quarta-feira, 15 de junho de 2022
sábado, 11 de junho de 2022
A morte do Roninho
Texto publicado originalmente no Perfil do Facebook/Jorge Lins, em 10 de junho de 2022
A morte do Roninho
Eu realmente não sei como encarar a morte e já com 65 anos, ainda não entendo como enfrentar a perda de amigos e contemporâneos. Sofro de uma forma que parece que meu coração sangra. Acho que penso que cada vez que perco alguém da minha geração, morro um pouquinho ou tomo consciência que a "viagem" está mais próxima.
Ronald Cabral Simas ou Roninho era um pouquinho mais velho que eu e muito mais maluco...
Uma vez encontrei com ele em Rio Branco do Acre. Eu, dirigindo um show pelo Projeto Pixinguinha e ele, vivendo uma experiência com a seita do Santo Daime e seu chá...
Hoje, quando eu soube da sua morte, senti mais uma vez aquele calafrio e tristeza de quem vê seus amigos partirem...
Saudade !!!!
Texto reproduzido do Perfil do Facebook/Jorge Lins
Roninho - "Um nome que marcou a cena aracajuana como poucos!"
Texto publicado originalmente no Perfil do Facebook/Luiz Eduardo Oliva, em 10 de junho de 2022
Simplesmente atônito, chocado! Foi-se Roninho e eu não sabia. Um nome que marcou a cena aracajuana como poucos! A vida não foi, ao meu ver, justa com a exuberância de Roninho! Brilhante, ativo, diferente! Filho de Roque Simas, foi um dos criadores da Folha da Praia, um nome de uma geração brilhante! Era negro e como se destacava lhe deram um apelido estupidamente preconceituoso. Escrevia com estilo mas pouco publicou. Li textos seus que me mostrou. Cheguei a ser advogado dele em um único momento e desfrutava da sua amizade. Se um dia a historiografia registrar a cena aracajuana, não necessariamente aquela que está nos destaques da mídia, caberá um lugar especial para Roninho, Ronald Cabral Simas! Com os olhos marejados recebi a notícia quando estava almoçando com amigos dos anos 80 e fizemos um brinde àquele que brilhava. Mas somente os que estiveram perto dele sabia da sua exuberância! Ave Roninho!
Texto reproduzido do Perfil do Facebook/Luiz Eduardo Oliva
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'Roninho, socialista moreno, nosso dândi tropical', por Luciano Correia
Texto Publicado originalmente no Perfil do Facebook/Luciano Correia II, em 10 de junho de 2022
Roninho, socialista moreno, nosso dândi tropical
Morreu Roninho, o intrépido Ronald Cabral Simas, morador da rua Socorro, moleque criado nas velhas indjagens de Aracaju, entre as boates da Atlética, Iate Clube e os bares da malucada dos anos 60. Porte atlético, moreno escuro, parecido com o tipo “cabo verde”, cheio de ginga, namorador, bom de papo e de murro. Já o conheci rapaz, dez anos mais velho do que eu, moleque recém chegado de Itabaiana e já de saída da UFS para cursar Jornalismo na Bahia. Durante quatro anos fui uma espécie de correspondente da Folha da Praia em Salvador e, quando vinha por Aracaju, sempre passava na redação da Folha para pegar uns trocados e, principalmente, me fascinar com a loucura que foi a primeira geração do semanário.
A redação era aberta o dia inteiro, começando pelo gerente Moura, o único que não era cachaceiro, portanto, podia chegar cedo e abrir o jornal. Os demais iam e vinham o dia todo. Amaral, editor e dono, Fernando Sávio, Carlos Magno, Bittencourt, Gigi, o carlista Cesinha, Zenóbio Melo, Ilma Fontes, Marcos Cardoso, criador da genial tirinha de Max, O Dogmático, Mabrafa, Henrique Barbudo’s, depois Antônio Passos, o cartunista Guga de Oliveira, Elton Coelho, o fotógrafo César, Roberto Lessa e mulheres, muitas e lindas mulheres. Muita conversa inteligente, alguma bebida e maconha de hora em hora, no terraço do edifício Cultura Artística, a lendária SCAS, onde funcionava a redação da Folha, no segundo andar, e outros escritórios ocupados por uma fauna não muito diferente daquela turma esquisita do jornal. Roninho era o diretor comercial, bom vendedor, sempre às voltas com algum mirabolante projeto que dividiria o mundo em antes e depois de sua ideia. Eu, embora vivesse uma vida efervescente como estudante de Jornalismo na UFBa, entre as festas e revoluções do movimento estudantil – muito mais festa que revolução, é bom dizer – ficava impressionado com a gente torta e interessante que encontrava ali.
Pouco tempo depois Roninho saiu da Folha, sem brigar, mas reclamando de Amaral, sobre comissões, participação de lucros e coisas que tais. Uma briga de dois sabidos, embora eu achasse, no fim, que Roninho tivesse mais razão. Nunca deixamos de ser amigos, sempre me divertindo quando o encontrava, na rua ou nos bares. Sempre metido com novos projetos, amores recentes. Irônico, cáustico, disparava uma metralhadora de impropérios em cima do desafeto da hora. Uma vez, eu trabalhando na Prefeitura, fui avisado pela secretária que “um rapaz todo quebrado, com o rosto inchado e cheio de curativos” me procurava na antessala. Dei com um Roninho exasperado contra a Prefeitura de Aracaju, a quem iria processar, culpada do buraco na rua de Arauá que provocou sua cinematográfica e violenta queda da bicicleta. Foi um dos primeiros jovens de uma classe média viciada em carros a trocar o motor pelas rodas da bike. Não sei no que deu, mas ficou décadas falando mal do prefeito de então, repetindo sempre uma mesma piada que ele julgava engraçada e ferina. Até hoje não entendi a tal piada.
Ainda no período da Folha da Praia, voltou de uma longa viagem ao Acre trazendo para Sergipe as maravilhas do Santo Daime, que ele transformou em um misto de ritual, festa e meio de fornicar com as minas. Em outro momento, quando eu trabalhava na sucursal em Sergipe da Tribuna da Bahia, irrompeu na redação do jornal, na rua Itabaiana, com um sujeito que ele chamava de “Madeirinha, o homem que come bosta”, que ele descobrira, o tal fenômeno, na simpática cidade de Frei Paulo. Fiquei mais irritado com a interrupção do meu trabalho do que achei graça na história. Eu tinha horário pra enviar minhas matérias para Salvador e já redigia meu texto no próprio telex, onde, ao concluir, já despachava através de uma fita onde gravávamos nossa produção do dia. Mas, em atenção a uma velha amizade, parei para ouvir a história do incrível homem que comia merda. Felizmente eu consegui adiar para outro dia a demonstração prática e cabal das habilidades do nosso herói freipaulistano. De modo que jamais foi cumprida a promessa, ou ameaça. A partir daí, sempre que o encontrava, não deixava por menos: “E o Madeirinha, tem notícia?”.
Bonito, gostava de um terno de linho branco que às vezes usava na noite, cheirando a patchouli e acompanhado de alguma morena. Transbordava em eloquência, seja para anunciar a mais nova ideia, ou para encantar a moça. Assim viveu, nesse sonho que, vendo de cá, não sei se deu certo. Porque, apesar da verve e da inteligência, sempre me pareceu infeliz, de alguma frustração que atravessou seus caminhos sempre. Fui perdendo os companheiros da Folha da Praia aos poucos: Sérgio Picolé, Zenóbio Melo, Altamiro, Iran, Caga Voando e os três que eram a alma do periódico: Fernando Sávio, Ilma Fontes e o próprio Amaral. Depois de alguns anos sem vê-lo, sempre que passava em sua casa, na rua Socorro, me perguntava por anda andaria essa versão de Don Quixote do bairro São José. Até que, no ano passado, num evento da Lei Aldir Blanc no Centro Cultural de Aracaju, reencontro Roninho, um jovem setentão, falante, ainda atlético, com as ironias de sempre e uma menina muito linda e décadas e décadas mais jovem. Deixei os dois na casa dela, na rua Dom José Thomaz. Nunca mais os vi. Soube que a guria era uma paixão platônica. Não tive como tirar essa história a limpo com meu querido amigo Roninho. Foi embora esta semana, carregando essa tristeza que eu suspeitava latente no seu coração de menino.
Texto reproduzido do Perfil do Facebook/Luciano Correia II
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Morre Ronald Cabral Simas - RONINHO (1952 - 2022)
Publicado originalmente no Perfil do Facebook/Alcides Mello, em 10 de junho de 2022
Foi-se RONINHO, um amigão do peito!
