domingo, 16 de julho de 2023

Morre D. Leônia do Cartório, ícone sergipano de simpatia, competência...

Imagem postada pelo blog SERGIPE, resultado de reprodução do Facebook/Cartório do Sexto Oficio

Texto publicado originalmente no site FAN F1, em 15 de julho de 2023

Morre Dona Leônia do Cartório, ícone sergipano de simpatia, competência e elegância

Da redação

Faleceu nesta sexta-feira (14 de julho de 2023), em Aracaju, a empreendedora Leônia Gama de Oliveira, proprietária do Cartório Leônia Gama, do 6º Ofício, situado na Rua Itabaiana, no Centro de Aracaju.

Através do Instagram de familiares foi possível confirmar a informação. Uma neta da empresária postou um texto em homenagem, em um story do Instagram. Em um perfil de notícias da rede social, uma sobrinha de “Dona Leo”, como muitos amigos e clientes a chamavam, também comentou e lamentou o falecimento.

O portal Fan F1 tentou fazer contato com alguns familiares, para saber as circunstâncias do falecimento, mas sem sucesso.

O Cartório Leônia Gama foi fundado em 1976, mas ela só ingressou nele no ano de 1984. Personalidade notória da sociedade sergipana, Leônia sempre se destacou por ser uma pessoa de sorriso gentil e acolhedor, sempre atenciosa e extremamente competente em seu ofício. A todos cativava com sua simpatia e, apesar de ser uma mulher extremamente educada e elegante, era uma pessoa dotada de profunda simplicidade e humildade.

Sua morte provocou grande comoção nas redes sociais e levou muitas pessoas a prestarem suas últimas homenagens através de comentários, a exaltando e confortando a família. Na página oficial da Associação dos Notários e Registradores do Brasil em Sergipe, (Anoreg-SE), foi publicada uma homenagem, ressaltando os relevantes serviços prestados na área Notarial e Registral.

O velório foi realizado no Cemitério Colina da Saudade, onde o corpo foi sepultado hoje, às 10h.

Texto reproduzido do site: fanf1 com br

domingo, 9 de julho de 2023

Três anos sem Amaral Cavalcante: a vida lhe quis bem. E nós também!

Legenda da foto: Amaral Cavalcante: poeta, jornalista e cronista de um tempo

Publicação compartilhada do site JLPOLÍTICA, de 6 de Julho de 2023

Três anos sem Amaral Cavalcante: a vida lhe quis bem. E nós também!
Por Roseneide Santana*

Nesta sexta, 7 de julho, serão três anos sem o poeta, jornalista e cronista Amaral Cavalcante. No próximo dia 11 de julho, ele faria 77 anos. Foram apenas 8 meses entre a publicação do primeiro livro A Vida me Quer Bem e a sua partida.

Numa entrevista concedida à Segrase, ele comentou: “Estou feliz porque as pessoas da minha geração estão com meus escritos em casa para lembrar de mim e do nosso tempo”.

Recuperando aqui o delicioso texto desta semana do jornalista Antonio Passos, colega articulista também aqui do Portal JLPolítica & Negócio, eu pergunto: como esquecer um Titã?

Ainda mais um que compôs o quarteto fantástico da agitação cultural e do mundo das artes neste Estado, junto com a Ilma Fontes, Lu Spinelli e Joubert Moraes.

A única queixa que fiz em relação ao precioso livro do Amaral foi o fato de as orelhas terem saído com as letras muito miúdas e brancas, o que poderia dificultar o interesse pela leitura. Ei-las, então.

“Há pelo menos 30 anos que acompanho a produção escrita deste Estado e, obviamente, os textos de Amaral Cavalcante estiveram presentes nessa minha jornada de leitora: jornais, revistas, coquetéis literários, antologias e, mais recentemente, as postagens. Recebi dele um pen drive com quase 400 textos salvos de muitos emails, que trocou com leitores amigos, ou da rede social em que costumou postar nos últimos anos.

- Selecione aí umas 80 crônicas pro meu livro, ele disse. Olhei para o senhor de cabeça branca, mas vi o garoto da Folha da Praia, de rabo de cavalo, espírito realizador e inquieto, tentando me mostrar que sabia exatamente o que queria, mas duvidava de que alguém pudesse dar conta do seu intento. Muitas crônicas reescritas e ele não tinha vontade nem paciência de reler tudo. Quando tentou, gostou de algumas versões e não sabia qual escolher. Eu me lembrei do Gabriel García Márquez contando sua experiência de escrever um livro de contos, que durou 18 anos. Começou com 64 temas e, cada vez que lia, jogava fora alguns, até restarem 18, dos quais ele publicou 12: Doze contos peregrinos. Saber qual a melhor versão? diz Gabo: É um segredo do ofício que não obedece às leis da inteligência, mas à magia dos instintos, como a cozinheira que sabe quando a sopa está no ponto.

Entendi que precisava dar uma resposta rápida de sistematização e de compreensão do trabalho especial que me fora encomendado. Comecei, então, minha intromissão. A crônica “A Cascatinha”, por exemplo, tinha três versões. Em uma havia um episódio com o saudoso colunista Barrinhos; em outra, uma peripécia do Joubert Moraes. Já em “A morte da agenda velha”, reescrita quatro vezes, havia belas metáforas, detalhes que estavam em versões diferentes, mas não modificariam a essência da crônica se fossem reunidos em um só lugar. Primeira solução para o livro: fusão das versões.

Depois, a leitura foi apontando quatro partes mais ou menos definidas: memórias do menino, homenagens a figuras do seu convívio, causos e bares da cidade. Extraí das próprias crônicas títulos ou expressões para nomear essas partes: 1. No mundo doce de açúcares imemoriais; 2. A vida me quer bem; 3. Guardiã de inúteis segredos; e 4. De bar em bar.

À medida que  lia, avisei ao escritor: impossível somente 80 ou 100. Ele liberou até 150. Foi uma experiência sem igual. Parafraseando o Jorge Luis Borges, sinto orgulho do que li. Ao mesmo tempo sei, como leitora contumaz e ávida interessada na vida de escritores, que estive diante de um escritor. Amaral Cavalcante escolheu a crônica e escreveu sobre suas próprias experiências. Pode parecer arrogante se dizer um escritor por contar histórias da própria vida: o dilema para qualquer cronista.

Foi salpicando suas histórias aqui e acolá, mas relutou em ter sua capa/contracapa/orelha/prefácio. Graças ao bom Deus, mudou de ideia. Volto ao Gabo, após os 18 anos de labuta até publicar seus contos: “Aqui estão, prontos para ser levados à mesa depois de tanto andar de déu em déu lutando para sobreviver às perversidades da incerteza”.

De modo que, quando o Pirão de capão deixar de ser comida para ser poesia; quando “restar no quebra-queixo [de Joana Doceira] o gosto primordial da maravilha: o sabor das goiabas amassadas, um gosto de chão arrematado das frutas do quintal, maduras de preguiça e alumbramento”; quando o “herói da tarde” com sua “espada de pau” for acionado para destruir uma perigosa casa de marimbondos... sorria: você está sendo dominado pelas deliciosas crônicas de Amaral Cavalcante”.

P.S. No dia de hoje, em que uma tragédia tirou a vida do grandioso Zé Celso, trarei também o fragmento da crônica Augusto Franco, que infelizmente não entrou no livro, na qual Amaral deixou registrada a passagem estrondosa do renomado dramaturgo por Sergipe, em 1979.

“Ocorreu que o amaldiçoado Zé Celso Martinez, ícone da resistência cultural naqueles anos de chumbo, criador do Teatro Opinião e abertamente defensor da liberdade plena às expressões artísticas, estava excursionando pelo Brasil com um recital dito “orgástico e antropofágico”, bem ao seu estilo. Luiz Eduardo Costa, atento aos benefícios que essa pregação libertária traria aos artistas locais, consentiu em patrocinar, pela Subsecretaria, duas apresentações no Teatro Atheneu. O teatro encheu. No palco, tudo o que feria os brios dos milicos de plantão e que a censura vigente proibia, sob pena de cadeia, foi apresentado. Achincalharam os símbolos nacionais, jogaram uma melancia espatifada na cara dos expectadores provocando a imediata indignação da tradicional família sergipana, sem contar com os nus artísticos, tão surpreendentes quanto escandalosos. No outro dia, a caretice da cidade acordou em polvorosa! Fora! Fomos ultrajados! Não os queremos mais! Como é que uma repartição do governo patrocina este tipo de coisa? Nós, os funcionários da SUCA, começamos a arrumar as gavetas, aguardando a iminente demissão. Foi então que o governador Augusto Franco, convocando Luiz Eduardo Costa ao seu gabinete, deu-lhe as ordens: − Os meninos do teatro ficam e o Atheneu é deles, até quando eles quiserem. Sergipe é governado pela democracia. Vocês avaliem a grandiosidade do gesto!”.

