quarta-feira, 22 de maio de 2019

“Hunald Alencar não está mais aqui”. Mentira: está!

Hunald Fontes de Alencar: uma grande figura!

Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em 21 de maio de 2019 

“Hunald Alencar não está mais aqui”. Mentira: está!

Por Jozailto Lima

Hoje é um dia triste e alegre para a literatura brasileira. Neste 21 de maio de 2019, nosso Chico Buarque de Holanda foi distinguido com o Prêmio Camões de 2019, um quase Nobel de Literatura para um país sem Nobel de Literatura. Chico, uma das melhores pérolas da cultura brasileira - seja na música ou na literatura - merece isso e mais. Hoje é - ou seria - um dia triste por nos remeter à morte de Hunald Fontes de Alencar em 2016. Para lembrá-lo, público aqui neste portal de política um texto de minha autoria e de outro sentimento. O que vai a seguir foi postada em minha página no Facebook no 21 de maio daquele 2016.

Eu que tanto fujo da tristeza, dou-me hoje ao exercício da tristura. E dou-me por um cessamento: de repente, “a barba e as unhas” de Hunald Fontes de Alencar pararam de crescer.

Um dos nossos maiores poetas é hoje um homem a menos nesta feira-doida que é a vida. O coração que tanto lhe impulsionou à criação e lhe deu cordas pelos caminhos crespos da generosidade, resolveu dormir pra sempre na madrugada deste sábado.

Parodiando o bom e velho W. H. Auden, no poema à morte do poeta irlandês William Yeats, eu também digo, nesta hora fria, “Terra, acolhe um hóspede famoso: / Hunald de Alencar, e dá lhe repouso. / Fique a taça de Sergipe vazia / Do que continha de poesia”.

Fisicamente, Hunald de Alencar será menos um nas nossas farras presenciais a partir de agora. Tenho pena da dor que os cigarros sentirão com sua partida. Na noite de quarta-feira, dia 18, na companhia do meu filho Murilo Augusto Varjão Lima, estive com ele.

Era a estreia da peça/monólogo “Billie Holliday, a Canção”, de autoria dele, com a grande Tânia Maria e dirigida por Raimundo Venâncio. E lá estava ele no Teatro Lourival Baptista, como de sempre todo feliz e contente – eu e Murilo saímos dizendo que ele estava bem para idade, que soubemos ali numa breve consulta tratar-se de 73 anos.

O teatro era a sua outra fronteira de resistência. Uma fronteira quase lúdica, na qual se dava liricamente aos temas e aos personagens mais doidos - Billie Holliday, a lamber o assoalho da alma humana, era uma delas. E onde ele batia continência eterna e indesmontável ao seu sonho comunista que o mundo se encarregou de detonar nas últimas duas ou três décadas.

Entrei, falei com ele, conversamos sobre literatura, perguntou sobre a data de lançamento do meu novo livro “Ainda os lobos” e no final sentou-se do lado de fora, quase no batente, onde recebia informalmente as pessoas naquele bom bate-papo que sempre manejava sem empunhar o aço das razões pessoais. Hunald sabia ouvir.

Pelas vertentes da educação - bom professor de Língua Portuguesa –, da poesia, do teatro e da camaradagem pessoal, sempre tive uma saudável relação com Hunald de Alencar. Com ele e mais Maria Lúcia Dal Farra fomos jurados de um dos concursos Banese de Poesia, onde quase nos matamos lendo dois milhões de toneladas de versalhadas.

Em 2011/2012, Hunald me foi conselheiro quando estava elaborando “Viagem na Argila”, meu quarto livro. Chamar-se-ia “Baladas roucas”, mas, da análise dos poemas, ele me apareceu com a sugestão da troca de nome. Consenti. E ele me brindou com cinco parágrafos para uma das orelhas.

Hunald de Alencar era um autor com “a” maiúsculo. Era e o é. No teatro e na poesia, sua voz sempre disse com altivez a que vinha. E vinha em lufadas largas, em voos altos. Puros e precisos. Para mim, o poema “Maria Silva”, em “Ária Suspensa”, um dos seus livros, assinala com exatidão quem era esse moço:

MARIA SILVA

Das margens do rio do Sal,
Maria Silva, anfíbia
cortesã de carne e lama.

A cama patente geme
de ferrugem e goma branca.

As pernas tão arqueadas,
galopes de duras pagas.
Maria Silva pranteia
os filhos da lua cava:

pelos baixios do ventre,
pelas encostas do rio,
Maria Silva transborda
os filhos que nunca viu:

entre as alvas colinas,
mortalhados de luar,
bóiam anjos incompletos,
que o rio antoja ao mar.

Como Platão andava pendurado no eterno questionamento “O que será que Sócrates acharia disso?” em face de algo sobrenatural ou grandioso, eu aqui me pergunto: “O que será que João Cabral de Melo Neto diria deste “Maria Silva”? Sim, porque soa uma quase miniatura do seu “Cão sem pluma”, de núcleo duro, mas tão terno, tão humano e tão afirmativo.

Gosto muito de um dos aforismos do Borges, segundo o qual o sujeito pode passar a vida inteira garatujando uma obra, e apenas um par de versos lhe salvar ao fim da lida. Se uma situação dessas tivesse de ser aplicada ao nosso Hunald Fontes de Alencar, restaria dúvida de que ele teria chegando ao nirvana neste quarteto?:

pelos baixios do ventre,
pelas encostas do rio,
Maria Silva transborda
os filhos que nunca viu

Seguramente, não. Dou o direito da tristeza pela morte de Hunald, mas, alegremente, jacto-me nesta hora triste por ter partilhado com ele momentos bons nestes caminhos nada brandos da escrita.

Nunca me esquecerei da alegria moleca com que ele sempre me falava de “José em sonho”, poema do meu livro “Retrato diverso”, que tematizava meu pai do outro lado da vida. Ele dizia que se lhe coubesse selecionar os 100 melhores brasileiros poemas do novo milênio, esse entraria. O poema fala de visita no pós-morte, logicamente através do sonho:

Meu pai vence o chão e me visita
Quase todas as noites.
É tão doce a sua presença
- eu órfão neste pasto enorme

O chão que nos separa nem assusta
- não é limite pra pânico ou alarde
Apenas arde, e sei que será meu
Ao fim de qualquer tarde.

É isso aí, Hunald Fontes de Alencar, o chão que a partir de hoje será teu, em mim por enquanto “apenas arde, e sei que será meu / Ao fim de qualquer tarde”. Vá se entendendo aí com o camarada Caronte, amigo, e que a terra lhe seja leve!

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Ensaio biográfico de Valmir Fernandes Fontes


Publicado originalmente no site do Portal Infonet, em 14 de maio de 2019 

Ensaio biográfico de Valmir Fernandes Fontes
Por Lúcio Antônio Prado Dias (Blog Infonet)

Participei nesta segunda-feira, 13 de maio, na Sociedade Semear, da concorrida noite de autógrafos da escritora Ana Maria Fonseca Medina, da Academia Sergipana de Letras, autora do livro “Dr. Valmir Fernandes Fontes – Ensaio Biográfico”. Tive a honra de escrever uma das abas do livro (a outra foi da lavra do confrade Francisco Rollemberg). Fui também um dos oradores na solenidade, ao lado da escritora e do homenageado, além do ex-governador Albano Franco. Não poderia deixar de registrar o meu contentamento e a honra de poder participar do projeto, na condição de presidente da SOBRAMES do meu estado.

O médico VALMIR FERNANDES FONTES, sergipano de Boquim, se destacou na medicina paulista com repercussões internacionais, mas pouco conhecido dos sergipanos.

