sábado, 25 de março de 2023

ARACAJU ERA ASSIM... 'The Top's', por Lilian Rocha

Crédito da foto: Arquivo pessoal de Pascoal Maynard

Post compartilhado do Facebook/Lilian Rocha, de 13 de novembro de 2022

ARACAJU ERA ASSIM... 

The Top's

Por Lilian Rocha

No tempo em que as bandas musicais se chamavam “Conjuntos”, havia dois bem famosos em Aracaju: “The Tops” e “Os Águias”.

Ora, festinha de 15 anos “com conjunto” tocando ao vivo, era coisa de rico mesmo. O normal era festinha na garagem de casa e a música ficava por conta dos discos de vinil, tocados numa radiola portátil, que quase toda garota daquele tempo tinha. 

Mas havia um dia na semana que a gente tinha o privilégio de ouvir “um conjunto” tocando ao vivo. Eram os domingos no Iate Clube, popularmente conhecidos como “Jantar Dançante”. 

O “Jantar Dançante” acontecia no salão principal do Iate, pois o outro salão maior ainda não havia sido construído. E como esse evento era destinado ao público adolescente, começava cedo e terminava cedo. Não tinha essa história de voltar pra casa de madrugada não. Aracaju era assim... 

O salão era enorme para os meus olhos de 13 anos. Muitas mesas espalhadas e um espaço destinado para a dança, em frente ao palco. Nas mesas, só ficavam as meninas. Os meninos ficavam em pé, em volta das mesas, talvez pra escolherem melhor a menina que eles iam “tirar para dançar”. Se por acaso uma menina recusasse a dança, 

isso se chamava “dar taboca”. Isso era quase uma ofensa para eles!

De repente, as luzes se apagavam e o salão todo era invadido pelos primeiros acordes de “Travessia”, de Milton Nascimento... 

 “Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver...” 

Era assim, invariavelmente, que o Conjunto The Top´s começava a noite... Era mágico!

 “...Solto a voz nas estradas, já não quero parar...” 

E enquanto eles soltavam a voz lá no palco, meu coração dava um pulo, quando a pessoa que eu mais queria chegava de mansinho e me tirava pra dançar...

Foi assim que “fui apresentada” a Milton Nascimento. Em 1972, num Jantar Dançante do Iate, por meio do meu Conjunto preferido, The Top´s. 

Hoje, 50 anos depois, resolvi ‘soltar minha voz’ para agradecer a eles, por terem me oferecido música da melhor qualidade e por continuarem despertando em mim tantas lembranças doces... 

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Lilian Rocha

sexta-feira, 24 de março de 2023

Os conjuntos musicais da década de 60/70...

Legenda da foto: Dia de baile em Estância pelo Miss Sergipe com os Unidos em Ritmo: Rogério (de gravatinha) e Brasinha (curvado sobre o microfone), ao lado de Barrinhos, Neu Fontes e Gladston e outros

Publicação copartilhada do site JLPOLÍTICA, de 23 de março de 2023

Os conjuntos musicais da década de 60/70 e a importância para a cultura sergipana

Por Mário Sérgio Félix*

Dia de baile em Estância pelo Miss Sergipe com os Unidos em Ritmo: Rogério (de gravatinha) e Brasinha (curvado sobre o microfone), ao lado de Barrinhos, Neu Fontes e Gladston e outros

Estância tornou-se berço da cultura sergipana não por acaso. Pioneira na imprensa sergipana, na primeira rádio do interior sergipano, o Complexo Cultural do Bairro Santa Cruz, onde abrigava um clube de futebol pentacampeão do Estado, um cine teatro que apresentou grandes nomes da música brasileira, a exemplo de Orlando Silva e um salão de festas para comemorar eventos do bairro e da cidade.

Corria ali a década de 1950. Os eventos festivos da cidade sempre se sobressaíam como movimento cultural. As bandinhas formadas para tocar nas festas, nos bailes, embelezavam o município de forma tal que Estância crescia e crescia, e se fez a cidade berço da cultura sergipana.

A década de 1960 surgia como um grande marco para a realização  de eventos maiores. Aparecia a Jovem Guarda. Roberto Carlos fazia enorme sucesso com o filme Roberto Carlos em Ritmo de Aventuras. O ano era 1967. O ano em que Estância ganha sua primeira rádio. A Rádio Esperança de Estância.

Os conjuntos musicais do munícipio tomam forma para dar mais brilhos aos eventos da cidade. Os anos 1960/1970 serão de grande importância para esse segmento, uma vez que dois conjuntos musicais são formados com bastante sucesso na cidade e em todo o Estado de Sergipe: Os Cometas e Orquestra Unidos em Ritmos.

Antes, também com bastante sucesso, porém de vida breve, aparece o conjunto Os Anjos, absorvido por aqueles dois conjuntos. Estância vive a partir dos anos 1970 um marco muito importante na cultura: além dos conjuntos musicais, a rádio e os cinemas da cidade intensificam apresentações de grupos musicais, tanto da cidade quanto os conjuntos de fora.

A Rádio Esperança tem papel preponderante nesse segmento, tendo em vista os discos de sucesso nacional e internacional que começam a tocar e fazer sucesso também na cidade. O que toca no Sul e Sudeste do Brasil, e na capital sergipana, também se torna sucesso na cidade.

A rádio se tornaria uma das principais vias de abastecimento dos conjuntos. Se era sucesso nacional, a rádio tocava. Se tocava, era porque tinha nela os LPs. Se tinha na rádio, o gravador portátil era o melhor instrumento de gravação da música que iria abastecer os conjuntos musicais.

Vale ressaltar e agradecer aos apresentadores dos programas musicais e a direção da rádio a gentileza de sempre em proporcionar esses sucessos aos conjuntos. De um lado, Os cometas tinha um repertório mais popular. E fazia um sucesso tremendo. E não se apresentava somente na cidade de Estância. O sucesso se daria também na capital Aracaju, em todo o interior do Estado, além de cidades dos Estados vizinhos Bahia e Alagoas.

Nomes como Pedro Antônio, in memorian, Jorge Boca de Cantor, Roque, Tibúrcio, Edgar, Roberto Carioca, além do seu grande mentor e saxofonista da banda Gumercindo também já falecido. Eles fizeram enorme sucesso com o grupo e contribuíram e muito para o engrandecimento da cultura estanciana.

Nesse momento, desponta para Sergipe os músicos Oswaldo Gomes - atual Cataluzes -, Rogério - aquele do País do Forró - e Antônio Ritto.

Do outro lado, Pimentel, in memorian, também comandava com bastante sucesso a Orquestra Unidos em Ritmos, que tinha uma espécie de maestro que dava o toque musical da banda, que aliava o popular ao mais requintado gosto musical: Oswaldo Gomes.

O conjunto de sopros da Orquestra era um diferencial a mais. Assim como Os Cometas, a Orquestra também tinha um roteiro de apresentações que ultrapassava os limites do Estado sergipano.

Nomes como Oswaldo Gomes, João José - in memorian - Pinguim, Batera, Luiz Carlos e outros fizeram parte e foram importantes para a história cultural da cidade e do Estado. Aqui despontaram João José e Edmundo Moraes, carinhosamente chamado de Brasinha. Hoje mora em São Paulo.

Assim como destaquei no artigo anterior, Rogério merece um capítulo especial, tanto na música brasileira quanto no forró. Até porque nessa época, tivemos um convívio muito próximo.

As apresentações dos conjuntos se dava na maioria das vezes em clubes existentes na cidade: Associação Atlética Banco do Brasil, associações atléticas, grupos escolares e escolas que pudessem comportar os bailes em questão.

Estância tinha AABB, Cruzeiro Esporte Clube e a Escola Técnica de Comércio. Esses três locais abrigaram por muito tempo as apresentações desses conjuntos. E sempre lotados!

Como registro, as cidades de menores portes que não tinham clubes recreativos, muitos deles eram abrigados em grupos escolares e também nos mercados municipais. E eram também lotados.

E quando os conjuntos eram contratados para tocar fora do município? Nem assim cidade parava. Nesse momento, os conjuntos musicais sergipanos de fora da cidade nos davam o prazer de prover música para que dançássemos ao som deles.

A Orquestra Los Guaranis sempre se destacou no Estado. Estância também sempre foi roteiro de suas apresentações. Outra orquestra que fazia Estância como roteiro era o conjunto Orquestra Cassino Royale, de Tobias Barreto, também de grande sucesso no Estado e além fronteiras.