Antônio Amaral Cavalcante - 11.07.1946 - 07.07.2020 - José Celso Martinez Corrêa - 30.03.1937 – 06.07.2023.

* É mestra em Letras e técnica em Educação da UFS. 

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br/articulista

sexta-feira, 7 de julho de 2023

'Presença judaica em Sergipe', por Marcos Cardoso

Legenda da foto: Na foto, no Cine Guarani, esquina da Rua Estância e Avenida Pedro Calazans, Paulo e Joanita Milstein Silva (com Olga nos braços), ela considerada judia autêntica.

 Artigo compartilhado do Facebook/Marcos Cardoso, de 22 de junho de 2022

Presença judaica em Sergipe
Por Marcos Cardoso

Sergipe é um dos poucos Estados brasileiros onde não há uma sinagoga. Este é o sinal mais evidente de como é diminuta a colônia judaica no Estado. O templo israelita é um sinal definitivo da presença dos filhos de Israel. Embora muitos judeus estrangeiros tenham imigrado para cá no Século 20, poucos ficaram. Três, pelo menos, fincaram raízes, constituíram família e tornaram perenes seus sobrenomes: Chapermann, Schuster e Milstein. Foram homens que chegaram pobres, trabalharam de sol a sol e conseguiram erguer patrimônios respeitados, principalmente no ramo do comércio. Se não chegaram a ter influência direta na formação política do Estado, conseguiram contribuir substancialmente na sua constituição econômica.

Povo nômade, pois não tinham pátria, os judeus intensificaram o êxodo após a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) e a Revolução Russa (1917). Sofrido o holocausto nazista durante a 2ª Guerra, tiveram onde se fixar depois da fundação do Estado de Israel, em 1948, quando passaram a emigrar para lá. Em 1914, chegaram os primeiros judeus contemporâneos a Sergipe: José Chapermann Natal e Salomão Kipermann (conhecido entre seus pares como “Zé Olhinho”). José veio e, em 1918, mandou buscar a mulher, Clara, e os dois filhos, Abrahão e Isaac Chapermann. Abrahão viria a ser o dono da Mobiliária Chic, que marcou época em Aracaju. Eles enfrentaram dificuldades na saída da Ucrânia, então anexada à União Soviética. Na década de 20, fugiram muitos judeus para o continente americano, destacando-se como países receptores na América do Sul o Brasil e, principalmente, a Argentina. A maioria era asquenaze, judeus da região compreendida entre a Alemanha e a Rússia, que falavam a língua iídiche.

No dia 26 de novembro de 1926, chegaram ao Brasil Isaac Schuster e mais 11 colegas. Ele chegou com 16 anos, oriundo da Romênia, no período de efervescência em que vivia a Europa entre as duas guerras. O pai de Isaac Schuster havia sido fuzilado pelos alemães na 1ª Guerra. A maioria dos 11 companheiros ficou no Rio de Janeiro, onde desembarcaram. Eles vieram dentro de sacos de carvão, no porão de um navio. “O dinheiro que meu pai possuía quando desembarcou no Brasil dava apenas para comprar um ovo cozido e uma xícara de café. Além disso, ele não falava nada em português”, recorda o empresário Lion Schuster, filho de Isaac, o sergipano mais preocupado em resgatar a memória do povo judeu no Estado. Ele planejava escrever um livro a respeito da saga dessas famílias.

Isaac Gringo

Pouco depois, Isaac Schuster também veio para Sergipe, junto com José Zuckmann, Brabeck, Elias Reutman e Isaac Schinitmann. Começou vendendo confecções em Lagarto para Zé Olhinho, que já estava instalado por aqui. Depois, por conta própria, passou a vender santos, sombrinhas e tecidos. Ele saía pela rua com os produtos dentro de um baú. Logo passou a ser conhecido como Isaac “Gringo”. Vendia os produtos a prestação, recebendo por semana.

Em Lagarto, conheceu a futura esposa, Maria Rodrigues do Nascimento, que depois incorporou o sobrenome Schuster. Casaram-se em 1929. Os filhos mais velhos dos 11 que tiveram, Abraão e Elza, são lagartenses. Naquela cidade do interior, Isaac teria vivenciado um episódio inusitado, lembrado por Lion: “Foi o único judeu russo que se escondeu de Lampião”. Um dos muitos filhos foi a desembargadora Geni Silveira Schuster. Na 2ª Guerra, durante o governo de Getúlio Vargas, Isaac dava discursos políticos no Ponto Chic, na esquina das ruas João Pessoa e Laranjeiras, contra os integralistas. Foi preso junto com Brabeck. Saíram da penitenciária após exigirem tratamento de presos políticos, mas tinham medo de que Getúlio Vargas os mandassem de volta, entregando-os aos alemães, como havia feito com Olga Benário, mulher do comunista Luiz Carlos Prestes. O regime usava seus livros russos como prova. Dos 11 que vieram, um retornou com saudade e acabou sendo fuzilado.

Ele finalmente pôde comprar a primeira loja em 1953, na rua Laranjeiras. Era uma das filiais das Casas Isaac Schuster. No início, vendia apenas móveis de vime. No outro lado da rua, em frente à sua loja, havia a fábrica de colchões de capim de um outro judeu, Manoel Milstein, pai de Joanita Milstein Silva, mulher de Paulo Silva, os fundadores do Café Sul-Americano. Lion começou a trabalhar com o pai ainda criança, quando saíam pelas ruas vendendo e recebendo pagamentos. “O dia certo do pagamento das prestações era o domingo. Por isso eu raramente podia ir à praia, que era a coisa que eu mais gostava”, recorda, com uma ponta de frustração, mas orgulhoso em demonstrar o quanto o pai era trabalhador. Ele recebia de comerciantes do Mercado Municipal e dos bairros Industrial, Santo Antônio, 18 do Forte e Siqueira Campos. “Na época que eu saía junto com meu pai, nós improvisávamos o almoço na rua São João, onde comíamos pão acompanhado de sardinha com tomate e cebola, além de jenipapada”.

Isaac Schuster morreu sem realizar o sonho de rever os familiares que havia deixado na Romênia. “Muita gente humilde chorou com a morte de Isaac Gringo”, recorda Lion, o quarto dos irmãos, que assumiu os negócios quando o pai morreu. “Meu pai nos ensinou a viver dignamente e a ganhar dinheiro”. Ele estava se preparando para viajar até a Romênia, para ver a mãe que estava doente. Mas só viajaria se conseguisse a cidadania brasileira, para garantir que poderia voltar ao país onde havia constituído a sua família. Antes que a burocracia o liberasse, contudo, recebeu uma carta, com quatro meses de atraso comunicando-o que a mãe havia morrido. Isaac Schuster faleceu poucos anos depois, em 1964, aos 57 anos, vítima de trombose cerebral.

Perseguidos pelos cristãos

Após a destruição de Jerusalém, no ano 70 da era cristã, a história dos judeus é a de um povo disperso, que conservou sua religião. Instalados a princípio em Jabreh, depois na Babilônia, ali fizeram florescer grandes escolas, a Torá foi atentamente estudada e deu-se prosseguimento à elaboração do Talmude (doutrina e jurisprudência da lei mosaica). Por outro lado, no Império Romano, e mais tarde no Império Bizantino, onde predominava o cristianismo, a sorte não lhes foi tão propícia. Na Espanha muçulmana, do século VII ao século XIII, o gênio judaico pôde florescer nas artes, na literatura e na filosofia. Foi por esta época que se desenvolveu a Cabala (tratado filosófico-religioso hebraico, que pretende resumir uma religião secreta que se supõe haver coexistido com religião popular dos hebreus).

