quarta-feira, 28 de setembro de 2022

'O Hugo Gurgel que admiro', por Lúcio Prado

Legenda da foto: Dr. Hugo Gurgel

Publicação compartilhada do site do Portal INFONET, de 12 de setembro de 2022

O Hugo Gurgel que admiro
Por Lúcio Prado (blog Infonet) 

“Cada um de nós tem o seu Canto de Cisne, – como que anunciando névoas do passado, claridades do presente e dúvidas do futuro – e sabemos, por igual, que o destino de cada qual não vem escrito nas fórmulas dos adivinhos. Terá isso sim, de ser construído em meio aos arrecifes de uma luta multifacetada, na qual o homem deve fazer de si um instrumento de fé”. ( Benjamim Alves de Carvalho)

Hugo Bezerra Gurgel foi meu professor de obstetrícia na Faculdade de Ciências Médicas da UFS, nos idos de 1976/77. Foi fácil se acostumar com a sua pontualidade britânica. Poucos minutos antes das sete da manhã, ele chegava elegantemente, parecendo sim um lorde inglês. Arrumava os clássicos slides no carretel e iniciava a aula com um sonoro “Bom-dia!”. Ainda sonolento, ressacado pelas noites insones, víamos à nossa frente o professor metódico, formal, sóbrio, que transmitia pra gente uma enorme sensação de domínio da matéria, senhor pleno da situação. Cumpria rigorosamente a grade curricular da disciplina, sempre no primeiro horário da manhã. Literalmente, um professor “de primeira hora” na nossa incipiente Faculdade de Medicina. Pioneiro e engajado, ele foi também um esteio para o sucesso da nossa primeira escola médica.

No entanto, gostaria de destacar com mais ênfase no eminente esculápio era a sua produtiva saga associativa, como fundador do Clube dos Médicos e da Sociedade Sergipana de Ginecologia e Obstetrícia, diretor do Centro de Estudos e da Maternidade Francino Melo, do Hospital Cirurgia, presidente do Conselho Regional de Medicina, chegando a assumir a presidência da Sociedade Médica de Sergipe de 1967 a 1969, em profícua administração que deixou uma marca indelével: a construção da sede própria, em terreno doado pelo Governo de Sergipe. Isso só foi possível graças ao prestígio pessoal do Dr. Hugo e de outros colegas que formavam, na década dos sessenta, um bloco altamente consistente e influente na sociedade sergipana, no que considero a “década de ouro da medicina sergipana”.

Hugo Gurgel foi um líder destacado, ao lado de outros ícones como Benjamin Carvalho, Lourival Bomfim, Aloysio Andrade, Antonio Garcia, Walter Cardoso, José Augusto Barreto, Lauro Porto, Hyder Gurgel, só pra citar estes. As sessões científicas da Somese eram realizadas na maioria das vezes no Instituto Histórico e na Biblioteca Pública. Graças ao empenho e determinação de Hugo, os médicos sergipanos ganharam a sua primeira sede própria, em fevereiro de 1968.

Pois bem, no último dia 28 de agosto, se vivo estivesse, o professor Hugo Gurgel estaria comemorando o seu centenário de nascimento. Nascido na cidade de Lavras da Mangabeira, Ceará, no remoto 1922. Para se tornar médico, um sonho tão acalentado, não foi tarefa fácil. Teve que se deslocar para Salvador em 1940 e seis anos após graduava-se na vetusta Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus. Ainda estudante, acompanhou com grande interesse o professor Almir Oliveira, catedrático de obstetrícia, que muito ajudou o futuro médico na sua formação. Entretanto, Almir não pôde deixar de atender a um pedido do seu colega Benjamim Carvalho, que precisava de um especialista para atender às pacientes obstétricas no Hospital Cirurgia, em Aracaju. Almir então indicou o nome de Hugo para vir a Sergipe. Já no início de 1947, ele iniciava as suas atividades na Maternidade Francino Melo, deixando de lado o desejo que possuía de morar em Londrina, praticar a medicina naquela cidade paranaense. Na década de 60, com os colegas Gileno Lima e Ciro Tavares, fundou a primeira clínica obstétrica privada de Sergipe – a Clínica Santa Lúcia. Anos depois foi a vez da Clínica Santa Helena, que funciona até os dias de hoje, com estrutura complexa, destacando-se como o maior prestador de assistência obstétrica privada no Estado.

Essas gratificantes recordações, singelas frente à dimensão do esculápio na vida médica de Sergipe, vem a propósito da celebração do seu Centenário de Nascimento, que a Academia Sergipana de Medicina levará a efeito em 21 de setembro, às 19 horas e trinta minutos, em sessão especial que acontecerá no auditório da Sociedade Médica de Sergipe, entidade octogenária que o idealismo de Hugo Gurgel ajudou a construir e consolidar ao longo dos anos.

Hugo Gurgel teve a sua vida construída em meio aos arrecifes de uma luta multifacetada, fazendo dela  um instrumento de fé e realizações!

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br

terça-feira, 20 de setembro de 2022

'Dançando na Cavalheiros da Noite', por Marcos Melo

Legenda da Foto: Sede da antiga S.R. Cavalheiros da Noite

Artigo compartilhado do site RADAR SERGIPE, de 18 de setembro de 2022

Dançando na Cavalheiros da Noite 
Por Marcos Melo *

Aos 14 anos, em 1959, tornei-me sócio da Sociedade Recreativa Cavalheiros da Noite. Era um adolescente vaidoso: pente Flamengo no bolso para de meia em meia hora ajeitar o pimpão a la Elvis, imitação de óculos Ray Ban no rosto pontuado de espinhas, sapatos Clark nos pés, lustrado por 111, o engraxate inventor do cotonete, trajando calças e camisas feitas em Aracaju, na Cercal de José Lima Azevedo, o popular Chico Foca.

Tinha, ainda, dois paletós esporte, um vinho e outro beje, para usar na soirée dominical do Cine Propriá. Estudava na 3ª série do Ginásio Diocesano e estava decidido a aprender a dançar a fim de completar minha educação como um rapaz de fina estampa; e, claro, dar meus volteios na Cavalheiros da Noite, o clube da classe média, que tinha Nezinho Barros na presidência.

Antes de associar-me, tomei algumas aulas com minha irmã, Maria Helena, que entendia do riscado. “Vamos lá”, dizia ela mostrando como segurar a dama. “Você tem que segurar a parceira com leveza, sem apertá-la, tanto na mão como na cintura.” “Guarde certa distância a fim de não haver pisadas nos pés.” E acrescentava com gravidade: “Nada pior do que uma pisada. Quando isto acontece o dançarino fica marcado, ninguém quer dançar com ele.” “Outra coisa: mantenha o corpo relaxado. ” Agora vamos treinar.” E punha um disco “Feito para Dançar”, do Waldir Calmon, numa electrola, isto mesmo com “c”, adquirida na Galeria Cruzeiro, do economista Aloisio Campos, ex-prefeito de Aracaju e ex-reitor da UFS.

Minha vernissage como dançarino se deu numa matinal. No palco a banda de Mário Jeguinho. De repente, mandaram brasa na rumba El Manisero, minha conhecida dos treinos com minha irmã. Para criar coragem, tomei duas doses generosas de vodka Eristow e mirei uma morena que estava próxima. Chamei-a para dançar, mas com receio de levar uma taboca, recusa no jargão da terra. Ela prontamente levantou-se e levei-a para o meio do salão, a fim não ser visto pelos amigos, portanto longe de gozações.

Delicadamente abracei-a e, contando o ritmo, dei o primeiro passo para a direita e ela não foi; pra esquerda e ela também não foi. Fiquei aflito e parei. Olhei-a e ela rindo. Falei: vamos começar de novo. Ela: desculpe, mas não sei dançar. E foi sentar-se, deixando o paspalho a ver navios no meio do salão. Voltar naquele momento para a mesa onde estavam os amigos seria gozação na certa, pois todos estavam na expectativa de minha performance. De fininho fui ao banheiro e lá fiquei um Bom tempo.