Com pesar, soube agora através do amigo Heitor Fiqueiredo, do falecimento do amigão Roninho, na última segunda-feira, por insuficiência respiratória. Somos amigos de infância, criados juntos no circuito Bairro São José, Praia 13 de Julho, Associação Atlética,
Iate Clube e Praia de Atalaia. Pintamos e bordamos na noite e madrugadas de nosso Sergipe Del Rei, nas décadas de 60 e 70.
Fica no meu coração a lembrança de um bom amigo, companheiro de todas as horas, um pisciano de marca maior. Deus o tenha...
Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Alcides Mello
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segunda-feira, 6 de junho de 2022
Antônio, Augusto e Moreno – Parte 3, por Lúcio Prado
Legenda da foto: Garcia Moreno, na década de 60
Publicação compartilhada do site INFONET, de 29 de maio de 2022
Por Lúcio Prado (do blog Infonet)
ANTÔNIO, AUGUSTO e MORENO: vidas que se entrelaçam, personalidades ímpares que permeiam com luz própria e fulgurante a História da nossa Medicina, no Século XX. Heróis na arte de curar, heróis na arte de confortar, heróis na arte de servir ao próximo, com predestinação, humanismo …vitórias e derrotas, erros e acertos. Suas trajetórias na Medicina e no universo cultural se confundem na ação e no saber, na inteligência e no altruísmo, do “ser” superando o “ter”, três vidas vividas para o bem, para os mais necessitados, doando conquistas para a sociedade. Na última parte da trilogia, falaremos sobre Garcia Moreno.
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Falar sobre Moreno é falar sobre um ser de luz. João Batista Perez Garcia Moreno Filho nasceu em Laranjeiras,
a “Atenas sergipana”. Naquele início de século XX, a cidade gozava de grande prestígio cultural, econômico e político. Graduado em Medicina pela centenária e histórica Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, em 1933, foi, porém, na Cidade Maravilhosa que Moreno apaixonou-se pelos segredos da mente humana e abraçou a psiquiatria como especialidade. Nessa área ele foi inteiro. Clínico, docente e pesquisador, além de se envolver com as questões políticas e socias, na visão do médico José Augusto Barreto e do seu filho Guto, que ocupa atualmente a Cadeira 17 da Academia Sergipana de Medicina, cujo patrono é justamente o inolvidável alienista.
Em virtude de sua competente crítica à prática desumana pela qual os “loucos de rua”, “os insanos” e “os furiosos” eram tratados em Sergipe, logo no seu retorno para sua terra, Garcia Moreno, em 1937, foi nomeado pelo então interventor federal, também médico, Eronides Ferreira de Carvalho, como Chefe do Serviço de Assistência aos Psicopatas. Na ocasião, ele visitou vários serviços modelares de Assistência Psiquiátrica já implantados no Brasil e ficou responsável pela elaboração das políticas públicas referentes à assistência psiquiátrica em Sergipe.
Esse fato foi um passo para que ele assumisse a responsabilidade pela construção e instalação do Hospital-Colônia, como parte da reestruturação do atendimento psiquiátrico estadual, inaugurado em 1940, quando da realização do II Congresso de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste, em Aracaju.
A partir da fundação da Sociedade Médica de Sergipe em 1937, Moreno esteve ao lado de Augusto durante as três primeiras diretorias, como Orador oficial da entidade. Em 1952 chegou à presidência da casa, liderando a quinta diretoria e, nos anos de 1968-1972, assumiu o cargo de diretor da Faculdade de Medicina de Sergipe, substituindo a Antonio Garcia, diretor desde 1961. Moreno comandou a solenidade de colação de grau da primeira turma de médicos sob a égide da UFS, em 1968. Presidiu o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. De temperamento afirmativo, apoiou com todas as suas forças o poeta Santo Souza, na disputa com Antonio Garcia. Para ele, a vaga de poeta deveria ser ocupada por outro poeta. Derrotado na eleição, contrariado, apresentou a sua renúncia. Felizmente, nunca foi aceita. Simplesmente o presidente da Academia de Letras, poeta Severino Uchoa, deixou o pedido dormindo numa gaveta. Creio ter pensado: um imortal não pode abdicar da imortalidade. Tempos depois, os dois garcias, o Moreno e o Antonio, tornaram-se grandes amigos. Eduardo Garcia, filho de Antonio, tornou-se médico de Moreno nas suas dificuldades circulatórias e o acompanhou até o último suspiro, em 1976, com 65 anos.
No campo científico, esse laranjeirense da gema também deu expressiva contribuição. Produziu trabalhos científicos relevantes, entre eles o de maior destaque: Aspectos do Maconhismo em Sergipe. Mesmo sem a convicção real da magnitude de que o problema iria alcançar, ele, de forma pioneira, antevendo décadas por vir, antecipou a discussão de um dos problemas de saúde pública mais graves da atualidade e dedicou-se a investigar o problema da toxicomania entre os adolescentes abandonados e moradores de rua de Aracaju. Este relevante estudo foi inserido no livro Maconha, edição do Serviço Nacional de Educação Sanitária (1958).
No campo intelectual, foi também profícuo. Das suas obras literárias, destacamos: Cajueiro dos Papagaios e Doce Província (livros): nestas obras ele canta as belezas de sua terra, descreve o estilo sergipano, faz crítica ao materialismo, posiciona-se contra a pena de morte e contra a eutanásia. Na crônica O Homem que lavou o cérebro, alerta sobre os efeitos colaterais dos modernos métodos científicos em macular, desfigurar, massacrar, denegrir e desfigurar o homem. Uma preocupação ainda hoje atual a demonstrar seu caráter visionário.
Em suma, o Dr. Garcia Moreno foi um homem muito especial. Visionário, intelectual, bairrista, cidadão, mestre, proativo, comprometido e líder. Dedicou-se a variados campos do conhecimento e nunca deixou de transferi-lo à comunidade aonde fora plantado. Apesar de sabedor do seu potencial para voos mais longínquos, mas seguindo a máxima de Tolstoi, “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”, Dr. Garcia Moreno optou por permanecer em Sergipe e as razões para tal decisão podem ser as mesmas do sociólogo Gilberto Freyre, como destacou Francisco Rollemberg no seu discurso de posse na Academia Sergipana de Letras, sucedendo o alienista.
“Preferi, porém, contra o conselho do bom mestre e bom amigo, patinar em areia áspera e nativa, minha, profundamente minha; e não me arrependo da decisão. Pertenço ao número dos sentimentais para quem terra alguma é igual àquela em que o indivíduo nasceu e criou-se.”
Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br/blogs
Marilza Maynard: Uma liderança do bem na Justiça sergipana
Artigo compartilhado do Perfil do Facebook de Igor Salmeron, em 6 de junho de 2022
Por Igor Salmeron
“Já que é preciso aceitar a vida, que seja então corajosamente” (Lygia Fagundes Telles)
Poucas são as mulheres que possuem esse tino de líder nata como é o ilustre caso de Dra. Marilza Maynard Salgado de Carvalho. Nascida em Laranjeiras num dia 10 de março do ano 1945, é a filha de Seu Ulysses Maynard e de Dona Raquel Dantas Maynard, ambos se notabilizaram por realçar o espírito educacional dentro do harmonioso lar.
Desfrutou de lúdica infância, repleta de aprendizados e ensinamentos pautados pela ética e senso de dever comunitário. Na adolescência já despontava seu lado estudiosa, e não à toa, graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de Sergipe, numa época em que se destacaram inúmeros vultos da nossa ambiência jurídica sergipana.
Exerceu com maestria a advocacia em universo telúrico e atuou, sobretudo, como notável Procuradora do extinto Instituto do Açúcar e do Álcool. Destacou-se no campo do ensino, donde lecionava diversas disciplinas, a exemplos: Processo Civil e Prática Jurídica, chegando a coordenar o Estágio de Prática Forense e Organização Judiciária, no Departamento de Direito da Universidade Federal de Sergipe.
Foi Juíza de Direito das Comarcas de Neópolis donde iniciou no dia 1° de dezembro do ano 1971, passando por Simão Dias em 1975, Itabaiana no ano de 1977 e da 4ª Vara Criminal de Aracaju em 1979 bem como da 9ª Vara Cível da Comarca de Aracaju em 1980.
Durante todo esse efervescente tempo, acumulou bagagem de inegável humanismo e sensibilidade às causas político-sociais. Marilza Maynard não se deixou imergir no continente glacial das leis, ao contrário, fazia o resgate contínuo de enxergar o fenômeno jurídico em sua totalidade.
Anos após, tomou posse no cargo de Desembargadora do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe em 1997. Atuou como Diretora da Escola Superior da Magistratura (ESMESE) entre os anos de 1999 a 2001, ocasião esta em que devemos ressaltar: foi criado o Curso de Preparação para Ingresso à Magistratura, o que gerou bastante procura por parte dos Profissionais do Direito que desejavam ingressar na carreira de juiz.