Após a Reconquista cristã da península Ibérica, verificou-se terrível perseguição aos judeus, cujo instrumento maior foi a Inquisição. Esta obrigou os judeus a se converterem, ao menos na aparência (os “marranos”), ou a fugir da península: estes “espanhóis”, ou sefarditas, se instalaram nos países da bacia do Mediterrâneo, nos Países Baixos ou na Inglaterra. No restante do Ocidente cristão, a perseguição aos judeus foi sistemática, gerando o que mais tarde se chamaria de antissemitismo. Periodicamente, os judeus sofreram expulsões, discriminações e massacres: a caricatura preconceituosa do judeu deicida e usurário fixou-se por muitos séculos. Somente na Itália, havia certa tolerância.

Nos países não-cristãos, especialmente o Império Otomano, nos Países Baixos protestantes, sobretudo nos séculos XVI e XVII, e posteriormente na França, graças à proteção real, as comunidades judaicas foram toleradas. Na Polônia, a população judaica a princípio cresceu com a chegada de perseguidos da Alemanha e, a partir do século XVIII, com os judeus que fugiam dos “pogroms” russos. Mas no Século das Luzes, enraizou-se a ideia de uma emancipação dos judeus, cujos partidários triunfaram na Revolução Francesa. Napoleão I estabeleceu na França uma legislação consistorial, que ainda está em vigor. Por toda a Europa ocidental e nos Estados Unidos – onde, em 1914, já existiam 3,5 milhões de judeus vindos da Europa Central e Oriental – os judeus emancipados se europeizaram, integrando-se ao desenvolvimento intelectual, econômico e social de suas nações.

Na Europa oriental, os judeus permaneciam como suspeitos. Essa emancipação rápida provocou, após 1880, a ressurreição do antissemitismo, que intelectuais reacionários erigiram como doutrina. O caso Dreyfus, na França, atiçou um desprezo e até um ódio racial que se encontravam por toda parte, mas sobretudo na Alemanha, entre as duas guerras. O sionismo, originado com Theodor Herzl (“O Estado Judeu”, 1896), alimentou as esperanças dos judeus europeus perseguidos, mas foi também um elemento que fomentou o antissemitismo. Misturado com teorias racistas falsamente científicas, o preconceito atingiu seu paroxismo com o nazismo, que levou Adolf Hitler e seus correligionários a preconizarem a “solução final”, ou seja, o massacre do povo judeu: ao fim do conflito, 6 milhões de judeus haviam sido assassinados nos campos de extermínio nazistas. Depois da guerra, as comunidades israelitas se reconstituíram. Enquanto a ideia sionista se concretizava com a criação do Estado de Israel, o antissemitismo, às vezes sob a forma de antissionismo, reapareceria em vários países.

Três sobrenomes mestiçados

Das três principais famílias que se fixaram em Sergipe (Schuster, Chapermann e Milstein), Schuster é a mais numerosa, hoje com cerca de 80 remanescentes. Mas os seis filhos de Joanita Milstein são os únicos legítimos judeus vivos. Além de ser filha de Manoel Milstein e Sônia Koifman, Joanita era considerada de “raça pura” porque a mãe era judia. O mesmo acontece com seus filhos. “O valor da raça judaica está em ser filho de mulher judia”, explica Luciano Milstein Silva, quarto filho de Joanita, e um apaixonado por Israel, onde morou. “Considero tanto minha pátria quanto o Brasil”, diz, orgulhoso.

Manoel e Sônia Koifman Milstein, ucranianos de Kamnipadovskaia (antiga Bessarábia) que coincidentemente encontraram-se no Brasil, após passarem pela Argentina, casaram-se em Natal (RN) e depois se mudaram para Aracaju. Tiveram três filhos, sendo que Anita e Samuel mudaram-se, junto com a mãe, para Israel logo após a fundação do Estado judeu, onde constituíram família. Anita casou-se com Fritz Guggenheinn, judeu de uma abastada família alemã que fugiu do holocausto nazista com 10 anos, deixando para trás os pais, que acabaram sendo assassinados. Fritz viveu na Argentina e em Goiás, no Brasil, mas conheceu Anita em Israel. Sônia Koifman morreu em 1984.

Joanita e Paulo Silva casaram-se, na década de 50, contra a vontade dos pais dela, que rejeitavam a união com um não-judeu. Eles foram os pais de Olga, Paulo Filho, Manoel, Luciano, Marcos e Ana Paula. “Meu pai foi um lutador, que construiu um grande patrimônio. Mas sem minha mãe, ele não chegaria aonde chegou. Dona Joanita era uma leoa para trabalhar”, reconhece Luciano. Ele próprio viveu na pele a pressão da importância que o povo judeu dá à questão da perpetuação da raça: “Algumas vezes, prepararam mulheres judias com quem eu deveria me casar”, admite Luciano, que acabou se casando com uma sergipana. “É a maior miscigenação de raças do mundo e isso aumenta a preocupação com a perpetuação”, observa, lembrando que o êxodo espalhou judeus pelos quatro cantos do planeta. Há judeus orientais e ocidentais, assim como há judeus árabes, argentinos, russos e americanos. “Há judeus oriundos da Somália, negros, que foram aceitos em Israel”, observa.

Primeiros judeus chegaram no século XVII

A história registra a presença de judeus em Sergipe desde o século XVII, quando aqui desembarcavam como cristãos-novos. Segundo conta a historiadora Maria Thétis Nunes, no livro “Sergipe Colonial I”, a recém-criada “Capitania de Sergipe Del Rei, em pleno desenvolvimento, atraía, na dispersão da população rarefeita que ocupava seu território, a entrada de cristãos-novos, que aí poderiam passar despercebidos”. Mas, “mesmo rarefeita, a sociedade sergipana da segunda década do século XVII seria atingida pelo olho da Inquisição, alcançando, em primeiro plano, os cristãos-novos nela estabelecidos”. A perseguição aos judeus, representantes da burguesia comercial em ascensão e que aqui chegaram até ser fidalgos e senhores de engenho, prosseguiu por cerca de dois séculos.

Os cristãos-novos, judeus que se converteram à fé cristã, ou que descendiam de pais ou avós convertidos, quase sempre foram forçados à conversão, por fanatismo religioso e oportunismo cristão: ao mesmo tempo em que, na península ibérica, notadamente em Portugal, se lhes impunha a conversão, impedia-se ou dificultava-se sua saída do país e criavam-se pretextos para espoliações. No Brasil, muitos cristãos-novos foram perseguidos pela Inquisição sob a acusação de praticar sua fé às escondidas. Não raramente tinham seus bens confiscados e, muitas vezes, eram enviados a Portugal para serem julgados pelo Tribunal do Santo Ofício.

(Texto publicado originalmente no Jornal da Cidade e na Infonet em 11 de setembro de 2011)

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Marcos Cardoso.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Marlene Alves Calumby, uma intelectual de peso em Sergipe

Artigo compartilhado do site RADAR SERGIPE, de 4 de julho de 2023 

Marlene Alves Calumby, uma intelectual de peso em Sergipe
Por Igor Salmeron*

Para quem acompanha os meus trabalhos de pesquisa notam que focalizo bastante em mulheres que fizeram e fazem história em Sergipe. Uma dessas notáveis reside na pessoa de Marlene Alves Calumby. Nascida em Aracaju num dia 21 de outubro do ano 1950, é a filha do saudoso construtor João Alves e de Dona Maria de Lourdes Gomes. Pais que instilaram nela o espírito solidário, de tenacidade e apreço ao trabalho.

Dotada por inteligência singular, Marlene sempre foi determinada e tinha foco nos estudos. Realizou os cursos Primário e Ginasial no Colégio Jackson de Figueiredo, completando com o Curso Pedagógico que arrematou junto ao Colégio Patrocínio do São José. Se formou em Pedagogia com habilidade em Orientação Educacional pela Faculdade de Educação, da Universidade Federal de Sergipe.

Graduou-se depois em Direito pelas Faculdades Integradas Tiradentes. Prestou curso de Radialista com registro verificado no Ministério do Trabalho. Sua sede de saber é imperecível, e como observamos, realizou também Pós-Graduação em Metodologia da Informação Ocupacional pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) bem como em Educação-Concentração: Planejamento Educacional pela Faculdade São Judas Tadeu, de São Paulo.