Como não bater palmas para o “Conjunto R-Som 7”, do querido amigo Roberto Alves? Aliás, a primeira vez que ouvi a música “Artigo 26”, do cantor e compositor Ednardo, foi com o Conjunto R-Som 7. Para mim, nascia ali o colecionador de LP, o vinil, vício que cultivo até os dias de hoje. O disco desta canção do Ednardo? Berro. O ano? 1976. Maravilhoso!

O interior sergipano sempre se destacou nas festas populares. Japaratuba e a Festa das Cabacinhas, e uma que acontecia em quase todas as cidades - “Festival do Chopp”. Outra em especial era a Festa da Laranja, em Boquim.

A Festa da Laranja tinha um toque especial. O conjunto da cidade reinava. De muito sucesso, dançávamos ao som de Os Nômades, de Boquim.

Os Nômades começou na cidade de Itabaiana se movendo para Boquim, depois que o seu baterista assumiu emprego no Banco do Nordeste.

Lá, Oswaldo Gomes tocou contra baixo, tendo formado com o americano John Manoush e o cantor Diógenes, em uma de suas formações.

Em Nossa Senhora das Dores, o Festival do Chopp tinha uma identidade muito especial com o conjunto da cidade: Embalo D de Dores, que comandava a festa. Saía gente de todo o interior para participar dessa grande festa na cidade.

Voltando para os festejos e bailes da Estância, a cidade mergulhava num total frenesi quando se comemorava o aniversário do conjunto musical.

O clube era prontamente arrumado para o festejo e um outro conjunto musical era convidado para tocar ao lado do dono da festa. Grupos como Los Tropicanos, Los Guaranis, Os Vickings, Cassino Royale, Brasa 10.

O Brasa 10 vale um registro especial. Seus cronners eram diferenciados. Não que os outros também não o fossem. Porém, Edidelson Andrade e Lisboa eram um show à parte nas apresentações.

Não à toa, Edidelson alçou vôos mais altos. Tornou-se o principal nome do Trio Irakitan. Hoje, Edidelson canta para os anjos. Já Lisboa, sempre cantou para os Anjos e de quebra para os Arcanjos. Voz de rara beleza. Afinação ímpar. Quem viu, viu. No atual momento da música brasileira, e na atual conjuntura, Edidelson e Lisboa fazem uma falta enorme.

Com relação a Roberto Alves, este ainda nos encanta com a sua voz suave e afinada. Nesse espaço ainda vamos contar o que realmente aconteceu naquele fatídico dia 20 de setembro de 1976. Em detalhes. Antes e depois do acidente.

E olhe que nem falei dos casais que nesses bailes começaram uma relação de amor e que perdura até hoje. Se você é um deles, vai lá nos comentários e deixe seu ok e espera por mais na semana que vem. Ok?

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Articulista Mário Sérgio Félix - É radialista, jornalista e pesquisador da MPB. 

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

quarta-feira, 22 de março de 2023

'Saudades de um tempo que não volta mais', por Déborah Pimentel

Legenda da foto: Antigo cartão postal de Aracaju - (Crédito da foto: Reprodução - Brasil de Fato).

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 20 de março de 2023

Saudades de um tempo que não volta mais

Por Déborah Pimentel *

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Céu todo azul

Chegar no Brasil por um atalho

Aracaju,

Terra cajueiro papagaio

Araçazu,

Moqueca de cação no João do Alho

Aracaju,

voltar ao Brasil por um atalho

Ser feliz

O melhor lugar é ser feliz

O melhor é ser feliz

Mas, onde estou

Não importa tanto aonde vou

O melhor é ter amor

Aracaju,

Cajueiro arara cor de sangue

Caetano Veloso

Quando cheguei em Aracaju eu tinha 12 anos incompletos. Aracaju, cujo significado é cajueiro dos papagaios, sempre foi uma linda cidade litorânea, desde sempre tinha o seu charme e era um sonho sedutor.

Eu vinha do alto da Serra da Borborema, na Paraíba, e de repente dei de cara com o mar. “Aracaju, o melhor é ser feliz”, já dizia a canção de Caetano Veloso. Que felicidade!

Cresci aqui e é aqui que pretendo envelhecer. No meu imaginário, ainda tenho muito tempo. O sentimento é de que continuo uma menina.

Desde sempre afirmo que esta cidade é absolutamente encantadora, tem um cheirinho provinciano, com um povo hospitaleiro e alegre, e esbanja todo o charme de uma capital, inclusive pela sua ousadia urbanística, pois fundada em 1855, foi a segunda capital totalmente planejada e suas ruas centrais e primeiras possuem a forma de um grande tabuleiro de xadrez.

Quando lá atrás, crianças e adolescentes no final da tarde ainda brincavam nas ruas, jogando bola, brincando de pega, de queimado ou de roda. Ainda brincava de bonecas e conhecia todas as cantigas infantis: “Escravos de Jó, jogavam caxangá, tira, bota, deixa o Zambelê ficar. Guerreiros com guerreiros fazem zigue-zigue zá”.

Os jovens namoravam na porta, mas só quando o rapaz tinha sido ousado o suficiente para pedir autorização aos pais da mocinha. Os vizinhos ainda se sentavam nas calçadas todas as noites para trocar uma prosa, controlar as crianças para que não se afastassem de uma linha imaginária de segurança e punham o rabo de olho nos namorados que, vigiados, não podiam se exceder em afagos.

Tudo sem neuras. Sem medos. Todos se sentiam seguros em uma cidade abençoada e protegida pelo divino. Não havia nenhum sentimento de ameaça e não se falava em violência.

Eu estudava no Colégio Estadual Atheneu Sergipense, que tinha as suas vagas muito disputadas através do exame de admissão. Naquela época, as escolas públicas tinham credibilidade. Tínhamos orgulho de dizer do nosso vínculo escolar. A escola gozava de prestígio.

Aos sábados, no início da tarde, o programa era encontrar os amigos na Praça do Mine Golf. Naquela esquina havia o casarão dos Rollemberg, um antigo palacete do início do século XX de família tradicional sergipana.

Era uma imponente construção que eu tanto admirava e que hoje, tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico, é a sede da OAB de Sergipe. O seu ar aristocrata era simbólico e uma mensagem cifrada de que apesar de progressista, a cidade tinha histórias e muita tradição familiar.

E mais: que era imperioso reconhecer a lei do pai da qual não podíamos nos furtar. Os pais estavam ausentes daquele programa na Praça do Mine Golf, porém o casarão nos vigiava. Nada de badernas. Tínhamos que saber nos portar publicamente.

Outras tardes nossos pais permitiam que fôssemos ao Cine Palace, no centro da cidade. Lembro da era das pornochanchadas, cujo humor, para os padrões atuais, era absolutamente inocente.

Não lembro de na minha adolescência ter visto um fiscal ou ter sido sequer barrada na porta do cinema, cuja censura destas películas era para menores de 18 anos, porém com cenas mais inocentes do que as da novela Malhação, que hoje é exibida na telinha às 18h.

Claro que nos deslocávamos pela cidade caminhando, inclusive em direção ao cinema. As distâncias permanecem as mesmas, mas hoje só saímos para percorrermos estes mesmos trajetos se estivermos motorizados.

Aliás, não lembro de ônibus. Lembro das kombis como transporte público, e elas paravam em qualquer parte do trajeto padrão, desde que acenássemos. Os adultos acenavam. Nós, os jovens, caminhávamos.

Saindo do cinema, ficávamos na Praça Fausto Cardoso. Atrás de nós, um encantador coreto e mais atrás ainda, a linda Ponte do Imperador. Uma ponte esquisita, que liga nada ao nada, mas que pelo seu valor histórico, aquela espécie de atracadouro, construída para receber Dom Pedro II e a Família Real, sempre foi ponto obrigatório para os que visitam a cidade.

Os boys, filhinhos de papai, estacionavam os seus carros em frente ao Palácio do Governo, de fachada neoclássica e com suas belíssimas sacadas. Como não admirar aquele prédio, hoje Palácio Museu Olímpio Campos, restaurado e bem conservado e que era a residência dos governadores até o final da década de 80?

Aqueles jovens que se postavam diante da sede do governo estadual não faziam manifestações sociopolíticas, mas tratava-se de um movimento curioso, senão “revolucionário”, intitulado “quem me quer”’.

Era um verdadeiro desfile. Todos os rapazes com “calças boca de sino” encostavam-se aos carros e ficavam acompanhando, com o olhar, as meninas que saíam do cinema. As meninas fingiam não perceber os olhares, assovios e gracejos.