Ao fazer alguns levantamentos, notamos que já como Desembargadora, Marilza Maynard compôs diversas bancas examinadoras para concurso público, como as de Professor da Universidade Federal de Sergipe e de Juiz Substituto do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe.
Dona de beleza e inteligência estonteantes, possui Pós-Graduação na área do Direito Processual Civil e é sócia honorária do Instituto Brasileiro de Direito da Família. Atuou como juíza eleitoral por mais de duas décadas, sendo ainda membro da Turma Julgadora do antigo 1º Juizado de Pequenas Causas.
Marilza Maynard foi juíza corregedora eleitoral, membro da Comissão Nacional de Racionalização. Assumiu a Corregedoria-Geral de Justiça durante o biênio compreendido entre os anos de 2001 a 2003, donde realçou-se pelos 29 projetos que desenvolveu, o que significou a inovação tecnológica e a desburocratização do serviço público.
Dentre tantas ações, podemos descortinar: Correição Eletrônica, o que fez dobrar o número de correições exigido por lei, outro exemplo foi o “Todo Município com Justiça”, que aproximou 300 mil sergipanos do serviço jurisdicional com a implantação, inclusive, dos Fóruns Distritais espalhados por 32 municípios.
Este projeto merece todo nosso reconhecimento, pois ocorreu em frutífera parceria com as prefeituras, cuja inauguração dos Fóruns foi marcada pelas realizações de casamentos comunitários. Podemos elencar outras medidas, como: Controle Geral de Documentos e Controle da Central de Mandados, os quais foram reconhecidos em duas Mostras Nacionais de Trabalhos de Qualidade no Poder Judiciário.
Marilza Maynard tomou posse como Desembargadora do Tribunal de Justiça pelo critério de antiguidade no dia 26 de novembro do ano 1997. Anos sucedâneos depois, no dia 02 de fevereiro do ano 2005, assume então a Presidência do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, cuja gestão foi marcada por um conjunto de exemplares realizações.
Dentre tantas: criação do modelo e implantação de seis Juizados Virtuais, cuja tramitação de processos era feita inteiramente sem papel. Durante esse período, no dia 27 de março do ano 2006, Marilza Maynard chegou a assumir o Governo do Estado de Sergipe, por um período equivalente a 8 dias, por motivo da viagem feita pelo Governador na época verificada João Alves Filho a países europeus, haja vista que a vice-governadora Marília Mandarino encontrava-se de licença e o Presidente da Assembleia Legislativa, Antônio Passos, estava acompanhando o Governador durante a profissional excursão.
A transmissão do cargo vale dizer que foi bastante prestigiada, fazendo reunir diversos magistrados, procuradores, secretários estaduais, advogados e servidores públicos. João Alves Filho sempre fez questão de destacar o trabalho primoroso desenvolvido por ela junto ao Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, ressaltando que: “o Tribunal de Justiça está em boas mãos com Marilza Maynard, uma mulher que sabe enfrentar desafios”. Quando encerrou sua excelente gestão a frente do Tribunal, ela veio a se tornar a primeira mulher eleita para ser membro da Comissão Executiva do Colégio Permanente de Presidentes de Tribunais de Justiça do Brasil.
Marilza Maynard nutriu durante toda sua trajetória um interesse ímpar por tudo que estivesse relacionado ao exercício retilíneo da Justiça, cuja vontade de fazer e aprender sempre foi algo notório, flagrante. Notamos que sua audaciosa personalidade se caracteriza pela saudável ousadia com iniciativas que são consideradas pioneiras até hoje.
Quando esteve a frente do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe entre os anos de 2005 a 2007, o eminente órgão judiciário foi conduzido a um grau de respeitabilidade nunca dantes visto. Foram implantados os Juizados Virtuais, a Central da Conciliação, o Diário da Justiça Eletrônico e postas em prática diversos Mutirões de Conciliação.
A Desembargadora se preocupou sobremodo com o gasto do erário público, o que na época a fez elaborar uma cartilha virtual de boas práticas, com medidas que implicavam em economia de despesas com telefone, impressão, consumo de água, energia elétrica, xerox, serviços terceirizados etc.
Eram definidos os números de computadores, impressoras, ramais por vara, dentre outras medidas que visavam dirimir o gasto inútil do dinheiro público, e aumentar assim o tempo de serviço eficiente desempenhando pelos servidores. Instalou-se o Programa Justiça Cidadã, havendo oferta de serviços essenciais à cidadania, e além desse, teve o projeto Todo Cidadão com Registro, cujo objetivo foi a instalação dos Cartórios de Registro Civil nas maternidades públicas de Aracaju.
Na área da informática, como vimos, os avanços foram tão emblemáticos que o Conselho Nacional de Justiça indicou o TJSE para presidir o Comitê Gerencial de Informática dos Tribunais de Justiça da Região Nordeste. Marilza Maynard preocupada com a população mais carente, buscou padronizar o atendimento aos usuários nas 97 comarcas do Estado, levando ambiente climatizado, espaços adequados e mobiliário confortável.
Estimulou as licitações na modalidade de pregões eletrônicos, sob o sistema de registro de preços. Eles chegaram a ser feitos em 90% das licitações do TJ, resultando em uma economia de 30% em cada aquisição feita pelo tribunal.
Marilza Maynard não ficava trancafiada em gabinete, atuava junto, envolvia-se, estava presente, mostrando interesse contínuo com relação à comunidade. Segundo alguns relatos, ela chegou a ir pela madrugada visitar uma Rodoviária aqui em Aracaju para averiguar as reais condições de atendimento às crianças que se encontravam em situação de risco no posto avançado do Juizado da Infância e da Juventude. Depois da sua inesperada visita, o resultado foi melhorias efetivas na estrutura do local, de modo que veio a oferecer mais conforto e condições tanto aos pais quanto as crianças em trânsito.
Para Maynard, nunca teve essa coisa de feriado, o trabalho se constituía em atender os basilares anseios da sociedade sergipana. Reconhecia os esforços dos magistrados e servidores, e por isso mesmo até hoje ela é exemplo a ser seguido no sentido de que engrandece a Justiça de Sergipe, considerada uma das mais céleres e respeitadas do Brasil. A construção de sonhos pioneiros possui fagulha em altivas personalidades, dentre as quais nesse caso específico: Marilza Maynard que se faz liderança do bem no que se refere à eficiência da jurisprudência bem administrada.
Marilza Maynard integrou a Sexta Turma e Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) com a certeza do dever cumprido. Além de ter sido uma época em que se considerava a profissional mais feliz e realizada. Atuou na Terceira Seção especializada em Direito Penal e contribuiu efetivamente para a celeridade da prestação jurisdicional. Foram mais de 13.800 decisões monocráticas, colegiadas, liminares e despachos com a habilidade e parcimônia que lhes são aspectos intrínsecos.
Na melíflua esfera doméstica, foi casada com o saudoso João Salgado de Carvalho Filho, nascido em Estância, era formado em Economia. O mesmo iniciou sua carreira no Exército, onde foi Tenente do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva até o ano de 1973. Depois atuou na Telergipe quando desempenhou função de Gerente do Departamento de Recursos Materiais.
Em 1999 foi empossado como Secretário-Adjunto da Secretaria de Estado da Administração, em um ano, respondia também pela Presidência do Instituto de Previdência do Estado de Sergipe – IPES. Em 2001 acabou sendo nomeado para ser Secretário de Estado da Administração.
No dia 1° de janeiro de 2003 havia assumido a pasta de Secretário Especial do Meio Ambiente, cargo depois convertido em Secretário de Estado do Meio Ambiente. Atuou também como Presidente da Administração Estadual do Meio Ambiente, a ADEMA entre os meses de agosto a novembro do ano 2004.
Em seu último cargo como Secretário do Meio Ambiente, se destacou com a implementação de políticas voltadas para a gestão de resíduos sólidos, educação ambiental e criação do Código Ambiental. Faleceu no dia 06 de julho do ano 2005. Do belo casamento com Marilza Maynard, resultaram seus dois amáveis filhos: Mayra Maynard Salgado de Carvalho e Ulysses Maynard Salgado.
Conclui-se que Marilza Maynard possui legado de trabalho, competência, ética e honradez frente ao Poder Judiciário sergipano e além-fronteiras na ocasião em que trabalhou com afinco junto ao STJ. Se existe um caso notório de agilidade e democratização do acesso à justiça, este, indubitavelmente, reside em nossa retratada: Marilza Maynard Salgado de Carvalho, mulher de destaque na vida jurídica de Sergipe e do Brasil, sendo uma das primeiras a galgar posições de juíza e desembargadora aqui no Estado, como vimos, foi a segunda a ter assumido a presidência do Tribunal de Justiça donde saiu para entrar para a história em letras garrafais e mais que merecidas.