Na parte de Gestão de Recursos Humanos também é aplicada quando foi Mestranda na Universidade de Extremadura da Espanha. Sua vastíssima cultura é algo a se ressaltar, pois são poucas em Sergipe que possuem tão destacada erudição. Fez estágio no curso de Análise e Avaliação de Testes, da Escola Técnica Federal de Sergipe e no Centro de Estudos Supletivos, em Natal, no Rio Grande do Norte.

De forma sucedânea, foi aprovada com brilhantismo no concurso público para Monitor da disciplina Didática Geral, realizado pelo Departamento de Didática da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Sergipe, logrando a 2ª colocação. Exerceu ao longo de toda sua vida inúmeros cargos públicos seja no Estado, seja na Prefeitura de Aracaju, com participação em diversos seminários, encontros, congressos, projetos e cursos de especialização em Aracaju, Brasília e outras unidades da federação, ora como coordenadora, ora na promoção de fecundos debates, tanto na seara do Direito quanto na da educação e comunicação social.

Atuou como Membro do Conselho Estadual de Educação, no qual exerceu a Presidência, a Vice-Presidência das Câmaras de Ensino Supletivo da Secretaria de Estado da Educação. Foi Orientadora Educacional da Escola Técnica Federal de Sergipe, Superintendente Geral da Fundação Aperipê de Sergipe.

No magistério sergipano Marlene se tornou referencial. Lecionou no Colégio Patrocínio do São José, no Instituto de Educação Rui Barbosa, tendo sido reconhecida como uma das melhores professoras que passaram pelo Colégio Estadual Atheneu Sergipense, donde também foi diretora proficiente.

No campo do Direito, exerceu a docência como Professora Substituta junto ao Departamento de Direito do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFS, e também no Departamento de Direito do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UNIT. Mestra da Faculdade PIO X, além de ter ensinado na Rede Municipal de Educação, onde exerceu cornucópia de cargos na parte de assessoria, coordenação e direção.

Recebeu diversos prêmios dos quais: distinções, diplomas, medalhas e reconhecimento de “honra ao mérito” pelas suas ígneas contribuições, não apenas na seara educacional, como no rádio e televisão. Destaca-se a Medalha da Ordem do Mérito Parlamentar, maior honraria concedida pelo Poder Legislativo em Sergipe. Benemérita e Benfeitora de várias instituições culturais e sociais, foi do Movimento Cultural Antônio Garcia Filho da Academia Sergipana de Letras.

Em 2004 se tornou Imortal da ASL ocupando a Cadeira de nº 30 que era pertencente ao Dr. João Gilvan Rocha. Ressalte-se que Marlene foi a sexta mulher a ocupar uma cadeira no vetusto sodalício dentre às quais: Maria Thétis Nunes, Ofenísia Freire, Carmelita Pinto Fontes, Gizelda Morais e Maria Ligia M. Pina.

Em 1999 foi Presidente da Comissão Especial de Estudos Jurídicos da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Sergipe. Escritora prolífica, escreveu inúmeras crônicas para imprensa e rádio sergipanos, além de ser abrilhantada poetisa com sensibilidade lancinante. Destaco entre seus escritos: “A importância dos Conselhos Municipais de Educação”, “Direito Educacional” e memórias biográficas sob título “Tudo valeu a pena”.

Na afável esfera doméstica foi casada com o conceituado médico José Calumby Filho cuja amorável união matrimonial resultou em duas filhas. Em seu âmbito profissional aposentou-se dos cargos públicos que exercera com a maestria que lhe é intrínseca.

Conclui-se que a sua labuta incessante na cátedra, seu amor incondicional ao magistério e inspirador trajeto de vida são exemplares merecendo reconhecimento contínuo. Sua luzidia simplicidade, jeito sem soberba e acolhida humana fazem de Marlene Alves Calumby uma das maiores intelectuais vivas no que se refere à moderna cultura sergipana.

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* Igor Salmeron - Sociólogo, doutor em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFS, servidor do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe, faz parte do Laboratório de Estudos do Poder e da Política (LEPP-UFS). Membro vinculado Academia Literocultural de Sergipe (ALCS) e ao Movimento Cultural Antônio Garcia Filho da Academia Sergipana de Letras (MAC/ASL). E-mail para contato: igorsalmeron_1993@hotmail.com

Texto eimagem reproduzidos do site: radarsergipe com br/cultura

domingo, 25 de junho de 2023

Josa, O Vaqueiro do Sertão e a poesia lírica de uma vaquejador genuíno

 Josa, O Vaqueiro do Sertão: sem ceder aos sucessos fáceis e aos duplos sentidos

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 22 de Junho de 2023

Josa, O Vaqueiro do Sertão e a poesia lírica de uma vaquejador genuíno
Por Mário Sérgio Félix*

O lirismo na poesia tem início na Grécia antiga. Na época, a manifestação poética era feita no gogó, acompanhada apenas por uma Lira. Em Simão Dias, surge um poeta que manifesta o seu canto através do aboio. A lira dela era a sanfona.

Josa, O Vaqueiro do Sertão nasce José Gregório Ribeiro em 12 de março de 1929, na cidade de Simão Dias. No Rio de Janeiro, como militar, chegou à patente de sargento.

Sua admiração pela música, o fez ingressar na Banda da Polícia Militar. Num acidente, ao andar de cavalo, foi obrigado a encerrar a carreira militar. Porém, a música já estava em seu sangue.

Naquela época, Josa já era fã incondicional de Luiz Gonzaga e com o fim da carreira militar teve seu regresso a Sergipe antecipado. Com a sua música, começa a despertar o sentimento de cantar e apresentar a sua sanfona aos quatro cantos de Sergipe. Suas composições começam a fazer sucesso.

A poesia na música de Josa ultrapassa a subjetividade e vira uma manifestação interior. Interior não somente da alma. Se materializa na condição de cumplicidade. Chega a ser juvenil.

No seu grande sucesso “Na Sombra da Jaqueira” se observa uma poesia singular, porém, de grande sentimento. Estamos falando de um homem “rude” do interior do Brasil que canta o amor com a singeleza da poesia vinda da alma, a ponto de dividir com uma árvore, seu grande sentimento:

“Adeus querida jaqueira

Não sei quando voltarei

Sempre me guarde segredo

De ti não esquecerei...”

Lembremos que a poesia acima descrita na letra de seu grande sucesso nos fala de um amor que tem na árvore jaqueira a cumplicidade desse amor:

“No outro dia cedinho

Fui correndo na jaqueira

Encontrei um bilhetinho

Dizendo assim

Nada mais existe

Meu amor é triste

Sem o seu carinho”

Josa compôs mais de 300 músicas, sendo uma marca da cultura sergipana. Suas apresentações se deram por todo o Brasil, entre elas no famoso programa do Chacrinha.

Assim como Dominguinhos e Gerson Filho, Josa também gravou pelo selo “Cantagalo”, do nordestino Pedro Sertanejo, que abrigava em sua gravadora grandes talentos do Nordeste.

Sempre que Luiz Gonzaga visitava Sergipe, um papo com Josa era garantido. O Rei do Baião nutria um carinho muito especial pelo Vaqueiro do Sertão, assim como também Dominguinhos.

Josa tinha uma marca muito definida com a sua música, bem como as músicas gravadas que escolhia de outros compositores. A poesia nas letras dele era um tema sempre recorrente.

Outro grande sucesso gravado por Josa, de uma bela poesia, foi escrita por Osvaldo Eurico e Vadeca Lima. Seu nome: “Valente é o bem-te-vi”.

“Que digo com certeza

Eu amo a natureza

Ai quem me dera poder voltar

Pra ter a sensação de ver em pleno ar

Um bem-te-vi desafiando um carcará”

Josa era tão agarrado e ético às letras das músicas que compunha e gravava, que quando surgiram os grandes sucessos de letras com duplo sentido, ele preferiu se afastar desse modo musical.

Decidido, esse nosso compositor não gravaria esse tipo de música, ficando fiel à sua convicção de que a poesia deveria prevalecer sobre as músicas de duplo sentido. Mas aí já é assunto para um outro artigo.