Nos dias politicamente corretos e chatos em que vivemos hoje, os meninos temeriam fazer qualquer manifestação, receosos que estariam de ser acusados de assédio. Já nós, na nossa maravilhosa e santa ingenuidade, adorávamos ser cortejadas daquele modo. E ficávamos encantadas. Sonhávamos com aqueles cabeludos, sofríamos com amores platônicos e rolavam as paqueras.

Acho que o verbo paquerar sequer existe atualmente e foi substituído pelo verbo ficar. Naquela época “ficar” já era namorar sério. Para acontecer o primeiro beijo, o clima era de muito romantismo e cheio de emoções elevadas ao limite máximo no corpo, que era bombardeado por pura adrenalina: o coração disparava, as mãos geladas e as pernas ficavam bambas.

Hoje o beijo se banalizou. Beijam-se muitas bocas numa mesma noite, abraçam-se, relacionam-se sexualmente e depois de muito ficar pode-se namorar, “ou não”, como diria Caetano Veloso. Aliás, o não, é muito mais frequente.

As relações atualmente são fluidas e fugazes. Os jovens são volúveis e raramente apaixonam-se. E quando acreditam estar amando, na menor e primeira frustração, pedem “um tempo”. Outra expressão que acho estranha, pois sempre quero crer que “um tempo” implica em um prazo definido, mas a expressão significa uma despedida e um adeus. Na grande maioria das vezes, sem volta. Acho que éramos adolescentes mais felizes do que os jovens da atualidade. Bons tempos!

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* É médica, pesquisadora da saúde mental e psicanalista. 

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

quarta-feira, 15 de março de 2023

Sobre: Histórias do meu Pai & Estórias por meu Pai

 Família Barreto - noite de lançamento do livro 


Legenda da foto: Dona Joselita Barreto comemorando seus 102 anos

Texto publicado originalmente no blog da ACADEMIA LITERÁRIA DE VIDA, em 25 de julho de 2022 

Sobre: HISTÓRIAS DO MEU PAI & ESTÓRIAS POR MEU PAI

Por Shirley Rocha

Li de um lance as cento e vinte e três páginas do livro de Lena Barreto, HISTÓRIAS DO MEU PAI & ESTÓRIAS POR MEU PAI, uma coletânea organizada de escritos do seu pai, o senhor Paulo Barreto Mesquita, irmão e um dos herdeiros do senhor Juca Barreto, o fundador do Cine Teatro Rio Branco.

O Cine Rio Branco foi uma casa de espetáculos que funcionou desde a década de 1920, no segundo trecho da Rua João Pessoa 182 (hoje José do Prado Franco), centro da cidade de Aracaju. Gerações assistiram inúmeros espetáculos ali. O palco era ornado por uma cortina de veludo vermelho escuro e após outra de tecido voal sedoso e branco, ao fundo a tela apropriada para o cinemaScope (técnica que aumentava consideravelmente a projeção na tela) e com uma acústica primorosa; serviu para apresentações de grandes estrelas do teatro, música, nacional e internacional. Findo a era do cinema, o prédio foi se desfigurando e hoje, no local, funcionam várias lojas de roupa.

Paulo Barreto Mesquita era um senhor admirador das artes e da literatura. Lena Barreto (Maria Magdalena Barreto) número sete na prole é conhecida por seu talento ao contar estórias. Com aquela curiosidade de criança, observando o dia a dia da família, a atitude do pai, foi com uma lupa escolhendo, buscando na memória, palavras e fatos, desde o chefe de família ao literato, com dons para escrever peças de teatro, crônicas e mensagens aos parentes e amigos nas ocasiões festivas.

O estilo de Lena é simples, direto, claro. Captou das gavetas do seu pai alguns escritos, alinhavou depoimentos dos outros irmãos e contou uma estória cativante talvez pelo temperamento do senhor Paulo e a forma como ele encarava a vida. A esposa do senhor Paulo, senhora Joselita (Josefa Batista Barreto) e as estórias da vida do casal, refletem a verdadeira riqueza de uma família unida pela educação e amor comprovados pelos mais de 50 anos de vida conjugal.

Seu Paulo Barreto faleceu aos 79 anos, em 1990. Mas Lena Barreto após uma força tarefa deixou para o mundo, principalmente aos sergipanos, um pouco do que foi aquele homem sempre bem arrumado, cabelo impecavelmente penteado e atencioso com todos que chegassem perto. Não conhecia sobre o lado intelectual dele, a delicadeza nos versos, o sentimento terno em suas crônicas, e que escreveu peças de teatro... Não sabia da irreverência dele! Ele e dona Joselita formavam um par espetacular. Valeu Lena, dei boas risadas!

Os guardados de Lena, Cândida, Cleandro, Cássio, Carlinhos, Cleia, Ricardo, Roberto e Maria Viana trouxeram à luz um sergipano que promoveu as artes do teatro, música e do cinema na sua terra. As crônicas e poesias estão no livro que também registram fotos. Vale à pena ler.

Como é tempo de São João vou transcrever uma poesia, que entre outras, consta do livro:

TIÃO

Por Paulo Barreto Mesquita

Quando ela disse a Tião

Qui entre os dois nada inxistia

Naquela noite tão fria

Da vespa de São João

Tião ficou diferente,

Num quis mais falá cum a gente

8

Não pulou mais na fugueira,

Pru mode se batisá,

Cumo tinha prometido

À muié de Zé Cumprido

 8

Não insperou pelo mio

Qui já cheirava nas brasa.

Tião só quis ir pra casa.

8

Pra que sambá

Pra que nada

Pra que fazer mais besteira

Se seu coração ferido

Tava pio qui a fugueira

Qui estalava na madeira

Cumo instalo de pipoca

Que se torra in caco novo

Pra mode vendê na fera

8

Mais qui bicho sem vergonha

É o coração de muié

Pega um home de arrespeito

Que veve do seu trabaio

Pra fazer dele o que quer

8

E adispois qui a gente pensa

Qui a peste gosta da gente

Ela na cara desmente.

Home, só mesmo sendo muié

Pruque se ela fosse home

Eu juro pru S. João,

Não cumia mais feijão.

8

Já vinha raiando o dia

Mas ao longe ainda se ouvia

O samba de Zé Cumprido

Onde a mardita sambava

Sem se alembrá que distante

Um coração de caboclo

De sodade se acabava.

Gostaria de concluir com algumas palavras escritas pelo filho Cleandro Barreto na contra capa do livro, referindo-se ao seu pai:

“Fim do 3º Ato

Fecham-se as cortinas e apagam-se as luzes da ribalta, no palco da vida, no teatro do tempo, que teve sua última função no principal papel, um Amigo das Estrelas. Poeta talentoso, escritor, jornalista, membro da ASI, teatrólogo amante e incentivador da cultura, pai bondoso, extremoso marido, atuante defensor dos menos favorecidos. Sua passagem pela vida foi de amor, sonho e bondade...”

Este ano a senhora Joselita completou 102 anos (....). Ganhou uma festa dos filhos e parentes. Seu Paulo deve estar dizendo aos anjos: Ela me passou a perna...

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Shirley Rocha

Aju/06/22

Jornalista e Presidente da Academia Literária de Vida.

Texto e imagens reproduzidos do blog: academialiterariadevida.blogspot.com

sábado, 4 de março de 2023

Sergipe perde dois grandes mestres: CHICO ANDRADE e MARIETA OLIVEIRA


Publicação compartilhada do Perfil do Facebook/César Cabral, de 4 de março de 2023

Sergipe perde em um só dia (04/02) dois grandes mestres. Os professores CHICO ANDRADE e a professora MARIETA OLIVEIRA partiram para a eternidade. Conheci Chico no início dos anos 70, nos corredores do Instituto de Tecnologia, onde ele trabalhava como Químico e eu como técnico agrícola da SUDAP, que tinha uma Divisão funcionando no mesmo prédio. Um cara simples, educado e sempre solícito. Construimos uma boa amizade. Por sua vez, a professora Marieta teve uma vida marcante na educação em Sergipe. A sua contribuição ficará eternizada por onde vc atuou, seja como professora ou gestora. Que Deus acolha as suas almas e conforte familiares, amigos e ex-alunos.

Texto e imagens reproduzidos do Facebook/César Cabral

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

'Herói de domingo', por Wagner Lemos

Legenda da imagem: Tela “Herói de domingo”, de Sara Cardoso
 (Crédito pintura: Instagram: @depois.sara)
 

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 19 de fevereiro de 2023

Herói de domingo
Por Wagner Lemos *

A Arte é uma menina que nos pega pela mão e nos leva a passear. Muitas vezes, arrasta com ímpeto a estradas de dura realidade e nos põe diante de urgências deste mundo e sacode dentro de nosso peito revoluções de que precisamos. Noutras, seu passeio é mais suave, bem mais sereno e nos desliza em trilhas em que o sonho e a luz nos desapegam de coisas cotidianas e nos permitem pisar nuvens.