Ao retornar, perguntaram o que aconteceu. Com seriedade lhes disse que a garota não sabia dançar. Todos riram. Olhei de soslaio para a morena e vi que ela também sorria discretamente. Até hoje tenho dúvidas se foi uma peça que me pregaram ou se a garota realmente não sabia dançar. Tendo a acreditar na última hipótese, já que um velho amigo que estava presente, até hoje, quando lhe pergunto, nega qualquer sacanagem. Ele acha que eu estava pra lá de Marrakesh, queimado. A moça percebeu e foi sentar-se. Coisa que eu rechaço. Acho mesmo que ela era aprendiz, como eu.

Bêbado ou não, não me deixei abater. Com um pouco mais de vodka voltei a me animar, eufórico, querendo dançar. E a oportunidade surgiu quando uma amiga das minhas irmãs, Carminha Vasconcelos, que já ia se mandar, passou em frente de nossa mesa e, sem hesitação, chamei-a para dançar. A banda atacava de “Lamento Borincano”, outra rumba, daquelas dos treinos.

Acho que me sai bem, tanto que, há uns 15 anos, depois de 45 sem ver Carminha, que foi morar no Rio, encontrei-a numa reunião anual de propriaenses, no hotel Velho Chico, em dia de festa de Bom Jesus dos Navegantes. Ao me reconhecer, depois de tantos anos, ela não titubeou: “Marcos, continua dançando?” É claro, Carminha. Venha cá, e fomos dançar o velho fox “Nada Além”, interpretado por Orlando Silva que estava sendo tocado naquele momento.

Então, lhe disse enquanto bailávamos: Carminha, quem algum dia dançou na Sociedade Recreativa Cavalheiros da Noite, nunca mais deixará de dançar. Ela deu uma solene gargalhada e concordando com a cabeça, arrematou: “É o nosso caso”.

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Marcos Melo é professor emérito da UFS e membro da ASL

Texto e imagem reproduzidos do site: radarsergipe.com.br

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Tragédia ferroviária em Sergipe...

Legenda da foto: Suburbano, após o acidente, cercado por curiosos
 (Fonte: estacoesferroviarias)

Jornais do Rio de Janeiro apontaram grande número de vítimas e se apressaram em responsabilizar João Claro dos Santos pelo acidente (Abaixo, à esquerda, no sentido horário: Jornal A noite, de 22/03/1946; Diário de Notícias, 21/03/1946; Gazeta de Notícias, 21/03/1946; 
e Jornal Diário da Noite, 19/03/1946)

Acima: o engavetamento dos vagões do Suburbano provocou o grande número de mortos (Foto anexada ao processo); À esquerda: vítimas fatais ficaram irreconhecíveis (Foto anexada ao processo); À direita: mapa do local onde ocorreu o acidente 
(Fonte:  www.estacoesferroviarias)

Legenda da foto: João Claro dos Santos foi o único condenado na tragédia do Suburbano
 (Crédito da foto: anexada ao processo)

Legenda da foto: Luiz Paulo Bezerra reconstruiu a história do maior desastre ferroviário de Sergipe -  (Crédito da foto: Adilson Andrade - Ascom/UFS)

Publicação compartilhada do site CIÊNCIA UFS, de 24 de abril de 2018 

Tragédia ferroviária em Sergipe: dezenas de mortos e um julgamento controverso

Acidente ocorrido em 1946 é considerado um dos maiores desastres ferroviários do Brasil

Nas primeiras décadas do século XX, o trem era o principal meio de transporte de massa em Sergipe. Em um trecho da ferrovia entre as cidades de Laranjeiras e Riachuelo, dezenas de pessoas morreram em um desastre que comoveu o país - jornais chegaram a falar em centenas de vítimas fatais. O desfecho da investigação sobre o acidente, porém, deixou dúvidas sobre as causas e a condenação, que transformou em drama a vida de João Claro dos Santos.

O pesquisador Luiz Paulo Bezerra estudou o processo-crime do caso, combinado a fontes bibliográficas, para entender o que aconteceu no acidente que é considerado a maior tragédia ferroviária do Brasil. A pesquisa resultou na dissertação que Luiz apresentou ao Mestrado em História da Universidade Federal de Sergipe (UFS), orientado pelo professor Petrônio José Domingues.

No ano do ocorrido, 1946, o transporte de passageiros nas rodovias ainda era tímido. Era principalmente pelas ferrovias que se locomoviam pessoas e se transportavam mercadorias. Apelidado de Suburbano, o trem da empresa Viação Férrea Federal Leste Brasileiro percorria a principal linha de Sergipe: saía da capital, Aracaju, em direção ao norte do estado, passando por Laranjeiras e Riachuelo, concluindo o percurso em Capela.

Com capacidade para 240 passageiros sentados, o Suburbano saía sempre lotado da estação ferroviária da capital, no bairro Siqueira Campos. Segundo a empresa férrea, 246 pessoas compraram bilhetes no dia da tragédia, distribuídas na primeira e segunda classes.

No entanto, informações recuperadas por Luiz Paulo no processo judicial indicam que havia bem mais do que 246 passageiros naquela viagem. Nos depoimentos, todos os viajantes ouvidos pela polícia confirmaram a superlotação.

Um funcionário do Suburbano, João Félix, relatou que a quantidade de passageiros era “fora do comum”. “Razão pela qual os passageiros iam se apinhando por toda parte”*, diz o depoimento de João, que era o guarda-freio do trem, profissional responsável pela supervisão e acionamento dos freios de veículos ferroviários.

O viajante Benício Vieira narrou aos investigadores que foi obrigado a procurar um lugar entre o amontoado de pessoas e mercadorias. Manoel dos Santos, outro passageiro, viajava em pé em um dos vagões “num aperto medonho”, segundo seu depoimento no processo. A “enchente de pessôas era incalculável”, completa sua fala à polícia.

Jornais da época, encontrados por Luiz Paulo em sua pesquisa, apontavam que a superlotação nas ferrovias sergipanas era corriqueira. É o que mostra uma manchete do Diário de Sergipe, de 19 de agosto de 1946: “Socorro e Laranjeiras não se passaram nada de anormal a registrar-se. As classes superlotadas, os passageiros reclamando, tudo na forma do costume”.

Depois de passar por Laranjeiras, em caminho a Riachuelo, o Suburbano tem dificuldade para subir uma ladeira, segundo relatos de passageiros. O maquinista, então, para o trem, tenta nova arrancada e ultrapassa a subida, iniciando uma descida em alta velocidade, também confirmada pelos depoimentos - o soldado João Batista dos Santos, que viajava no Suburbano, “ouviu dizer” que “o maquinista dissera que iria tirar o atrazo, e assim parecia porque após a subida, o trem parecia um motociclo a toda velocidade”.

Momentos depois, ouve-se o barulho de uma das composições do Suburbano saindo dos trilhos, causando um engavetamento dos três vagões da composição. Em poucos segundos, a viagem se transforma em uma tragédia: dezenas de mortos e feridos, desespero, incredulidade.

A tragédia

Já havia anoitecido naquele 28 de março de 1946, quando ocorreu o acidente. O local da tragédia, o povoado Pedrinhas, se transformou em um cenário de dor e desolação. Pessoas mortas, mutiladas, feridas, sobreviventes desesperados.

É o caso do ajudante de caminhão Manoel Ferreira dos Santos, 19 anos de idade, que viajou em pé, na segunda classe. Ele ficou preso aos destroços até a chegada do salvamento - que não demorou, segundo testemunhas, apesar do difícil acesso e da escuridão.

Outro sobrevivente narrou seu tormento ao Sergipe-Jornal, sob anonimato. “Ouvi gritos de toda a parte, lamentos femininos e masculinos, choro de crianças, soluços profundos, e senti a primeira classe virando comigo, se fazendo em pedaços”, relatou.

Os muitos feridos foram levados a hospitais da região, de acordo com a gravidade das lesões. No entanto, Luiz Paulo não conseguiu recuperar os dados a respeito dos sobreviventes e possíveis óbitos resultantes do desastre. O fato contribui para dificultar a precisão no número de mortos.

“Fomos atrás dos próprios laudos médicos emitidos pelo hospital, mas, infelizmente, não conseguimos encontrar, o que nos preocupa. Tal material nos forneceria informações fundamentais sobre as gravidades dos ferimentos”, relata o pesquisador em seu trabalho. Ele visitou os hospitais Cirurgia e Santa Isabel, além do pequeno centro hospitalar de Riachuelo.