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* Articulista Mário Sérgio Félix - É radialista, jornalista e pesquisador da MPB. 

Texto reproduzido do site: jlpolitica com br

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Monsenhor José de Souza, morre aos 93 anos

Crédito da foto: reprodução/divulgação ascom Arquidiocese Aracaju

Publicação compartilhada do site A8 SE., de 16 de junho de 2023 

Monsenhor José de Souza, morre aos 93 anos

Ele foi o primeiro presbítero ordenado por dom José Vicente Távora

Por redação Portal A8SE

Faleceu na manhã desta sexta-feira (16), o monsenhor José de Souza Santos, presbítero da diocese de Estância, aos 93 anos. Ele estava internado há cerca de 30 dias em um hospital de Aracaju para tratamento de problemas respiratórios.

O religioso foi o primeiro presbítero ordenado por dom José Vicente Távora, primeiro arcebispo metropolitano da Arquidiocese de Aracaju, em 8 de dezembro de 1958.

Ao todo, foram 64 anos de ministério sacerdotal. O velório acontece na matriz da paróquia Nossa Senhora Imperatriz dos Campos, em Tobias Barreto, cidade natal do monsenhor. O sepultamento está previsto para este sábado, às 11h, no cemitério local, logo após a missa de corpo presente, que será presidida por dom José Genivaldo Garcia, bispo de Estância.

“Suplicando que o Senhor, em sua infinita bondade e misericórdia, por intercessão de Nossa Senhora de Nossa Senhora Imperatriz dos Campos, conceda ao monsenhor José de Souza Santos o descanso eterno e a recompensa pelo seu fecundo ministério sacerdotal exercido com muito amor e dedicação”, disse o arcebispo dom João José Costa.

Texto e imagem reproduzidos do site: a8se com

sábado, 17 de junho de 2023

LIVRO > Memórias do Jornalismo e da Coluna Social

Post compartilhado do Facebook/Jorge Carvalho do Nascimento, de 13 de junho de 2023

Memórias do Jornalismo e da Coluna Social 
Por José Anderson Nascimento *

Memórias do jornalismo e da coluna social é o mais novo livro do professor, escritor e acadêmico Jorge Carvalho do Nascimento, ocupante da Cadeira n. 34 da Acadêmica Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação. Composto com 286 páginas e editado com o selo da Criação Editora, recebe o prefácio do jornalista Ancelmo Gois, que destaca a pesquisa do autor sobre o colunismo social. A obra em comento está sumariada com uma Introdução e seis capítulos, entrevistas e referências bibliográficas.

Na Introdução, o seu autor apresenta os objetivos da obra e as suas leituras acerca do colunismo social, bem assim, discorre sobre a sua iniciação no jornalismo, destacando a sua amizade e companheirismo com o jornalista Luiz Antônio Barreto, principal mentor da sua trajetória na imprensa, em Sergipe.

No seu trabalho, Carvalho avalia a contribuição de vários colunistas e de destacados jornalistas que atuaram na imprensa em Aracaju, demonstrando a importância deles no desenvolvimento cultural do nosso estado. Mostra contribuições relevantes dos participantes desse processo a começar por Carlos Henrique de Carvalho, mais conhecido nos meios jornalísticos e sociais como Bonequinha, considerado o pioneiro da coluna social em Sergipe, seguido Amaral Cavalcante, Ancelmo Gois, Araripe Coutinho, Arlene Chagas, Christina Souza, Clara Angélica Porto, Deisy Monte, Fátima Botto, Gracinha Barreto, Ilma Fontes, João Barreto Neto, João de Barros, Karmen Mesquita, Kerginaldo Reis, Lânia Duarte, Laurindo Campos, Ledinaldo Almeidha, Luís Mendonça, Luiz Adelmo, Luiz Daniel Baronto, Luiz Eduardo Costa, Lurdinha Gusmão, Madalena Sá, Marcio Lyncoln, Maria Franco , Maria Luiza Cruz, Olímpio Seixas, Osmário Santos, Paulo Nou, Pedrito Barreto, Sacuntala Guimarães, Sônia Mara, Tanit Bezerra, Thaís Bezerra, Wellington Elias e Zelita Rodrigues Correia, que se mantiveram por mais tempo nas páginas dos jornais Gazeta de Sergipe, Diário de Aracaju, Jornal Sergipe, Tribuna de Aracaju, Jornal da Cidade e de outros noticiosos.

O autor, ouvindo os seus entrevistados e pesquisando de forma empírica os jornais e revistas publicados nos anos de  1960, 1970 e 1980, apresenta uma série de  notícias, onde relata acontecimentos locais e  nacionais que evidenciaram matérias jornalísticas e notabilizadas no segmento da “Coluna Social”, época em que o jornalista Ibrahim Suede lhe deu uma nova roupagem, não se descuidando das abordagens chistosas, em que focalizava pessoas do High Society carioca e das suas influências exercidas no campo político, empresarial e social. Nas suas notas não faltavam as fofocas envolvendo empresários, políticos, banqueiros e renomados artistas da imprensa radiofônica e televisiva, esta em ascensão a partir da década de 1960. A escrita do colunista Ibrahim Suede, com mensagens curtas e picantes, serviu de modelo para inúmeros seguidores espalhados pelo Brasil. Desde aquele tempo, as pessoas adoravam e até pediam para aparecer na coluna social e, algumas delas, alimentavam os colunistas com informações sobre os acontecimentos da sua vida, da sua família, de parentes e das vidas dos outros. Sempre havia uma notinha de fofoca, principalmente envolvendo lances amorosos, que causavam o maior frisson entre os personagens que estavam no palco da boataria.

Carvalho analisa ainda a função da coluna social e os seus reflexos e impactos na sociedade; refere-se, também, à isenção e ao interesse econômico dos colunistas na divulgação dos fatos. Por outro lado, mostra a função dos informantes e consequente troca de favores na divulgação das notícias. Na sua abordagem, descreve com muita precisão a ansiedade dos colunáveis ao verem as suas intimidades expostas em veículos de comunicação, principalmente agora com a velocidade da notícia na Internet.

Além dos colunistas sociais, está a função dos fotógrafos que os acompanhavam nas festas de formatura, de casamentos, de debutantes, e nas solenidades políticas e empresariais, valendo lembrar o nome de Zé (fotógrafo) da Gazeta, que, nos idos de 1962, acompanhava este escriba quando assinava a coluna Background, na Gazeta de Sergipe, pioneira em incluir fotografias dos seus entrevistados e das debutantes que embelezavam as páginas das suas colunas. O fotógrafo passou a ser peça importante no colunismo social, e Zé da Gazeta merece uma menção especial pois ele se empenhava em revelar as fotos e a produzir o clichê, num processo bem artesanal para a gravação da foto numa placa de metal, a fim de ser levada à prensa, pelo tipógrafo José Eugênio de Jesus, com a finalidade de compor a matéria jornalística, para a circulação da edição do jornal, já que ainda não havia os processos modernos de composição de textos como a máquina linotipo, composer ou offset printing.

O ensaio de Carvalho é um documento representativo, não só para a memória do jornalismo sergipano, mas para o contexto geral da literatura, uma vez que ele expõe o relacionamento do High Society com as diversas camadas sociais aracajuanas da época.

Assim, com essas breves considerações, recomendamos a leitura de Memórias do jornalismo e da coluna social.

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* Jornalista, advogado, escritor e professor universitário. Presidente da Academia Sergipana de Letras.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Jorge Carvalho do Nascimento

'Eu me recordo... de Aracaju...', por Nestor Amazonas

Post compartilhado do Facebook/Nestor Amazonas, de 17 de junho de 2023

Eu me recordo... de Aracaju...
Por Nestor Amazonas

Eu me recordo de uma tarde eu me sentar na varanda da CRASE e perder a noção do tempo vendo botos perseguirem tainhas num balé hipnótico, fantástico.

Eu me lembro de um tempo em que pegar carona ao lado do Cotinguiba para a Atalaia era mais divertido que a própria praia...

Eu me lembro que ficar horas no Mini-Golfe, sem fazer nada a não ser jogar conversa fora - era uma atração inquestionável para a galera da época.