Na grande maioria das vezes, contudo, a menina consegue ser serena e impetuosa nos levar a um caminho em que realidade e sonho estão estreitamente alinhavados numa costura de onde não se soltam fios.

Quando é assim, a experiência é mais intensa e, não raro, brotam águas dos olhos e há um descompasso no baú dentro do peito.

“Herói de domingo”, um óleo sobre tela de Sara Cardoso, pintora novel sergipana, me transportou ao universo em que a realidade e o sonho se abraçam.

Na cena prosaica, um menino descamisado, acompanhado de seu cachorro, caminha para casa levando um refrigerante. De chinelo de dedo nos pés, com a noite gravada na sua pele dando-lhes a tez negra, o menino segura com as duas mãos, como quem leva precioso bem, uma garrafa para casa. Uma casa que deve ser bem simples como as demais que compõem o plano de fundo da tela. Sem luxos, sem rebuscamentos, mas certamente um lar, o que faz toda a diferença. Um lugar como aquele em que cresci.

Enchi-me de saudade. Lembrei de meu tempo de menino. Recordei de quando fazia a mesma coisa: de posse de tostões contados, saía perto da hora do almoço de domingo e buscava, na mercearia mais próxima, um refrigerante, pequeno luxo e que era um refrigério em meio a uma vida de adversidades a que estão submetidas as famílias de meninos pobres e pretos.

Muitos anos já passaram desde o tempo em que eu carregava o troféu para aliviar a vida sofrida. Muita lágrima foi derramada desde então. Muitas dores e alegrias descompassaram as batidas em meu peito. Cresci. Cresci e rompi estatísticas que mostram que homens negros e pobres têm elevada taxa de mortalidade, sobretudo, por mortes violentas. Ao mesmo tempo em que isso me traz alento também me dói.

Outros que transitavam as mesmas ruas do meu bairro periférico não tiveram destino de vida como o meu. Tornaram-se um número frio na planilha que contabiliza vidas interrompidas. Ter sido exceção me entristece, pois nenhum de nós deveria ter se tornado rabiscos feitos no cimento molhado na improvisada lápide que vedava a gaveta do cemitério público da cidade. Nenhum de nós.

Hoje a saudade desse tempo me consome. É o desejo por uma época em que, como escreveu o poeta, “eu era feliz e ninguém estava morto”. Hoje eu daria tudo para me transportar para essa tela e nela viver para mais uma vez, ao menos, voltar a ser o herói de domingo.

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* É professor universitário (UNEB/UFS) e doutor em Literatura Brasileira (USP)

Texto e imagens reproduzidos do site: destaquenoticias.com.br

domingo, 19 de fevereiro de 2023

'Antigos carnavais de Aracaju', por Samuel Barros de Medeiros Albuquerque

Foto: André Moureira/Arquivo Infonet e reproduzida pelo blog para ilustrar o presente artigo.

Imagem extraída do youtube/google, canal de Carlos Henrique Valeriano 
(Garagem AJU90) e postada pelo blog para ilustrar o presente artigo.

Publicado originalmente no site da UFS, em 26 de setembro de 2011

Antigos carnavais de Aracaju
Por Samuel Barros de Medeiros Albuquerque*

Na tarde do último dia 27, o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe recebeu a visita de uma equipe da TV Sergipe envolvida na produção de uma matéria sobre dos antigos carnavais aracajuanos. Buscavam registrar imagens de documentos que remetessem aos festejos de outrora.

No rico acervo da “Casa de Sergipe”, como é carinhosamente conhecido o Instituto, a equipe se interessou por alguns objetos, fotografias e notícias de jornais, além de alguns escritos legados por renomados autores sergipanos.

Inspirado pela produção da referida matéria, tratei de revisitar um dos mais primorosos textos da memorialística sergipana, o encantador “Roteiro de Aracaju”, obra de Mário Cabral, publicada em 1948.

Dialogando com autores como Corinto Mendonça, Mário Cabral informa que, em Aracaju, o carnaval surgiu ainda no século XIX, em princípios da década de 1890. Fomentado, sobretudo, pelo tenente Henrique Silva, surgiram os primeiros grupos de foliões, ao som de clarins e zabumbas, usando máscaras e fantasias. Mário trata com riqueza de detalhes dos desfiles dos primeiros clubes: o Mercuriano, o Cordovínico e, depois, o Baco e o Arranca. Segundo ele, “os carros alegóricos formavam grandiosos préstitos, procedidos, majestosamente, pelos clarins dos arautos” (Roteiro de Aracaju. 3ª ed. Aracaju: Banese, 2002, p. 55).

Entre as décadas de 1910 e 1930, o carnaval aracajuano passou por muitas transformações. O corso de automóveis na Rua João Pessoa, o uso generalizado de fantasias, confete e lança-perfume são marcas desse período. Mário também rememorou os concorridos bailes de carnaval. Segundo o poeta, “o povo dançava nos famosos bailes do Cinema Rio Branco. A grã-finagem se divertia no Clube dos Diários. O Recreio Clube, posteriormente, passou a ser o quartel general da folia carnavalesca, sendo o seu baile da terça-feira, um verdadeiro acontecimento social e mundano” (Roteiro de Aracaju. 3ª ed. Aracaju: Banese, 2002, p. 55).

Sob o ritmo do frevo, o nosso carnaval ganhou novo fôlego na década de 1940, após a Segunda Guerra Mundial. “Durante quatro dias e quatro noites, na Rua João Pessoa, na Praça Fausto Cardoso e na Travessa Benjamim Constant, ao som de grandes e de poderosos amplificadores, o povo aracajuano realiza[va] um carnaval animadíssimo. Os estandartes, como coisas vivas, oscilam sobre o estranho mar de cabeças humanas”, informa Mário (Roteiro de Aracaju. 3ª ed. Aracaju: Banese, 2002, pp. 55-56).

Ele afirma ainda que as ruas eram “decoradas por meio de luzes, cartazes, bandeirolas, figuras e gigantes painéis carnavalescos”. Sem contar com os famosos bailes dos clubes Sergipe, Cotinguiba, Aracaju e Associação. O poeta também caracterizou os antigos carnavais aracajuanos como um “maravilhoso espetáculo de igualdade e democracia”, congregando “velhos e moços, pretos e brancos, ricos e pobres” na festa pagã.

Sem dúvida, os “flagrantes” do “Roteiro de Aracaju” contribuem para o resgate da identidade aracajuana. Ana Maria Fonseca Medina, num belo texto dedicado ao amigo Mário Cabral, escreveu: “Aracaju perdeu o ar provinciano, tudo mudou caro poeta, mas você fez o milagre de deixar para as gerações futuras, a cidade poética intacta, pintada pelo colorido da sua pena de artista da palavra flamante” (Revista do IHGSE, nº 38, 2009, p. 266)

Nesse sentido, o “Rasgadinho”, um dos mais tradicionais blocos no carnaval de rua da cidade, criado na década de 1960, ressurgiu com força em 2003, animando os foliões do Cirurgia e bairros próximos.

Mesmo vivendo em Salvador, Mário Cabral sempre esteve atento aos acontecimentos de sua amada Aracaju. Certamente, antes do seu falecimento, em abril de 2009, o poeta teve notícias do renascimento do tradicional carnaval aracajuano.

É possível que Mário tenha se deixando tomar por um súbito sentimento de satisfação ao constatar que os antigos carnavais inspiraram os foliões do século XXI, promovendo um vibrante encontro do passado com o presente, resignificando uma memória que teima em sobreviver.

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* Professor da Universidade Federal de Sergipe. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.

Texto reproduzido do site: ufs.br/conteudo

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Hilton Lopes dos Santos (1928 - 2003)


Fotos reproduzidas do site Instituto Marcelo Deda e postada pelo blog para ilustrar a presente publicação.

Artigo publicado originalmente no site MBRTV - Museu Brasileiro de Rádio e Televisão

Biografia de Hilton Lopes 

Seu nome completo Hilton Lopes dos Santos. Ele nasceu em Aracaju, capital de Sergipe, em 7 de junho de 1928 E faleceu, também em Aracaju, em 27 de junho de 2003. Foi radialista, apresentador de televisão, teve intensa participação em música, como compositor e instrumentista.

