Andrade: “Escrever é a arte de cortar palavras”. Peguei o textão que eu tinha da versão anterior e o reduzi ao mínimo. Entreguei a quatro amigos. Dois gostaram muito, mas fizeram ponderações que eu incorporei. Outros dois consideraram muito ruins e produziram outras tantas críticas. Incorporei várias dessas, menos a de que não servia para publicar por ser muito curto. Tomei coragem, publiquei a quarta versão. Passei dez anos para produzir um livro de 111 páginas. Sou uma espécie de bicho preguiça literário. Ainda bem que tive coragem de publicar. Os leitores estão gostando mais do que eu.

CS: Você̂ segue algum ritual de processo criativo? Tipo: mudar para outra cidade, trocar de dieta, escrever sempre no mesmo horário, enfim.

JCN: Em dez anos há tempo suficiente para você̂ visitar todos os continentes do planeta. Escrever na cidade que você̂ desejar e o seu dinheiro permitir. Infelizmente, falta-me o vil metal para me entregar a esses luxos criativos. Meu ritual criativo segue o conselho de Jorge Amado: Escreva diariamente. Pouco importa o quê. Escreva sobre várias coisas ao mesmo tempo. Faça cada dia um texto diferente. É um exercício importante. Mesmo que você̂ escreva, leia, não goste e jogue tudo fora. Mas, nunca abandone o exercício de escrever todos os dias. Eu escrevo diariamente, entre as oito da noite e às duas da madrugada. Na maior parte das vezes, quando acabo de escrever jogo tudo fora porque acho muito ruim.

CS: Você̂ toma algum autor como inspiração?

JCN: Para escrever sobre crimes, me agradam muito os trabalhos do historiador Boris Fausto e do escritor Rubem Fonseca. Para entender a condição humana, não há ninguém igual a Nelson Rodrigues. Penso que minhas referências são pobres e bastante conservadoras, para a maior parte dos que gostam de literatura.

CS: Algumas palavras-chave de seu livro no Portal dos Livreiros são: esquizofrenia e guerra psicológica. Pode esclarecer essas escolhas?

JCN: Meu livro trata da alma humana. Meu amigo professor de Direito, Gustavo Calçado, fez uma resenha do meu livro e citou Friedrich Nietzsche: “Na mesa de minha alma sentam-se muitos e eu sou todos eles. Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo. Você̂ nunca saberá́ com quem está sentado ou quanto tempo permanecerá com cada um de mim. (…) Desde logo, evite ilusões: também tenho um lado mau, ruim, que tento manter preso e quando se solta me envergonha. Não sou santo, nem exemplo, infelizmente. Entre tantos, um dia me descubro, um dia serei eu mesmo, definitivamente”. Isto resume tudo.

CS: Você̂ é professor aposentado da UFS, doutor em Educação, jornalista e fotógrafo. Apesar de multifacetado, seu propósito primordial é se firmar como autor?

JCN: Publiquei 24 livros. Meu propósito primordial é viver intensamente e ser feliz. Esteja dando aulas, pesquisando, escrevendo, viajando ou fotografando. Eu quero estar no mundo. Afirmação é um detalhe adolescente. Não me pertence mais.

CS: Que mensagem você̂ deixa para quem deseja se tornar escritor?

JCN: Escreva diariamente. Leia todos os dias. Olhe o mundo ao seu redor. Seja generoso com a alma humana, sem permitir tornar ato a perversidade potencial de cada um. Inclusive a própria.

Texto e imagem reproduzidos do site: ajn1.com.br

'A grandeza do advogado Manuel Cruz, que partiu', por Luiz Eduardo Oliva

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, em 20 de Junho de 2021

Opinião - A grandeza do advogado Manuel Cruz, que partiu

Por Luiz Eduardo Oliva*

Na noite do último sábado, 19, por volta das 20h, uma notícia, um susto, uma tristeza: Manuel Menezes Cruz, um amigo quase irmão partiu. Entre tantas mortes, as notícias chegam aos sobressaltos. Mas como assim? Não. Dessa vez não foi Covid.

Meu amigo partiu em consequência de um câncer que enfrentou no silêncio e com a mesma garra com que advogava. Não quis dividir com ninguém o sofrimento. Certamente somente com os familiares mais próximos.

Alguns sinais há dois anos me fizeram perguntar-lhe pela saúde. Ele desconversou, e expressou uma de suas marcas: o sorriso sincero e constante. Manuel Cruz sempre soube se vestir do bom humor que lhe completava o caráter do homem íntegro, ético e bom.

Quando em 1996, 16 anos depois de formado, decidi pela advocacia, Manuel me convidou para ser seu sócio. Conhecemo-nos na própria OAB - eu, conselheiro suplente, e ele, titular e já um advogado reconhecido.

Não tardou e, na eleição seguinte, ele seria o vice-presidente da vitoriosa chapa comandada pelo hoje presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe, Edson Ulisses, chapa aquela que integrei já na condição de conselheiro titular.

A sua generosidade em me convidar - embora formado há um bom tempo, eu não advogava - para ser seu sócio, fez-me seu discípulo. Paciente, mostrou-me os caminhos da advocacia, da textura da petição inicial, das nuances do recurso, mas, sobretudo o portar-se nas audiências em que ele era um “ás”, um mestre. Assim, pelas mãos de Manuel Menezes Cruz surgiu o advogado que hoje sou. Ali não fui somente o seu aprendiz. Tornei-me seu amigo e ganhei dele a amizade definitiva.