A sociedade atual carece de paradigmas, de modelos a imitar, de exemplos a seguir. Valmir, um luminar da ciência brasileira, sergipano de Boquim, emprestou à Bahia e ao Brasil, ciência, humanismo e inteligência. De Boquim para Salvador, desta para São Paulo, até o reconhecimento científico, nacional e internacional, no cenário da cardiologia pediátrica, fazendo parte da equipe de Adib Jatene. Nada escapou ao olhar e à pesquisa da escritora que ostenta o condão de levar ao conhecimento da sociedade a dignificante história de vida de Valmir Fernandes Fontes, na construção da base moderna da ciência brasileira.

A contribuição da Imortal da Cadeira 16 da ASL inclui publicações a exemplo de Ponte do Imperador (1999); a organização das   Efemérides Sergipanas de Epifânio Dória (2009); Mário Cabral – vida e obra (2010) e as Crônicas da passagem do século, reunindo narrativas produzidas pelo médico Edilberto Campos (2017). As pesquisas que realizou sobre os Fernandes da Fonseca, para a tessitura de Trilhando Memórias (2013), foram fundamentais para a consolidação do seu desejo de aprofundar os estudos sobre a vida e a obra de Valmir Fernandes Fontes. Para tanto, pesquisou em arquivos e bibliotecas, conversou com alunos e colegas de profissão do médico, referência para as suas sólidas formações intelectuais e científicas.

Este livro é portador de uma história envolvente, fruto da sua capacidade intelectual exposta em escrita elegante e refinada, conhecimento fundamentado da trajetória de um sergipano que, pela força arrebatadora e libertadora da educação, alcança os píncaros da glória na Medicina Brasileira.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br/blogs

Albano lembra d. Mariá em artigo de jornal

Imagem reproduzida do site A8 SE e postada pelo blog SERGIPE...

Texto publicado originalmente no site do Portal Infonet, em 15 de maio de 2019

Albano lembra d. Mariá em artigo de jornal
Por Ivan Valença (Blog Infonet)

Na qualidade de ex-aluno do Colégio do Salvador, o ex-Governador do Estado e ex-Presidente da Confederação Nacional da Indústria, Dr. Albano Franco, não poderia deixar passar em branco o falecimento da Professora Mariá Galrão Almeida que, por quatro décadas dirigiu aquele estabelecimento de ensino, transformando-o num exemplo para muitas gerações de sergipanos. Em artigo publicado esta semana num jornal local, o Dr. Albano Franco lembra-se dela como uma mestra durona, que dirigiu uma escola quase castrense, “até hoje um paradigma, um referencial no ensino fundamental e básico do nosso Estado”. “A pedagogia do Colégio Salvador incluía o castigo, o puxavante de orelhas, quando o aluno não dava contas de suas lições e não se comportava adequadamente”. Albano confessa que recebeu muitas repreensões em casa, porque não fazia o dever de casa com toda responsabilidade. “Confessa ainda que “sua mãe sabia quando Dona Mariá lhe havia castigado por não ter feito o dever de casa ou qualquer outra obrigação que não cumpria”. Em seu texto, Albano relembra ainda de colegas que eram estudantes brilhantes, tirando nota 100 em todas as matérias. Cita então a futura desembargadora Marilza Maynard, “honra e glória da Justiça sergipana” e a professora Jussara Leal, “luminar do Direito Penal e Penitenciário, ambas pontificaram com suas inteligências notáveis quando lá estudaram”. Albano cita ainda que todos que estudaram no Colégio do Salvador tem uma dívida de gratidão com as professoras da família Almeida – Mariá, Bernadette, Zorilda e Amanda – “que lhes ensinaram a ser gente”.

Texto reproduzido do site: infonet.com.br/blogs

terça-feira, 7 de maio de 2019

Maria Angélica Galrão de Almeida, Dona Mariá (1925 - 2019)


Publicado originalmente no site FAN F1, em 07/05/2019 

Morre ex-diretora do Colégio Salvador

Por Leonardo Barreto|

Aos 94 anos, morreu no final da tarde dessa segunda-feira, 6, a ex-diretora do Colégio Salvador, Maria Angélica Galrão de Almeida, ou apenas Dona Mariá, como era carinhosamente chamada.

Dona Mariá, estava internada há oito dias em um hospital particular de Aracaju (SE) e morreu vítima de pneumonia.

O velório da ex-fundadora e professora começou por volta das 21h dessa segunda-feira, 6, na quadra do Colégio Salvador, no bairro Jardins, instituição que ela e a irmã construíram há 84 anos.

Maria Angélica Galrão de Almeida (D. Mariá)
Foto: Fan F1

Despedida a Dona Mariá (Foto: Fan F1)

Amigos, familiares, autoridades e ex-alunos passaram pelo local durante toda a noite para prestar as últimas homenagens à professora, lembrada por sua conduta firme na educação de milhares de alunos aracajuanos.

Nascida na Bahia, Dona Mariá chegou em Aracaju junto com a família em 1930, começando, assim, sua história com a cidade que abraçou. Iniciou seu curso Primário no próprio Colégio que, posteriormente, assumiu com sua irmã Bernadete.

Concluiu seus estudos na Escola Normal (Instituto Rui Barbosa). Na década de 1940, as duas irmãs, com 14 e 18 anos, estavam à frente do Colégio que, mais tarde, se tornaria um dos mais tradicionais do Estado.

O sepultamento do corpo da dona Mariá está marcado para as 10h desta terça-feira, 7, no Cemitério Santa Isabel, na Zona Norte de Aracaju.

Texto e imagens reproduzidos do site: fanf1.com.br

Morre D. Mariá do Colégio Salvador.

Foto reproduzida do site: colegiodosalvador.com.br

Texto publicado originalmente no site Alô News, em 06/05/2019

Morre D. Mariá do Colégio Salvador.

Educadora foi exemplo para várias gerações de sergipanos

A professora Mariá Galrão de Almeida, diretora do Colégio Salvador, morreu nesta segunda-feira (06), por volta das 17:30 horas e o seu velório acontecerá a partir das 21h no ginásio do próprio colegio e o sepultamento acontecerá amanhã (07) no Cemitério Santa Isabel, e as aulas serão suspensas. Conhecida pelo estilo sério e respeitoso de conduzir a educação dos seus alunos, D. Mariá, como era chamada, participou diretamente do ensino particular de Sergipe há vários anos. D. Mariá estava internada em um hospital de Aracaju e deixou a UTI nesta segunda-feira (06), logo depois veio a falecer vítima de pneumonia.

Educadora exemplar, Dona Mariá deixa um legado de obras educacionais que contribuíram para formação de diversos jovens, professores e colaboradores em Sergipe. Por décadas serviu à educação como professora e diretora do Colégio do Salvador e com uma visão além do seu tempo, dedicou-se sempre ao ensino e formação de crianças e adolescentes. Graças aos seus ensinamentos, hoje muitos contribuem para formação de nossa sociedade. Seu legado foi marcante para nosso Colégio, como também o apreço de todos os colaboradores que tiveram a honra de serem dirigidos por ela, inclusive em áreas como Direito, Medicina Engenharia e tantas outras áreas, cujos alunos ainda hoje a reverenciam como uma das mestras de melhor qualificação.

Texto reproduzido do site: alonews.com.br

Uma grande perda



Fonte: colegiosalvador.com.br

História Colégio do Salvador, em Aracaju


Fotos do blog "Aracaju Saudade" de Eudo Robson.
Reproduzidas do blog: aracajusaudade.blogspot.com.br

Foto reproduzida do site: somoseducacao.com.br

Imagem Divulgação

História Colégio do Salvador, em Aracaju

No início da década de trinta, o casal José Leite e Anísia, já pais dos doze filhos que compunham a família Galrão, mudarem-se da Bahia para Sergipe. Apenas uma das filhas, Zilda, permaneceu em Salvador para concluir o curso pedagógico. Uma vez formada, todavia, a jovem mudou-se para Aracaju, onde começou a dar aulas particulares para alguns jovens e crianças.