Sua vida:

Nasceu já gostando de música, tanto que sua primeira composição musical foi aos dez anos de idade. Nasceu e foi criado no bairro de Aribé, da capital sergipana. Nesse bairro viveu a vida toda. E por isso ficou conhecido pelo apelido de: “Pajé do Aribé”.

Foi ele quem organizou o 1º festival de música carnavalesca de Aracaju.

Sua entrada na vida artística, porém, foi ocasional. Estava com 17 anos, em um baile,apenas para se divertir,mas aconteceu que o profissional, contratado como baterista do show, embebedou-se e abandonou o palco. Hilton estava á mão e se dispôs a substituí-lo. Foi Walter Almeida , conhecido na cidade, quem o instigou a tomar tal atitude. E deu tudo certo. O jovem tinha jeito e assumiu daí em diante a bateria.Participou depois de vários conjuntos musicais e se profissionalizou. Foi baterista da “ Luna Rádio Orquestra de Aracaju”, regida pelo maestro Gerson Cavalcante, conhecido como “ Bodinho”. Depois Hilton foi baterista e crooner da “ Trames Blues Band”.

Atuou como cantor, nas cidades de Recife, Natal, Maceió e Salvador.

Apresentou por muitos anos o programa da TV Ataláia, de Aracaju: “ Cidade Junina”. Foi considerado o maior símbolo dos festejos juninos de Sergipe; e dos festejos do carnaval de Aracaju.

Sua morte:

Hilton Lopes teve um ataque cardíaco, em 27 de junho de 2003, exatamente durante a cobertura de uma festa junina. Todos prantearam sua morte. Ele estava com 75 anos de idade.

Texto reproduzido do site: museudatv.com.br

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Artigo > 'A bordo do Luzitânia', por Marcos Melo

Foto reproduzida do Facebook/Luzitania Lanches e postada pelo blog 'SERGIPE, sua terra e sua gente', para ilustrar o presente artigo.

Texto compartilhado do site RADAR SERGIPE, de 12 de fevereiro de 2023 

A bordo do Luzitânia 
Por Marcos Melo*

Não, não se trata do portentoso transatlântico inglês, irmão mais velho do Titanic, afundado por submarino alemão na Grande Guerra. O Lusitânia a que me refiro está mais para uma ágil caravela, daquelas que só faltavam dar marcha ré e foram decisivas para que os intrépidos navegadores portugueses conquistassem terras longínquas em mares desconhecidos.

 Pois é, na última sexta-feira, dia 3 de fevereiro, na luxuosa companhia do modernizador de Aracaju, o ex-prefeito João Augusto Gama e, do paladino do desarmamento, o coronel Luiz Fernando Almeida, estivemos metaforicamente embarcados numa daquelas aguerridas caravelas cabralinas para uma inolvidável degustação de iguarias portuguesas. 

 Sim, de fato, fizemos um memorável passeio gastronômico a bordo do Luzitânia Lanches, pilotado pelo capitão de longo curso, Abelzinho, filho do lendário navegador Abel Gonçalves, português de quatro costados, que por aqui aportou, inicialmente em Propriá, na década de 1940, a chamado do patriarca Agostinho Gonçalves, para pilotar as emblemáticas lojas “A Brasiluso” e “Os Gonçalves”, as mais sortidas do comércio, quando a Princesa do São Francisco era a cidade mais pujante do interior sergipano.

Já em Aracaju, na década de 1960, Abel montou seu próprio negócio, na Rua de Laranjeiras, ao lado da Igreja São Salvador: “A Luzitânia”. Loja de artigos para homens como sapatos, cintos, roupas e demais acessórios. Eu fui seu cliente, pois o conhecia desde quando ele morou em Propriá, onde era visto pelos pais das moças casadoiras como um bom partido, pela seriedade, porte elegante e dinheiro no bolso. Lembro que, quando fui fazer um curso de pós-graduação em Porto Alegre, em 1968, comprei na Luzitânia mala, sapatos e um casaco para enfrentar o inverno gaúcho. 

 Profundo conhecedor dos hábitos de consumo do aracajuano, na década de 1980, Abel Gonçalves decidiu mudar de ramo e fundou, no mesmo endereço, o Luzitânia Lanches, que há mais de 40 anos tem feito a alegria de paladares exigentes no que se refere à comida portuguesa.

Pois bem, aboletados no castelo de popa do Luzitânia Lanches, iniciamos os trabalhos traçando o melhor bolinho de bacalhau que se possa imaginar. Feito nas regras da arte com as matérias primas e os condimentos apropriados, esse bolinho, harmonizado com o precioso vinho tinto que nos foi servido, faz com que as papilas gustativas deem cambalhotas de felicidade. Em seguida, depois de um breve descanso das mandíbulas, atacamos de bacalhau à moda da casa, que não fica nada a dever aos Gomes de Sá da vida e quejandos.

 Curioso, perguntei a Abelzinho onde ele adquiria o bacalhau, se no comércio local ou em outra praça. Disse-me que comprava em Recife, para onde ia pessoalmente buscá-lo, depois de rigorosa inspeção do produto. Deu-nos uma aula sobre a importância de se fazer os cortes com precisão e nas medidas certas a fim de se conseguir o aproveitamento integral e manter a consistência das peças. Para tanto, utiliza-se de facas especiais, e mostrou-nos uma serrilhada e amoladíssima feita de titânio. 

 A essa altura Abelzinho apresentou-nos a um encorpado vinho verde, prata da casa, e, com esse precioso líquido nas taças, fizemos um emocionado brinde a memória do empreendedor Abel Gonçalves, seu saudoso pai e nosso estimado amigo.

 Já passava das 16 hs quando adentrou na proa do Luzitânia Lanches o professor Jouberto Uchoa, timoneiro de grandes embarcações e navegador em mares revoltos. Como nós, foi se deliciar das iguarias de bordo. Informados de sua ilustre presença, gritamos seu nome, e ele, atenciosamente, veio até nós, no castelo de popa. Sentou-se e, a pedidos, cantarolou o conhecido samba-canção “Alguém me Disse”, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, grande sucesso na voz de Anísio Silva.

Para quem não sabe, Uchoa é um cantor afinado. Pensou inclusive em se profissionalizar, mas a enorme vocação de educador falou mais alto. Para o bem de Sergipe e do Nordeste.

Enfim, às 17:30 hs desembarcamos do Luzitânia Lanches, ancorado no porto de sempre, à Rua de Laranjeiras, 102. 

* Marcos Melo é professor emérito da UFS e membro da ASL.

Texto reproduzido do site: radarsergipe.com.br

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Antônio Carlos Garcia ENTREVISTA Claudefranklin Monteiro Santos

Legenda da foto: Claudefranklin Monteiro: "Escrever para mim é um deleite, é como respirar: uma necessidade vital"

Entrevista compartilhada do site SÓ SERGIPE, de 22 de janeiro de 2023 

Entrevista» Escritor Claudefranklin Monteiro: “Se fosse viver de livros estaria passando necessidade”

Por Antônio Carlos Garcia 

Livre pensador que tem dificuldade em se encaixar em estilos, e acredita que contar uma história é mais interessante do que se prender a teorias. Esse é o escritor Claudefranklin Monteiro Santos, 48 anos, pós-doutor em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia e atualmente professor do Mestrado em História da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Autor de 10 livros – o mais recente deles “Pela Luz dos Olhos Teus”, uma biografia do médico Hugo Gurgel, Claudefranklin lamenta que “não há estímulos privados nem governamentais, pelo menos como se deve”. E complementa: “boa parte de meus livros autorais foram bancados com meus próprios recursos. Graças a Deus, nunca tive prejuízo, conseguindo retornar o que investi”.

Ele diz que “se fosse viver de livros estaria passando necessidade”. Segundo o escritor, “as pessoas dão valor, nos admiram e nos aplaudem, mas ficam, em geral, esperando ganhar o livro. Não têm aquele hábito de ir aos lançamentos – coisa que não tenho feito mais, pelo menos os autorais -, e tampouco à livraria, com raríssimas exceções, claro”.

Nesta vida de escritor, Claudefranklin sofreu alguns reveses, mas a paixão pela literatura sempre foi mais forte. “Por muito pouco, me aposentei por ali, como escritor. Senti de perto, pela primeira vez, a pequenez e a maldade humana. Mas superei e segui fazendo o que eu gosto até hoje: lecionar e escrever”, confessou. “Tenho consciência de que não agrado a alguns, mas dou mais atenção ao meu bem-estar, à minha saúde mental e espiritual e foco naqueles que nos amam, nos admiram e nos estimulam”, destacou.