Depois, Manuel presidiu a seccional de Sergipe da OAB e depois a Federação Sergipana de Futebol de Salão, quando me convidou para ser o presidente do Tribunal de Justiça Desportiva. O tempo, contudo, por razões diversas, fez-me tomar outros rumos na advocacia e na atividade pública, deixando o seu escritório. Mas Manuel Cruz nunca deixou de ser o mestre a quem consultava nos aperreios da arte do advogar, tirando dúvidas e mostrando caminhos como se eu continuasse sócio.

Estivemos juntos também por longos anos como professores do curso de Direito da Fanese até 2019, onde ele era o professor mais antigo, admirado e querido pelos alunos e pelas alunas. Também por anos fomos vizinhos no mesmo prédio da Av. Barão de Maruim, coincidências da vida ou talvez a energia indecifrável do universo que coloca amigos sempre próximos uns dos outros, por alguma razão que a razão não explica.

Meu amigo era religioso, tinha crenças e cuidados. Conduziu a vida como um quase monge nos padrões que estabelecia ao seu próprio cotidiano. Foi um pai amoroso e conduziu os quatro filhos e filhas para a vida e a profissão íntegra, três dos quais para os caminhos da advocacia, dando-lhes a régua e o compasso. Foi comentarista esportivo e era um grande cantor - poucos sabem disso, chegamos a imaginar um conjunto só de pessoas ligadas ao direito e que teria um trocadilho no nome “Acórdão Musical”.

Ultimamente não respondia minhas mensagens, visualizava, mas como nosso bom Mané Cruz não era muito de redes sociais, eu sempre achava que ele ia responder. As respostas nunca chegaram. Ele lutava só, sem queixas nem partilhas do sofrimento, o que hoje me faz compreender o seu obsequioso silêncio. No último sábado, a tristeza me abateu, mesmo num mundo, e sobretudo num país, onde a notícia de mortes – embora a morte seja inexorável – está lamentavelmente ficando comum. Tristeza que me faz chorar neste texto.

Enfim, perdemos um grande ser humano, a advocacia sergipana perdeu um grande advogado e eu, o amigo. Vá em paz meu irmão Manezinho das Tirinetas! Deus o receba com alegria, porque você merece a morada dos justos. O São João do Céu vai estar mais festivo com sua irradiante alegria. Aplausos para um homem que soube se fazer grande, sem perder o sentido maior da humildade. Manuel Menezes Cruz, presente!

* É advogado, professor e membro da Academia Sergipana de Letras Jurídicas.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Morre Humberto Teles Barreto, fundador das lojas Huteba, em Aracaju



Texto publicado originalmente no site A8 SE, em 10 de junho de 2021

Falece o fundador da loja Huteba e ex-presidente da CDL, Humberto Teles

Por Redação Portal A8SE

Falece o fundador da loja Huteba e ex-presidente da CDL, Humberto Teles

Nesta quinta-feira, 10, faleceu Humberto Teles Barreto, fundador das lojas Huteba e ex-presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de Aracaju. Ele tinha 86 anos e sua morte foi por causas naturais.

Humberto atuou na presidência da CDL durante os anos de 1979/80. Em nota, a Federação de das Câmaras dos Dirigentes Lojistas expressou sentimento à família e relembrou a importância do empresário para o desenvolvimento econômico de Sergipe.

“Ele faleceu hoje e era considerado um dos empresários mais conceituados do varejo sergipano, no ramo de armarinho. [...] Se tornou uma referência no comércio sergipano, com duas lojas existentes até hoje, na av. Ivo do Prado e av. sete de setembro, nas imediações da rodoviária velha, em Aracaju”, explica.

Texto reproduzido do site: a8se.com

sexta-feira, 4 de junho de 2021

José Rafael de Oliveira (1940 - 2021)

Publicado originalmente no Perfil do Facebook/Antonio Samarone, 1 de junho de 2021

José Rafael de Oliveira (1940 - 2021)

Por Antonio Samarone*

A Covid-19 levou mais um amigo.

Conheci Rafael nas peladas da Praia. Um “bon-vivant”, farrista incorrigível. Gente fina, amigueiro, boa conversa. Amante de uma geladinha. Apaixonado pelo Vasco da Gama.

Rafael vinha com Alzheimer há uma década, mas nunca esqueceu o nome de Dona Neide, a mulher que amava, com quem teve cinco filhos (Sandro, Sérgio, Rafael, Fábio e Rafaela).

O Velho Rafa era natural do Arauá. Irmão de duas celebridades, o Padre Pedro e o Pintor J. Inácio, o que não é pouco. Sem contar a irmã Míriam, minha amiga, que conheci na Prefeitura de Aracaju. (ainda viva).

Rafael era um economista renomado, professor da Universidade Federal de Sergipe. Foi Vereador por Aracaju, por dois mandatos.

Mas o que Rafael gostava mesmo era de farra, dança, seresta, cerveja gelada, boa música, botecos com boa comida e de cultivar as amizades.

A Covid-19 levou um velho boêmio. Tenho certeza, que foi bem recebido no céu, pela turma do funil. Acho que no céu a cerveja é sem álcool. De todo jeito, Rafael se vira e termina encontrando a sua turma.

O Velho Rafa levou a vida na valsa, estava na terra à passeio, mas nunca fugiu das responsabilidades. Amou a sua esposa e soube criar os seus filhos.

Deixou uma legião de amigos.

* Antonio Samarone - médico Sanitarista

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Antonio Samarone