No início de 1935, satisfeita com o resultado do seu trabalho, resolveu abrir um colégio o qual se instalou, primeiramente, na sala de uma casa muito simples, localizada na Rua São Cristóvão. Naquele ano, uma turma de quinze alunos deu seguimento ao primeiro ano de vida do estabelecimento de ensino que recebeu o nome de Colégio do Salvador.

Em seguida e sempre aumentando o número de alunos, o Colégio adotou o regime de pequeno internato. Nessa época, Bernadete, uma das irmãs de Zilda, passou a auxiliá-la no novo empreendimento, enquanto, paralelamente, terminava os seus estudos. Também a irmã Nadir que, até então, ensinava no Colégio Jackson Figueiredo, veio juntar-se à equipe. Por sua vez, Mariá, uma outra irmã, iniciava o curso primaria no próprio Colégio.

Em 1942, quando o número de alunos já ultrapassava mais de uma centena, o Colégio mudou-se para a Travessa José de Faro, de onde só sairia, tempos depois, para funcionar na famosa sede que se localizou na Avenida Ivo do Prado, 182. Naquele mesmo ano, Zilda cedeu a um desejo antigo, o de se tornar religiosa, e ingressou no Instituto das Missionárias de Jesus Crucificado, na cidade de Campinas, em São Paulo, passando a ser conhecida como Irmã Zilda.

O Colégio, então, ficou entregue às irmãs mais jovens, Bernadete e Mariá, que contavam, à época, 18 e 14 anos respectivamente, já que Nadir também se afastou, vez que, ao se casar, foi residir em Salvador. Dali em diante, o Colégio prosperou e os alunos passaram a obter, nos exames a que se submetiam, excelentes resultados.

Com o crescimento da instituição, integraram-se ao quadro duas outras irmãs pertencentes à numerosa prole: Amanda e Mariazinha. Em 1959, foi aberto o curso do ginásio com turmas mistas e, em 1976, partiu-se para o segundo grau.

Hoje, instalado em nova e ampla sede, localizada na Avenida Ministro Geraldo Barreto Sobral, s/n, no Bairro Jardins, o Colégio do Salvador busca a modernidade, mas sem esquecer os princípios de fé, respeito e cidadania que devem nortear “Os jovens de hoje” – “Os grandes homens do amanhã”. Vem-se atualizando, porém conserva intacto seu tradicional padrão de ensino. Assimila as novas propostas da área educacional sem, contudo, esquecer o desenvolvimento religioso, moral e cívico.

O Colégio do Salvador passa a fazer parte da rede de escolas próprias da SOMOS Educação, se tornando a primeira marca da SOMOS no estado de Sergipe. A SOMOS Educação é um grupo com um amplo portfólio de soluções educacionais que conta com escolas próprias, sistemas de ensino, editoras, além de produtos e serviços para gestão e formação complementar de alunos e professores.

Texto reproduzido do site:  colegiosalvador.com.br

Entrevista com Dona Mariá, do Colégio do Salvador


Publicado originalmente no site do Colégio do Salvador, em 23/02/2016 

Especial 81 anos: Entrevista com Mariá Galrão 

Matriarca da família de origem portuguesa, Galrão, Maria Angélica Galrão, mais conhecida como Dona Mariá, é personagem ativo da tradição de oito décadas do Colégio do Salvador. Professora e defensora da Língua Portuguesa, Dona Mariá destaca em nossa entrevista exclusiva os alicerces que fazem do Colégio do Salvador um sinônimo de fé, respeito e aprendizado. Conheça mais esta bela trajetória por amor à educação.

Matriarca da família de origem portuguesa, Galrão, Maria Angélica Galrão, mais conhecida como Dona Mariá, é personagem ativo da tradição de oito décadas do Colégio do Salvador. Professora e defensora da Língua Portuguesa, Dona Mariá destaca em nossa entrevista exclusiva os alicerces que fazem do Colégio do Salvador um sinônimo de fé, respeito e aprendizado. Conheça mais esta bela trajetória por amor à educação.

– Qual a história da fundação do Colégio do Salvador?

Mariá Galrão (MG) - A nossa família era muito numerosa, sendo 12 filhos - sete mulheres e cinco homens. Uma das irmãs mais velhas foi estudar na Bahia, da onde viemos antes de chegar em Aracaju. Ela se formou em Letras e nosso pai a aconselhou a abrir um colégio. Em uma sala bem simples na Rua de São Cristovão, ela fundou o Colégio do Salvador no dia 2 de fevereiro de 1935. Como já era boa professora, muito dedicada, logo os dois primeiros alunos se transformaram em mais de cem. Por isso precisou de outra irmã para trabalhar no colégio. E assim formou-se a primeira geração de gestores do Colégio do Salvador. Anos depois uma tornou-se freira e a outra se casou.

- Em que momento a senhora passou a integrar o Colégio?

MG - Abandonar o colégio não era possível, então a segunda geração assumiu a gestão do colégio. Minha irmã Bernardete e eu, com 14 anos de idade, formamos a segunda geração de gestores. Eu tinha acabado de sair da Escola Normal e toda a minha história de vida foi constituída aqui. Meus filhos foram crescendo e gostando do ambiente, e assim formou a terceira geração no Colégio. Atualmente, o colégio é gerido pela quarta geração da família Galrão, com os netos.

- Qual o sentimento da senhora em ver esse legado?

MG - Fico muito contente, pois eu quero muito bem ao colégio. Temos uma tradição e isto nos diferencia em relação aos outros colégios. Posso destacar como um valor a fé que cultivamos em Deus. Somos da religião católica e aceitamos alunos de outras religiões, desde que respeitem a nossa. Um segundo valor é a disciplina muito severa. Temos reuniões mensais com os professores, com pais e com os alunos. Orientamos o aluno sobre como se relacionar com o professor, com o colégio e como se comportar na rua. E o terceiro pilar que nos diferencia é a língua portuguesa. Eu já tenho 80 anos e ainda leciono na escola com muito prazer. Esses são os três diferencias do Colégio do Salvador: a Fé em Deus, a Disciplina e a defesa da Língua Portuguesa.

- Como esse sucesso se perdura por oito décadas?

MG -Primeiro porque temos a benção de Deus, depois a disciplina. Atualmente vemos alunos agredir e ofender professor, mas aqui no Colégio Salvador não ocorre esses fatos. A língua portuguesa também atrai muitos alunos para nossa instituição. Quem matricula um filho aqui, já conhece a nossa filosofia. Muitos profissionais de destaque no mercado, que ocupam vagas na Justiça e em áreas da Medicina, já estudaram no Colégio do Salvador. Graças a Deus estamos muitos satisfeitos com a disciplina e os pais também estão.

- Poderia deixar uma mensagem aos nossos leitores?

MG - A educação é indispensável para a vida particular, profissional e social. Educar é preparar para vida. Esta é a missão do Colégio do Salvador há 81 anos com muita felicidade e sob as graças de Nossa Senhora.

Texto e imagem reproduzidos do site: colegiodosalvador.com.br 

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Com a leveza e a beleza dos deuses

Escultura de Nossa Senhora da Conceição

Publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 26 de abril de 2019

Com a leveza e a beleza dos deuses
Por Lúcio Prado (Blog Infonet) 

Zeus, tu és soberano dos céus, mestre dos fenômenos naturais que comanda os corpos celestes e faz tremer o universo com um gesto de tua cabeça. Teu nome deu origem à palavra deus e mesmo com todas as tuas contradições, tu és o rei dos deuses, apesar de não seres justo sempre. Justiça é algo que ocorre entre iguais, e Zeus está acima de todos. O nosso “Zeus”, o Zeus sergipano, tem sua obra espalhada pelo mundo, em esculturas divinas.