¹ Texto escrito por Igor Salmeron, Sociólogo - Doutorando em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe (PPGS-UFS), com pesquisas financiadas pela FAPITEC/CAPES e faz parte do Laboratório de Estudos do Poder e da Política (LEPP-UFS). Membro vinculado à Academia Literocultural de Sergipe (ALCS) e ao Movimento Cultural Antônio Garcia Filho da Academia Sergipana de Letras (MAC/ASL). E-mail para contato: igorsalmeron_1993@hotmail.com
Texto e imagem reproduzidos do Perfil Facebook/Igor Salmeron
terça-feira, 31 de maio de 2022
Morre Matias Paulino Silva (1932 - 2022)
Matias era um grande torcedor da Associação Desportiva Confiança e um entusiasta e colaborador do Iate Clube de Aracaju.
Sentimentos aos primos: Maria Lygia, Augusto, Gustavo e Liana.
Postagem original no Facebook/Armando Maynard > https://bit.ly/3MewuSh
sexta-feira, 27 de maio de 2022
Gente Sergipana – Dr. Walter Cardoso, por Antonio Samarone
Publicação compartilhada do Facebook/Antonio Samarone, de 25 de maio de 2022
Até meados do século XIX, a medicina praticada no Brasil era a coimbrense. Uma medicina medieval nascida nos mosteiros, mais atrasada do que as medicinas dos Jesuítas, Pais de Santos, Curandeiros e Pajés.
A medicina brasileira só passou para a influência francesa, na segunda metade do Dezenove, com a reforma Visconde de Saboia, no ensino das Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro.
Em Sergipe, a tradição francesa durou até a segunda metade do século XX. O livro de anatomia adotado na Faculdade de Medicina de Sergipe, era um clássico de Jean Léo Testut, em sua versão francesa.
Fui aluno de doenças infecciosas e parasitárias, do Dr. Walter Cardoso, um sanitarista formado em Manguinhos. Em seu bureau na sala de aula, se destacava um busto de bronze de Pasteur. Rezava a tradição francesa, que ao final da aula, houvesse uma calorosa salva de palmas.
Dr. Walter Cardoso, um conservador, católico militante e médico humanista, foi Secretário da Saúde e Diretor da Faculdade de Medicina. Deixou livros publicados e editou uma revista de Saúde Pública em Sergipe.
Entre os livros publicados destacam-se: “A luta contra a fome”, “Perspectiva da Saúde Pública em Sergipe”, “História da Saúde Pública em Sergipe”, “Vida, tempo e memória” e Retrato de Garcia Rosa”.
Como Diretor da Saúde Pública, no governo Arnaldo Garcez, Walter Cardoso foi o inspirador da criação do Conjunto Agamenon Magalhães em Aracaju, para transferir as populações faveladas do Curral e da Ilha das Cobras, no Morro do Bonfim. O novo Conjunto foi planejado com os princípios da sustentabilidade sanitária.
Walter Cardoso foi o primeiro Secretário da Saúde, na criação da Secretaria da Saúde por Celso de Carvalho, em 1965.
Walter Cardoso faleceu em 25 de maio de 2001, ao 89 anos.
Na reta final, eu conseguir autorização da família para visitá-lo em sua casa. Ele já muito doente, mas com a memória perfeita. Em sua conversa comigo ele fez duas revelações: que era conservador, mas nunca foi anticomunista e que as suas tias não negaram água a Fausto Cardoso, quando ele saiu baleado do Palácio.
A sua afirmação de nunca ter sido anticomunista, talvez tenha sido em consideração a minha fama de militante do credo vermelho, no movimento estudantil. Eu sempre admirei o professor catedrático e colega sanitarista Walter Cardoso, um batalhador pelas reformas na Saúde Pública.
As tias de Walter Cardoso eram “olimpistas” e moravam numa bela casa na esquina da Rua Pacatuba com a Praça do Palácio. Existia a fofoca que elas negaram um copo de água a Fausta Cardoso baleado. Ele cuidava da memória das tias.
Eu sou do tempo em que tinha-se gratidão aos mestres e professores. Sempre considerei meus professores de Saúde Pública na UFS: Walter Cardoso, José Leite Primo, Alexandre Gomes de Menezes, Cleovansóstenes Pereira de Aguiar e João Cardoso do Nascimento.
Em Sergipe, o Dr. Walter Cardoso foi o último grande mestre inspirado na medicina francesa. A atual influência da medicina americana é contemporânea a medicina de mercado.
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* médico sanitarista
Texto e imagem reproduzidos do Perfil doFacebook/Antonio Samarone
segunda-feira, 23 de maio de 2022
O pesquisador Gilfrancisco é Doutor Honoris Causa da UFS
Publicação compartilhada do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 22 de maio de 2022
O pesquisador Gilfrancisco é Doutor Honoris Causa da UFS
Com quase 40 livros publicados, Gilfrancisco nasceu em Salvador e está em Sergipe desde 1996
O jornalista, professor, pesquisador e escritor Gilfrancisco recebeu na última quarta-feira, 18, a maior de todas as honrarias concedidas pela Universidade Federal de Sergipe, o título de Doutor Honoris Causa. A homenagem, no Auditório da Reitoria, constou da programação dos 54 anos da UFS.
O título outorgado pelo Conselho Universitário em outubro de 2021, Resolução nº 31/2021/Consu, é um reconhecimento pela sua trajetória e produção intelectual, assim como de sua contínua contribuição à pesquisa historiográfica e documental.
Entre as considerações que embasam a concessão, destaca-se sua “grande contribuição como escritor, pesquisador e sua extensa produção jornalística e literária, com artigos em jornais, revistas e periódicos, livros publicados e banco de dados privado”.
“Recebo com orgulho e extremamente honrado o título que me concede esta universidade. Quando olho para trás, vejo que estive construindo conhecimento por prazer, e o reconhecimento chegou sem que eu escutasse seus passos, com os pés de algodão, para me surpreender neste momento da vida”, agradeceu o homenageado.
“A investigação documental é uma atividade contínua, que requer leitura, interpretação e critérios para que não se transforme num mero acúmulo de papéis indistintos. As suas descobertas dependem da perseverança, e do tempo, além de esforços e sorte; a troca de informações com outros pesquisadores também é imprescindível”, discursou.
O professor Fernando Sá, do Departamento de História, responsável pelo discurso de homenagem ao agraciado, descreveu Gilfrancisco como um “arquivo vivo”, em alusão ao seu grande conhecimento e ao fato de portar “documentos da maior importância para a história de Sergipe”.
E completou: “É mais do que justificada essa homenagem, porque ele é uma figura de destaque no cenário cultural de Sergipe e continua produzindo”.
O reitor da UFS, professor Valter Joviniano de Santana, enfatizou a generosidade com a qual Gilfrancisco “abre as portas de seus arquivos e biblioteca para que pesquisadores tenham acesso ao que o dinheiro não pode comprar: infinitas horas de leitura e pesquisa, além da coleção de obras raras.”
“Acreditamos que os nossos doutores venham para fortalecer a reflexão, a crítica e a síntese de novas possibilidades de viver e pensar a nossa identidade e cidadania. Essa premiação nos engrandece, pois estamos trazendo mais um doutor produtivo, ativo e crítico para os quadros da educação superior sergipana”, concluiu o reitor.
Baixa do Sapateiro
Nascido Gilberto Francisco dos Santos na Baixa do Sapateiro, em Salvador (BA), em 27 de maio de 1952, Gilfrancisco possui graduação em Letras Vernáculas pela Universidade Católica do Salvador (1991), é autor de 39 livros individuais, sete em participação com outros autores e tem mais de mil textos publicados em jornais, revistas e periódicos locais e nacionais.
É radicado em Aracaju desde 1996 e atualmente trabalha no Tribunal de Contas do Estado de Sergipe. O pai, Odilon Francisco dos Santos, era sergipano de Nossa Senhora das Dores e a mãe, Antônia Rufina França, do município baiano de Coração de Maria, região de Feira de Santana.
O primeiro emprego foi na Reitoria da UFBA, em 1969, período quando se iniciou no jornalismo ao lado do sergipano João Batista de Lima e Silva, chefe de Reportagem do extinto Jornal da Bahia.
Aprofundou a formação intelectual com o capelense Nelson Correia de Araújo, jornalista, editor, tradutor, dramaturgo e professor da Escola de Teatro da UFBA, autor de três dezenas de livros. “A convivência com Nélson foi longa e através de um projeto passamos a localizar alguns teatros baianos do século XIX. Essa foi uma grande colaboração para a história do Teatro Baiano”, recorda.