A quantidade de mortos e feridos era tão grande, que médicos e enfermeiros foram sobrecarregados, segundo o relato da polícia. Foram contabilizados naquele momento 30 mortos identificados e outros 13 não identificados. Quanto aos feridos, 53 foram avaliados pelos médicos, sendo 16 em estado muito grave.

A imprensa do Rio de Janeiro - então capital do Brasil - noticiava cerca de 200 mortos. Já os jornais de Sergipe, em sua maioria, atinham-se aos dados oficiais - o Sergipe-Jornal, porém, chegou a noticiar 120 mortos, com a possibilidade ainda de haver outros 60 sob os escombros.

Luiz Paulo não conseguiu recuperar informações que esclarecessem o caso. Mas acredita que os números sejam mesmo superiores aos oficiais, ainda que não alcancem os exorbitantes 200 mortos e 300 feridos noticiados pela imprensa fluminense.

“[De acordo com as fontes pesquisadas,] dá para entender que muitas pessoas que morreram no local foram levadas para outros locais para serem enterradas e não foram contabilizadas. Tudo indica que foram acima dos dados oficiais”, admite.

O desespero após o acidente foi também o início do drama de João Claro dos Santos, o maquinista da locomotiva. Naquele cenário de tumulto, sobreviventes tentaram linchar o condutor do trem, que fugiu para Laranjeiras, onde, por medo, se apresentou à polícia da cidade.

Enquanto isso, a perícia iniciava seu trabalho no povoado Pedrinhas. Três engenheiros realizaram a perícia técnica, enquanto a polícia investigava o ocorrido, colhendo depoimentos dos sobreviventes.

As investigações

As perícias e a apuração do caso caminharam junto à atuação da imprensa. Com uma postura sensacionalista, os jornais impressos cobravam pressa para que se chegasse a um responsável. Ao mesmo tempo em que exigiam das autoridades uma solução, os jornais - de Sergipe e do Rio de Janeiro - já tratavam João Claro como culpado pela tragédia.

A perícia realizada pelos engenheiros indicou que a linha férrea naquele trecho estava em perfeito estado de conservação. E concluiu que “a aplicação brusca de freios num momento em que a composição desenvolvia velocidade superior a admissível no trecho em que se deu o acidente”, segundo consta nos autos.

Por outro lado, a perícia identificou que a única pastilha de freios encontrada nos destroços do Suburbano estava desgastada. As demais pastilhas poderiam ter sido reutilizadas em outras máquinas, prática aparentemente costumeira.

Em seu depoimento, João Claro denunciou a superlotação do Suburbano, ocorrida, segundo ele, por uma invasão aos vagões. Afirma ainda que chamou a atenção do chefe de trem, Edgar Simas, sobre o excesso de passageiros.

O chefe acionou um policial que conseguiu fazer descer os passageiros excedentes. Porém, segundo o maquinista, a medida não funcionou, já que com o trem em movimento, ocorreu nova invasão. Outra vez, João Claro denunciou ao chefe de trem, mas nenhuma providência foi tomada.

O maquinista relatou ainda que a parada que antecedeu a subida de uma ladeira e posterior descida em velocidade foi motivada por um problema na última classe, que precisou de reparo - o conserto foi feito pelo funcionário do trem responsável pela tarefa, o foguista.

Após iniciar a descida, outra vez o maquinista percebe o mesmo problema, a interrupção da torneira de ar, causando o isolamento dos freios de ar comprimido. João Claro acusa a superlotação como causa para o problema, já que os passageiros que viajavam em pé podiam ter provocado a obstrução.

Em depoimento, o maquinista auxiliar João Moura Cabral confirma o relato de Claro. Ele conta que em certo momento da viagem notou que a torneira da bomba de ar achava-se aberta, fechando-o logo em seguida. Outro maquinista presente no Suburbano, Manoel Leite da Silva, também testemunha essas informações.

Por fim, em seu depoimento João Claro assegura que a impossibilidade de controlar a velocidade da locomotiva e a existência de muitas pedras nos trilhos após uma curva provocaram o descarrilamento.

Em uma nova perícia realizada pelos mesmos engenheiros, a pedido e sob o acompanhamento dos advogados de Claro, percebeu-se que a locomotiva não possuía nenhuma baliza de freios, comprometendo certamente a qualidade da frenagem - considerando a quantidade e o peso dos vagões.

O relatório policial chegou a ponderar que não foram “encontrados nos autos provas suficientes para criminar dolosa ou culposamente o maquinista”. Apesar disso, o próprio relatório determina a investigação da vida pregressa do maquinista.

Um comunista nos trilhos

João Claro tinha 37 anos na data do acidente. Casado, morava com a família no bairro Siqueira Campos, em Aracaju. Era negro, o que no ano de 1946 significava ainda mais do que hoje.

Começou a trabalhar aos 13 anos na oficina da Viação Férrea como aprendiz de ajustador mecânico, sem receber nenhum salário durante o primeiro ano. Progrediu nos quadros da empresa até receber a formação de maquinista, em 1936, dez anos antes da tragédia de Pedrinhas.

Além de fundador da União Espírita Sergipana, João Claro foi o presidente da União Beneficente dos Ferroviários, uma espécie de sindicato dos funcionários da Viação Férrea. Sua atuação política junto aos trabalhadores e outros setores sociais o levou a ser eleito vereador de Aracaju pelo Partido Comunista.

Apesar da investigação sobre a vida do maquinista, nada foi encontrado que comprometesse sua reputação.

Por outro lado, diversos fatores contribuíram para o desastre. A Viação Férrea Federal Leste Brasileiro poderia ter sido melhor investigada por causa da situação em que se encontravam seus veículos, assim como pela superlotação do Suburbano.

Segundo os relatos da imprensa, os trilhos também não apresentavam condições adequadas, fator que talvez não influenciasse no processo por conta da conclusão do laudo pericial - que garantiu estar em bom estado pelo menos o trecho onde ocorreu o acidente. Mas o poder público também devia ser investigado, entre os responsabilizados pela tragédia, pois o controle da superlotação a partir da estação ferroviária de Aracaju era tarefa dos agentes públicos.

No entanto, apesar de os indícios apontarem múltiplas responsabilidades, João Claro foi o único condenado no processo criminal. A Promotoria da cidade de Laranjeiras denunciou João Claro como causador do “horrôroso desastre”, sendo o processo encaminhado para a Comarca de Aracaju.

Embora seja conhecida a condenação de João Claro, o pesquisador Luiz Paulo não conseguiu incluir a sentença em seu trabalho, pois o documento havia sido retirado do processo-crime.

Este não foi o único desaparecimento de documento sobre o caso. O historiador denuncia que, após ter defendido sua dissertação, voltou ao Arquivo Judiciário para colher mais informações e, para sua surpresa, o próprio processo-crime havia desaparecido. “Não está mais na pasta em que eu pesquisei”, afirma.

“Algumas partes do processo você não conseguia encontrar”, completa Luiz. O historiador especula que, talvez pela repercussão que o caso teve, algumas pessoas ou setores prefiram que a conclusão do processo não seja evidenciada.

Racismo

Luiz Paulo Bezerra foca suas pesquisas na história pós-abolicionista do povo negro no Brasil - período que sucedeu a libertação dos negros escravizados, que ocorreu em 1888. Ele acredita que o racismo foi preponderante para a condenação de João Claro.

“O protagonismo negro, ser negro naquela época, levava ainda dificuldade para pessoas que tentavam ultrapassar certos limites; João Claro foi um desses”, explica Luiz, “um personagem importante para a história de Sergipe, no sentido do que um negro poderia na década de 1940”.

A pressão dos jornais e a pressa da população, por se encontrar um responsável pelo desastre, foram fatores que, combinados com o racismo, levaram o maquinista a ser o “condenado conveniente”, acredita o historiador. “Um negro, comunista, líder de centro espírita… de repente podia incomodar”, considera Luiz.

Outro obstáculo para preencher algumas lacunas na pesquisa foi a impossibilidade de conversar com familiares de João Claro.

“Não consegui ter acesso à família”, diz. “Possivelmente pela repercussão negativa, porque, imagine: um negro, na década de 1940, que conseguiu ter acesso a coisas que dificilmente conseguiria ter… e de repente tem sua vida destruída por causa de um acidente…”, reflete o pesquisador, sugerindo a possibilidade de haver um sentimento, por parte dos descendentes de Claro, de ter havido injustiça na condenação.

