quinta-feira, 16 de abril de 2020

Um olhar Sobre Bispo do Rosário, por Walter Firmo


Publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil de Walter Firmo no Facebook, em 15 de abril de 2020

Um olhar Sobre Bispo do Rosário
Por Walter Firmo

Convivendo com Bispo do Rosário, pude bem sentir a loucura de perto, um estado, um manisfesto, tão absolutamente interior, que cheguei a pensar pedir carona, naquela esteira interna, cuja classificação formatava um homem monossilábico, ensimesmado em caverna aderente ao próprio ar que respirava. Um ser cuja anatomia humana, mais lembrava um primata, de baixa estatura, meio desengonçado, cujos pés, mantinham vagos sonhos dentro de uma Ursa Maior. Camufladamente, na cabeça, um voador, mártir cuja vocação, era poder voar, exilar-se daquela pequena caverna, dissimulada num apartamento quitinete; acredito numa área pequena de trinta a quarenta metros quadrados, que para ele, transfigurava-se em um apropriado cosmo particular, porto de infinitas viagens siderais.

Foi assim que conheci um viajante tribal, transformado em artesão, juntando vírgulas da sua solidão, dissolvidas nos sapatos, cordas, fitas, miçangas; copos, pratos, pentes, garrafas, bugigangas estelares que, ---num passe de mágica---o transladasse, incógnito aos espaços públicos , ruas, jardins e avenidas, e com um alfabeto próprio escrevendo sua própria história; nos degraus da sala, talvez quem sabe, derramadas sobre o vaso do banheiro, ao defecando seus medos e angústias.

E, ao transpor, na minha consentida liberdade, a porta de entrada que me separava dele, diante de mim, estático, como fosse um monumento simbólico no delírio, crispado, caminhei a passos contidos a seu encontro, eu e o repórter que me acompanhava atônito e amedrontado, José Castello, hoje, porém, um feliz e consagrado escritor. O senhor de toda razão naquele pequeno espaço, logo se arvorou, afinando sua voz pouca e trêmula, afirmando que todos nós temos uma aura sobre as cabeças e, que, a de José era azul e a minha marrom.

Nossa acompanhante nos deixou sozinhos, com aquela pessoa tão indefesa quanto ao seu tamanho físico, mas postulado na grandeza do seu trabalho, exposto de forma desorganizada, que pensamos estar em meio a uma feira de retalhos sem ordem ou intensidade. Mas não, tudo estava para si, como em seu aeroporto particular, inacessível, lacrado numa cápsula existencial, totalmente exilado de tudo; porém, no aguardo de um além, que o introduzisse vestido em seus mantos, voar nos painéis de madeira ou latão, com seus coadores de cozinha, ---uma arca de Noé voadora---alguém que tinha de carregar neste "barco", representação de todos entulhos do mundo, salvando a terra no dia do se Juízo Final.

Eu, enquanto o repórter se equilibrava, no abismo do medo, em conhecer nas minúcias quem "era aquele insano ou maluco", rodava minha cabeça, tentando desvendar visualmente aquele grande recheio, de uma laranja quadrada, portanto fotograficamente instigante, por seu mundo encantado e todo um paraíso ali a ser codificado. O Castelo, se construía nas indagações de" quando, aonde, como e porque", enquanto eu brotava na minha cabeça, tratamentos que um coração sentido, amainava em imagens questões aflitivas de estarmos pousados em cima de um lixo atômico, que explodia considerações simbólicas, da arte que transforma o artista, por forças que ele não controla. Minha argúcia, espiritualmente viva, se articulava como as braçadas de um nadador prestes a se afogar, debatendo-se na pálpebra de olhares, pousando nos objetos e no próprio indutor da questão: Arthur Bispo do Rosário.

Uma frase escrita na compostura física em nanquim, preto sobre um bordado branco, alinhavava frases soltas que me chamaram atenção, seguindo sua lógica e grafia, por exemplo: "22 de dezembro de 1938 acompanhado por sete anjos em nuvens especiais forma esteira mim deixaram na casa do fundos murrado rua São Clemente 301 Botafogo"; tudo assim mesmo literalmente sem pontuação sem nada.