Dentre os últimos livros de Gilfrancisco estão: “Agremiações Culturais de Jovens Intelectuais na Imprensa Estudantil” (Edise, 2019), “Lampião no Diário Oficial” (Edições GFS, 2020), “Áreas de Conflitos e Mistérios” (Edições GFS, 2021) e “Anísio Dário – A Chacina da Rua João Pessoa” (Edições GFS, 2022).
Com informações e foto da Ascom/UFS
Texto e iagem reproduzidos do site: destaquenoticias.com.br
terça-feira, 17 de maio de 2022
Santo Amaro das Brotas em “Variações em fá sustendido”
Foto: Reprodução
Publicado originalmente no site EVIDENCIE-SE, em 17 de maio de 2022
Santo Amaro das Brotas em “Variações em fá sustendido”
Por Silvaney Silva Santos [*]
Escrevendo essas linhas tortas com um sentimento de saudades. Saudades do que não vivi em terras santoamarenses. O texto em tela tem como objetivo apresentar impressões de um frequentador e propagandista assíduo de SANTO AMARO DAS BROTAS, o capelense, jornalista, poeta e escritor das VARIAÇÕES EM FÁ SUSTENDIDO, Zózimo Lima. Devido à atuação do supracitado em nossas paragens, o mesmo tornou-se nome de praça, PRAÇA ZÓZIMO LIMA, no bairro Tabuleiro.
Em uma das suas “Variações em fá sustendido” Zózimo descreve o “gostoso passeio à Santo Amaro”. Observa a datação da fundação da nossa Matriz (1728), a qual “abrigou centenas de revolucionários acuados pelas tropas de Caldeira Boto e Barbosa Madureira”.
Conhecedor da história de Sergipe, cita o frontispício do templo do século XVIII e relembra que “lá está, encimado a porta principal da Igreja, a imagem do orago, Santo Amaro, que teve o braço partido por uma bala mandada pelo facínora João Soares Soledade, – o desgraçado João Bolacha, que o povo matou a tiros e a cacete, em represália, no mesmo local, a praça da Matriz”. Esta passagem citada pelo cronista, alude sobre a chamada Revolução de Santo Amaro das Brotas no Período Regencial brasileiro, quando se vivia um vazio de poder.
Zózimo Lima lê Santo Amaro como poucos dos seus filhos. Sobre o poderio econômico no século XIX do que chamo de lendária Santo Amaro, o jornalista apresenta a estrutura social da antiga vila composta por “dezenas de engenhos de propriedade de fidalgotes orgulhosos e semianalfabetos. As matronas eram gordas, respeitáveis e autoridade na fatura dos doces e saborosas feijoadas. Implacáveis, porém, na perseguição das mulatas escravas que aplacavam à força a sensualidade dos senhores brutamontes”.
Em sua crônica histórica Zózimo observa: “Houve até imprensa em Santo Amaro. Lá se publicavam “A VOZ DA RAZÃO” e o “CONCILIADOR”. Ambos os jornais de propriedade do Comendador Antônio José da Silva Travassos. Estas folhas oposicionistas tiveram vidas efêmeras pela censura e truculência da época”.
Desconsiderando anacronismos, distanciando-se dos fatos históricos e voltando à realidade daquele “gostoso passeio”, Zózimo cita alguns nomes que podem tocar a memória afetiva de alguns familiares, Zeca Maia, “baronete do Porto das Redes”, de quem recebeu um presente, o Dicionário Português, de Moraes, de 1858, editado em Lisboa; a Madre Maria Luiza, a qual dirigiu a nossa COLÔNIA DE FÉRIAS, local que presenciou várias reuniões republicanas e progressistas; a exemplo da presença do educador Paulo Freire, quando produziu a Carta de Santo Amaro, documento que defendia a criação da Universidade Federal de Sergipe. João Costa, prefeito naquele ano de 1968, o mesmo ofereceu em sua residência um lauto almoço e possivelmente teria falado sobre a importância de se implantar, em Santo Amaro, o Ginásio, empreendimento que já existia em Maruim, nossos vizinhos autônomos.
De regresso do passeio o adjetivo “gostoso” se justificou pelos “4 cachos de bananas, um litro de camarões graúdos e uma corda de gaiamum”. Por fim, a saudação a Santo Amaro e a sua gente.
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[*] É Mestre em História, pesquisador/ professor dos sistemas de ensino estadual e municipal de Santo Amaro das Brotas.
Texto e imagem reproduzidos do site: evidencie-se.com
segunda-feira, 16 de maio de 2022
Antônio, Augusto e Moreno - Parte 1 e 2, por Lúcio Prado
Legenda da foto: Dr. Antônio Garcia Filho
Publicações compartilhadas do site do Portal INFONET, de 29 de abril de 2022
Antônio, Augusto e Moreno - Parte 1
Por Lúcio Prado (do blog Infonet)
ANTÔNIO, AUGUSTO e MORENO: vidas que se entrelaçam, personalidades ímpares que permeiam com luz própria e fulgurante a História da nossa Medicina, no Século XX. Heróis na arte de curar, heróis na arte de confortar, heróis na arte de servir ao próximo, com predestinação, humanismo, …vitórias e derrotas, erros e acertos. Suas trajetórias na Medicina e no universo cultural se confundem na ação e no saber, na inteligência e no altruísmo, do “ser” superando o “ter”, três vidas vividas para o bem, para os mais necessitados, doando conquistas para a sociedade.
Parte 1 – ANTÔNIO
Em vida, Antônio Garcia Filho foi intrépido, corajoso, determinado. Foi assim na criação do primeiro museu público do estado, hoje Museu Histórico de Sergipe, em 1960, com a colaboração decisiva de Jenner Augusto e de seu irmão, o jornalista Junot Silveira Foi assim na fundação da primeira escola médica de Sergipe – a Faculdade de Medicina – em 1961, concretizando a ideia de Moreno. Foi assim na criação do Centro de Reabilitação Ninota Garcia, em 1962, um dos primeiros do país, inspirado nas ações sociais de Augusto.
O clímax da atuação de Antônio Garcia pode ser fixado, a meu ver, nas décadas de 50 e 60. O ano de 1961, começou com um fato que provocou um grande rebuliço nos meios intelectuais do estado. Na primeira semana de janeiro, em eleição disputadíssima, ele se elege para a Academia Sergipana de Letras, na vaga surgida com a morte do poeta Garcia Rosa, que ocupava a cadeira do patrono Tobias Barreto de Menezes. Antonio Garcia supera em votos o poeta Santos Souza, que também pleiteava a vaga, por onze votos a nove. Desmentindo parte da intelectualidade que apoiava o seu opositor, de indiscutível mérito cultural, Garcia teve uma trajetória expressiva e meteórica no sodalício, chegando a exercer a presidência da Casa de Tobias por muitos anos, conseguindo, inclusive, uma sede definitiva para a agremiação. Já Santos Souza, autor de “A Ode e o Medo” e “Deus ensanguentado”, entre outras obras que o marcaria como um dos maiores poetas órficos da língua portuguesa, chegou ao sodalício anos depois, em 1970, para a cadeira de número três, patrono Fausto Cardoso, na sucessão de Cleômenes Campos.
Ainda em 1961, Sergipe ganha a sua primeira escola médica, tendo no Instituto Parreiras Horta a sua sede inicial. Fundada por um grupo de médicos liderados por Antônio Garcia, a escola contou com a participação do Dr. Silvano Isquerdo Laguna, médico de grande prestígio na cidade de Salamanca, na Espanha, possuidora da segunda faculdade de Medicina mais antiga da história. Por essa época, o eminente esculápio se encontrava sob forte perseguição da ditadura franquista, vivendo praticamente na clandestinidade. Foi então que o professor Juan José Rivas Páscua, oriundo da mesma cidade e há pouco tempo residindo em Itabaiana, sugeriu o seu nome para o Dr. Antônio Garcia e para o Bispo Diocesano D. José Vicente Távora, que de pronto oficializaram o convite para ele vir a Sergipe. O professor Silvano chegou e se instalou num apartamento do Edifício Atalaia, na Rua da Frente, às expensas do Governo e sua presença entre nós foi de fundamental importância para a estruturação inicial da nossa faculdade, tendo sido inclusive o primeiro professor de Anatomia Humana e ministrado a aula inaugural da Faculdade de Medicina, em sessão magna realizada no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.