O cientista compara o caso de João Claro ao chamado “crime do restaurante chinês”, que aconteceu em São Paulo na década de 1930. Um casal de chineses, donos de um restaurante, e dois funcionários foram brutalmente assassinados. Um ex-garçom foi condenado pelos homicídios. O historiador Boris Fausto publicou um livro sobre o massacre, também analisando o processo-crime e a atuação da imprensa.

Para Luiz, quando as evidências são nebulosas, existe uma tendência – que pode ser reforçada pelos meios de comunicação – de condenar aqueles personagens já censurados pela própria sociedade.

Rua Vereador João Claro

Desde 1954, ou seja, quase dez anos após o acidente, a rua Sergipe, no bairro Siqueira Campos, passou a se chamar Rua Vereador João Claro. É o endereço do Centro Espírita Irmãos Fêgo, na época comandada por Claro e que continua em atividade.

Para o historiador Luiz Paulo, a homenagem é mais um indício da inocência do maquinista. “Não seria nada ético e bem visto pela população uma rua ser denominada em nome de um criminoso que causou tantas mortes”, reflete.

Para saber mais

A dissertação intitulada “Nos trilhos da morte: tragédia ferroviária, debate judicial e racismo em Sergipe nos anos 40” pode ser acessada, na íntegra, no Repositório Institucional da UFS, clicando aqui.

* As falas dos personagens da tragédia foram transcritas como constam nos autos do processo, inclusive com a grafia da época.

Marcilio Costa
Ascom/UFS
comunica@ufs.br
Atualizado em: Sex, 25 de janeiro de 2019

Texto e imagens reproduzidos do site: ciencia.ufs.br

sábado, 10 de setembro de 2022

Conjunto musical "Os Bárbaros", com Augusto Popó na bateria


Publicação compartilhada do Perfil do Facebook/Fernando Cabral, de 4 de setembro de 2022

Publico hoje, uma lembrança de minha infância, o registro fotográfico do conjunto musical "Os Bárbaros", com a formação Tacão, Luizinho, Reynold e Augusto Popó. Momentos, que não saem da minha memória, as apresentações na Tv Sergipe, em sua fase experimental, subindo o morro da piçarra no Jeep de Seu Luiz Tarcísio.

Texto e imagem reproduzidos do Perfil do Facebook/Fernando Cabral

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

REGISTRO (21/02/2022) > Sergipe se despede do fotógrafo Lineu Lins

Legenda da foto: Lineu Lins entre os vice-reitores da Unit à época, Jouberto Uchôa e Amélia Cerqueira Uchôa -  (Acervo da foto: Unit/2011)

Legenda da foto: Lineu Lins entre família durante inauguração de espaço no campus Centro da Unit. Na ponta da direita, sua filha Cristal Carvalho - (Crédito da foto: Acervo Unit/2011)

Lineu Lins






Crédito das fotos antigas: Acervo Lineu Lins

REGISTRO de publicação, em 21/02/2022

Publicação compartilhada do site do PORTAL UNIT, de 21 de fevereiro de 2022

Sergipe se despede do fotógrafo Lineu Lins

Lineu Lins foi responsável pela documentação fotográfica de importantes fatos e acontecimentos no estado. Unit tem acervo com mais de 25 mil fotos

Ontem, 20, Lineu Lins faleceu na cidade de Aracaju aos 84 anos. O conhecido fotógrafo de Sergipe era considerado por muitos um dos melhores profissionais da área da fotografia no estado. Lineu enfrentava problemas de saúde em decorrência do Alzheimer e marcou a história sergipana pela documentação fotográfica de importantes acontecimentos e fatos da vida empresarial em Sergipe.

Segundo o reitor da Universidade Tiradentes, Jouberto Uchôa de Mendonça,  Lineu foi além de um grande amigo pessoal, um parceiro da Unit e de Sergipe. “Sempre atento ao que mais de interessante havia na época, ele foi um homem à frente de seu tempo e que muito contribuiu com a nossa história e identidade cultural com seus registros históricos de uma Aracaju antiga que muita gente viveu e que a juventude precisa sempre conhecer para entender seu presente. Temos a alegria de termos sidos escolhidos para abrigar mais de 25 mil itens de seu acervo na Biblioteca Central da Unit, uma dádiva para a sociedade que hoje lamenta, profundamente, sua partida”, reflete Uchôa. 

Cristal Carvalho, filha de Lineu Lins e professora do Unit Idiomas e afirmou, com emoção, a dedicação do seu pai à profissão. “Meu pai vivia pela família e pela arte de fotografar. A fotografia não era apenas registro, era a forma como ele enxergava o mundo e como queria mostrar aos outros o que via”, relata. 

O fotógrafo do Complexo de Comunicação Social (CCS) da Unit, Luiz Dinarte, endossa. Contemporâneo de Lineu, destaca sua importância para a evolução dos profissionais da fotografia em Sergipe. “Onde ele chegava, reunia-se um grupo de pessoas da área para conversar sobre fotografia. Ele era uma pessoa que se atualizava constantemente e passava esse conhecimento para todos os fotógrafos. Ele era considerado o nosso pai na área da fotografia”, conta. 

História imortalizada

A história contada pelas imagens de Lineu é imortalizada no acervo que tem curadoria da Universidade Tiradentes, por meio da Biblioteca Jacinto Uchôa. Nela, é possível encontrar um acervo com mais de 25 mil fotos, além de diversos microfilmes. Sendo o primeiro fotógrafo de Sergipe a fazer o uso da máquina digital, Lineu se dedicou, ao longo de sua vida profissional, a capturar imagens do dia a dia de Aracaju.

Para o diretor do Sistema Integrado de Bibliotecas da Unit, prof Marcos Wandir, o acervo permite que alunos da instituição conheçam aspectos importantes da cidade, estabelecendo um elo entre o passado e o presente. “O professor Uchôa, um sergipano que garimpa sempre o que há de melhor para nossas futuras gerações, trouxe para nossa biblioteca todo o acervo de imagens de Lineu Lins, um espaço de estudos e pesquisas para que os professores, pesquisadores e alunos produzam conteúdo e conhecimento. A fotografia é uma arte, mas também é uma ciência, que se aprende e que se admira. Muitos trabalhos de conclusão de curso terão esse acervo como referência em suas pesquisas. A biblioteca sede tem um laboratório de Imagens Lineu Lins e todo acervo de imagens está sendo inserido no Pergamum para facilitar o acesso”, reitera. 

Já o professor doutor do curso de História da Unit, Rony Rei do Nascimento Silva, reforça que Lineu é um dos grandes nomes do estado de Sergipe no século XX. “Sob seu olhar humanista, ele registrou o cotidiano de pessoas simples, eventos políticos, visitas de autoridades, artistas e intelectuais. Ele também registrou a arquitetura da capital e do  nosso interior. Fica o seu legado, conservado pela biblioteca da Unit e aberto a visitação para o público. Por toda a sua majestosa história, é conferido a Lineu Lins um lugar de autoridade na nossa lembrança e na nossa memória”. 

O velório aconteceu até às 16hs desta segunda-feira, 21, no OSAF, rua Itaporanga, 436, centro da capital.  A família informou que o corpo será cremado.

Texto e imagens reproduzidos do site: portal.unit.br

Artigo: Paulo Barreto e o livro de Lena, por Marcos Melo


Crédito das fotos: Reprodução/internet

Publicação compartilhada do site RADAR SERGIPE, de 06 de agosto de 2022  

Artigo: Paulo Barreto e o livro de Lena - Por Marcos Melo

Estudante em Maceió, fui gozar as férias de junho em casa. Nesse mês, de 1962, estava sendo encenada no Cineteatro Propriá o monólogo “O Homem Que Perdeu a Fé”, de autoria do dramaturgo Paulo Barreto (1911-1990).

A peça estava fazendo enorme sucesso. Lembro-me que quando fui vê-la, a ampla sala do Cine Propriá estava lotada. Tal êxito se devia a três fatores básicos: primeiro, porque o ator – Élinton Cunha –, Etinho na intimidade, era gente da terra, partícipe do recém-formado Grupo de Teatro Amador de Propriá – GTAP, sob a direção do mestre Manoel Ferreira Rocha. Todos queríamos ver a atuação de Etinho que, frise-se, se saiu muito bem.

