sábado, 15 de agosto de 2026

Joubert Moraes Seu tempo, um ciclo

Artigo compartilhado do site RADAR SERGIPE, de 15 de agosto de 2026 

Joubert Moraes Seu tempo, um ciclo
Por Luiz Eduardo Oliva*

As barricadas de Paris e a magia woodstoquiana ecoaram no Parque Teófilo Dantas, moldando uma geração que ousou quebrar estruturas.

Final dos anos sessenta o mundo vivia um reboliço, literalmente. “1968 foi o ano que não acabou” disse Zuenir Ventura. E continua inacabado, como o século XX, enquanto esse que vivemos teima em não acontecer. Em Paris, as barricadas dos estudantes enfrentavam o establishment. Nos EUA, outra onda varria o mundo. Woodstock foi a maior revolução sem disparar um único tiro. Jimi Hendrix e Janis Joplin foram as principais referências de uma juventude que resolveu dizer “chega”, que tinha o sentido de um “basta” aos costumes mofentos e corroídos da hipocrisia, um basta às guerras, onde o Vietnã era a Gaza dos dias de hoje. E eu era só “um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones”.

Fato: eu era só um garoto. Mas, antes de mim, já existia uma tribo de jovens sobretudo inconformados. E Aracaju era uma cidade carcomida por uma sociedade centrada no patriarcalismo e no padrão vestal da vida: enquanto ia-se à missa aos domingos, os senhores vestais iam ao Vaticano — não o da Basílica de São Pedro, mas aquele que abrigava os “cabarés” de uma Aracaju noturnamente boêmia. Dá para acreditar? Sim, dá.

Tudo seguia o ritmo natural das coisas, tanto em Aracaju como em alhures. Uma sociedade totalmente revestida de uma moralidade incorporada como dogma. E quem haveria de contestar? Se as barricadas de Paris, os alucinógenos de Woodstock e o som dos Beatles e Rolling Stones davam o tom daqueles anos no mundo, na capital do menor estado do país uma parcela da juventude não ficou indiferente, muitíssimo pelo contrário.

Dizia Marquinhos do Rio (onde andará?) que no Parque Teófilo Dantas, no centro de Aracaju, ficava a “duodécima porta do inferno”, numa alusão aos nove círculos do inferno, pela iconoclastia que se estabeleceu naquela juventude que girava em torno da recém-inaugurada Galeria de Arte Álvaro Santos. O inferno de Dante comportava só nove! E Sergipe, tal qual araruta, teve seu dia/tempo de mingau! E uma geração fez acontecer como no resto do mundo.

O poeta Mário Jorge era a liderança natural, pela sua irreverência, genialidade e criatividade. Ao seu lado, os compositores Alcides Mello, Marcos Chulé e Zenóbio Alfano; os poetas Amaral Cavalcante e Hunald Alencar; a poeta Mara Lopes; o artista plástico Joubert Moraes; a atriz Wilma Rodrigues (Nêga); o cronista João de Barros (o Barrinhos); o cinéfilo Djaldino Mota Moreno; a jornalista, poeta e cineasta Ilma Fontes; as jornalistas Clara Angélica (também cantora) e Lânia Duarte (também artista plástica); o fotógrafo Marinho Neto; o tapeceiro e também colunista Luiz Adelmo; e alguns mais jovens estavam ali como “noviços”, como  Caio Rubens, o poeta Vinicius Dantas e Hugo Julião. Eu via, na “cuca” anotava e depois passei a interagir também.  Claro que não eram só esses, mas aí está um punhado altamente representativo. Muitos já partiram, outros saíram de cena.

No apagar das luzes do último mês de julho, saiu de cena definitivamente um dos mais icônicos daquela troupe, o multifacetado artista, o performático Joubert Moraes. Tendo incursionado na pintura, desenho, escultura, música, cenografia, poesia e diversas outras linguagens artísticas, ele marcou de tal maneira a cena aracajuana que havia até o neologismo “Aracajoubert”.

Joubert representou a síntese de sua geração, que abriu caminhos para a minha e as vindouras. Na forma de viver; na casa que tinha justamente na avenida Mário Jorge, seu parceiro e amigo querido; na música que criava e interpretava; na pintura que trazia tons psicodélicos, com cores pastel em movimento, como eram os quadros de coqueirais ao vento. Alguns, como um que tenho, parece mesclar um pouco da pintura clássica sem ser antiga, mas para além do seu tempo, parecendo caminhar livremente entre a justa proporção clássica renascentista, o psicodelismo surrealista e o abstracionismo expressionista.

Vivem-se tempos terríveis. O século XXI teima em não acontecer, há até um retroceder numa espiral de mediocridade que contrasta com a evolução cibernética. A partida de Joubert Moraes nos convida à reflexão. Ele foi um personagem que, sobretudo, ousou. Ousou e quebrou estruturas carcomidas, pensamentos que insistem em querer voltar. Nesse mundo da superfície, mergulhar por alguns momentos em personalidades como a de Joubert, para além da homenagem que se deve prestar ao grande artista, é necessário também refletir sobre o seu legado — não só no fazer artístico, mas no de se posicionar no seu tempo e buscar transformá-lo. Ave, Joubert!

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* Luiz Eduardo Oliva é advogado, poeta, professor e membro das Academias Sergipana de Letras Jurídicas e Riachuelense de Letras, Artes e Cultura.

Texto e imagem reproduzidos do site: radarse com br

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