Conheci a arte de Zeus na década de 90, graças ao memorável Dinho Duarte, que tão jovem partiu dessas paragens levando uma boa parte da nossa arte mais fulgurante. Na virada dos 90 para o novo século estávamos às voltas com projetos memoráveis, que culminou na instalação do Cantinho da Arte da Unimed, um espaço alternativo para a difusão da arte e da cultura em nosso Estado, mais notadamente em Aracaju. Através da iniciativa e do trabalho dele, em parceria com Ilma Fontes, abrimos as portas da cooperativa para diversas manifestações artísticas e o “cantinho” foi a ação mais esplendoroso do Programa Unimed Cidadã. Muita gente envolvida. Ismar Barreto e João Alberto fizeram o gingle, Dinho e Ilma Fontes abriram caminhos para os jovens iniciantes, vieram os catálogos impressos, entre eles o Catálogo dos Artesãos. Nele estava Zeus, com toda a sua maestria. Mas tinham outros… Melquíades, Véio, Dona Judite, João do Cesto, Pedrinho Ará, Maria Lúcia Ribeiro, Cristina dos Santos, Alzira, Hercílio…

O Cantinho da Arte, enquanto durou, trouxe expressiva colaboração para a disseminação de jovens talentos, não só nas artes plásticas, como também na literatura e na música. Mas não é o Cantinho da Arte que queremos destacar aqui. Queremos falar de Zeus…


Visitava recentemente um parente numa casa na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, quando observei no jardim da residência a escultura de um santo talhado em cedro, de uma beleza fulgurante. Frente a minha admiração, o morador provocou: – É da sua terra! Retruquei-lhe: – Como? O santo? – Não, o escultor, olhe a pedestal! Leia quem esculpiu o nosso Frei Bento. Estava lá:  Zeus. Arrematei: – Deus!

Neste mês de março, o governo de Sergipe inaugurou uma exposição para celebrar os 164 anos de Aracaju, quando revi Zeus participando da coletiva e contei-lhe sobre o meu achado. Ele lembrou: – Foi uma encomenda do querido amigo Dinho Duarte para presentear seus tios que residiam naquela cidade, mas não me lembrava mais disso. Ficou feliz com a minha observação. Fiz um comentário em redes sociais sobre o episódio e logo em seguida fui provocado pelo confrade Amaral Cavalcante, da Academia Sergipana de Letras: “você colocou o nosso Zeus na pauta, é um extraordinário artista, tão pouco reverenciado por seus conterrâneos, converse mais com ele”, instigou o editor de Cumbuca.

Marcamos então o encontro. Na Galeria Álvaro Santos, ponto central da cidade. No horário marcado, chegamos. Ao entrar, deparamos com um cenário desolador, no salão principal, nenhum quadro na parede, uma pessoa na escada preguiçosamente jogando tinta na parede. No centro da sala, na pequena carteira, do tipo escolar, um homem olhava para o serviço, com cara de poucos amigos. Era Luiz Adelmo, olhar abatido. – Não podemos ficar aí, Luiz, o cheiro da tinta está muito forte, disse-lhe, apelando para a minha autoridade médica. Um pouco a contragosto, aceitou sair dali e na saída, em frente a uma escultura de Zeus, ao lado do autorretrato de Álvaro Santos, exclamou: – É a obra de um homem que nunca me faltou, quando dele precisei. Convidei Luiz para participar da nossa conversa, mas ele alegou um compromisso no Banese. Caminhamos na direção do nosso carro estacionado na frente da antiga sede da Prefeitura de Aracaju, mais um prédio histórico de Aracaju que vai se esvaindo em ruínas, um pedaço da platibanda que cai aqui, outro ali. Soube que a UNIT vai tomar posse do prédio para instalar um memorial, mas é bom que não demore!

Dali saímos para o café do Museu da Gente e na entrada nos deparamos com várias esculturas de Zeus, no átrio, no salão principal; a “Maria Bonita” que está à venda na lojinha é de uma beleza primorosa e invulgar. Sentado numa das poltronas do salão, Murilo Melins, deixava-se contemplativo, observando o entra e sai dos visitantes. Ao nos ver, exaltou Zeus, como uma reencarnação dos escultores gregos! Saboreamos água de coco e café.

Adriana Hagenbeck, que exibe na escrivaninha antiga de seu Café uma linda escultura de Zeus, chegou na nossa mesa dizendo que o que mais admirava no escultor, não era o artista, era o homem, o seu caráter, simplicidade, bondade, “que não se deixa levar por títulos, prêmios ou homenagens, mas vive a sua arte, sem vender a sua alma”, reforçando o seu lado lúdico que passei a admirar.

Fui na busca dos registros, explorar a sua arte, sua história, sua vida, que ele próprio não se sente à vontade pra falar, talvez  pela timidez e pude então constatar seus feitos, as publicações, as notícias dos jornais, como aquela que registra a Nossa Senhora que o governo de Sergipe presentou a primeira dama do Brasil, esposa de um presidente do regime militar em visita ao Estado, as exposições individuais e coletivas, a exposição “Zeus – do lírico ao sensual”, na Sala do Artista Popular, promovido pela Funarte no Rio de Janeiro, em 1997, uma vida dedicada à arte.

O nosso Zeus é o soberano da terra, oriundo da pequena Ribeira, tão formosa Ribeira, em Itabaiana, onde nasceu em 1959 e que abrigou outros talentos, como Caã, filho de J. Inácio, que lhe deu o codinome Zeus, quase um presságio do que viria a ser o jovem Jorge Alves Siqueira.

Um homem de atitudes simples e de alma livre, que não se adaptou ao burburinho e ao tipo de vida das cidades, corrida e competitiva. A Ribeira, que viu crescer o menino e adolescente Zeus era um pequeno paraíso, um lugar privilegiado pela natureza, com seus riachos intocáveis e pequenas quedas d’agua, o ar puro e o canto dos pássaros. Um cenário perfeito para os artistas, o mundo de Deus para Zeus. Um lugar que seduziu Caã e outros artistas na busca de inspiração.

O gosto pela escultura veio da admiração pelo irmão mais velho, Jorge Valdo, um arteiro completo, que fazia de tudo e jamais saiu da cabeça de Zeus os carrinhos de brinquedo criados pelo irmão que, infelizmente, após sofrer um grave acidente, o afastou da lide. “Não tinha o mesmo pensamento do mano Jorge, embora reconhecendo nele um grande talento, eu o achava muito preocupado em logo querer vencer na vida, de reconhecerem a sua arte”, disse-me Zeus. Jorge Valdo foi então para São Paulo e, infelizmente, terminou perdendo a sua arte na selva de pedra, engolido pela metrópole.

A cidade de São Cristóvão, além da Ribeira, exerceu sobre o artista uma influência notável, que o fez enveredar pelo tema sacro. Com seu estilo inconfundível, tanto na madeira como no arenito, do seu esculpir nasceram santos e corpos nus de extrema beleza. Além dos temas sacros, Zeus criou o sertanejo na labuta diária e exaltou outras figuras típicas do nordeste, como o vaqueiro, o cangaceiro, o lavrador,

Sua obra ímpar extrapola as fronteiras de Sergipe e do Brasil, colocando-o no patamar dos maiores nomes das artes visuais na atualidade. Em Zeus, a felicidade reside nas pequenas coisas, na simplicidade, nadar no Rio São Francisco e andar de pé no chão. Vê na arte a oportunidade de reverenciar os seus santos, os seus valores cristãos. Para ele, “a escultura é uma arte muita sofrida, penosa, onde as pessoas dão pouco valor”, desabafa, num raro momento de tristeza. Sim, porque na maior parte do tempo, Zeus vibra com o que faz, sem demonstrar vaidade, orgulho ou prepotência, ao contrário, esconde-se numa simplicidade e humildade franciscanas.