 Segundo porque, àquela época, o teatro amador, ou melhor, o teatro brasileiro, estava de vento em popa, no auge, por assim dizer, no Brasil e em Sergipe. Isto devido a existência de grandes companhias profissionais, como o TBC, que tinham em seus quadros atores e atrizes talentosos a exemplo de Procópio Ferreira, Sérgio Cardoso, Paulo Autran, Rodolfo Mayer, Cacilda Becker, Cleyde Yáconis, Maria Della Costa, Tônia Carrero, Ruth de Souza, Bibi Ferreira, Fernanda Montenegro e por aí vai. 

 No que se refere ao teatro amador, basta lembrar o “Teatro do Estudante”, movimento criado pelo embaixador Paschoal Carlos Magno, que percorreu o país numa verdadeira maratona de divulgação das artes cênicas e que promoveu a descoberta de novos talentos. Houve, se não me falha a memória, um importante seminário sobre teatro, na histórica Penedo, realizado no portentoso Cine São Francisco inaugurado em 1960.

 Em Sergipe, à época, importantes iniciativas amadorísticas foram realizadas, no âmbito estudantil, pelos professores Caetano Quaranta e João Costa. Caetano, estudante de medicina e que foi meu professor de Química Geral, no Ateneu, dirigiu algumas peças, com destaque para “Zefa Entre os Homens”, que tinha Valfredo Neri, meu colega de turma, num importante papel. Essa peça também foi encenada no Cine Propriá, com êxito. Da mesma forma que a premiada “Recital Sem Opus”, do dramaturgo João Costa, encenada pelos estudantes Luiz Antônio Barreto, Chico Varella, João Gama, o ator Orlando Vieira e os professores Antônio Joaquim e João Costa. Essa peça foi muito aplaudida em João Pessoa e no Rio de Janeiro.

E, em terceiro, porque “O Homem Que Perdeu a Fé” é um texto maduro, pungente, que reflete a condição humana em suas dúvidas existenciais. Tem um quê shakespeariano na medida em que avulta a hesitação do personagem diante dos mistérios vida e da morte. É uma obra inserida nos cânones filosóficos do existencialismo, vigente nos anos 1940/1950, quando foi concebida. Ela atesta que Paulo Barreto tinha uma acurada leitura das angústias que povoavam corações e mentes de sua geração e que, intelectualmente, é a geração de Camus, Malraux e Sartre a santíssima trindade que decodificou tais padecimentos d’alma no pós-guerra.

 Portanto, “O Homem Que Perdeu a Fé” é uma obra seminal da dramaturgia sergipana e brasileira e, sem dúvida, Paulo Barreto pontifica na linha de frente dos autores que modernizaram o teatro brasileiro a exemplo de Ziembinski, Pongetti e Nelson Rodrigues. Seus textos teatrais, como bem ressalta seu filho Cleandro Barreto, na contracapa do recém lançado livro “Histórias de Meu Pai & Estórias por Meu Pai...” organizado por Lena Barreto, sua irmã, foram representados por atores do porte de Procópio Ferreira, Ítalo Cúrcio, Barreto Júnior, Rodolfo Mayer e Milton Carneiro.

Mas, Paulo Barreto, como muito bem ressalta o precioso livro de Lena, era um homem de inquebrantável fé cristã, de enorme compaixão pelos desvalidos da sorte, um escritor sensível à problemática social. Era, também, um bem-humorado cronista do cotidiano. Os textos selecionados por Lena Barreto, são biscoito fino de uma prosa elegante. Paulo, foi ainda, um poeta inspirado. O belíssimo “Mesa Vazia” diz muito da passagem do tempo no âmbito familiar, das idiossincrasias, do crescimento e das escolhas dos filhos, de suas partidas. Fez-me lembrar de “As Pombas”, belo soneto do parnasiano e diplomata Raymundo Correia. Como bem ressalta sua filha Cleia Tereza Barreto de Araújo: “Sensível como todos os poetas, apaixonado pela família e amigos, extremamente humano Paulo Barreto deixou um legado de honradez, dignidade, inteligência, simplicidade e humor nos seus trabalhos cômicos, trágicos, verdadeiros, sonhadores, sempre uma reflexão permanente sobre a condição humana.”

 Por fim, não se pode falar em Paulo Barreto, ou melhor, na família Barreto, sem que se mencione o Cine Teatro Rio Branco, histórica sala de projeção e representação localizada no epicentro da Rua João Pessoa. O cinema Rio Branco, como era chamado, fundado por Juca Barreto, irmão de Paulo, foi palco de grandes eventos cinematográficos, teatrais e políticos. Sim, políticos, porque era em suas dependências que os partidos realizavam suas convenções. Local de Inesquecíveis produções cinematográficas, como os filmes dos surrealistas Buñuel e Fellini, que em sua tela foram exibidos; e palco de grandes representações teatrais de companhias em passagem por Aracaju.

Lembro que, em uma de suas paredes, estavam afixadas placas de mármore ressaltando as presenças de renomados artistas em seu palco, a exemplo do icônico tenor lírico Tito Schipa, num ano da década de 1920.

Certamente, muito do aprendizado de Paulo Barreto, nas artes cênicas, se deveu às fitas que viu na tela do Cinema Rio Branco e dos espetáculos teatrais que foram encenados em seu palco.

O Livro de Lena Barreto – Histórias de Meu Pai & Estórias por Meu Pai – traça um perfil magistral do intelectual Paulo Barreto. É, também, uma comovente homenagem a Josefa Batista Barreto, Dona Joselita, esposa amantíssima de Paulo Barreto e mãe adorada pelos nove filhos, em face da recente passagem de seu centenário. Vale a pena conferir.

Marcos Melo é professor emérito da UFS e membro da ASL

Texto e imagens reproduzidos do site: radarsergipe.com.br

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

'Tríade das cordas', por Neu Fontes

Publicação compartilhada do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 2 de agosto de 2022

Tríade das cordas
Por Neu Fontes*

Venho de um tempo onde respeitar e valorizar que faz bem-feito e responsável era natural, minha bisavó Noemi Brandão sempre dizia: – ande com os melhores e aprenda com eles. Minha mãe Susete me colocou aos 10 anos no Instituto de Música de Sergipe que ficava situada no prédio que hoje é o memorial da Justiça na praça Olímpio Campos, logo no segundo semestre nos mudamos para o atual prédio na Rua Santa Luzia e já com o nome de Conservatório de Música de Sergipe.

Foi lá que aprendi as primeiras notas e acordes do violão com o professor João Pires Argollo, Baiano radicado em Sergipe, grande professor que introduziu o ensino de violão clássico no Conservatório de Música de Sergipe e fundou a cadeira de violão na instituição. Um instrumentista de alta categoria que eu ficava admirando nas aulas. Mas, principalmente nos saraus da casa do meu avô José Domingues. Fui também algumas vezes na sua própria residência aos domingos no chorinho que ele organizava com os maiores músicos da nossa cidade, além dos convidados que chegavam. Constituiu a família mais musical do nosso estado com todos os filhos músicos, onde três se destacaram por tornar a música suas profissões Alvino Argollo, Eliane Argollo e João Pires Argollo Filho.

Nos anos 70 tive ainda como professores, os músicos Eribaldo Prata e o Henrique Souza. O primeiro filho de uma grande amiga de minha mãe Dona Caçula e que vendeu a minha mãe meu primeiro violão e um contrabaixo. Heribaldo fez o curso superior de música na Bahia no Conservatório de Música Regina se especializando em piano e acordeon. Compositor, participou de inúmeros festivais, conquistando o 3º lugar no “1º Concurso de Música Sergipana”; 1º lugar no “Festival Estanciano da Canção”; 3 medalhas de melhor arranjo e vários outros troféus. Criou sua Academia de Música Carlos Gomes de onde passaram centenas de músicos e cantores. Eribaldo Prata está na história da cultura sergipana com uma participação de suma importância na área musical, atuou como instrumentista, compositor, regente e arranjador.

Henrique Souza o “Jovem” como era conhecido, era alagoano, formado em música, foi professor do conservatório de música de Sergipe e instalou seu método Prático, Rápido e Eficiente, revolucionou o ensino do violão, e por isso rapidamente ficou conhecido nas rodas músicas, montou o grupo D’Aqui com Wilson Cordeiro, Vanderley Souza, Tourino e José Amaral. Um grande instrumentista e compositor, participou de inúmeros projetos e Festivais, um sujeito agradável, amigo e companheiro, sempre disposto a ajudar. E assim fui construindo minha base musical.