Agora, Claudefranklin está escrevendo a biografia do professor Josué da Silva Mello, lagartense como ele, ex-reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na Bahia, que o convidou para essa empreitada. Em setembro do ano passado, quando iniciou as pesquisas para contar a história de Josué, Claudefranklin foi à casa do biografado várias vezes para entrevistas. O livro, que ainda não tem nome, está em vias de conclusão e a pretensão é lançá-lo em março, em Feira de Santana.

No próximo dia 15 de abril, o escritor lagartense deve lançar o primeiro volume do livro “Servido de todos Padre Mario Rino Sivieri (1942-1979”) de 2022, contando a história de Dom Mario Rino Sivieri, que escreveu em coautoria com Anselmo Vital e Sérgio Botelho. Ele acredita que esse livro poderá ser traduzido para outro idioma. Dom Mario nasceu em Castelmassa, na Itália, em 15 de abril de 1942, foi o terceiro bispo da Diocese de Propriá e morreu aos 78 anos de idade, no dia 3 de junho de 2020, em Aracaju.

Apaixonado pelo Carnaval baiano, Claudefranklin escreveu “A vida é um trio elétrico”,  que conta a trajetória de Armandinho, Dodô e Osmar. Este e os outros dois que completarão a trilogia são um desdobramento do seu pós-doutorado em Cultura e Sociedade, pela Universidade Federal da Bahia, entre 2016 e 2017. “Além de ‘A vida é um trio elétrico’, à mercê de Deus, até 2025, quero publicar um segundo volume sobre a trajetória da Banda Trio Elétrico Armandinho Dodô e Osmar e um terceiro sobre o carnaval elétrico em Sergipe”, disse.

Com um livre trânsito entre o sagrado e profano, o professor diz que seu livro “A santinha do Novo Horizonte” é a menina dos seus olhos e foi  pagamento de promessa. “Eu e minha esposa somos devotos da santa francesa de Lisieux. Pela nossa fé, nossa filha, Júlia Gabrielle é fruto de uma intercessão dela, pois tenho varicocele, que dificulta em muito a questão da fertilidade. De todos os meus trabalhos, incluindo os acadêmicos, foi o que mais me realizou enquanto escritor e pessoa”.

Sexto filho – de um total de sete – do comerciante e vereador José Almeida Monteiro e dona Maria Claudemira dos Santos Monteiro, ambos falecidos, Claudefranklin, começou o curso de História na Universidade Federal de Sergipe (UFS), aos 17 anos, e aí não parou mais de estudar. Seu nome, pouco comum, foi dado pelo irmão mais velho, José Cláudio Monteiro Santos, com a licença do  patriarca. E aí os irmãos são Claudemir, Claudineide, Claudiane, Claudicleide, Claudefranklin e Claudimax.

O nome Claudefranklin foi inspirado no escritor Franklin Távora, cearense de Baturité, um dos representantes da prosa regionalista do romantismo brasileiro, cujas obras valorizam os costumes do Norte do Brasil. Um dos seus grandes romances é O Cabeleira.

Conheça um pouco mais sobre a vida e a obra do escritor lagartense Claudefranklin Monteiro.

Boa leitura.

SÓ SERGIPE – O senhor lançou, recentemente, junto com a também escritora Ana Medina, o livro “Pela luz dos olhos teus”, contando a história do médico Hugo Gurgel. O título dessa biografia remete à canção de Tom Jobim e Miúcha. Como se deu a escolha desse título?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – A partir do levantamento de fontes, sobretudo as entrevistas que fizemos. A partir de um determinado momento da escrita, vimos que estávamos diante de um amor sincero e uma relação muito forte entre o biografado e a sua amada. Foi algo intuitivo. Veio à minha mente o trecho dessa canção quando vi a foto que ilustra a capa. Apresentei a proposta de título à Ana Medina e por conseguinte à  Eline Gurgel, filha do casal, que concordaram prontamente, com entusiasmo e alegria.

SÓ SERGIPE – O senhor e Ana Medina passaram dois anos trabalhando no livro, que foi iniciativa da filha do homenageado Eline Gurgel. O que mais lhe surpreendeu  ao pesquisar a vida desse médico?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – A humanidade dele. Era um médico humanista na melhor acepção da palavra, e isso se refletiu na criação dos filhos e também dos netos. Hoje, é Dra. Andréa quem cuida dos negócios da Santa Helena, filha de Dra. Eline. Há muito nela dos avós: o tino administrativo de dona Lucinha e a dedicação ao trabalho de Dr. Hugo Gurgel. Uma receita de sucesso que está prestes a completar 50 anos de existência.

SÓ SERGIPE – O senhor já vem trabalhando para lançar brevemente, a biografia de um conterrâneo seu, o professor Josué da Silva Mello, ex-reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).  O livro já está concluído? Já tem um título?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Sim. Conheci o professor Josué há alguns anos. Esteve em minha casa em Lagarto e me pediu para escrever uma síntese de sua vida para a Revista Perfil. Foi aí que descobri que ele era meu conterrâneo. Nasceu ali uma relação de admiração mútua, de respeito e hoje de amizade fraterna. Anos depois, voltamos a nos encontrar em minha posse como sócio do Instituto Histórico da Bahia. Na oportunidade, muito brevemente, por conta da solenidade, externou seu desejo de ter a sua vida e trajetória profissional registrada em livro. Ficamos de nos falar dali em diante.

SÓ SERGIPE – E como foi esse reencontro?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Passado aquele nosso reencontro em Salvador, mais um período nos distanciou naturalmente. Vieram outros projetos e a pandemia. Ano passado, ele me mandou uma mensagem e voltou a tocar no assunto. Fui à casa dele com minha esposa e meu filho, e ali firmamos o compromisso. Em setembro, voltei mais uma vez por lá, e iniciei efetivamente o projeto. Está em vias de conclusão e pretendemos lançar em março, inicialmente em Feira de Santana.

SÓ SERGIPE – Além dessas duas biografias citadas, é da sua autoria “A vida é um trio elétrico”, uma trilogia sobre Armandinho, Dodô e Osmar. Acredito que foi um trabalho demorado e de muita pesquisa. 

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – “A Vida é um Trio Elétrico” foi um livro simples que pretendia abrir uma trilogia sobre o Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar. Projeto suspenso temporariamente, em razão, sobretudo, da pandemia de Covid-19. Tinha acabado de lançar “A santinha do Novo Horizonte”, histórico de uma paróquia de Lagarto-SE.

As mortes de Paulo Milha, produtor do grupo, e de Moraes Moreira, “quebraram minhas pernas”, como se diz no popular. Fiquei desanimado, como muitos de nós, e adoeci física e psicologicamente. Fui me dedicar a pôr essas coisas em ordem e aguardar os desdobramentos. Foi quando surgiram outros projetos, um pessoal, de memória, “Eutímia – Crônicas para não esquecer”, e o primeiro trabalho coautoral com Ana Medina, onde fizemos memória dos 150 anos da Paróquia de Senhora Santana, Boquim-SE. Sem falar nos outros que já mencionei.

SÓ SERGIPE – Quais são os outros dois livros que completarão essa trilogia?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Esses livros sobre o Trio Elétrico Armandinho Dodô e Osmar são um desdobramento de meu Pós-doutorado em Cultura e Sociedade, pela Universidade Federal da Bahia, desde minhas passagens por lá entre 2016 e 2017. Devo retomar as publicações agora em 2023, quando Osmar faria 100 anos de nascimento. Talvez, se eu der conta, publique uma homenagem a ele, em livro. Além de “A vida  é um trio elétrico”, com a mercê de Deus, até 2025, quero publicar um segundo volume sobre a trajetória da Banda Trio Elétrico Armandinho Dodô e Osmar e um terceiro sobre o carnaval elétrico em Sergipe.

SÓ SERGIPE – O seu trabalho circula bem entre o sagrado e o profano. No terreno sacrossanto, há um livro seu sobre Santa Teresinha, lançado em 30 de setembro de 2020. O que o motivou fazer essa pesquisa?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Sim. Transito bem nesses dois campos de pesquisa. Amo o Carnaval. Sou católico, mas me considero livre para escrever uma História da Igreja, da Religião e das Religiosidades sem amarras ideológicas. Não é à toa que o livro de Josué Mello é sobre um presbiteriano. “A santinha do Novo Horizonte” foi uma paga de promessa. Eu e minha esposa somos devotos da santa francesa de Lisieux. Pela nossa fé, nossa filha Júlia Gabrielle é fruto de uma intercessão dela, pois tenho varicocele que dificulta em muito a questão da fertilidade. De todos os meus trabalhos, incluindo os acadêmicos, foi o que mais me realizou enquanto escritor e pessoa.