Para o historiador Luiz Antônio Barreto, poucas vezes um nome de artista simbolizou tanto o movimento das artes em Sergipe como o de Zeus, que é escultor de anjos e de santos, mas que é, também, artista da paisagem seca que, de tão áspera, parece uma abstração da natureza, uma natureza-viva, madrasta, algumas vezes impiedosa com os viventes.

Zeus é artista singular, porque sua arte, apesar de poder ser contextualizada na esteira do magistério religioso, tem o poder de manter-se viva, forte, inspiradora, revelando um artista que domina as emoções motivadoras, da mesma forma como sabe utilizar a consciência e a responsabilidade do fazer cultural.

Zeus trafega da obra artística para a referência da cultura que a nação nordestina tem na alma, como herança e como identidade.

Igual ao Zeus mitológico, o ceboleiro Zeus é pleno de amor. Amor pela sua terra, pelo sertão, pelo rio, pela família, seus filhos, Abraão, Zélia e Zeus, pela sua arte, única, lúdica, que invade os nossos corpos com a leveza, a sutileza e a beleza dos deuses.

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

Ilma Fontes lança livro de poesia


Texto publicado pelo site da SEGRASE, em  08/04/2019

Ilma Fontes lança livro de poesia 

"Eu selecionei apenas poemas ‘esfolados em carne viva’, não brinquei em serviço, são poemas fortes”, ressalta Ilma Fontes.

‘Nervuras: Poesia Em Carne Viva’, de Ilma Fontes é a nova obra da Editora Diário Oficial de Sergipe – Edise..., lançada no dia 12 de abril, no Centro Cultural de Aracaju, na praça General Valadão...

Aos 72 anos, Ilma Fontes diz que nunca se interessou em lançar livro de poesia. “Poesia para mim é ocasional, mas de repente, a ex.deputada estadual Ana Lúcia Menezes, me apoiou e deu toda força para lançar essa obra. Mas eu selecionei apenas poemas ‘esfolados em carne viva’, não brinquei em serviço, são poemas fortes”, conta.

“O título da obra, inicialmente, seria ‘Carne à Mostra’, mas quando eu encontrei essa folha - que é apresentada na capa do livro - pensei que deveria ser ‘Nervuras’, que passa pelos nervos, observa Ilma Fontes.

Para o presidente da Empresa de Serviços Gráficos de Sergipe - Segrase, Ricardo Roriz, “É um enorme prazer ter algo tão inusitado como este livro, sendo publicado pela Edise. A ideia da ‘caminhada das almas’ trará à vida todas as pessoas que tiveram grande importância para a história da literatura e arte em geral, não só em Sergipe, mas para o Brasil”.

Os Penitentes das Artes em Sergipe

Após o evento de lançamento, o público poderá participar da caminhada que acontecerá na Praça General Valadão, intitulada ‘Os Penitentes das Artes em Sergipe’, segundo Ilma Fontes. Nesta caminhada, que será aberta ao público, cerca de setenta nomes de pessoas que contribuíram de alguma forma para o desenvolvimento artístico do pensamento sergipano serão citados, a exemplo de Araripe Coutinho, Fernando Chaves, Iara Vieira, Clarencio Fontes, Giselda Moraes, entre outros.

“A idéia surgiu da preocupação com a rapidez que as pessoas e os seus nomes são esquecidos. É uma ideia que tomou corpo, e a cada vez que eu falo, ela se avulta”, ressalta Ilma Fontes.

Em seguida, quando a caminhada retornar ao ponto de início, haverá um recital espontâneo de poesia, e todos poderão participar. O evento conta também com filmagem e fotografia, que será enviado para Galeria Tina Zappoli, em Porto Alegre, de Marinho Neto, filho de uma das homenageadas, Tereza Prado. “Tereza fez grandes festivais de arte em São Cristóvão, quando foi diretora do Centro de Cultura de Arte, da Universidade Federal de Sergipe”, relembra Ilma Fontes.

Fonte do site: segrase.se.gov.br

quarta-feira, 17 de abril de 2019

O crime mais rumoroso de Aracaju


Publicado originalmente no site do Portal Infonet, em 14 de abril de 2019

O crime mais rumoroso de Aracaju
Por Marcos Cardoso (Blog Infonet) 

O Brasil é um dos países mais violentos e Sergipe não escapa da epidemia de homicídios que aterroriza a todos. A outrora pacata Aracaju é hoje até citada como uma das cidades mais violentas do mundo, o que é contestado pelas autoridades.

Mas no passado aconteceram crimes que marcaram a história da cidade. O caso mais famoso foi o assassinato do médico e político Carlos Firpo, que ficou conhecido como o Crime da Rua Campos. Já há mais de 50 anos, no dia 25 de maio de 1958, o médico foi morto a facada enquanto dormia, no quarto de sua casa. O crime jamais foi inteiramente esclarecido.

“O impacto que provocou na sociedade foi superestimado sensacionalmente pela imprensa escrita e falada em proporções jamais vistas em Sergipe”, recorda o historiador Ibarê Dantas (“Os Partidos Políticos em Sergipe: 1889-1964”).

“Embora hoje se acredite que o homicídio foi motivado por razões passionais, as explorações desenvolvidas em torno do caso em pleno ano eleitoral foram de tal ordem que nunca ficou inteiramente esclarecido, permanecendo como um exemplo daqueles tempos tumultuados do primeiro governo udenista” de Leandro Maynard Maciel.

Vinculado à UDN, diretor do Hospital Santa Isabel, Carlos Firpo era apontado como provável companheiro de chapa de Heribaldo Dantas Vieira, que pleiteava candidatar-se ao governo do Estado. Seu desejo de candidatar-se contrariava interesses do seu partido.

Insinuou-se na época que o também prestigioso médico e então vice-governador José Machado de Souza teria relação com o assassinato, informação que foi prontamente rechaçada pelas demais autoridades estaduais, que chagaram a fazer uma manifestação de solidariedade e desagravo na porta de sua casa, na rua Pacatuba. Dr. Machado era amigo de Carlos Firpo.

Pires Wynne (“História de Sergipe: 1930-1972”) cita o caso de forma parcial, com o intuito de fazer a defesa do vice-governador, e transcreve um capítulo do livro Sergipe por um Óculo, do general José Lopes Bragança, que tampouco é imparcial e tenta tão-somente provar a inocência da viúva, Milena, e do então coronel da Aeronáutica Afonso Ferreira Lima.

Ela é filha do imigrante italiano Nicola Mandarino, sobre quem, pouco mais de uma década antes do crime, havia se abatido outra desgraça em Aracaju, quando o acusaram — injustamente, pelo que se sabe — de colaborar com os alemães que bombardearam navios na costa de Sergipe. Teve a casa depredada e quase foi linchado.

“No vandalismo, que então se praticou, todo o enxoval de Milena foi perdido. Para quem fosse supersticioso, isso seria considerado mau augúrio para o casamento”, escreveu o general Bragança.

O baiano Afonsinho, assim carinhosamente conhecido, era amigo e frequentador da casa dos Firpo. Ele foi do Grupo de Aviação de Caça, era boa pinta e brilhante profissionalmente. Chegou a ser um dos oficiais aviadores da Presidência da República, no governo João Goulart. Foi caçado pelo Ato Institucional número 1, após o 31 de março de 1964, sendo transferido compulsoriamente para a reserva, já como brigadeiro. É falecido.

Na noite do crime, a vítima estava só no seu quarto. Dona Milena dormia com as duas filhas, Julieta e Maria da Graça, pois uma delas estaria doente. O sogro Nicola e a doméstica Gilena também estavam na casa. O fio do telefone havia sido cortado criminosamente. Após as investigações coordenadas pelo próprio Leandro Maciel, a polícia mandou prender dois indivíduos que tinham sido indiscretos em suas conversas perante um motorista de praça que os transportava para a cidade de Paulo Afonso, terra natal de Afonsinho.