Por mais de 18 anos gravei discos e fiz muitos shows. Comigo tocaram grandes músicos, entre eles os baixistas: Jairo Bala, Gilson Batata, Robson, Flor, Manguito, Fradinho, o pianista Maurico Botto, o flautista Cal Alencar, os bateristas Marcos Passos, Ademir, Ednor, Nego, Carlinhos e Rominho, os tecladistas, Carlinhos Menezes, Waltinho, Diogo Montalvão, Alegria, Peta, Valdo França, os guitarristas Zezinho, Lito Nascimento, Vigú, Benezão, Miltinho Goulart, Marcus Vinícius, Fred Tex, e as percussões de Pedrinho Mendonça, Ton Toy, Marcos Mancada, Sanfoneiros como Erivaldinho e Cobra Verde, nos metais Gentil, Carlinhos, Haroldo e Sousa, Julinho Vasconcelos gaita entre tantos outros instrumentistas virtuosos e competentes e que contribuirão com o meu crescimento artístico e musical.

Nos anos 2000 construí o Estúdio Capitania do Som e lá conheci novos nomes da nossa música, meninos chegando com tanto talento e com uma preocupação enorme de ter além do talento nato de cada um, a formação necessária para a prática da profissão que eles estavam escolhendo. E assim conheci um menino magrinho de óculos de grau e um violão na mão, entrou no meu estúdio para gravar e fiquei impressionado com tanto talento, além de muito educado e gentil com todos. O ano passado devido a pandemia não pude comemorar meus quarenta anos de música profissional e esse ano resolvi gravar alguns trabalhos, serão três cd´s e um livro com essas minhas histórias.

Pensei em três nomes um para cada trabalho e assim convidei o menino de óculos para produzir um desses trabalhos além de fazer os arranjos das canções e claro, tocar. Não tinha certeza se ele aceitaria mais o danado aceitou. Esse menino que conheci no estúdio Capitania dos Som hoje é o Mestre Saulo Ferreira, guitarrista, compositor, professor, formado em música pela Universidade Federal de Sergipe e mestre em Educação Musical pela Universidade Federal da Bahia, um músico versátil e que tem um trabalho autoral maravilhoso resultante de múltiplas influências, sobretudo do jazz, da música brasileira e da africana, um arranjador e produtor desejado por todos os artistas.

Saulinho como é carinhosamente chamado, é um estudioso da música além dos seus discos, lançou recentemente o livro SCAT SINGING, onde auxilia os guitarristas e violonistas a utilizarem o recurso da vocalização em sua prática instrumental. Com todo esse potencial e talento, o que salta aos olhos de qualquer um que tenha a honra de trabalhar e conviver com ele, é o modo afetuoso que ele trata a todos, muito carinhoso, atencioso sempre com uma palavra boa e com significado, um ser humano ímpar, que todos devem conhecer. Gravamos 12 canções e, sem dúvida, é o trabalho mais bonito e consistente que fiz, reaprendi o significado da minha música nos meus

62 anos, e Saulinho tem uma importância profunda e especial nesse aprendizado. Os outros dois nomes da nova safra desses excelentes músicos são Alberto Silveira e  Ricardo Vieira. E, me parece que a gemada que eles tomaram quando criança é a mesma que o Saulinho tomou também, pois os dois são da mesma casta do Saulo, talentosos, estudiosos, competentes e afetuosos, pessoas boas, seres humanos do bem.

O violonista Alberto Silveira é músico versátil: compositor, arranjador e tem uma técnica impecável de fingerstyle, forma de tocar apenas com os dedos, sem utilizar a palheta. Já tinha ouvido falar do cabra, foi quando convidei o Alisson Coutto para participar comigo do Festival Sescanção e ele me trouxe o Alberto, e tudo que já tinha ouvido sobre ele era pouco. O rapaz tem uma execução primorosa. Ótimo músico, simples, gentil e generoso. No final do ano passado convidei Alberto para juntos fazermos um show só com músicas do Vander Lee, seria o começo das  comemorações dos meus 40 anos, foi a primeira vez que fiz um show sem músicas autorais. Ele topou, montou os arranjos e realizamos o show, criamos uma afinidade e amizade. Alberto é compositor, arranjador, grande professor e um homem de bem, talentoso coloca todo seu conhecimento em favor da música.

A tríade se completa com o Ricardo Vieira: violinista, compositor, produtor musical e artista multimeios é graduado em música pela UFS, Mestre na areá de criação e execução musical pela UFBA e doutorando em processos criativos pela UNIRIO. Ricardo é uma pérola rara, um músico com tanta técnica e talento que toca com a alma quando dedilha os acordes e solos no seu violão de sete cordas. Uma sonoridade que ouvi pela primeira vez no Sescanção, festival que coordenei por diversos anos. Ele participo em muitas edições e sempre com sucesso. Soube que antes ele atuava em regionais e diversos projetos como solo, duos, trios com a música brasileira de câmara. Depois avistei o Ricardo tocando com o artista nacional Xangaia, aí não tive dúvida: ele era a essência da música nordestina e brasileira, a sonoridade do seu violão é inigualável. Pensei um dia ainda vou convidá-lo para produzir alguma música minha.

Em janeiro de 2022, fui convidado a participar de um jingle da retomada do carnaval da nossa Aracaju, como sempre topei, pois se me convidar eu vou, e assim reencontrei o Ricardo Viera pois ele era o compositor, arranjador e produtor do Jingle. Gravei a minha voz e conversamos muito sobre algumas ideias, rimos muito e ficamos de conversar depois. O tempo passou e quando resolvi começar o projeto com Saulinho, comecei a perceber que precisaria de um profissional de canto para tentar me desenferrujar, afinal tinha muitos anos sem cantar profissionalmente. Procurei algumas pessoas e todas me indicaram uma cantora Capixaba que está morando por aqui, Rebeca é o nome dela e a referência maior era que ela fazia parte do Duo Vieira tanto na música como na vida, ela é a esposa do Ricardo Vieira. Não me fiz de rogado e liguei para o Ricardo, ele alegremente me atendeu e me passou o contato da Rebeca e disse feliz, claro que ela topa. Liguei para ela e muito educada me explicou que tinha tido bebê recentemente, mas pensaria uma forma de trabalharmos juntos.

Dias depois ela me ligou e marcou alguns horários e dias. Fiz aulas com a Rebeca e pude aproveitar do seu conhecimento, talento e determinação, uma cantora como poucas que conheci. Na pequena convivência com eles puder perceber como os dois se completam. Ricardo é um excelente músico, dedicado, competente e com todas as misturas rítmicas, harmônicas e melódicas da nossa música, um celeiro de ideias com suavidade e delicadeza. Quando os dois estão juntos no palco, a música se transforma em una, e o mundo silencia para que não possamos perder uma nota se quer. O Duo Vieira nos traz paz e alegria, feito luz praieira e a dança da Taieira.

Imagine essa tríade de cordas, misturadas com Mestrinho, Glauber, João Ventura, Italo Neno, Igor Côrtes, Licas Pinheiro, Fábio Cavalieiri, Lucas Campelo, Julio Andrade, Igor Brasil entre tantos e talentosos músicos da ótima boa safra da nossa música.

* É cantor, compositor, publicitário e gestor cultural

Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias.com.br

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Professor Joaquim Vieira Sobral e seu mecenato estudantil

Post compartilhado do Perfil do Facebook/Sílvia Menezes Leroy, de 1 de agosto de 2022

Um pouco da vida do Prof. Joaquim Vieira Sobral

Professor Joaquim Vieira Sobral e seu mecenato estudantil

Publicada: 31/12/2008

Texto: Manoel Cabral Machado (Ex-vice-governador de Sergipe)

Por influência do meu amigo Lauro Barreto Fontes, (falecido recentemente), em 1935 fui transferido do colégio Salesiano para o Atheneu Pedro II, nesse tempo dirigido pelo professor Zequinha.