Eu me lembro de que se sentar no muro da Catedral era o melhor posto de observação para olhar as moças que passavam...

O desfile entre a Catedral e a Sorveteria Yara era obrigatório para quem queria namorar com as moças da fina sociedade da época.

Eu me lembro de tempo em que fincamos bandeira e tomamos posse do Parque Teófilo Dantas como sede da nossa turma, a Turma do Parque...

Eu me lembro que ir ao Bar do Pinto era a nossa única salvação para a matar a larica da alta madrugada...

Nossa maior diversão na noite era fazer o circuito do Beco dos Côcos, Miramar e Xanghai e terminar tomando vitamina de banana sentado no meio-fio do Bar do Meio.

Eu me lembro que o Bar do China era nosso ponto de encontro, nosso “esquenta” para a noite de festas e farras.

Eu me lembro do sagrado ritual de na volta das festas ir comer o Passaport – o sanduba podrão da madrugada, numa Kombi velha e suja.

Eu me lembro de obter cultura “por osmose” na Galeria Álvaro Santos, filando ideias, opiniões, drinks e salgadinhos dos coquetéis das vernissagens.

Eu me lembro da luz difusa do 315 iluminando nossas almas famintas de tudo, a macarronada trôpega e barata dava para dividir por três...

Eu me recordo...de Aracaju, a minha Aracaju de então...Aracaju de meus amigos e dos meus afetos.

A vida não é aquela que a gente viveu e sim o que dela a gente recorda. E estar vivo para contar. (by Gabo).

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PS - a foto desfocada e muito antiga (1972) registra minha passagem pelo Costão e o cabeludo com camiseta apertada e recortada acima da cintura é Wandinho (Wanderley Santana de Jesus) um irmão que a vida me deu e que me acompanha até hoje.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Nestor Amazonas

terça-feira, 13 de junho de 2023

Ex-vice-prefeito de Aracaju, Evandro de Sena, morre aos 75 anos


Texto publicado originalmente no site A8SE., em 12 de junho de 2023 

Ex-vice-prefeito de Aracaju, Evandro de Sena, morre aos 75 anos

O sepultamento do corpo vai ocorrer às 17h

Por Redação do Portal A8SE

Na noite do último domingo (11), o Médico e ex-vice-prefeito de Aracaju, Evandro de Sena e Silva, faleceu aos 75 anos.

Segundo informações da família, ele morreu no hospital após um ataque cardíaco. O velório está acontecendo no cemitério Colina da Saudade, localizado no bairro Jabotiana. Já o sepultamento vai ocorrer às 17h.

Evandro nasceu em 15 de junho de 1948 e, além de ser atuante na política, ele contribuiu para a formação acadêmica de muitos jovens, já que era professor aposentado do Departamento de Educação Física na Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Texto reproduzido do site: a8se com

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Uma justa homenagem póstuma a Alfredo Freire do Sacramento

Alfredo Freire do Sacramento: eis aqui um que
soube passar bem pela vida e vai deixar saudade

Alfredo Freire do Sacramento: teve família e soube dar a atenção que cada um mereceu

Legenda da foto: Alfredo e sua Maria Augusta Almeida do Sacramento: uma união de 51 anos feitos agora em maio

Publicação compartilhada do site JLPOLÍTICA, de 30 de maio de 2023

Uma justa homenagem póstuma a Alfredo Freire do Sacramento

Por Aurélio Belém do Espírito Santo *

Peço licença aos leitores desta coluna para desviar da programação dos artigos e fazer uma justa homenagem a um grande homem a quem tive a honra de conhecer e conviver: Alfredo Freire do Sacramento, que nos deixou no último domingo, dia 28, aos 79 anos de idade.

Nascido em Aracaju, em 30 de dezembro de 1943, Alfredo foi o sétimo de dez filhos do casal Eliezer do Sacramento e Idalina Freire do Sacramento, a dona Marocas. São eles: Maria José Sacramento Santos, a Zezé, Anna Freire do Sacramento, Anita, a queridíssima Azulina Sacramento Leal, Maria Augusta Sacramento Ferreira, Carlos Freire do Sacramento, o Carlito, Maria Emília Freire do Sacramento, Alfredo Freire do Sacramento, Maria Amélia Freire do Sacramento, Antônio Freire do Sacramento, o tio Tonho, e a animada Eliana Sacramento Oliveira.

Desde 20 de maio de 1972, Alfredo foi muito bem casado com a então jovem laranjeirense Maria Augusta Almeida do Sacramento, filha de Dona Eunice e Edvaldo Xavier, que foi prefeito de Laranjeiras. Com sua fiel companheira de vida, Alfredo teve cinco filhas: Alessandra, dentista; Amanda, analista do TRE/BA; Adriane, superintendente do IBGE/SE; Ana Carolina, fisioterapeuta, e Augusta Renata, psicóloga.

Hoje todas elas são casadas, respectivamente, com o dentista brasiliense Alexandre Tenório; com o médico soteropolitano Cláudio Sobral; com o analista do MPT Rafael Bittencourt, com este advogado Aurélio Belém e, por fim, com o paraibano analista do MPE, Luiz Neto.  

As cinco filhas de Alfredo Freire do Sacramento lhe presentearam com oito netos ao todo: sendo a primogênita Gabriela, já acadêmica de Medicina, seguida então pela bela baianinha Júlia; o primeiro descendente masculino Lucas; o Guilherme, o “Guiga”; o curioso Leonardo, o “Leozão”; Marina, a “Nina”, e os gêmeos pontas de rama, bons de bola, Marcelo e Matheus. Lucas e Leo são filhos meus com a quarta filha do Sr. Alfredo, Carol Sacramento.

Deu para perceber que a vida desce grande homem foi sempre de “casa cheia”. Afinal, só a família de casa, quando se reunia completa, contava com exatamente 20 pessoas. Mas sempre cabia mais uns. Dá para imaginar o barulho e a alegria dessas reuniões?

Então, era assim que o estimado Alfredo Freire do Sacramento gostava de ver a sua casa, sempre cheia e animada. Apreciava disputar boas partidas de buraco, dando sermões homéricos aos parceiros vacilantes, dentre eles este que vos escreve, e gozando alegremente dos adversários frequentemente derrotados, quase sempre Claudinho e Rafael.

As longas partidas eram sempre acompanhadas por uma boa mesa em família, servida, dentre tantas outras coisas, com as suas comidas favoritas: rabada, ensopado de robalo, galinha de capoeira, carneiro guisado, cozido de carnes com pirão, que eram, preferencialmente, preparados pela icônica Maria, antiga funcionária de confiança da família. A mesa farta também era sempre regada com um bom vinho tinto.

Alfredo começou a trabalhar ainda menor num bar e restaurante do cunhado Amintas, depois passou a vender frutas do sítio do seu pai no mercado e ajudava seu velho numa mercearia que ele tinha na Rua de Santa Rosa.

Estudou e completou o segundo grau no Colégio Atheneu. Alistou-se e serviu ao Exército. Quando atingiu a maioridade, foi trabalhar como office boy no escritório da Usina Pinheiro, pertencente à família Franco. De lá, em 1962, foi transferido para a fábrica de tecidos Sergipe Industrial, onde trabalhou como escriturário e logo foi promovido a gerente.

Prestou vestibular para o curso superior de Economia, foi aprovado, mas resolveu não cursar e seguir a carreira na empresa, escalando, por méritos, até chegar a diretor-geral, que ocupou por muitos anos, tornando-se homem de confiança do médico e industrial Augusto Franco. 

Com o falecimento do patriarca dos Franco, Alfredo continuou ainda por muito tempo na direção da empresa têxtil, junto com três filhos herdeiros: Marcos, Ricardo e Maria Clara Franco, representada pelo esposo Tácito Faro.

Alfredo sempre foi arrimo de família. Organizado, leal, grato, de personalidade decidida e de caráter reto, era dedicado ao trabalho e à família, que carinhosamente sempre o prestigiou com carinho. Era também um cara agregador. Soube viver como poucos, dosando momentos de seriedade com os de entretenimento.

Adorava gaitar e celebrar a vida ao lado dos seus. Embora “viajado” e bem-sucedido nos negócios, sempre foi um homem de costumes e hábitos simples. Estou certo de que foi muito bem sucedido também em sua missão familiar.