Um dos detidos, o magarefe José Euclides Timóteo de Lima, que na noite do crime teria ficado de atalaia na esquina da rua Campos com Dom José Thomás, foi espancado até a morte num terreno baldio da Jabutiana, após finalmente ter incriminado Afonsinho.

Foi torturado pelos policiais de vulgo Alemão, Zé Rosendo e Carniceiro, sob a “direção pessoal do secretário do Interior e Justiça, Dr. Heribaldo Dantas Vieira, atual senador por Sergipe, com a presença do atual deputado federal João de Seixas Dória, do secretário de Segurança Dr. Antônio Machado e do Dr. Humberto Napolioni Mandarino, cunhado do Dr. Firpo”, segundo relatou o general Bragança, no seu livro editado em Belo Horizonte poucos anos depois do crime.

“Apesar de terem conseguido essa confissão feita no estertor da morte, foi pedida a prisão preventiva para todos os que ocupavam a residência do Carlos Firpo no dia do seu assassinato, exceto suas filhas menores”.

Dona Milena passou dois anos no reformatório penal, após fazer uma confissão que também teria sido forjada. Ela teria confessado um suposto romance com o coronel aviador. Afirmando depois que não disse o que constava no depoimento, foi absolvida em juízo. Sua assinatura no depoimento a Heribaldo Vieira, inclusive, teria sido falsificada.

O clamor que se criou contra ela também provocou piedade. O poeta Antônio Garcia Filho compôs uma música em sua homenagem, “Injustiçada”, que foi gravada por Alcides Gerardi.

O outro preso em Paulo Afonso, José Pereira dos Santos, o Pereirinha, acabou sendo condenado a 20 anos de reclusão como autor material do crime. Ele teria esfaqueado o médico Carlos Firpo. Mas o verdadeiro mandante, que supostamente teria sido Afonsinho, até hoje permanece sob mistério. Suspeita-se que um cunhado dele teria contratado os assassinos.

Quase 51 anos depois o crime permanece um mistério.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Por que não se fala em Manoel Bomfim?


Publicado originalmente no site Expressão Sergipana, em 01 de abril de 2019

Por que não se fala em Manoel Bomfim? 

Documentário busca dar visibilidade à vida e obra de um dos principais pensadores brasileiros

De Paulo Victor Melo 

“Uma voz que ousava dizer o indizível”, “um pensador que não temia pensar o impensável”, “o rebelde esquecido”. Com essas palavras, o sociólogo Ronaldo Conde Aguiar referiu-se a Manoel Bomfim, um dos intelectuais mais importantes para a constituição da base, corpo e alma do pensamento social brasileiro.

Com um trabalho sobre a vida e obra de Bomfim, Conde Aguiar recebeu, em 1999, o prêmio de melhor tese de doutorado no I Concurso Brasileiro de Obras Científicas da Associação Nacional de Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), demonstrando a importância da contribuição de Bomfim para o entendimento das raízes do Brasil, para a explicação da realidade brasileira e para a compreensão da relação do país com a América Latina.

Mas se o legado de Manoel Bomfim cumpre papel determinante para o diagnóstico e as buscas de saídas democráticas sobre/para o Brasil, por que esse autor tornou-se esquecido ao longo do tempo? Essa é uma inquietação presente há algumas décadas na intelectualidade brasileira, desde que Darcy Ribeiro, na metade dos anos 1980, o classificou como “o pensador mais original da América Latina”. Exemplos disso são os textos escritos por Gilson Dantas, em 1997, em que pergunta por quais motivos Manoel Bomfim fica à margem dos livros escolares, e de Aluízio Alves Filho, que afirma ser Bomfim o “ensaísta esquecido”.

Passadas mais de duas décadas dos questionamentos de Conde Aguiar, Gilson Dantas e Aluízio Filho, o cineasta e documentarista argentino, radicado há anos no Brasil, Carlos Pronzato renova as inquietações ao produzir o documentário “Por que não se fala em Manoel Bomfim?”

Com o título não deixando dúvidas sobre os objetivos da obra audiovisual, Pronzato acredita que, embora esquecido, Bomfim permanece atual, mesmo após aproximadamente 87 anos da sua morte. “A voz deste ‘rebelde esquecido’, mesmo enfraquecida, chegou até nós por meio de várias reverberações, e em uma contemporaneidade profundamente marcada pela corrupção política, pela descrença generalizada em várias instituições e por inúmeras mazelas mal resolvidas no plano social, o conteúdo das reflexões do intelectual sergipano torna-se atual e necessário, enquanto instrumento de analise para pensarmos o processo político, bem como as relações entre estado e sociedade no país”, afirma.

Uma das principais hipóteses sobre o “esquecimento” de Manoel Bomfim, abordada no documentário, diz respeito ao caráter revolucionário das suas ideias, tendo sido, por exemplo, uma das mais expressivas vozes dissonantes às teorias racistas de branqueamento da população como solução para os problemas do país, muito em voga à época. Bomfim, no caminho oposto, afirmava que o problema fundamental era uma espécie de “parasitismo social” das elites e defendia a pluralidade étnica como um potencializador do desenvolvimento do país, sendo a educação o caminho para a emancipação das classes populares.

Com lançamento previsto para o início de abril, próximo a data da morte de Manoel Bomfim (21 de abril), o documentário é construído a partir de pesquisa histórica e entrevistas com pesquisadores que produziram e continuam a produzir materiais sobre a obra de Bomfim, como Aluízio Alves Filho, citado anteriormente; Rebeca Gontijo, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e autora do livro “Manoel Bomfim”; José Vieira da Cruz, professor da Universidade Federal de Alagoas, e co-organizador do livro “Manoel Bomfim e a América Latina: a dialética entre o passado e o presente”; e Ricardo Sequeira Bechelli, que escreveu “Nacionalismos anti-racistas: Manoel Bomfim e Manuel Gonzalez Prada”.

Entendendo que a obra de Bomfim está conectada e influenciada diretamente pelo chão que o moldou, o documentário conta com depoimentos de diversos intelectuais, estudiosos e ativistas de Sergipe, estado natal de Bomfim, a exemplo de Terezinha Oliva, historiadora e professora emérita da Universidade Federal de Sergipe; Fernando Sá e Romero Venâncio, respectivamente professores de História e Filosofia da mesma instituição; Aglaé Fontes, integrante da Academia Sergipana de Letras e pesquisadora da cultura sergipana; Ana Lúcia Vieira Menezes, professora e ex-deputada estadual.

Um inquieto de múltiplas áreas

Nascido em Aracaju, em 8 de agosto de 1868, Manoel Bomfim foi um intelectual com contribuição destacada em diversas áreas do conhecimento. Médico, com estudos em Salvador e no Rio de Janeiro; especialista em Psicologia, com curso na França iluminista; sociólogo; historiador. Em todos os campos de atuação, Bomfim se caracterizou pelo rigor acadêmico aliado à contribuição social das suas pesquisas e trabalhos, confirmando-o como um intelectual atento aos problemas do seu tempo e preocupado em contribuir no desenvolvimento do país.

Na área da educação, Bomfim foi também fundamental na defesa de uma educação pública democrática e popular. Convidado pelo então prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Werneck de Almeida, em 1896, Bomfim assumiu o cargo de sub-diretor do Pedagogium, instituição criada seis anos antes para supervisionar as atividades pedagógicas do país à época. Naquele período, pela função que desempenhou, Bomfim formulou diversas iniciativas de reformas e melhorias no ensino público, sendo um crítico do distanciamento entre os planos governistas para a área e a realidade deficitária da educação brasileira. Com o mesmo empenho transformador, Bomfim ocupou, por duas vezes, o cargo de diretor de Instrução Pública no antigo Distrito Federal, entre os anos de 1895 e 1900 e entre 1905 e 1907.