A luz no recinto era a de um "charuto aceso", mal dava querer compor prosopopeias, ouvindo vozes ausentes, a querer iluminar aquele arquétipo de ilusão, porque meus vélvias de asa 50, ---meus sais...meus filmes---eram facilmente fulminados, no breu da cavernosa ambientação a que estávamos sujeitos. Estava mesmo, isto sim, no mato e sem cachorro. Mas, ao ouvir os "latidos" de um flash, que levara como sustentação, sem nenhuma magia e legítima defesa ---"não me maltrates, Robson"---, foi o que tivemos naquele espacial e consentidamente criativo ---, quando não se tem cão caça-se com gato. Errei sim, manchei o meu nome, mas o que fazer naquela situação precária, cuja total claridade era um elemento invasor na tradução precária em que vivia nosso personagem; que envolvimento psicológico, poderia untar sem desprezo, aquele personagem tão só, tão isoladamente perdido no seu vão estelar, quando a submersão cósmica se aprazia em escuridões à meia luz.

E, assim, dessa maneira, tive que expor ao flash e iluminar a pessoa física do maestro ensandecido, deitado em seu "leito fúnebre, travesseiro que o levaria aos céus"; e outras intimidades guardadas, sob a poeira resignada, na sua interioridade dos objetos, flagrados agora na potência de uma luminosidade emitida por um disco voador. Fiz mais algumas poucas fotos naquele interior, mas a minha grande arma estava sob a luz solar, a residir lá fora e, fomos nós acompanhados pela segurança carcerária daquela casa de detenção, desenhar melhor postura de construção afetiva à causa.

O artista finalmente liberto, no seu aparato carnal, visto pelas lentes do ávido fotógrafo, em traduzir em imagens, a aparição de um artista composto na natureza, livre à luz do sol, num contra-luz transfigurado, em que se traduzia corpo, alma e engenho. Sombras, espaços, silhuetas, que acentuavam um espaço de liberdade, sob um carinhoso beijo de um brilho vesperal.

Depois de três dias ensaiando a passagem na terra de Bispo do Rosário, a pedido do então diretor de redação da sucursal no Rio da revista Isto É, Aluizio Maranhão, a minha vida não foi mais mesma. Mas aprendi uma lição.A loucura é uma fantasia. É sim. Existem, em nossa sociedade "tribos" que se engravatam, roubam, matam, desonram, falseiam e, mesmo assim, vivem soltos em total liberdade por aí.E outros, menos loucos e, certamente mais simpáticos, os "malucos beleza" que estão internados e em observação, numa eterna quarentena. Aprendi a saber honrar esses homens, tidos como destituídos, "mentes insanas", respeitando os seus signos e os rituais de suas transições, para sempre ocultas.

PS - A constelação luminosa deste fenomenal artista, homem do povo, ex-marinheiro, Arthur Bispo do Rosário, fotografado nos jardins da Colônia Juliano Moreira, em 1985, no bairro de Jacarepaguá. Ele vestido no seu manto sagrado.

Gostaria também neste ensejo final desta crônica, render minhas homenagens póstumas a Hugo Denizart, psiquiatra e fotógrafo, que já nos deixou a alguns pares de anos, mas que foi o primeiro a fotografar e filmar o passageiro cósmico e seu entulhos, Bispo do Rosário. Saudades de você Hugo, gente fina.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Walter Firmo

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Morre frei Dário Romitti


Publicado originalmente no site DESTAQUE NOTÍCIAS, em 13 de abril de 2020

Morre frei Dário Romitti

Frei Dário nasceu na Itália em novembro de 1920

Morreu, nesta segunda-feira (13), frei Dário Romitti, aos 99 anos. De acordo com a Paróquia São Judas Tadeu, o religioso vinha sofrendo complicações na saúde desde o ano passado, em função da idade.

Frei Dário era uma dos moradores mais antigos do convento dos Capuchinhos, anexo a Paróquia São Judas Tadeu, no bairro América, em Aracaju.

Ele enfrentava problemas respiratórios e no ano passado chegou a ficar vários meses internado, recebeu alta em novembro e desde então vivia em um “home care” (quarto hospitalar) montado no convento.

Trajetória

O frei nasceu em 9 de novembro de 1920, na Itália. Dedicou 69 dos 76 anos de sua vida religiosa a missões no Brasil, onde passou pela Bahia e, há cerca de 40 anos, chegou a Sergipe.

Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias.com.br
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O frei nasceu em 9 de novembro de 1920, na Itália. Dedicou 69 dos 76 anos 
de sua vida religiosa a missões no Brasil, onde passou pela Bahia e, 
há cerca de 40 anos, chegou a Sergipe.
Sua entrada no Brasil
Imagem e legenda reproduzidas de comentário de Paulo Valadares no Facebook

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Lembranças Noturnas da Aracaju de Outrora

 Obra de arte de Ana Denise Souza

Publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil no Facebook de Luduvice José, em 9 de abril de 2020

Lembranças Noturnas da Aracaju de Outrora
Por Luduvice José *

A artista ANA DENISE SOUZA, dona de um naif muito pessoal e plenificado de uma criatividade extraordinária, valoriza sempre, cada pincelada e, oportuniza ao expectador diante de suas telas, incursões valiosas, prenhes de estórias e histórias, o que configura uma visão diferenciada do trivial comum na iconografia artística, potencializando fortemente as suas composições por esta gama de elementares reforços que tornam suas telas fontes, não apenas de admiração, mas de estudo sobre tempo, espaço, ligação com a configuração local e seus costumes.

Esta recém criada tela de Ana Denise Souza é uma apoteose de festas inebriantes que marcaram fortemente a vida de Aracaju e, tornava o mercado local que começava na Avenida Otoniel Dória, um centro de atração, com habitués batendo ponto, num negócio de vender prazer, numa cidade de poucas atrações, que se transformava numa passarela sem ribalta, onde mulheres faziam a vida com valetes de vidas paralelas, em noitadas que aconteciam em pleno Vaticano, denominação dúbia de casas de tolerância que marcaram época na vida noturna de Aracaju, tornando o local abrangente, um comércio variado, salpicado de armazéns que ganharam status e notoriedade, mesclando-se com o mercado do sexo; uma verdadeira zona comercial na proximidade do que se chamou muito de cais. Ana Denise Souza, captadora de surpresas, diferenciais, etnias, costumes, , reavivou com sua arte, escaninhos de ninhos que senhores conhecidos, muitos notáveis, se regalavam em priscas eras de escondidas aventuras que eram contadas e recontadas em círculos fechados como troféus auferidos, que empalavam a licenciosidade que pululava ante uma cultura que rendeu, inclusive frutos humanos que, posteriormente ficaram difíceis esconder, pois ganharam domínio público, com a alcunha de filhas e filhos bastardos. Agora a artista sergipana, futucando o tempo e a memória, ressuscita em tela para testemunho e conhecimento das gerações que chegaram pós e continuam chegando neste hiato entre o ontem e o hoje, contando num belo e arrojado naif e policrômicas imagens, enredos que darão muito o que conversar, além de desvendar mistérios que ainda se escondem sem sobrenomes reais.

Uma revista no local e uma olhada no que restou, invoca-se a imaginação e as conversas que revolvem realidades esquecidas e, todas estórias ganham sentido. E a genialidade da pintora dá vida ao local festivo, remontado-se em cada imaginário, imagens que ganham vida na vida de alguns remanescentes senhores que, ainda devem, num revival imagético, situarem-se em alcovas acetinadas, iluminação num palco cativo, entre imagens de rodopios revividos, entre a realidade curtida e a efetiva paragem recreativa, que resguardam em miragens que ainda mostram réstias de prazeres, rostos e corpos esquecidos.

* Jornalista e crítico.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Luduvice José

Orlando Dantas


Publicado originalmente na Linha do Tempo, do Perfil no Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, em 9 de abril de 2020

Hoje, 38 anos da morte do meu avô Orlando Dantas. 9 de abril de 1982, uma Sexta-feira da Paixão. 

Até hoje Sergipe sente sua falta.

Em tempo. Adoro essa foto, bem espontânea, na varanda de sua casa na Rua Senador Rolemberg, fazendo o que mais gostava, ler.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

quarta-feira, 18 de março de 2020

Homenagem ao professor Juan Rivas Páscua





Publicado originalmente por meio de postagem de Rísia Rodrigues, no Grupo do Facebook/GEPHED: GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, em 17 de março de 2020.