SÓ SERGIPE – Como nasceu o Claudefranklin escritor? O senhor conta numa entrevista que seu lado escritor surgiu a partir da amizade com o poeta Assuero Cardoso, que o estimulou a escrever para um jornal. Mas será que antes disso já não havia um escritor em ebulição?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Como tudo na minha vida, aconteceu de forma muito natural. Desde menino, gosto de ler. Meu irmão mais velho, professor José Cláudio Monteiro Santos (falecido) sempre me estimulou. Mais tarde, foi meu professor de Redação no ensino médio, ele me dizia que um bom escritor é um grande leitor. Nunca tive maiores ambições na minha vida além de viver da minha profissão: professor. Dar minha aula, cumprir minhas obrigações com dedicação e qualidade, e me recolher em casa. Mas, a partir de 1996, tudo mudou, e em grande medida, não somente Assuero mas também o saudoso jornalista Emerson Carvalho e Raimundinho me estimularam a escrever para o jornal Folha de Lagarto. Daí em diante, não parei mais e as outras coisas foram, também, surgindo e acontecendo naturalmente. De tal sorte que escrever para mim é um deleite, é como respirar: uma necessidade vital. Se o que escrevo é bom ou não, eu sigo escrevendo. Não por vaidade, mas por satisfação.

SÓ SERGIPE – Quando foi lançado o seu primeiro livro e o que ele conta?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Nunca me considerei poeta. E, por incrível que pareça, tenho dois livros de poesia publicados, inclusive o primeiro, “Centrifugação” (1999). Esse livro foi estimulado por Assuero. Numa de nossas “farras”, depois de algumas cervejas, peguei um guardanapo e escrevi o poema que deu o título ao livro. Ele viu, leu e gostou. Cheguei a inscrever o poema numa das edições do Concurso de Poesia Falada de Lagarto, ficando em sexto lugar. Dali em diante, fui escrevendo outros poemas e colecionando numa gaveta. Quando juntei uma boa quantidade, levei para ele e perguntei: e aí, merece uma publicação? No que me disse: claro que sim.

SÓ SERGIPE – Desta primeira publicação até agora, quantos livros já escreveu?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Autorais, já se vão dez. Em coautoria, capítulos de livros, livros organizados, prefácios e apresentações, mais de cinquenta. Digo isso sem orgulho, mas com alegria. Tenho convicção de que Deus foi e tem sido muito generoso comigo, de modo particular como escritor: me proporcionando mais do que pedi e me permitindo mais do que mereço.

SÓ SERGIPE – Dentre eles, há algum que o senhor gosta mais?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Sem sombra de dúvidas, como já disse “A santinha do Novo Horizonte” (2020).

SÓ SERGIPE – Seus livros já foram traduzidos para outros idiomas?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Ainda não, mas há uma grande chance de sê-los. Refiro-me ao primeiro volume da biografia de Dom Mario Rino Sivieri, que divido com Anselmo Vital e Sérgio Botelho – “Servido de todos Padre Mario Rino Sivieri (1942-1979”), de 2022, a ser lançado oficialmente no dia 15 de abril de 2023.

SÓ SERGIPE – Como historiador e escritor, como o seu avalia o mercado de livros em Sergipe?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Se eu fosse viver de livros estaria passando necessidade. As pessoas dão valor, nos admiram e nos aplaudem, mas ficam, em geral, esperando ganhar o livro. Não têm aquele hábito de ir aos lançamentos – coisa que não tenho feito mais, pelo menos os autorais -, e tampouco à livraria, com raríssimas exceções, claro. A distribuição é dispendiosa e não há estímulos privados nem governamentais, pelo menos como se deve. Boa parte de meus livros autorais foram bancados com meus próprios recursos. Graças a Deus, nunca tive prejuízo, conseguindo retornar o que investi.

SÓ SERGIPE – Os sergipanos prestigiam as obras dos escritores do Estado?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Seria injusto se dissesse que não. Até que prestigiam. “Pela luz dos olhos teus” foi um exemplo disso. A repercussão foi incrível. Mas rola muita vaidade, inveja e malquerer, sentimentos com os quais aprendi a conviver depois que lancei meu segundo livro, “Nove contos” (2023). Por muito pouco, me aposentei por ali, como escritor. Senti de perto, pela primeira vez, a pequenez e a maldade humana. Mas, superei e segui fazendo o que gosto até hoje: lecionar e escrever. Tenho consciência que não agrado a alguns, mas dou mais atenção ao meu bem-estar, à minha saúde mental e espiritual e foco naqueles que nos amam, nos admiram e nos estimulam. Quanto aos que não perdem uma oportunidade de destilar seu veneno e tentar impor os efeitos de seus recalques, minha oração e gratidão. A gratidão em razão de buscas, aprender e melhorar com as críticas, mesmo as maldosas.

SÓ SERGIPE – Dizem que um bom escritor é, sem dúvida, um bom leitor. Quantos livros você lê por ano?

CLAUDERFRANKLIN MONTEIRO – Não sei precisar em números. Mas, são muitos. Geralmente, mais acadêmicos. Queria mesmo ter tempo de sobra para ler títulos da literatura brasileira e internacional.

SÓ SERGIPE – Com qual estilo literário você mais se identifica?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Sou um livre pensador e por isso mesmo tenho dificuldade de me encaixar em estilos. Gosto muito de narrativas. Para mim, contar uma história é mais interessante do que se prender a teorias, que devem ser meios e não o fim ou uma camisa de força que, em geral, tolhe a criatividade.

SÓ SERGIPE – Quais suas referências entre os escritores brasileiros e estrangeiros?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Sou muito fã de Vinícius de Morais. Desde menino, sou influenciado por seu estilo. Entre os estrangeiros, Moris West, J.J. Benítez e Ohan Pamuk.

SÓ SERGIPE – E na literatura sergipana?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO – Luiz Antônio Barreto.

SÓ SERGIPE – Professor, a vida é um trio elétrico?

CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO -Com certeza! Não é à toa que não quero ninguém triste em meu velório. Quero orações e alegria. E é assim que encaro a vida, como uma grande jornada, onde temos que aprender com os reveses e nunca, jamais, perder o viço de viver. A vida, como o Carnaval, é curta. E enquanto não for cinzas: “Alegria agora / Agora e amanhã / Alegria agora e depois / E depois e depois de amanhã” (Daniela Mercury).

Texto e imagem reproduzidos do site sosergipe.com.br

domingo, 5 de fevereiro de 2023

"Pedro e Pedrito Barreto...", por Igor Salmeron

Post compartilhado do Facebook/Igor Salmeron, de 27 de setembro de 2021

Pedro e Pedrito Barreto: 
Figuras essenciais no cenário político-social sergipano¹  
Por Igor Salmeron 

Ao estudar sociologicamente a formidável História de Sergipe, percebemos que dois briosos personagens se realçam com altivez no fascinante quesito progresso político-social: Pedro e Pedrito Barreto. Deixam legado de seriedade e, sobretudo, honestidade em tudo que se propuseram a fazer. 

Ao realizar diversos levantamentos junto ao excelente Arquivo do tradicional Jornal da Cidade, pude notar que duas sublimes figuras se demonstram fundamentais para compreendermos o próprio aperfeiçoamento político-social sergipano nas últimas décadas. De um lado, temos o saudoso Pedro Barreto de Andrade, cidadão realizador que se destacou pela sua exímia atuação nos diversos cargos e funções públicas por onde passou. De outro, seu célebre filho Pedrito Barreto, icônico comunicador, jornalista, advogado, colunista social dos mais atuantes em Aracaju que fez história e ainda se faz presente no universo societário de todos os sergipanos. 

Segundo dados histórico-biográficos auferidos, Pedro Barreto de Andrade nasceu em Simão Dias, num dia 23 de março do ano 1918. Filho de Pedro Barreto de Andrade e de D. Esther Dantas de Andrade. Deles, Pedro Barreto herdou espírito de retidão e integridade de caráter. Na seara escolar, prestou curso primário no Colégio Santa Inês, em Capela, coordenado pela exemplar professora Adelina da Silva Vieira, concluindo-o em 1928. O curso ginasial foi iniciado no Colégio Salesiano, em Aracaju, transferindo-se, depois, para o Liceu Salesiano, em Salvador, concluindo o 2º e 3º anos, retornando a Aracaju, para finalizá-lo no Colégio Tobias Barreto. 