No ano seguinte, o curso médico foi transferido para o Hospital de Cirurgia, graças a um convênio firmado entre o Governo Luiz Garcia e a Casa de Augusto. Houve uma conjugação de esforços e um encontro de interesses. O hospital precisava de recursos e do saber e a Faculdade precisava de um hospital para aglutinar as diversas clínicas. Reconhecendo que a vida de Augusto Leite se confundia com a história do hospital e com a própria história da Medicina de Sergipe, Antônio Garcia Filho, diretor da Faculdade e membro atuante do corpo clínico e do Centro de Estudos do hospital, propôs em assembleia geral do Conselho Administrativo, a mudança do nome de Hospital de Cirurgia para Hospital de Clínicas Dr. Augusto Cezar Leite, sendo aprovado por aclamação. A vida de Augusto e de Antonio mais uma vez se entrelaçavam num momento crucial para o futuro da Faculdade. Anos antes, Augusto operara Antonio num quadro grave de abdome agudo por perfuração intestinal. O velho cirurgião salvando o clínico dos diagnósticos difíceis, quase impossíveis, na visão de Luiz Antônio Barreto.
A importância de Antonio Garcia no contexto da vida sergipana é extraordinária e qualquer relato, por mais apurado que seja, pode não representar com fidelidade a sua história. Antonio Garcia se destacou na medicina e na política cultural, em suas múltiplas vertentes: na literatura, na música, na poesia, nos discursos memoráveis: “Acorda Laranjeiras”, manifestação poética antológica na visão do ministro Carlos Ayres de Brito. Antonio Garcia foi um homem que viveu permanente e intensamente o seu tempo, muitas vezes até se antecipando a ele, realizando coisas absolutamente fantásticas, típicas dos visionários.
Evoco os romanos de priscas eras, para lhes dizer que a emoção que invade o peito rivaliza com a dos gladiadores, em plena arena, com o coração palpitante e captando vibrações de um “coliseu” incansavelmente ávido por desafios intelectuais. Os três, Augusto, Moreno e Antônio foram gladiadores contemporâneos.
Legenda da foto: Dr. Augusto Leite
Publicação compartilhada do site do Portal INFONET, de 15 de maio de 2022
Antônio, Augusto e Moreno - Parte 2
Por Lúcio Predo (do blog Infonet)
ANTÔNIO, AUGUSTO e MORENO: vidas que se entrelaçam, personalidades ímpares que permeiam com luz própria e fulgurante a História da nossa Medicina, no Século XX. Heróis na arte de curar, heróis na arte de confortar, heróis na arte de servir ao próximo, com predestinação, humanismo …vitórias e derrotas, erros e acertos. Suas trajetórias na Medicina e no universo cultural se confundem na ação e no saber, na inteligência e no altruísmo, do “ser” superando o “ter”, três vidas vividas para o bem, para os mais necessitados, doando conquistas para a sociedade. Anteriormente apresentamos um ensaio sobre Antônio Garcia. Na sequência, falo de Augusto Leite.
AUGUSTO
Em 1986, Sergipe se preparava para as comemorações do Centenário de Nascimento do eminente cirurgião. A Sociedade Médica de
Augusto Leite
Sergipe lança, naquela oportunidade, uma edição especial de seu jornal em comemoração à data. Na condição de responsável pelo boletim, entrevistei pessoas e busquei fontes. Produzi então uma acalentada edição especial de doze páginas, com depoimentos de médicos, alguns inéditos, entre eles o de Gileno Lima, fundador e presidente de honra da Academia Sergipana de Medicina, revelando um acontecimento memorável do qual foi protagonista, envolvendo o Dr. Augusto Leite, no ano de 1962, com o título “A volta do velho cirurgião” . A emoção foi traduzida no editorial que escrevi: “Que fascínio poderia este homem exercer sobre toda uma geração? Que fascínio poderia exercer este médico sobre seus pacientes? Onde conseguia arregimentar forças para desempenhar as suas pioneiras atividades? Mergulhei no passado para tentar responder a essas indagações que muito me intrigavam! E dele saí com a certeza de poder resumir tudo numa única frase: “Ação e amor ao trabalho”.
Dos três, Augusto foi o primeiro a receber o grau de doutor em Medicina, no início de 1909, no Rio de Janeiro, (ano que Moreno nascia, na cidade de Laranjeiras), após defender a tese “Da contraindicação renal ao emprego do salicilato de sódio”, um século depois da fundação, por Dom João VI, do Colégio Médico-Cirúrgico da Bahia, instituição que iniciou o ensino médico no Brasil. Graças ao extraordinário acervo do nosso confrade Petrônio Gomes, a tese do Dr. Augusto Leite está sendo adicionada hoje ao acervo da nossa Biblioteca Pública.
Em 1913, Augusto Leite é nomeado pelo então presidente da Associação Aracajuana de Beneficência, mantenedora do Hospital, o desembargador Simeão Sobral, para compor o seu corpo clínico. Até então, Augusto Leite operava em residências e fazia partos, às vezes à luz de querosene.
Em 9 de novembro de 1914, numa data que entrou para a história da medicina sergipana, o Dr. Augusto expôs à luz do dia a cavidade abdominal de uma paciente, para dela retirar um fibromioma uterino. Até então, nunca, ninguém, em Sergipe, abrira um ventre em operação cirúrgica. Estava, finalmente, inaugurado o ciclo da chamada “grande cirurgia” no Estado.
No entanto, em 1918, um fato abalou a vida de Augusto Leite. Em 12 de abril, o falecimento do jovem Ewerton Coelho, agitou o pequeno estado. Nas palavras de Acrísio Torres, uma “inominável conjuração que suscita rumoroso caso clínico”, envolvendo um dos mais renomados médicos sergipanos daquela época: Helvécio de Andrade. Detalhes desse rumoroso caso fogem do escopo da minha manifestação. A professora Cristina Valença, em “Medicina, Educação e História – a trajetória de Helvécio de Andrade” descreve o episódio detalhadamente e ao final conclui que “na realidade, os fatos estão envolvidos por considerações subjetivas e descerram perspectivas da intelecção do real. Por vezes, podem levar a conclusões errôneas de um episódio ou fato histórico. Assim, o objetivo não seria determinar o culpado, mas evidenciar que o campo médico sergipano não estava alheio a conflitos e lutas pelo poder”.
Apesar de contar com o apoio da quase totalidade dos seus pares médicos da época, que lhe manifestaram total solidariedade, Augusto sentiu o peso do episódio. Segue depois para a América do Norte, atendendo convite do professor americano Albee e na renomada Clínica Mayo, para aprimorar seus conhecimentos nas novas técnicas cirúrgicas que a ciência médica empreendia, após a descoberta da anestesia. Ficou dois anos por lá. Em seguida, Paris, onde termina a sua especialização.
No início de 1923, já em terras sergipanas, Augusto reivindica ao presidente do estado, Maurício Graccho Cardoso, a construção de um novo hospital na cidade, onde pudesse exercer com segurança a moderna cirurgia, com um meio cirúrgico adequado ao desenvolvimento e prática de novas intervenções. Em novembro, era batida a pedra fundamental do futuro Hospital de Cirurgia.
Finalmente, em 1926, no areal da Thebaidinha, é inaugurado o hospital, dando nome ao bairro onde nasceu, hoje densamente povoado. Se no Brasil as leis fossem cumpridas, o bairro que abriga o hospital deveria ser chamado de Bairro Dr. Augusto Cezar Leite, conforme Lei Municipal 581, de 8 de maio de 1978, assinada pelo engenheiro João Alves Filho, então prefeito de Aracaju.
A administração do hospital foi entregue pelo governo, sob as bênçãos do bispo diocesano Dom José Thomaz Gomes da Silva, às Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, entre elas as irmãs Úrsula, Bernardina, Berarda, Theodata e Clara, todas alemãs.
Cinco meses após a inauguração do Cirurgia, que funcionava a pleno vapor nas suas três salas cirúrgicas, Augusto Leite retira-se do hospital Santa Isabel, após realizar em treze anos quase 500 grandes cirurgias. As motivações que determinaram a saída do cirurgião nunca foram devidamente explicadas. O Conselho de Administração da Associação Aracajuana de Beneficência, mantenedora do hospital, presidido pelo Almirante Aminthas Jorge, havia decidido suprimir os serviços de alta cirurgia e essa decisão foi um golpe nas pretensões de Augusto Leite em continuar operando no nosocômio. A dor sentida por esse fato foi tão grande, que ele só voltou ao Santa Isabel no dia em que esse hospital completou o seu primeiro centenário de existência, em 1962, numa ação bem articulada do Dr. Gileno Lima, então diretor. Haviam passados 36 anos. Estava sendo cicatrizada o antigo e grave ferimento.
No Hospital de Cirurgia, Augusto Leite continuou sua vida sempre vitoriosa, com novas conquistas a cada ano, apesar de ter passado sempre por enormes dificuldades e crises. Uma delas, pouco conhecida, houve, naquela época, quem o quisesse tomar para o governo federal, com o novo nome de Centro Hospitalar Getúlio Vargas. Isso não vingou, todavia. O hospital cresceu e prosperou, tornou-se um hospital geral, também de clínica médica não só cirúrgica, onde as várias especialidades foram sendo exercitadas. Surgiram o Hospital Infantil e um grande pavilhão com três pisos para o Centro de Puericultura e a Escola de Auxiliares de Enfermagem.