Logo depois, no Governo Eronides de Carvalho, a direção do estabelecimento fora ocupada pelo professor Joaquim Vieira Sobral que então lecionava Desenho e Inglês. Houve com a nova direção uma mudança total. O professor Joaquim era amável e acolhedor. Tratava os alunos com cordialidade, valorando a classe estudantil. Logo no início de sua administração, dirigiu-se aos estudantes da quinta série pedindo a nossa colaboração. No Ateneu fez administração revolucionária com inovações pedagógicas ampliando os laboratórios de Ciências Físicas Naturais, criando biblioteca, apoiando o grêmio estudantil Clodomir Silva e o seu jornal A Voz Do Ateneu. E realizando o mecenato estudantil com amparo aos estudantes pobres e assim formar muitos dos jovens talentosos de Sergipe nas Faculdades da Bahia ou do Rio.

O professor Joaquim Vieira Sobral, nasceu em 03 de abril 1898, na cidade de Japaratuba, no engenho São João, pertencente à família, filho do doutor Domingos Dias de Menezes Sobral (Dr. Mingu) e sua esposa D.Ana Vieira Sobral. O Doutor Mingu era agrônomo e formara-se em Salvador na escola de agronomia de Itapajipe, sendo colega do meu tio Dr. Matheus de Souza Ferreira Machado, pai do desembargador Antonio Machado falecido há pouco tempo. Dr. Mingu casara-se com D.Ana Vieira Sobral, filha do Doutor Joaquim Manoel de Almeida Vieira, médico nascido em Capela e que esteve na Guerra do Paraguai voltando cheio de glória falecendo muito moço. Fora padrinho de minha mãe e possivelmente seu parente. Sua esposa muito jovem casa-se com o coronel Semeão Telles de Menezes Sobral. Este casara-se duas vezes do 1° Consórcio com D. Rosa Cândida Dias Sobral e tivera 17 filhos. Entre estes o desembargador Semeão de Menezes Sobral, Pedro Sobral (Promotor de Japaratuba) e outros inclusive o Dr. Mingu. Do 2° Consórcio com D.Luiza Francisca Acioly Sobral teve seis filhos, entre estes o arcebispo D. Adalberto Sobral, Dr. Otavio Acioly Sobral, usineiro da Usina Oiterinhos, José Sobral, Dr. Francisco Acioly Sobral, avô dos meus netos, Jorge do Prado Sobral Junior e Paulo Henrique Machado Sobral e ainda duas mulheres Alzira e Eulina. Ver-se que os descendentes do coronel Semeão Telles Sobral casam-se uns com os outros fazendo um enlaçamento familiar acontecendo, por exemplo, que D. Adalberto Sobral seja irmão de Dr. Mingu e irmão também de sua esposa D. Ana Vieira Sobral, mas Mingu não era irmão de sua esposa Ana Vieira Sobral, pois, que tem o mesmo pai mais não tem a mesma mãe. Voltando ao professor Joaquim Vieira Sobral diria que por algumas vezes, ele dirigiu o Ateneu Pedro II e muitos dos estudantes pobres do Ateneu formaram-se com a sua ajuda. Seja distribuindo bolsas de estudos, empregos ou mesmo ajuda financeira sua e dos seus amigos. Fora um verdadeiro mecenato. Quando em 1943, já formado, vim residir em Aracaju e passei pouco tempo depois a ensinar no Colégio Nossa Senhora de Lourdes e na Escola de Comércio Conselheiro Orlando, o professor Joaquim convidou-me para lecionar História no Ateneu e conseguiu-me um documento que permitiu o meu registro como Professor Ginasial.

Professor Joaquim Sobral, estudara as primeiras letras em Riachuelo, no Engenho Escuta pertencente aos seus pais. Crescendo conheceu e fez amizade com Dr. Silvio Leite participando das tertúlias literárias do engenho Lira do Dr. Dionísio Telles de Menezes. Já rapazinho resolveu estudar no Colégio Salesiano Santa Rosa, na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro. Em 1911, retorna a Sergipe passando a lecionar no Colégio Salesiano em Aracaju. Em 1912, retorna ao Rio de Janeiro ensina no Colégio Salesiano Santa Rosa e faz curso na Escola Politécnica. Em 1913 outra vez interrompe os estudos voltando a Sergipe para cuidar dos haveres da família administrando o Engenho Escuta em Riachuelo. Sete anos depois, casa-se com a sua prima Alzira Garcez Sobral, numa festa de grande alegria para as famílias. Depois de algum tempo, é nomeado professor de desenho do Ateneu Pedro II de Aracaju, onde passou toda a sua vida seja como professor de Desenho ou de Inglês ou mesmo de Diretor do estabelecimento, ganhando destaque e projeção graças as suas qualidades de administrador e habilidade com que tratava os seus alunos. Do seu casamento com D. Alzira teve vários filhos, Dr. Hernani Sobral, (professor de matemática da Faculdade de Engenharia da Bahia) Clovis Sobral (funcionário público, aspirando ser Agrônomo, realizou a vocação no seu filho Dr. Lafaiete), Maria Silvia (professora), Carmem (casada com Luciano Menezes alto funcionário do Banco do Brasil) e Letícia.

E quando foi criada a Sociedade dos ex-alunos do Colégio de D. Bosco em Aracaju, ele fora eleito Presidente da Sociedade - sendo eu também eleito Orador Oficial -. O professor Joaquim, logo depois, conseguiu recursos para comprar um casarão para a sede da sociedade na rua de Propriá. Extinta a sociedade, o prédio passou para a Diocese de Aracaju, onde hoje funciona a Rádio Cultura. Porque falava e escrevia inglês, o professor Joaquim criara um escritório de representação de máquinas inglesas para atender as necessidades da nossa indústria açucareira. O professor Joaquim, irmão do desembargador Carlos Vieira Sobral, Dr. Semeão Vieira Sobral, coronel do Exército José Vieira Sobral, Dr. Luiz Bosco Sobral, Eduardo Vieira Sobral pai de D. Clara Sobral Souza, esposa do conselheiro José Carlos de Souza. Quando da sua aposentadoria, após mais de trinta anos de magistério aposenta-se havendo uma despedida festiva no Ateneu, sendo saudado pelo poeta Freire Ribeiro, inclusive recitando um belo poema. Aposentado, passa a dirigir o asilo Rio Branco, cuidando com afeto os velhinhos empobrecidos.

Faleceu o professor Joaquim aos 83 anos, no dia 28 de setembro de 1980, cercado do afeto dos seus filhos e netos e ainda da admiração dos seus ex-alunos e amigos.

Quando do seu centenário de nascimento, a professora Maria Tethis Nunes liderou o movimento para a comemoração do centenário do mestre Joaquim Sobral, nos festejos, muitos ex-alunos falaram inclusive eu e a professora Tethis. Compareceu também à solenidade sua ex-aluna professora Maria de Loudes Burgos da Universidade Federal de Medicina da Bahia. Fora um homem admirável pelos seus serviços prestados a educação em Sergipe, e ainda fora um pai benévolo e dedicado aos seus alunos, especialmente os pobres. Foram muitos os estudantes pobres amparados e protegidos pelo professor Joaquim Vieira Sobral. Sendo assim, ele poderá integrar a galeria dos sergipanos excepcionais e receber as homenagens dos seus coestaduanos.

JORNAL DA CIDADE - CADERNO B - PUBLICADO EM 31/12/2008

FOTO DAS BODAS DE OURO DO CASAL, em presença de todos os filhos, netos e respectivos cônjuges.

Texto e imagem reproduzidos do Perfil do Facebook/Sílvia Menezes Leroy

quarta-feira, 13 de julho de 2022

'Rosa Faria', por Ismael Pereira

Legenda da foto: Rosa Moreira Faria 28.04.1917 - 01.05.1997

Publicado originalmente no blog Academia Literária de Vida, em  30 de abril de 2022

Saudade 

Rosa Faria 
Por Ismael Pereira*

E um poeta disse: “Fala-nos da beleza”. E ele respondeu:

Onde procurareis a beleza e como a podereis encontrar a menos que ela mesma seja vosso caminho e vosso guia? (Khalil Gibran.)