Nossa homenagem ao professor Juan Rivas Páscua, que nos deixou hoje (17.03) pela manhã. Natural de Salamanca, província da Espanha, ele foi o terceiro diretor do Colégio de Aplicação da UFS.

Nas fotos, o prof. Juan José Rivas durante entrevista para o Projeto Composição do Banco de Histórias do Centro de Pesquisa, Documentação e Memória do Colégio de Aplicação (Cemdap). Acompanhado da esposa Sissi, o professor compartilhou suas memórias sobre a instituição.

Texto e fotos reproduzidos de post feito por Rísia Rodrigues no Grupo do Facebook/GEPHED

Faleceu o professor Juan José Rivas Páscua

Em razão do seu trabalho pioneiro, o professor Rivas (ao centro) 
havia sido homenageado nos 50 anos da UFS 
Foto: Adilson Andrade/AscomUFS

Publicado originalmente no site da UFS, em 18 de março de 2020

Faleceu o professor Juan José Rivas Páscua

Ele foi o primeiro diretor do Colégio de Aplicação

Informamos, com pesar, que faleceu na data de ontem, 17, o professor Juan José Rivas Páscua, aos 86 anos. O professor Rivas nasceu em Salamanca, Espanha, e morava em Sergipe desde 1960. Ele foi o primeiro diretor do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe.

Professor de filosofia, história e geo-história, foi chefe de gabinete da reitoria na gestão de Eduardo Garcia Filho.

Por medida de saúde pública, em recomendação de contingenciamento contra a pandemia do novo coronavírus, o velório será restrito a familiares e o corpo será cremado nesta quarta-feira, 18.

Em razão do seu trabalho pioneiro, o professor Rivas havia sido homenageado nos 50 anos da instituição, em cerimônia ocorrida no Teatro Tobias Barreto, em maio de 2018.

Ascom

comunica@ufs.br

Texto e imagem reproduzidos do site: ufs.br

Morre em Aracaju o professor Juan Rivas Páscua

 

Texto publicado originalmente no Facebook/Lucio Prado Dias, em 17/03/2020

Um fato para a História. O professor Juan Rivas Páscua, falecido nesta terça-feira, 17 de março de 2020, deixa legado importante para a Educação em Sergipe. Entre outras realizações, ele foi o articulador e facilitador para a vinda a Sergipe do professor Silvano Isqierdo Laguna da Espanha para Sergipe, para o ensino de Anatomia da nossa recém fundada Faculdade de Medicina, em 1961. Ficou hospedado às expensas do Governo Luiz Garcia no Edifício Atalaia e recebia alimentação por um tempo do Iate Clube.

 Famoso professor e pneumologista espanhol, Silvano chefiou o Serviço de Tuberculose naquele país, até se indispor com a ditadura de Franco e cair no ostracismo. Em Sergipe, além de ensinar anatomia par alunos e outros professores, tentou ainda a construção de um hospital sanatório na Serra de Itabaiana, que não se concretizou.

Anos atrás eu e Samarone estivemos em sua residência para uma entrevista e fomos recebidos com um saboroso café ao melhor estilo da terra de Castela e Leão. Uma parte importante de nossa História se vai, com a morte de Rivas, inclusive estudos sobre os Jesuítas no Brasil.

Por Lucio Prado Dias

Texto reproduzido do Facebook/Lucio Prado Dias

Morre o professor Juan Rivas Páscua, aos 86 anos

Foto Arquivo Pessoal

Publicado originalmente no site FAXAJU, em 18 de março de 2020 

Morre o professor Juan Rivas Páscua, aos 86 anos e corpo será cremado

Por Tíffany Tavares

Faleceu na manhã desta terça-feira, 17, o professor Juan José Rivas Páscua, aos 86 anos, em Aracaju (SE), onde residia.

Professor Rivas nasceu em 1933, na cidade de Salamanca, Espanha. Desde 1960 morava em Sergipe e deixa um rico legado na vida acadêmica, sendo o primeiro diretor do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Foi professor de filosofia, história e geo-história da rede estadual e federal, professor catedrático da UFS e também chefe de gabinete da reitoria da UFS, na gestão de Eduardo Garcia Filho. Atuou também como diretor do Instituto de Cultura Hispânica da Bahia. Rivas deixa esposa, quatro filhos e seis netos.