Suspendeu os estudos no ano de 1937, árduo período em que passou a trabalhar no comércio, em Aracaju. Depois, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou com atividades comerciarias, sendo representante de remédios. Procedeu, em seguida, no Instituto de Organoterapia Brasileira S/A, sindicalizando-se como propagandista. Ingressou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, graduando-se em Ciências Jurídicas e Sociais mais especificamente num dia 12 de dezembro de 1946. 

A convite do então governador do Estado de Sergipe, Dr. José Rollemberg Leite, retornou para Aracaju, vindo a dirigir, a partir do dia 30 de dezembro de 1948, o Serviço de Assistência Municipal. Promotor Público da Comarca de Itabaiana, em 1949, 2º Procurador da Fazenda Pública do Estado de Sergipe, em 1951, Secretário da Justiça e Interior do Estado de Sergipe e Presidente do Conselho Estadual de Serviço Social, em 1951. Foi também Chefe de Polícia do Estado de Sergipe (cargo correspondente a Secretário de Estado da Segurança Pública), em 1952, no governo de Arnaldo Rollemberg Garcez. 

Atuou na área docente como modelar Professor das disciplinas Direito Público e Privado e História das Doutrinas Econômicas, da Faculdade de Ciências Econômicas de Sergipe, em 1953. Foi Deputado Estadual nas legislaturas de 1954, 1958 e 1962. Foi nomeado idôneo Desembargador do vetusto Tribunal de Justiça de Sergipe, em 1964, representando o quinto constitucional da advocacia. Presidente do mesmo Tribunal em 1973. Comandou o Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe, no biênio 1970 a 1972. Pedro Barreto de Andrade, homem que possuiu coragem pessoal e cívica, não à toa foi admirado dentre tantos notáveis, por Manoel Cabral Machado, seu amigo de infância e companheiro nos entraves políticos. 

Aposentou-se da magistratura em 15 de maio de 1980, retornando à atividade política partidária, passando a exercer o cargo de Secretário de Estado da Segurança Pública, no eminente governo do Dr. Augusto do Prado Franco. Foi admitido como sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe no ano de 1957. Representou, em 25 de março de 1950, o Estado de Sergipe no Congresso Nacional dos Municípios Brasileiros, no Rio de Janeiro, então Capital da República. 

Na gestão do Desembargador Manuel Pascoal Nabuco d’Ávila foi homenageado, post mortem, com o Colar do Mérito Judiciário. Recebeu o diploma destaque do ano de 1970, conferido pela o Organização de Pesquisa de Opinião Pública, em vista da sua extraordinária atuação como magistrado; recebeu diploma de membro honorário do segundo Seminário Sergipano do Mistério Público, em 1971; Diploma de Colaboração conferido pela Polícia Militar de Sergipe, pelos inestimáveis serviços prestados à corporação, em 1971. Angariou com louvor a Medalha de Mérito Universitário conferido pela Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas, em 1977.  Faleceu em Aracaju, no dia 14 de setembro de 1984.

Vale destacar que o honrado desembargador Pedro Barreto de Andrade antes de ingressar na magistratura sergipana teve papel destacado na advocacia e na política. Integrou o Partido Social Democrático, com uma expressiva liderança no interior do estado, valendo-lhe o exercício de importantes cargos públicos, em especial a Chefia da Polícia de Sergipe, cargo correspondente ao atual Secretário de Estado da Segurança Pública. Nessa efervescente época, as disputas partidárias entre os adeptos da União Democrática Nacional (UDN) e os do Partido Social Democrático (PSD) eram bastante intensas, exigindo-lhe bastante cautela e tirocínio para minimizar as tensões e as rivalidades existentes. Como deputado estadual podemos afirmar, indubitavelmente, que manteve uma postura de flexibilidade e honradez, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento de Sergipe. 

Seguindo os retilíneos passos paternos, Pedrito Barreto também já deixa herança de contribuições que marcarão vindouras gerações. Pedro Barreto de Andrade Filho, o famigerado Pedrito Barreto nasceu no Rio de Janeiro. Ainda criança, aportou em Aracaju, onde iniciou os seus estudos. O ano de 1964 marcou a sua vida profissional no já extinto Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos (IAPM). Em 1965, foi convidado pelo governador Celso de Carvalho para assumir o relevante cargo de Controlador de Verbas do Palácio Olímpio Campos. Por seu eficaz desempenho e virtuosa temperança, foi nomeado para o Departamento Estadual de Infraestrutura Rodoviária de Sergipe (DER/SE). Dois anos após, em 1967 Pedrito Barreto assumiu a Assessoria de Comunicação Social do Departamento Municipal de Turismo. 

O ano de 1968 assinalou o prolífico início das suas atividades jornalísticas, sendo convidado para escrever no clássico Diário de Aracaju – Órgão dos Diários e Emissoras Associados. Paralelamente, apresentava um programa na Rádio Jornal. Em 1971 foi para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso de Direito nas Faculdades Integradas Estácio de Sá, mantendo seus trabalhos junto ao Escritório do Estado de Sergipe. Voltou para Aracaju em 1978, quando foi convocado para assumir o cargo de Assessor Jurídico do DER/SE, ocupando também os cargos de Chefe do Serviço Contencioso, Chefe da Assessoria Jurídica e Secretário Geral. 

Ainda nesse mesmo ano, voltou às atividades na imprensa sergipana, atuando de maneira magistral na Gazeta de Sergipe, Jornal da Cidade e Jornal de Sergipe, retornando depois à Gazeta de Sergipe e, posteriormente, assinando páginas do suplemento dominical do mítico Jornal Cinform. Também comandou um programa na TV Jornal. Além da mais que fecunda vida jornalística, Pedrito Barreto assumiu os cargos de diretor da Galeria de Arte “Álvaro Santos”, foi Chefe do Cerimonial do Palácio “Inácio Barbosa”, Assessor da Presidência do CDL-Aracaju e Chefe do Cerimonial do Palácio do Governo e Tribunal de Justiça. Pedrito se aposentou pelo DER/SE como decente Procurador Autárquico.

Dentre seus tantos feitos indeléveis na memória coletiva de Sergipe, podemos destacar com ênfase a criação do memorável Prêmio Pedrito Barreto, que prestava valorosas homenagens a inúmeras personalidades sergipanas. Durante toda sua áurea vida, Pedrito Barreto vem recebendo inúmeras homenagens, como títulos de cidadania aracajuana e cidadania sergipana, além de comendas e placas do Exército Brasileiro, Prefeitura de Aracaju, Secretaria de Estado da Cultura, Marinha do Brasil, Polícia Militar e Governo do Estado de Sergipe, entre diversas variantes honoríficas que atestam o seu inexaurível espólio.

Ao lado de atemporais nomes que marcam o conjunto dos inesquecíveis na História da Coluna Social e do Jornalismo em Aracaju, exemplificados por nomes como Carlos Henrique de Carvalho (Bonequinha), Wellington Elias, Ilma Fontes, Luiz Daniel Baronto, Ivan Valença, Clara Angelica Porto, Osmário Santos, Thais Bezerra, Maria Franco, Luduvice Jose, Sacuntala Guimaraes, Márcio Lyncoln Almeida, Yara Belchior, João Barreto Neto, Roberto Lessa, Laurindo Campos, Eduardo Cabral, Joana Santana, Maria Luiza Cruz, Tereza Newman, Daisy Monte, Paulo Nou, Karmen Mesquita, João de Barros, Lânia Duarte, Carmen Pacheco, Ledinaldo Almeida, dentre tantos outros inolvidáveis. Pedrito Barreto fulgura como àquele que mantém acesa a chama das boas relações e fortalecimento das mais edificantes memórias político-sociais desse nosso cativante Estado de Sergipe. 

Portanto, ao estudar sócio historicamente as carreiras desses dois ícones sergipanos, percebemos que suas obras e ações ainda irão reverberar e muito, tanto para as presentes quanto para as futuras gerações que sabem apreciar os nossos mais ilustres tesouros. Pedro e Pedrito Barreto possuem o sentimento do mundo, pois demonstram na prática que é caminhando e semeando generosidade que atingimos as benesses de uma vida debruçada ao coletivo, quesito este vital que lhes afiança a colheita merecida. 

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¹ Texto escrito por Igor Salmeron, Sociólogo - Doutorando em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe (PPGS-UFS), com pesquisas financiadas pela FAPITEC/CAPES e faz parte do Laboratório de Estudos do Poder e da Política (LEPP-UFS). Membro vinculado à Academia Literocultural de Sergipe (ALCS) e ao Movimento Cultural Antônio Garcia Filho da Academia Sergipana de Letras (MAC/ASL). 

E-mail para contato: igorsalmeron_1993@hotmail.com

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Texto e imagens reproduzidos do Facebook/Igor Salmeron