Em 1943, a construção de um novo pavilhão abrigou a Maternidade Francino Melo. Nessa mesma década, planejou Dr. Augusto a construção da Casa Maternal, que depois de pronta recebeu o nome de Amélia Leite. Nela seriam abrigadas as mães adolescentes e mães solteiras, mães sem posse e mães envergonhadas, filhos desemparados e filhos sem pais, funcionando em regime de internato e externato. Veio a Escola Raio de Sol, para pequenos de dois e três anos. O que Dr. Augusto Leite fez pela criança sergipana só se compara à sua saga de cirurgião. Enquanto vivo esteve, a Casa Maternal foi a menina dos olhos de Dr. Augusto, nas palavras de Juliano Simões que, na entronização da herma em homenagem ao cirurgião, colocada no pátio do Hospital de Cirurgia, disse: “A rijeza do bronze expressa para sempre a firmeza com que Augusto Leite, pelo seu saber, tem podido ser útil à humanidade sofredora” .
Em 1953, com Moreno à frente, ideólogo da ação, instala a Sociedade Civil Faculdade de Medicina,
entidade mantenedora da futura escola médica, com Augusto no seu comando. Ainda não era o momento certo. Futuro prédio e quadro de professores chegaram a ser definidos. Mas faltava a ação e a determinação, que só vieram anos depois, em 1959, quando o médico Benjamin Carvalho assumiu a Sociedade Mantenedora e aliou-se à firme decisão do governador Luiz Garcia em fundar a faculdade. O governador, para não ter dúvidas, nomeou o seu irmão Antonio, para comandar a superpoderosa secretaria recém criada de Educação, Saúde e Cultura. E Garcia não perdeu a oportunidade.
Quando o Dr. Augusto Leite completou 50 anos de sua formatura, em 18 de janeiro de 1959, Sergipe inteiro engalanou-se para homenageá-lo. Realizou-se uma sessão solene no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, com diversos oradores se revezando nas homenagens. Augusto extrapolou suas atividades médicas. Foi diretor da Escola de Aprendizes, de 1910 a 1916, quando passou a lecionar História Natural e de Higiene, do antigo Atheneu Sergipense. A partir de 1918 passou a ensinar História Natural no Seminário Diocesano. Foram seus alunos, por aquele tempo, Dom Mário de Miranda Vilas Boas, Monsenhor Carlos Costa, Monsenhor Dr. Alberto Bragança de Azevedo, Monsenhor Domingos Fonseca, desembargador Humberto Sobral e o professor e Dr. José Olino, estes dois últimos quando seminaristas. Participou ainda da assembleia de fundação da Faculdade de Direito em 1950, sendo escolhido o primeiro professor da disciplina de Medicina Legal, depois substituído por Garcia Moreno.
Em certa fase de sua vida, tomou parte em atividades políticas, tendo chegado a Senador da República por Sergipe, de 1934 a 1937, renunciando ao mandato com a decretação do Estado Novo por Getúlio Vargas.
Na Assembleia Constituinte Nacional, defendeu teses, àquela época, que hoje estão perfeitamente atualizadas e sendo acolhidas e executadas.
Outro 50 anos, o do Jubileu de Ouro da primeira laparotomia feita em terras de Sergipe, foi celebrado de uma forma incomum, inusitada. Foi no Hospital Santa Isabel que aquela operação fora executada em 9 de novembro de 1914. O nosocômio se engalana para comemorar o quinquagésimo aniversário de sua realização, em 1964. Augusto repete, então com 78 anos de idade, a mesmo tipo de operação que fizera há 50 anos. Depois, entregou ao Dr. Gileno Lima, diretor do Hospital fazendo um especial presente de valor, assim histórico quanto estimativo, para lá ser guardado, como recordação sua, o bisturi de ouro que os colegas lhe ofereceram no dia do seu jubileu áureo profissional. Coube ao Dr. Juliano Simões ser o intérprete das homenagens prestadas pelo corpo clínico e administrativo do hospital naquela oportunidade. O diretor do hospital Gileno Lima, certa vez me confidenciou: “Confesso-lhe, honesta e humildemente, que de todas as realizações de nossa gestão à frente do hospital nenhuma, mas nenhuma mesmo sobrepujou, pelo seu significado afetivo e alto teor de justiça, a volta do velho cirurgião, do filho pródigo ao centenário Hospital”.
Moreno certa vez, disse: “Augusto é um tema rico, fértil e fácil”. Falar sobre a sua vida é assunto quase inesgotável, tão cheia de serviços prestados à humanidade, tão plena de benefícios ao próximo, tão rica de benesses distribuídas com a fartura de sua prodigalidade, engrandecidas pela bondade de seu coração e grandeza de sua alma como pessoa humana, como profissional consciente, como médico humanitário, como cidadão presente, como chefe de família exemplar.
Certa vez, disse Jacinto de Figueiredo, apropriadamente, em um soneto em homenagem a Augusto: “Não louvo o homem, louvo o altruísta, – bondade, vocação, desprendimento”. Cuja mais bela arma de conquista em prol do bem comum – é o sentimento”.
João Gilvan Rocha, que ocupou assento neste sodalício na mesma cadeira primeiramente ocupada por Augusto, disse certo dia sobre o seu antecessor: “Ele não foi somente a maior figura da medicina sergipana de todos os tempos. Era basicamente um intelectual. Um intelectual que da província mirava e acompanhava o mundo. Um intelectual que, com perícia incomum, manejava seu instrumental de cirurgião”.
Segundo um dos seus biógrafos, o saudoso Luiz Antônio Barreto, Augusto Leite teve dois momentos importantes na sua biografia. O primeiro, quando participou da fundação da Academia Sergipana de Letras, em 1929 e o segundo, quando criou em 1933, o partido político União Republicana de Sergipe, que o levou à Constituinte nacional, como Senador. Porém, com o Estado Novo, desgostoso com os rumos do país, Augusto encerrou definitivamente a sua carreira política e retornou à medicina, como já disse anteriormente.
Por suas mãos, muitas vidas foram salvas e muitas obras foram edificadas. Mãos que lutaram com a morte em nome da vida. Mãos que o senhor abençoou todos os dias, semeadoras da paz, no Vale das Agonias…Mãos que foram um presente do céu para todos nós! Mãos…que fizeram menor a dor de seus semelhantes…Mãos de Augusto Leite: mãos de paz, mãos de luz, mãos de amor!” (Freire Ribeiro).
Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br/blogs
segunda-feira, 9 de maio de 2022
Doutor Gilberto Francisco, o popular GILFRANCISCO
Legenda da foto: O jornalista e escritor, GILFRANCISCO
Artigo publicado originalmente no site EVIDENCIE-SE, em 5 de dezembro de 2021
Doutor Gilberto Francisco, o popular GILFRANCISCO
Por Cid Seixas*
A vida cultural dos estados da Bahia e de Sergipe, ainda hoje, está umbilicalmente ligada, como se formássemos uma só unidade da federação, que poderia ser chamada de BASE. Muitas personalidades culturais da Bahia são, na verdade, sergipanos natos, a exemplo do José Calazans, autoridade nacionalmente referenciada pelos estudos sobre a Guerra de Canudos, e Nelson Araújo, outro importante estudioso que veio de Sergipe para enriquecer a seara dos estudos da história do teatro, das manifestações populares e também do mundo clássico greco-romano.
Coincidentemente, estes dois mestres sergipanos – que se tornaram referências capitais no contexto acadêmico e intelectual da Bahia – foram responsáveis pela iniciação de um jovem estudante de Salvador que fez um percurso de retorno às terras de Sergipe Del Rey. Vejamos então a trajetória desta figura multifacetada que traz na sua bagagem a herança de dois admirados intelectuais sergipanos.
O jornalista, pesquisador e professor Gilfrancisco, ilustre cidadão sergipano nascido na Bahia, está prestes a completar 70 anos de idade. No que pesem as muitas libras e arrobas temporais de anos vividos, ele continua arguto e produtivo. José Calasans e Nelson Araújo, infelizmente, não viveram mais tempo para testemunhar como os seus trabalhos de pioneiros retornaram à sua sempre lembrada terra natal, através do discípulo baiano – que a exemplo dos dois mestres também se vê sergipano.
Neste ano de 2021, a Universidade Federal de Sergipe, importante instituição cultural sediada no Estado, conferiu a Gilfrancisco a sua mais expressiva e elevada distinção acadêmica, o título de Doutor Honoris Causa.