Por medida de saúde pública, em recomendação de contingenciamento contra a pandemia do novo coronavírus (COVID-19), o velório – restrito a esposa, filhos, netos e familiares – aconteceu nesta terça-feira, 17.

O corpo de Juan José Rivas Páscua será cremado, nesta quarta-feira, 18, no município de Itaporanga D’ajuda, estado de Sergipe. As cinzas serão enviadas à sua terra natal.

Manifestamos votos de pesar e solidariedade aos familiares e amigos, neste difícil momento e agradecemos a compreensão de todos.

Texto e imagem reproduzidos do site: faxaju.com.br

quarta-feira, 11 de março de 2020

Heróis pela Liberdade

 Busto Aurélio Vieira Sampaio 

Lucio abrindo a solenidade (Fotos: Lúcio Prado)

Publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 6 de março de 2020

Heróis pela Liberdade

Por Lúcio Prado (Blog Infonet)

 A vida de nossos heróis do passado constitui um sacrário que devemos manter com reverência

A Academia Sergipana de Medicina abriu oficialmente, com grande brilhantismo, o seu Ano Acadêmico em 2020, com uma sessão solene especial que aconteceu em 4 de março último, no auditório da Clinradi. O evento ficará marcado na história da entidade, pelo propósito nele contido: a homenagem ao Tenente Aviador Aurélio Vieira Sampaio, morto em combate na Itália, na campanha da FAB na Segunda Guerra Mundial, trazida a lume pela belíssima e consistente conferência do acadêmico William Soares.

Tive o privilégio de abrir e conduzir o evento na condição de Secretário-Geral do sodalício. Na sua conferência, o Acad. William Soares traçou um paralelo de coincidências das ações do Brasil a partir da Primeira Guerra Mundial e principalmente da ação da FEB na Itália, na Segunda Guerra, onde dois sergipanos participaram de importantes missões aéreas, os pilotos Paulo Costa e Aurélio Vieira Sampaio, este morto na sua 16ª missão. Destacamento da FAB em Aracaju se fez presente à sessão, sob o comando do Capitão André Marcelo da Silva, chefe do Destacamento de Controle do Espaço Aéreo de Aracaju (DTCEA-AR), que também se pronunciou no final da sessão.

Mas não foi somente o agrupamento aéreo que se destacou nos céus da Itália. Os pracinhas brasileiros deram também sangue, suor e lágrima pela causa da liberdade, com feitos notáveis, apesar de toda a inexperiência em conflitos e a precária logística tática e de deficiência de equipamentos bélicos. A eles deveremos sempre, mesmo passados quase 80 anos do conflito. Mas voltemos à solenidade. Além da presença de familiares do Tenente Aurélio, entre eles a irmã dele – a Sra. Consuelo Vasconcelos, acompanhada do esposo o Sr. Alcides Prado Vasconcelos e filhos – foram apresentados aos presentes os componentes do Grupo Sergipano de Estudos da FAB – GRUSEFE, recentemente instalado em nossa cidade e já responsável por várias ações que resgatam a história dos nossos heróis da FAB. Eis aí uma nobilitante causa!

O Tenente-aviador Aurélio – nascido em 31 de maio de 1923, em Aracaju, ele foi piloto do 1º Grupo de Aviação de Caça, e terminou sendo abatido aos 21 anos, na sua 16ª missão de combate sobre a Itália, compondo o 350th Fighter Group. Entre outras condecorações recebidas após sua morte, o militar foi agraciado com as medalhas da Campanha de Itália e a Cruz de Bravura. Seus restos mortais estão sepultados no mausoléu do Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Sergipe ainda deve uma grande homenagem a este vate.

Gostaria de ressaltar a iniciativa da Academia Sergipana de Medicina, em iniciar o seu Ano Acadêmico de 2020 com essa incrível homenagem. Como disse na abertura do evento,  “a vida de nossos heróis do passado constitui um sacrário que devemos manter com reverência, e o culto dos valores maiores e dos heróis da Pátria constituem os verdadeiros alicerces da nacionalidade. Aqueles que se sacrificaram pela Pátria merecem a gratidão das gerações presentes, e nós, ao relembramos as suas vidas, prestamos-lhe com justiça singela a sincera homenagem.”  O texto em epígrafe não é o nosso, está contido no documento “Esboço Biográfico e Cronológico do Major José Sabino de Britto (Campanha do Prata e do Paraguai)”, de autoria do Cel. EB José Britto da Silveira (neto do biografado) e filho do Major Neto – Francisco Silveira Neto – que foi Comandante geral da Policia Militar de Sergipe e amigo fraterno da nossa família, particularmente do meu pai – o jornalista Antonio Conde Dias – do qual, além de amigo, tornou-se compadre.