    Quando nasceu Rosa Faria, ilustre sergipana de Capela, em 28 de abril de 1917, com certeza um coro de anjos celestiais repartiam talentos e dons. Coube a Rosa, por antecipação da sua dignidade e do seu merecimento, o botão da criatividade que se faz arte como fortuna inviolável e herança divina, que a nossa Rosa sabiamente multiplicou, chancelando-a com o selo indispensável do cuidado, do compromisso com a sua vocação, e especialmente pelo amor cívico que dedicou à história do seu país e às pessoas da sua terra. Rosa cresceu como uma flor de rara beleza, suavidade e nobreza, aprendendo com a família: seu pai, o artista João Guimarães Faria, conhecido como João da Luz –, que trabalhava no Serviço de Luz e Força -, e sua mãe, Arminda Faria, pessoas simples e generosas, que lhe deram farto exemplo de convivência humana. Destaca-se a presença da sua avó, Rosa Moreira Frião, professora de ilustres sergipanos, pianista e poetisa que também contribuiu para o aperfeiçoamento intelectual e artístico dos tesouros humanos herdados por Rosa.

    Assim, Rosa Moreira Faria, cresceu e aprimorou seu cabedal artístico-cultural ao fazer o curso de artes plásticas no Departamento Nacional do Serviço de Aprendizagem Industrial, no Rio de Janeiro e o curso de desenho artístico com autorização para lecionar em qualquer parte do território brasileiro, servindo apenas como um complemento, vez que ela ao receber o sopro da vida, concomitantemente foi abençoada pela luz da sabedoria, como dádiva do Criador.

    Mulher admirável, detentora de irretocável formação religiosa, moral e cívica, a nossa Rosa se tornou única, desenvolvendo um dinamismo ímpar, inspirando-se em inesgotável fonte de criatividade. Peculiar, face aos limites da mulher no contexto da sua época, colocou a sua dignidade inteira à disposição do seu talento artístico e das suas múltiplas vocações, exercitando as suas escolhas acadêmicas ou profissionais, sempre com firmeza e suavidade. Foi professora, artista plástica, pesquisadora, historiadora, escritora, biógrafa, telegrafista, jornalista, taquigrafa e poetisa. Foi, portanto uma mulher extraordinária, que se entregou à diversidade e às exigências da sua arte e do seu trabalho, empreendendo os fazeres da vida com tanto amor, probidade e dedicação, e de tal modo se entregou as ações que desenvolveu que hoje, todos nós, capelenses, sergipanos, brasileiros, afortunadamente podemos nos orgulhar e compartilhar a soberania do seu exímio talento no portfólio da sua (da nossa) história.

    Sua obra foi calcada notadamente na inconfundível escola Naif, uma escola de origem francesa transposta para a circunstância cultural brasileira. A paixão de Rosa Faria pela arte Naif, ou primitiva para alguns críticos, se ajusta perfeitamente no que disse o fundador do Museu de Arte Naif do Rio de Janeiro – Lucien Finkeistein: “Uma paixão não se explica, vive-se.” Assim foi a paixão de Rosa Faria, como também foi a paixão dos consagrados pintores Naifs: Henri Rousseau, Louis Vivin, Andre Bauchant, Monsueto, Heitor dos Prazeres, Chico da Silva, Valdomiro de Deus, Antonio Poteiro e outros titãs vinculados ao primitivo moderno. Rosa Faria descobriu no mundo encantado e encantador do Naif, a singeleza das cores básicas e o belo universo das formas simplificadas, sem rodeios e sem os rigores das formalidades programáticas; seus traços, decisivos e firmes, percorriam religiosamente o caminho por ela traçado para chegar onde pretendia no contexto de sua obra, sublimando assim seus mais puros sentimentos estampados na planimetria das telas e na delicada superfície multifacial das peças de porcelana que tão esmeradamente pintou.

    Mulher singular e ao mesmo tempo plural, inquieta, polivalente e perfeccionista, características marcantes da artista da terra do saudoso Padre Juca, Capela, a gloriosa – “princesa dos tabuleiros.” Nos longos caminhos percorridos em vida, Rosa, com seu carisma natural, recebeu muitas rosas, mas também teve que enfrentar com determinação, altivez e coragem a agudeza dos espinhos encontrados no caminhar. Foi assim que a nossa inesquecível artista capelense pesquisou, telegrafou, taquigrafou, com mestria fez poesia, ensinou o que sabia, escreveu, fez noticia para o jornal, bordou e pintou com as tintas de sua alma pulcra os mais sagrados cantos e recantos da sua querida Aracaju, capital do pequeno notável Estado de Sergipe, ao qual Rosa Faria prestou relevantíssimos serviços.  

    Por julgar oportuno, louvo esta tão feliz iniciativa da Associação Sergipana de Imprensa, capitaneada pelo dinâmico Presidente Cleiber Vieira, pois acender todos os seus litúrgicos turíbulos para incensar a memória de tão insigne figura sergipana, é praticar o nobre gesto do necessário reconhecimento. 

Portanto, é importante ressaltar que a nossa Rosa Faria, cuidou muito bem dos tesouros que Deus lhe deu, e por sua persistente vocação, por seus sonhos quase sempre solitários e carentes de apoio à preservação e elevação da nossa cultura, e da nossa memória, essa mulher invulgar construiu com as suas próprias mãos sempre ocupadas com a arte de incomparável talento, uma obra de inestimável valor histórico, seu legado de eterna referência à nossa própria história.

    Finalizo afirmando com a mais absoluta convicção – se mais vida tivesse por amor a Sergipe muito mais “Rosa Faria.”

* Artista Plástico

Texto e imagem reproduzidos do blog: academialiterariadevida

'Amaral, esse adeus não dado', por Carlos Cauê

Publicado originalmente no Perfil do Facebook de Carlos Cauê, em 11 de julho de 2022

Amaral, esse adeus não dado.
Por Carlos Cauê

Digo num poema que a partida de Amaral Cavalcante não causou ainda a justa dor da nossa perda. Imersos na esquizofrenia do isolamento causado pela pandemia, deslocados por uma realidade inesperada, atônitos, começamos a naturalizar a morte. Milhares iam-se para sempre, todos os dias. E a gente numa janela esquisita da vida, máscara na cara, impotentes. Aí ele se foi. 

Era sete de julho e, a quatro dias dali, num 11 de julho que ele não viveu, faria anos. Não esperou. Cingido por “malinculias” que foram aos poucos lhe arrancando o costumeiro vigor e inquietude, o poeta ia das invasivas hemodiálises aos já incorporados cuidados com o diabetes e outros males, com a galhardia com que sempre trilhou seus quase setenta e quatro anos. As últimas vezes que fora lá em casa, já recusando as bebidas e os complexos manjares, pilotava uma cadeira de rodas, e ainda achava jeito de divertir-se com sua falta de senso de direção. Tirava onda da sua própria dor.

Olhos marejados, peito arfante, dor espetada pelo trajeto de décadas de convivência e cuidados, foi Samuel quem me trouxe a indesejável notícia. E foi com ele no carro, silêncio impedindo qualquer palavra, que acompanhamos o carro funéreo leva-lo. Num veículo atrás de nós, suas irmãs também cumpriam aquele trajeto de despedida. Cruzamos o Vaza-Barris pela ponte Joel Silveira, mas o que poderia ser um bafejo de homenagem era apenas o caminho fatal para o adeus.  

Numa rodovia erma de Itaporanga, ladeado apenas pelo nada, entregamos seu corpo ao crematório solitário que cumpriria as funções finais. Nem um último olhar no caixão, ninguém além da meia dúzia de gente que chegara ali, nem o choro merecido pela perda, nem a rememoração das espetaculares histórias que ele legou à cidade e às pessoas, nem suas crônicas, seus poemas, seus formidáveis maus-humores, sua genialidade sensível e visionária. Nada. 

O sorriso solidário e generoso do funcionário do local deu à cena torturante um pequeno alívio. E ele se foi. Nada mais havia a ser. Nem abraços, nem soluços, nem corpo baixando à terra. Apenas, novamente, o silêncio encravando aquele dia no para sempre até hoje.

Vou ao poema: 

(...) 

É como se não houvesses partido

Fizesses um feriado prolongado

Uns dias sabáticos

Um Hare Krisna de si

Tua partida definitiva

Ainda não mostrou a justa dor

Da nossa perda

Não há dia útil a te retornar

Ao expediente da vida

Praia de onde possas retornar

Campo

Montanha

Nunca mais virás

E a ausência da necessária dor

Põe à prova a minha humanidade 

(...)

Adeus, poeta.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Carlos Cauê

Publicação original no Facebook > https://bit.ly/3uFltUb