Bomfim buscou denunciar e refletir sobre os problemas do país também via atuação na imprensa, tendo sido editor e articulista de diversos veículos de comunicação, como O Correio do Povo, O Comércio, Ilustração Brasileira, Notícia, Tribuna e O País, além de periódicos especializados em educação, como Revista Pedagógica de Educação e Ensino e Revista Pedagogium.

Demonstrando a sua inquietação com a desigualdade estrutural do Brasil, Bomfim participou também da política nacional, ocupando o cargo de Deputado Federal no lugar de Oliveira Valladão, com um mandato de pouco mais de um ano, entre agosto de 1907 e dezembro de 1908. Candidatou-se à reeleição, mas sem êxito.

Ligada ao Partido Operário Indepedente, Bomfim participou da criação da Fundação da Universidade Popular de Ensino Livre, instituição centrada na educação de jovens e adultos, que representou um marco na luta por um modelo de educação popular no Brasil.

Em termos de produção intelectual e literária, Manoel Bomfim foi, como já dito, dos principais autores sobre a questão do desenvolvimento social e econômico do Brasil e da América Latina, sempre com uma perspectiva crítica e propositiva. Dentre as suas obras, destacam-se: América Latina: males de origem; O Brasil na América: caracterização da formação brasileira; O Brasil Nação: realidade da soberania brasileira; O Brasil na História: deturpação das tradições, degradação política; Lições e Leituras para o primeiro ano; Crianças e Homens.

Cinema militante

Da mesma forma que a obra de Manoel Bomfim, o cinema de Carlos Pronzato, diretor do documentário “Por que não se fala em Manoel Bomfim?”, coloca o seu fazer profissional a serviço da memória coletiva transformação da sociedade.

Os seus mais de 70 documentários sobre personagens e momentos da história do Brasil e da América Latina são a prova disso, a exemplo de: “O Panelaço, a rebelião argentina”; “Bolívia, a guerra do gás”; “, isto aqui vai virar o Chile, escolas ocupadas em São Paulo”; “Terceirização, a bomba relógio”; “Ocupa Tudo, Escolas Ocupadas no Paraná”; “A Escola Toma Partido, uma resposta ao Projeto de Lei Escola sem Partido”; “1917, a Greve Geral”; “1968, a Greve de Contagem, primeira greve durante a ditadura militar”; “Mestre Moa do Katendê, a primeira vítima”; “A Revolta do Buzu”, “Carabina M2, uma arma americana, Che na Bolívia”, “Madres de Plaza de Mayo, verdade, memória e justiça”, “Marighella, quem samba fica, quem não samba vai embora”, “Pinheirinho, tiraram minha casa, tiraram minha vida”, “Mapuches, um povo contra o Estado”, “A partir de agora, as Jornadas de Junho 2013”, “Dívida Pública Brasileira, a Soberania na Corda Bamba”; “José Calasans, tradutor do Sertão”; dentre outros.

A quantidade e relevância social dos trabalhos de Pronzato – que é também diretor teatral, escritor e poeta, já lhe renderam homenagens do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO), além dos prêmios Roberto Rossellini, em 2009, na Itália, e Liberdade de Imprensa, pelo jornal Tribuna da Imprensa Sindical, do Rio de Janeiro, em 2017.

Ao mesmo tempo em que finaliza “Por que não se fala em Manoel Bomfim?”, Pronzato está prestes a lançar também o documentário “Lama: o crime VALE no Brasil”, sobre o crime ambiental na cidade de Brumadinho, em Minas Gerais.

Num cenário de flagrantes restrições à liberdade de expressão, de criminalização das lutas populares e de retirada de direitos, a obra de Carlos Pronzato – assim como a de Manoel Bomfim – se afirma como parte fundamental da resistência democrática. Assim, é possível colaborar financeiramente com as obras do cineasta, através de depósito na seguinte conta bancária: Banco do Brasil, agência 0346-8, conta corrente: 222.567-0.

* Paulo Victor Melo - Jornalista, mestre e doutorando em Comunicação e Política. Tem experiência com jornalismo sindical, políticas de comunicação na América Latina, mídias públicas e comunicação e direitos humanos

Texto e imagem reproduzidos do site: expressaosergipana.com.br

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Artigo de Clara Angélica Porto

Foto reproduzida do Facebook/Clara Angélica Porto e postada pelo blog SERGIPE..., 
para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente no Facebook/Clara Angelica Porto, em 31 de março de 2019