Como me referi a ele como Cidadão Sergipano, devo fazer uma ressalva, antes de prosseguir com o texto de apresentação deste livro significativamente denominado A outra voz, a voz do outro.
No que pese a sua contribuição à nova terra escolhida como sua pátria intelectual, o Doutor Gilfrancisco é, por escolha afetiva e intelectual, um Cidadão Sergipano, mas não de fato e de direito, porque o devido título não lhe foi outorgado pela Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe. Outro título de natureza acadêmica que ainda não foi atribuído ao quase cidadão é o de “imortal sergipano”, conferido àqueles eleitos pelos confrades da competente Academia de Letras destas novas terras afetivamente conquistadas por Gilfrancisco.
O livro comemorativo dos 70 anos de Gilfrancisco é uma espécie de visão panorâmica do seu trabalho de jornalismo cultural. A julgar pelo título escolhido – A outra voz, a voz do outro –, já percorremos parte do melhor caminho; ou seja, estamos diante de um bom livro. O autor soube escolher magistralmente como denominar este conjunto de 18 entrevistas feitas para jornais e revistas, mas muitas delas ultrapassam a utilidade circunstancial da imprensa e se impõem como documentos da memória cultural.
Aliás, convém se repetir: este é o mérito dos escritos e subscritos do nosso autor. O lugar de destaque merecidamente conquistado por ele se deve à natureza da investigação cultivada ao longo dos anos, desde que na Bahia teve como mestres de metodologia e de trabalho dois sergipanos ilustres, os já referidos José Calasans e Nelson Araújo.
* * *
Abro parênteses aqui para dizer que acabo de ler alguns artigos do professor José Calasans Brandão da Silva – este é o nome completo do jovem sergipano que se tornou um respeitado patrimônio da vida cultural baiana e brasileira – reunidos no livro Cartografia de Canudos, uma das obras consideradas essenciais pelos estudiosos do tema. No momento estou empenhado em organizar um e-book com textos de Calasans sobre um dos muitos episódios da Guerra de Canudos.
Convém não confundir o educador José Calasans com o militar e deputado José Calazans, constitucionalmente eleito em 1892 primeiro Presidente da Província de Sergipe. Apesar de militar, este político sofreu forte oposição por parte dos apoiadores do primeiro golpe militar ocorrido no Brasil, apelidado de República.
Nascido no dia 14 de julho de 1915, o professor José Calasans fez sua formação básica no Liceu Sergipense, tendo em Salvador conquistado o título de bacharel em Direito, em 1937. Já formado, como bom filho volta à casa materna, passando a lecionar no Colégio Estadual de Sergipe e na Escola Normal Rui Barbosa. Nesta última tornou-se Catedrático de História do Brasil e de Sergipe, aprovado com distinção.
Devido à sua projeção intelectual, o mestre Calasans assumiu a presidência do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, no biênio compreendido entre 1945 a 1947.
Ainda em Sergipe, atuou em São Cristóvão, colaborando com Rodrigo de Melo Franco, como diretor do Iphan, promovendo a classificação de bens e imóveis da cidade.
Em 1947, José Calasans Brandão da Silva regressa a Salvador com a esposa e o filho José para lecionar na Faculdade Católica de Filosofia e na então Faculdade de Filosofia Ciência e Letras, núcleo formativo da futura Universidade Federal da Bahia.
No ano de 1951 presta concurso de Livre Docência de Historia do Brasil, defendendo a tese O Ciclo do Bom Jesus Conselheiro. Na mesma Faculdade, em 1959, conquista a Cátedra de História Moderna e Contemporânea, com o estudo intitulado Os Vintistas e a Regeneração de Portugal. Durante alguns anos foi Chefe do Departamento de História da UFBA e diretor da Faculdade, tendo sido eleito Vice-Reitor em 1980.
* * *
Depois de falar de um dos responsáveis pela formação BASE (Bahia-Sergipe) de Gilfrancisco voltemos ao livro A outra voz, a voz do outro, ora apresentado ao público leitor. O espesso volume comemorativo dos 70 anos do autor é dividido em três partes – (1) “História, Política e Jornalismo”, com seis entrevistas; (2) “Artes Plásticas, Cinema e Música”, formada por três conversas, uma sobre cada área artística; e finalmente a parte (3) “Literatura”, a mais longa de todas as unidades temáticas do livro, com nove entrevistas.
Observe-se que, na condição de testemunha ocular e participe ativo da vida cultural das duas unidades da federação brasileira, os estados da Bahia e de Sergipe, Gilgrancisco procura destacar o papel de personalidades de ambos os espaços territoriais e suas particularidades. Cabe agora ao privilegiado leitor deste conjunto de diálogos escolhidos mergulhar de cabeça, tronco e membros nas águas correntes deste rio de palavras repesadas. O Rio de Seu Francisco Setentão.
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* É jornalista, escritor, Doutor pela USP e Professor Titular aposentado da Universidade Federal da Bahia. Editor do site Linguagens, hospedado no endereço abaixo: linguagens.ufba.br
Texto reproduzido do site: evidencie-se.com
domingo, 1 de maio de 2022
'Bonequinha, o precursor do colunismo social em SE', por Adiberto de Souza
Legenda da foto: Da esquerda para a direita: Darcilo Costa, Carlos Henrique (Bonequinha), Adroaldo Campos, Carmelita, Heribaldo Vieira, João Aguiar, Paulo Moura, Laurindo Campos, Epaminondas e Aloisio Abreu - (Crédito da foto: Arquivo pessoal da advogada Aida Campos)
Publicado originalmente no site DESTAQUE NOTÍCIAS, em 1 de maio de 2022
Por Adiberto de Souza*
Tido como pioneiro da crônica social em Sergipe, o promotor público Carlos Henrique de Carvalho era mais conhecido por “Bonequinha”, apelido certamente atribuído ao fato de sua baixa estatura e da elegância no vestir. Sobrinho do ex-interventor do estado, Eronides Carvalho, o colunista pontificou a partir dos anos 50, sendo requisitadíssimo pela chamada high society de Aracaju. Hoje, porém, é raro encontrar citações sobre ele na internet. Para lembrar deste precursor do colunismo entre nós, recorremos aos escritos do professor Jorge Carvalho e do desembargador Artur Oscar de Oliveira Déda, este último contemporâneo de “Bonequinha” na Faculdade de Direito.
Em seu Blog Educação e História, Jorge Carvalho revela que a partir de 1954, “Bonequinha” começou a publicar a lista dos 10 homens e das 10 mulheres mais elegantes do ano. Para o colunista, a um homem não bastava ser rico. Era necessário parecer um homem de bem, do bem e de bens. Vestir roupas exclusivas; praticar esportes; frequentar festas; viajar para lugares tidos como glamourosos. Veja como o colunista adjetivava seus homenageados: “Roberto Tunes – capitalista, rapaz moço que goza de um conceito muito catu na nossa sociedade. Sua elegância predomina através de tropicais ingleses bem talhados. Ultimamente circulou em Paris, Cidade Luz”.
Segundo o professor Jorge Carvalho, o colunista possuía a exata consciência da importância que tem a divulgação dos acontecimentos sociais: “Para que uma festa badalada seja completa mesmo, é preciso a repercussão do evento nas colunas sociais”, ensinava. “Bonequinha” valorizava como poucos o fato de ser citado, ser visto. Contam que sempre que ia ao Rio de Janeiro, ao desembarcar no Aeroporto Santos Dumont, ele procurava o serviço de som e solicitava: “Por favor, chame ao balcão da Varig o doutor Carlos Henrique de Carvalho”. Sentava-se em um dos cantos e aguardava o chamado que ele mesmo atendia, passando acintosamente entre os passageiros e festejando intimamente por estar sendo visto por todos.
Num artigo publicado no Jornal da Cidade, o saudoso desembargador Artur Oscar de Oliveira Déda lembra que seu colega de faculdade fez amigos e inimigos, “estes últimos representados geralmente por pais protetores ou Romeus ciumentos”. O magistrado escreve com graça que, certa vez, numa sessão solene de posse realizada no Tribunal de Justiça, com a presença de representantes do Exército, – foi precisamente na tarde do dia 31 de março de 1964, véspera do golpe militar – “Bonequinha” discursou louvando as qualidades do novo desembargador Serapião de Aguiar Torres, chamando-o de “desembargador do povo”. Conta-se que, dias depois, o colunista fora intimado pelos militares para explicar a razão do título conferido ao magistrado. E ele calmamente esclareceu: “Sim, eu disse… desembargador do povo… quer dizer… do povo rico”. Este era “Bonequinha”.
* Adiberto de Souza - É editor do Portal Destaquenotícias
Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias.com.br
