Criou as cinco filhas, educou, formou e casou todas. Foi amigo dos genros, conheceu e curtiu seus oito netos, sendo um avô presente e amoroso e ainda teve a oportunidade de celebrar a aprovação no vestibular da primeira neta, a Gabriela. Portanto, salvo a saudade, não deve haver espaço para tristeza!

Como quarto genro desse “cabra bom”, sinto-me feliz pela oportunidade de com ele ter convivido. No futebol, torcemos para o mesmo clube: o Vasco da Gama. Às vezes, discordávamos de assuntos, principalmente políticos, mas sempre gostei de com ele conversar, absorver a sua experiência e captar seus bons exemplos.

Alfredo sempre se mostrou disponível e confesso minha satisfação em ouvir seus conselhos e perceber o interesse em ajudar, algo pelo que ele fazia questão. Mesmo quando distribuía suas broncas, por trás estava latente a sua zelosa preocupação em colocar as coisas nos trilhos.

Contudo, por justiça, preciso registrar que tudo isso também só foi possível porque ao lado dele sempre esteve uma mulher forte, perseverante, dedicada, religiosa e cuidadosa, a senhora Augusta, minha querida sogra, e amada companheira de vida deste grande cara.

Em minhas reflexões, aprendi a encarar a morte como passagem e manifestação da única certeza da própria vida. Não que ela não traga tristeza, afinal esta é parte da vida. A felicidade é meta, busca constante nesse longo caminho, onde experimentamos momentos de alegria e de tristeza, como sensações do viver que nos impulsionam adiante ou para trás. A escolha é cada um que faz!

Certamente a saudade de Alfredo Freire do Sacramento ficará como lembrança latente e presente de tantas boas memórias e passagens que ele nos deixou. Afinal, recordar é viver. E está aí uma coisa que meu sogro sabia fazer: viver!

Vai-se o homem e ficam vivas as boas memórias daquele cumpriu bem a sua missão na terra, deixando as suas marcas por onde passou. Tenho plena certeza de que Seu Alfredo não queria ver ninguém triste com sua partida e deseja ser lembrado com alegria e a união dos que aqui ficam, sempre celebrando a vida e brindando os momentos com sorrisos e abraços!

Espero que possamos honrar a sua trajetória de vida com a alegria que ele sempre esbanjou! Descanse em paz, meu sogro!

* Aurélio Belém do Espírito Santo - É advogado e ex-diretor da OAB-SE. 

Texto e imagens reproduzidos do site: jlpolitica com br/articulista

quarta-feira, 7 de junho de 2023

'Divina Festança', por Lygia Prudente

Publicado originalmente no FACEBOOK/LYGIA PRUDENTE, em 7 de junho de 2023

Divina Festança 
Por Lygia Prudente

Finalmente, chegou o mês mais animado, mais festivo, mais bonito para qualquer nordestino que se preze. A chuvinha que cai molhando os milharais dá indícios de uma boa colheita e assim teremos muita canjica, pamonha, manauê, delícias da nossa terra, da nossa mesa caipira. Que riqueza tem as nossas lembranças e o esmero na decoração regadas à licores, à arrumação do Arraiá em família, com a fogueira, o mastro e os fogos encomendados bem antes de junho e as vestimentas fartas e coloridas. Os preparativos nos empolgava e garantia o sucesso da festança junto com os xotes, o forró pé de serra, os sanfoneiros compenetrados, dedilhando as sanfonas, num ritmo certeiro da animação. Fatos como este, carinhosa e minuciosamente relatados, não são achados em enciclopédias, nem no sábio e frio Google. Lembranças partem do coração e, por isso mesmo, precisam continuar sendo passadas de pais para filhos, de geração em geração, para alimentarmos e preservarmos os deliciosos e alegres festejos da nossa terra, esse nordeste tão rico em tradições. Se dermos o devido respeito a tudo isso, não permitiremos que um brasileiro qualquer desmoralize este povo forte, humano, festeiro, que é o nordestino! Sob o colorido das  bandeirolas balançadas pelo vento, saudemos e propalemos Vivas a  Santo Antônio, São João e São Pedro, a tríade junina!

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Lygia Prudente.

terça-feira, 16 de maio de 2023

O artista brasileiro... é tema de exposição nos EUA

Legenda da foto: Arthur Bispo do Rosario acreditava ter recebido de vozes celestiais a missão de 'representar todas as coisas existentes na Terra'. Na foto, de 1943, ele veste uma de suas obras (Crédito da foto: Jean Manzon, cortesia da AS/COA).


Legenda da foto: O 'Manto da Apresentação', destaque da mostra em Nova York, é considerado a obra-prima de Bispo e foi produzido para ser vestido pelo artista no Dia do Juízo Final (Crédito da foto: Ragael Adorjan, cortesia da AS/COA).

Legenda da foto: Bispo deixou um acervo de mais de mil objetos, entre indumentárias, estandartes, bordados, vitrines, fichários, móveis, esculturas, miniaturas e outras peças. (Crédito da foto: Arturo Sánchez, cortesia da AS/COA).

Legenda da foto: Os Estandartes, feitos de lençóis, trazem nomes de pessoas que conheceu, eventos mundiais, embaixadas de diferentes países e navios de guerra entre outros temas. (Crédito da foto: Arturo Sánchez, cortesia da AS/COA).

Legenda da foto: Na década de 1980, no fim da vida, Bispo e suas obras começaram a chamar a atenção da mídia e dos críticos de arte. A foto mostra o artista em 1982 (Crédito da foto: Hugo Denizart, cortesia da AS/COA).

Publicação compartilhada do site BBC NEWS BRASIL, de 15 de maio de 2023

O artista brasileiro que viveu 50 anos em instituições psiquiátricas e é tema de exposição nos EUA

Por Alessandra Corrêa (De Washington para a BBC News Brasil)

Era quase véspera de Natal quando o sergipano Arthur Bispo do Rosario, então com 29 anos de idade, recebeu a revelação que iria definir sua vida e obra.

Na noite de 22 de dezembro de 1938, guiado pelo que descreveu como a aparição de sete anjos e vozes celestiais, ele peregrinou durante dois dias pelas ruas do Rio de Janeiro, onde morava, até chegar ao Mosteiro de São Bento, no centro da cidade.

Após anunciar aos monges que era um enviado de Deus para "julgar os vivos e os mortos", Bispo foi encaminhado ao Hospital Nacional de Alienados, antigo manicômio localizado na Praia Vermelha. Diagnosticado com esquizofrenia paranoide, foi transferido dias depois para a Colônia Juliano Moreira, instituição psiquiátrica em Jacarepaguá onde passaria a maior parte das cinco décadas seguintes.

Segundo Bispo, as vozes que o acompanhavam diziam que ele deveria se "trancar em um quarto e começar a reconstruir o mundo" e "representar todas as coisas existentes na Terra". Durante o resto da vida, ele se dedicou incansavelmente a cumprir a missão divina que acreditava ter recebido, de catalogar e organizar "o caos do mundo" em preparo para o Dia do Juízo Final.

Ele transformou as celas em que estava confinado em oficina de trabalho e começou a recriar cenas do cotidiano e a contar a sua versão da história do universo. Utilizava qualquer material que encontrasse, como lençóis, uniformes, pedaços de madeira de caixas de feira, cabos de vassouras, chinelos, tênis Conga, talheres, canecas e todo o tipo de sucata e objetos que ganhava e trocava com outros pacientes.

Quando morreu, em 1989, aos 80 anos, havia deixado um acervo de mais de mil objetos, entre estandartes, indumentárias, bordados, vitrines, fichários, móveis, esculturas, miniaturas e outras peças diversas sem categorização. Nenhuma tinha data ou a assinatura do autor.

Pobre, negro e considerado "louco", Bispo passou a vida inteira à margem da sociedade, e não se considerava um artista e nem via seu trabalho como arte. "Essa é minha missão, representar a existência na Terra. É o sentido da minha vida", dizia.

Mas, a partir da década de 1980, nos anos finais de sua vida, o mundo artístico começou a descobrir suas obras. Após a morte, ele continuou a ganhar reconhecimento da mídia e da crítica especializada, com exposições no Brasil e no exterior e uma apresentação na Bienal de Veneza, em 1995, onde sua arte foi aclamada como vanguardista.