Em janeiro de 1969, pouco depois do criminoso AI-5, eu era uma jovem universitária. Tinha uma coluna diária na Gazeta de Sergipe chamada Vida Social. Como comecei jornalismo pouco antes de fazer 17 anos, convidada por Ivan Valença, papai e Orlando Dantas conversaram e ficou decidido que eu aceitaria o convite, mas nunca pisaria os pés na redação, onde só tinha homens. E assim foi que me tornei a pequena musa da Gazeta. Todos os dias, por volta das 4 horas, deixava minha coluna no balcão da frente, com Ivan, ou seu Orlando. Ouvia as vozes da redação, do outro lado da parede fina: ‘Ela está aqui!’ Ancelmo Gois, que na época era foca do jornal, encarregava-se de avisar. ‘Ela hoje está de azul... de amarelo...’ Ancelmo ficava olhando pela porta entreaberta que dava acesso à redação. Nino Porto, meu irmão, mandava acabar a saliência. Eu tentava não rir. E seu Orlando me olhava sobre os óculos de leitura com aqueles olhos cor de esmeralda e balbuciava algo inaudível que significava que a coluna estava entregue e está na hora de ir embora. Eu adorava essa corte diária e saia de lá me sentindo linda e querida. Ezequiel Monteiro, que também tinha olhos de esmeralda, passou a deixar pequenos poemas diários no quadro verde de avisos. Seu Orlando respeitava, Ivan curtia muito e não apagavam, para que eu pudesse ler, afinal era poesia de Ezequiel para a musa do jornal. E assim é que todos os dias, eu ganhava uma estrofe amorosa de Ezequiel, que hoje, lamento não ter anotado. Com o passar do tempo, daria um caderno. Aí Ancelmo, além de anunciar somente ‘ela chegou’, anunciava ‘tá lendo’, ‘tá rindo’ ...
Hunald Alencar dizia que eu era a cronista que é notícia. Porque eu fazia teatro, organizava festas com Pedrito Barreto, aprontava em Aracaju. Já o pai dele, Clodoaldo de Alencar, dizia que eu escrevia Vida Socialista, pelo teor político da minha coluna.
O que eu não sabia era que estava no olho dos militares, que acompanhavam de perto a minha vida, sem a admiração dos colegas da Gazeta.
Eu havia sido convidada por Wellington Mangueira para compor como Secretária de Imprensa a chapa para eleição do DCE encabeçada por João Gama. Ganhamos a eleição, o que logo me colocou na lista negra do 28 BC, e passaram a me seguir diuturnamente, sem que eu percebesse. Seu Ursino, Ramos, muito amigo da família, percebeu um Jeep que andava devagar onde quer que eu fosse e ficou desconfiado, mas nada falou, para não me assustar nem a meus pais. Apenas ficou atento e passou a me dar conselhos como nunca sair sozinha de noite.
Em dezembro de 68 fomos veranear na Atalaia Nova, o que foi muito incentivado por seu Ursino, que convenceu papai, que estava relutante, apesar da oferta generosa de Guega (Aglae Fontes), que ofereceu a casa que não iria usar naquele verão.
Em janeiro, atravessei o rio de tó-tó-tó com meu irmão Carlos Henrique, que sempre me acompanhava e cuidava, para vir a Aracaju me matricular na Faculdade. Ao chegarmos na nossa casa da rua S. Cristóvão, fui logo trocar de roupa. Lembro ter escolhido um vestido amarelo que eu gostava muito, e fiz uma trança para domar os cabelos de muita praia e poucos cuidados. Alguém chamou. Eu e Carlos Henrique corremos para o portão de ferro da grande varanda e vimos um senhor careca, moreno alto, que perguntou pela jornalista Clara Angelica. ‘Sou eu, o que deseja?’ O homem disse ‘chame a sua mãe, deve ser ela, você é uma menina’. Retruquei: ‘Não senhor, sou eu mesma. Pode falar’. Então ele me comunicou que eu estava indiciada pelo exército brasileiro e teria que seguir com eles para o 28BC. Carlos Henrique disse que a irmã dele não iria sair sozinha num Jeep com dois homens, que ele estava ali representando meu pai e que eu precisava me matricular na Faculdade. O homem respondeu que eu teria que estar dentro de uma hora no 28BC. Carlos Henrique disse que iria comigo de ônibus e o homem aceitou, dizendo para não ousarmos não ir, pois eles estavam de olho. Seu Ursino, que também morava na rua São Cristóvão, viu o Jeep passar e o seguiu, compreendendo o que estava acontecendo. Foi à Atalaia Nova e avisou meus pais. Papai, que era amigo de infância do General Djenal Tavares de Queiroz, logo telefonou para ele, avisando e pedindo interferência. O General prometeu ajudar.
Fui de ônibus com Carlos Henrique para o 18 do Forte e subimos a então já famosa colina.
Lá chegando, dois homens já me aguardavam e avisaram a meu irmão que eu seria levada para um interrogatório e ele podia ir embora. Carlos Henrique disse que iria esperar por mim e ficou sentado no galpão, enquanto eu seguia com os homens.
Na sala, haviam três homens, um diante de uma máquina de escrever, e mais dois, um dos quais moreno de bigode e que se apresentou a mim como Major Bandeira.
Logo que sentei, de frente ao Major, ele me apontou uma pasta enorme e alta, cheia do que parecia documentos e fotos e perguntou: ‘Sabe o que é isso’? Respondi que não. Ele então iniciou um pequeno discurso de que eu era muito jovem, bonita e inteligente, de boa família e não devia andar com quem não presta. Eu ouvia atenta e calada. O major abriu a pasta e começou a me mostrar fotos onde eu aparecia, ora dançando feliz em festinhas do DCE na faculdade de Química, ora na praia, na piscina da Atlética, comprando maquiagem em A Moda, na faculdade, na posse do DCE. Depois jogava colunas na minha frente, onde eu defendia igualdade social, liberação da mulher; em uma delas eu defendia maternidade para mulheres que queriam ser mães mas não queriam casar; em outra, eu louvava o conhecimento de história e dialética de Wellington Mangueira; em outra, uma crônica sobre o casamento de meu primo Carlos Cruz com Maria Stael. O major pedia o porque de cada coisa. Na crônica de Carlinhos e Stael, eu encerrava falando da felicidade deles e de como era triste que numa sociedade desigual, nem todos pudessem viver momentos lindos como aquele.
Foi aí que o major me ofereceu um cigarro, que aceitei. Um homem veio por trás de mim e deu um tapa no cigarro, antes que eu o tivesse acendido. O cigarro voou longe e meus lábios sangraram um pouco. Fitei o major longamente, calada. Nada disse. Ele não me olhou de volta. E continuou falando como se nada tivesse acontecido. Serviu-me um cafezinho, que deixei ali, na mesa, sem tocar. A um certo momento, não resisti e peguei o café para tomar um gole. Outro tapa fez a xicrinha de plástico voar longe. Dessa vez, atingiu meu dedo mindinho. Um outro homem entrou e falou ao ouvido do major. Não sei quanto tempo havia se passado, algumas horas, pois passamos muito tempo olhando e explicando o dossiê.
A partir desse momento, o major mudou o tom do discurso, e passou a me dar conselhos. Que me limitasse a escrever crônica social, que não falasse de política, muito menos de política estudantil. Que eu era filha de um homem honrado e devia ter cuidado. Chegou até a falar de si e da família e pedir que eu os promovesse no jornal. Eu escutava a tudo calada.
Então ele passou a me perguntar se eu conhecia Wellington, João Gana, Jackson Barreto, Didi Macedo, Alencar e Aglae, uma lista imensa. Eu ia dizendo que sim, que conhecia todos, que Aracaju era uma cidade pequena e todos nos conhecíamos. Ele tentou aprofundar sobre o nível dessas relações e eu, que rapidamente entendi que ele havia recebido um recado favorável para mim (pensei logo em papai e general Djenal), menina de trança com sorriso meigo, desviava e a tudo respondia sem nada dizer. Tornei-me mestra em falar e falar e nada revelar. Sou assim até hoje. Acho que aprendi naquele dia. Ficamos assim horas, ele tentando colher e eu me fazendo de desentendida, fazendo cara de menina.
Foi aí que ele disse que iria me liberar, mas que ficariam de olho. A partir daquele momento, minhas colunas seriam previamente censuradas e só se publicaria o que passasse. Fez uma lista de assuntos que eu não podia escrever.
Quando sai da sala, onde havia entrado umas 9 h da manhã, já eram quase 4 horas da tarde. Encontrei Carlos Henrique sentadinho, a me esperar. Nosso abraço foi intenso.
Voltamos direto para a Atalaia Nova, onde encontramos nossos pais, com seu Ursino ao lado, amigo de verdade é assim. Pediram que eu não falasse sobre o assunto com ninguém, a pedido do general Djenal. Assunto morto, disse papai - é uma ordem!
Com o coração em frangalhos, fui para o quarto finalmente chorar e depois, Carlos Henrique me levou para tomar um banho de mar, que foi curativo e libertador.
Ao chegar na Gazeta para deixar a coluna, seu Orlando, grave, me chamou para uma conversa e disse que não era só eu, todo o jornal estava sob vigilância diária e nem uma palavra seria publicada sem censura prévia. Aconselhou-me que desse um tempo sem falar em política e questões sociais, que me detivesse a assuntos sociais e não socialistas e a assuntos culturais. Foi a época que publiquei muita coisa do movimento hippy que começava nos Estados Unidos, e usava arte como metáfora de mensagens.
Continuei indo varias vezes com Didi Macedo no fusquinha dela, para as imediações da fábrica do Bairro Industrial às 5 da manhã, distribuir panfletos mimeografados e cheirando a álcool, que a turma executiva clandestina fazia nas caladas da noite. Cobríamos os números da placa do fusca de Didi com fita isolante preta, um 0 virava um 8, cada dia uma invenção. Papai me trancou no quarto para eu não ir para o congresso de Ibiuna, eu havia sido convidada por Wellington. Foi Tina no meu lugar.
Também continuei dando as aulas de Wellington nas escolas públicas dos bairros e era Jackson Barreto quem me acompanhava, levava de ônibus. Enquanto eu dava as aulas, ele conversava com os estudantes levando clareza - os dois ensinávamos, eu dentro e ele, fora da sala de aula. Depois Jackson, um cavalheiro, me deixava na porta de casa, exigência de papai, e caminhava para a casa dele na rua de Estância. Fazíamos tudo por Wellington. Amávamos Wellington, que era nosso grande líder e muito nos ensinava.
Nesse mesmo ano, em setembro, conheci o homem que viria a ser meu marido pouco mais de um ano depois.
Ivan Valença um dia escreveu sobre mim, que a repressão me levou a buscar o amor, que acabou me levando para longe.
Mas ficou a marca desse dia. Em todas as minhas memórias de Aracaju, todas lindas, ficou a cara daquele major de bigode, daquele tapa, do gosto de sangue na boca. Ficou o retrato da amargura da ditadura militar no Brasil. O que se passou comigo nada é, comparado aos horrores sofridos por nossos amigos próximos e por milhares de brasileiros.
Não há nada para comemorar.
Ditadura nunca mais!

Texto reproduzido do Facebook/Clara Angelica Porto