Um antigo projeto da Associação Médica Brasileira, de autoria do Dr. Júlio Sanderson, já falecido, mas que nunca evoluiu, chamava-se “Heróis de Curar”, com o objetivo de perpetuar em monumentos, os médicos que construíram a história universal, alguns deles brasileiros. Pretendemos um dia, resgatar essa iniciativa. Enquanto isso não vem, brasileiros e sergipanos que lutaram pela liberdade no norte da Itália, não podem ser deixados no esquecimento. Como bem disse o eminente jurista e político sergipano Fausto Cardoso, na obra “Concepção Monística do Universo”, publicada em 1892, a liberdade só se prepara na história com o cimento do tempo e o sangue dos homens.

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

domingo, 8 de março de 2020

85 anos de Chico Rollemberg: a arte da medicina servindo ao próximo



Publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 5 de maço de 2020

85 anos de Chico Rollemberg: a arte da medicina servindo ao próximo

Por Cláudio Nunes (Blog Infonet)

Em abril deste ano, o laranjeirense Francisco Guimarães Rollemberg completará 85 anos. Os mais novos não devem ter conhecimento do trabalho desenvolvido por Chico Rollemberg como deputado federal, senador e, sobretudo, médico para os sergipanos. Como cirurgião, formado na Faculdade de Medicina da Bahia, Chico Rollemberg ficou conhecido nas décadas de 60, 70, 80 até a de 90, como o médico do povo. Gratuitamente, Chico Rollemberg fez milhares de cirurgias (isso mesmo!) em todo o Estado. Cirurgias simples e de médio porte que ajudaram muita gente carente num período que as dificuldades eram bem maiores que as atuais.

Como político, Chico Rollemberg foi deputado federal e senador de 1987 a 1995. Foi candidato a governador em 2002. Foi neste ano que conheci Chico Rollemberg. Uma figura humana, ímpar, com uma memória espetacular. Foi assim que descobri que ele conheceu meu José Nunes, presidente do Centro Operário Sergipano, Hélio Nunes, tio, e Célio Nunes, pai, todos já falecidos. Tido como conservador na política, Chico Rollemberg, quando jovem, teve uma grande aproximação com as causas da esquerda e, inclusive, como cirurgião foi médico de vários comunistas sergipanos.

Como senador da República, Chico Rollemberg teve uma atuação destacada. Foi ele que, em 1993, apresentou a proposta de criação de garantias para os idosos que se tornou, mais tarde, o Estatuto do Idoso. Outro luta vitoriosa foi a exploração do potássio em Sergipe iniciada em 1970, o fortalecimento da UFS, a defesa da micro e pequena empresa, a necessidade de ações para combater a seca no Nordeste, limites da fronteira Sul da Bahia com Sergipe e diversas proposituras na área de saúde que hoje são realidades. Uma propositura dele, apresentada em 1989, foi a base da política de gerenciamento e tratamento dos resíduos sólidos (lixo) em 2010 para todo o país. Ou seja, mesmo fora do Senado, muitas das proposituras apresentadas por ele até 1995 foram discutidas e aprovadas anos depois.

Chico exerceu a profissão não só atuando como técnico cirurgião, mas, sobretudo, como um médico humanista. Aquele que conversava e se preocupava com a pessoa como um todo. De alma para alma.

Chico, hoje, vive rodeado de familiares e amigos. Com a mesma simplicidade de sempre pode ser encontrado no shopping ou tomando o café semanal na feira com amigos contando histórias que guarda numa memória invejável.

A ambição de Chico não foi ficar rico e possuir muitos bens, mas servir ao próximo.

Ao homenagear Chico Rollemberg, que completará 85 anos, a Somese está homenageando também todos os profissionais médicos que fizeram e fazem da profissão não apenas um instrumento de trabalho, mas aqueles que são humanistas e não tratam os pacientes como apenas “mais um.”