"Bispo do Rosario é um dos maiores artistas brasileiros", diz à BBC News Brasil o curador do Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea, Ricardo Resende. O museu funciona nas instalações da Colônia Juliano Moreira.

"Quando sua obra emergiu, não se encaixava em nada do que havia registrado na história da arte, mas parecia se inserir em tudo o que a modernidade e a contemporaneidade haviam criado. Na verdade, pode-se dizer, precede tudo", diz Resende.

"O que poderíamos chamar de ‘estética da precariedade’, ou ‘estética da pobreza’, tão comum na arte contemporânea, expressando a simplicidade da vida na instituição, nas cidades e campos, e da criança que nunca foi esquecida. É isso que Bispo involuntariamente nos apresenta como sua estética."

Agora, sua vida e obra são tema de uma exposição na galeria da Americas Society, em Nova York, no que é a primeira retrospectiva dedicada a ele nos Estados Unidos. O título da mostra, que vai até 20 de maio, é Bispo do Rosario: All Existing Materials on Earth (Todos os Materiais existentes na Terra), uma referência à missão que marcou a trajetória do artista.

Do caos à ordem

Bispo do Rosario nasceu em 1909 na cidade de Japaratuba, em Sergipe. Teve passagem pela Marinha, de onde foi desligado em 1933 por indisciplina, e uma breve carreira como pugilista profissional, encerrada após um acidente em que teve o pé esmagado. Também trabalhou como lavador de bondes na companhia Light e empregado doméstico, até ser internado.

"Todas essas experiências de vida, marcadas por diferentes graus de marginalização por conta de raça, classe e doença mental, se refletem em sua obra", diz à BBC News Brasil uma das curadoras da mostra, Tie Jojima, responsável pela exposição ao lado de Ricardo Resende, Aimé Iglesias Lukin e Javier Téllez.

Após a internação inicial, Bispo chegou a passar alguns períodos fora de instituições psiquiátricas, por ter fugido ou recebido alta. Em 1954, fugiu da Colônia Juliano Moreira, e nos anos seguintes exerceu diversas atividades, como segurança, porteiro e funcionário em uma clínica pediátrica, onde continuou a se dedicar a sua obra, trabalhando no porão do prédio.

Em 1964, voltou definitivamente à Colônia e foi instalado no Núcleo Ulisses Vianna, que era composto por 11 pavilhões cercados por um muro alto, nos quais eram alojados pacientes considerados violentos ou agitados. Os pavilhões eram divididos em enfermarias, cada uma com cerca de 40 camas, onde não havia privacidade, e também tinham uma ala sem camas, chamada de "bolo".

Segundo o Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, "nessas alas, os pacientes ficavam amontoados no chão e, ao seu redor, 10 celas-fortes – pequenos cubículos com portas de ferro – mantinham os mais agitados contidos ou isolados por punição". Eles "recebiam alimentação pela fresta da porta e utilizavam um buraco no chão como sanitário".

Bispo acabou transformando um conjunto de celas no Pavilhão 10 em ateliê. "Forte e sisudo, o ex-boxeador tornou-se um 'xerife', posição que lhe assegurou privilégios e permitiu a recusa de eletrochoques e medicações", descreve o museu. "Nunca se interessou em participar dos ateliês de arteterapia, mas estava sempre produzindo objetos num processo criativo incessante e solitário."

Tie Jojima ressalta a capacidade de Bispo de "resistir e sobreviver às forças que o reprimiam" e de encontrar formas de "subverter o sistema hospitalar que deveria controlá-lo". "Ele transformou o espaço em que vivia em um lugar onde criava seu trabalho e, eventualmente, tinha as chaves e controlava quem entrava e saía. Também trocava favores com funcionários para conseguir materiais", destaca.

Bispo trabalhava dia e noite, e só concedia acesso ao local a quem respondesse qual era a cor de sua aura. "A criação obsessiva de trabalhos têxteis e o acúmulo de objetos o levaram do caos à ordem e o ajudaram a sobreviver às duras condições de sua vida", diz à BBC News Brasil o co-curador Javier Téllez.

Há traços da Colônia por toda a sua obra, como nas linhas azuis extraídas dos uniformes e utilizadas nos bordados, nas representações de prédios e nas listas de nomes de pacientes, psiquiatras e funcionários.

"Era um lugar extremamente difícil para os pacientes, mas forneceu a Bispo tempo e materiais para desenvolver sua obra, o que ele não teria conseguido em outro lugar, considerando sua condição social", observa Téllez.

Descoberta e reconhecimento

Em 1980, Bispo e seus trabalhos apareceram em uma reportagem de TV que mostrava a Colônia Juliano Moreira e denunciava a precariedade em que viviam pacientes psiquiátricos no Brasil. Dois anos depois, ele foi tema do curta-metragem "Prisioneiro da Passagem", do fotógrafo e psicanalista Hugo Denizart.

Também em 1982, estandartes produzidos por Bispo foram incluídos na mostra coletiva "À margem da vida", no Museu de Arte Moderna do Rio, na primeira vez que sua obra foi exibida fora da Colônia. Nos anos seguintes, Bispo foi tema de outras reportagens, mas somente após a sua morte, em 1989, ele ganhou a primeira exposição individual, intitulada "Registros de minha passagem pela Terra".

Suas obras continuaram a chamar a atenção dos críticos e do público e circularam em mostras em diversas capitais brasileiras. Em 1991, foi realizada sua primeira exposição internacional, em Estocolmo, na Suécia, com curadoria de Frederico Morais, que organizou várias das mostras dedicadas ao artista.

A arte de Bispo continuou ganhando notoriedade, representando o Brasil na Bienal de Veneza em 1995, e sendo exposta em diversas cidades e países nos anos seguintes. Sua vida e obra inspiraram filmes, livros, teses, peças de teatro, espetáculos de dança e até enredo de escolas de samba, e seu acervo foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A mostra na Americas Society, primeira exposição solo nos Estados Unidos e realizada em colaboração com o Museu Bispo do Rosario, reúne suas obras mais icônicas, com destaque para o "Manto da Apresentação", considerado sua obra-prima, que ele planejava vestir no Dia do Juízo Final.

"A parte externa (do manto) traz uma seleção de palavras, formas e objetos pertencentes ao seu universo visual. Na parte interna, bordou nomes de mulheres que conheceu e escolheu para acompanhá-lo no Dia do Juízo Final", diz Jojima.

Muitos dos trabalhos em exposição são reconstrução de objetos do cotidiano, com materiais simples que ele conseguia obter na Colônia. Os bordados têm destaque, assim como os temas que remetem à sua biografia, como os navios.

Jojima cita, entre os outros pontos altos da mostra, os Estandartes, feitos de lençóis que Bispo costurava, com nomes de pessoas que conheceu, eventos mundiais, embaixadas de diferentes países, navios de guerra e suas experiências de vida no Rio de Janeiro, entre outros temas. "Funcionam como uma enciclopédia visual e incluem referências autobiográficas", diz a co-curadora.

A vida e a obra de Bispo geram debates sobre os limites entre loucura e genialidade e sobre questões de categorização. "Desde a década de 1980, quando se tornou conhecido no Brasil e depois internacionalmente, curadores e historiadores debatem se sua obra pode ser considerada 'arte'", dizem os responsáveis pela exposição.

"Quando chamou a atenção de instituições de arte e curadores, muitos acharam que não condizia com nada do que já havia sido visto na história da arte, embora ressoasse com estratégias e experimentos de artistas do pós-guerra e contemporâneos, que desafiaram fronteiras disciplinares e abraçaram objetos do cotidiano com o objetivo de fundir arte e vida", diz o catálogo da mostra em Nova York.

Javier Téllez ressalta que, apesar das semelhanças com outros artistas modernos e contemporâneos pelo uso de objetos, há "diferenças radicais em termos de intencionalidade" entre a obra de Bispo e práticas artísticas de vanguarda e neovanguarda.

"A obsessão de Bispo do Rosario por colecionar e classificar as coisas é uma necessidade interna que corresponde a uma visão mística, e não a uma estratégia estética conceitual", salienta o co-curador.

Texto e imagens reproduzidos do site: bbc com/portuguese