A vida profissional de Chico Rollemberg mostrou que é possível exercer a arte da medicina se dando completamente ao próximo e ao mesmo tempo ser referência técnica e política para sempre na história de Sergipe.

*Este artigo foi escrito para a edição especial da revista da Somese em homenagem a Francisco Rollemberg que já está em circulação.

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Por Onde Anda Você: Artêmio Barreto, por Radar Sergipe

Foto: César Cabral

Publicado originalmente no site RADAR SERGIPE, em 21 de fevereiro de 2020

Por Onde Anda Você: Artêmio Barreto

O desembargador José Artêmio Barreto, nasceu em Boquim, no dia 15 de julho de 1938. Seus pais, João Muniz Barreto (exator) e D. Josefa Alves Barreto. Teve apenas dois irmãos: Luiz Augusto e o professor e historiador Luiz Antônio Barreto.

Estudou o curso primário na sua terra natal, aprendendo as primeiras lições com a saudosa professora Antônia. Como o seu pai fora transferido para a cidade de Tobias Barreto, concluiu essa primeira etapa estudantil no Grupo Escolar Tobias Barreto, daquela cidade. Contra a sua vontade e por desejo do seu pai, veio para Aracaju estudar o curso ginasial no Colégio Estadual Atheneu Sergipense, onde prestou exame de admissão.

Com o presidente Fernando Henrique Cardoso

Estudou contabilidade (segundo grau) na antiga Escola Técnica de Comércio de Sergipe, sendo aluno da última turma de Técnicos em Contabilidade, no ano de 1965. Fez vestibular para Direito, em 1966, e ingressou na tradicional Faculdade de Direito que funcionava na avenida Ivo do Prado, cuja formatura ocorreu no dia 8 de dezembro de 1970.

A sua turma teve apenas 20 formandos, dentre os quais os conhecidos advogados sergipanos Benedito Figueiredo, Suzana Carvalho, Moacir Mota, João Augusto Gama, Wellington Paixão, Wellington Mangueira, Célia Barreto e Abelardo Souza. O patrono fio o professor Olavo Ferreira Leite e o paraninfo o Dr. José Bonifácio Fortes Neto.

O Dr. Artêmio Barreto começou a trabalhar, ainda jovem, no Tesouro do Estado, no cargo de escriturário. Foi Chefe da Exatoria de Riachuelo (1061/62), Fiscal de Tributos da Secretaria da Fazenda (1062/65) e no IBGE foi agente de estatística e técnico em documentação e divulgação (1966/79). Atuou no magistério como professor de Direito Usual e Legislação Aplicada na Escola Técnica de Comércio.


No jornalismo, foi colunista do jornal Tribuna de Aracaju, onde escreveu diversos artigos sobre os mais variados temas e assuntos.

Após concluir o curso de direito, também dividiu o seu tempo atuando como advogado, cujo escritório funcionava na rua João Pessoa, em Aracaju. Fez concurso para Juiz de Direito e, aprovado, assumiu a Comarca de Boquim, no dia 22 de fevereiro de 1979, tendo sido titular por 2 anos e 4 meses. Em seguida, foi promovido para a Comarca de Estância, onde ficou por quatro anos. Também atuou como Juiz substituto nas Comarcas de Tobias Barreto e Itabaianinha.

No ano de 1985 foi removido para Aracaju, onde instalou a 1ª Vara Privativa de Assistência Judiciária, a primeira do país, cuja função era atender a população carente. O convite para executar essa missão foi formulado pelo desembargador Luiz Carlos Fontes de Alencar e a Vara Privativa, responsável pelo registro civil (casamento, nascimento e óbito), foi instalada pelo então presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe, desembargador Luiz Rabelo Leite. Dr. Artêmio recorda que, durante o período em que esteve à frente da mesma, pode realizar muito pela população de baixa renda. Dotada de uma estrutura adequada, contando com dez defensores públicos e uma assistente social, a 1ª Vara Privativa realizou ao longo dos 15 anos sob o seu comando, cerca de 35 mil casamentos.

O Dr. Artêmio Barreto teve uma trajetória marcante na Justiça Eleitoral de Sergipe. Foi Juiz Eleitoral em Boquim (4ª zona), Estância 6ª zona) e Aracaju (27ª). Juiz suplente do Tribunal Regional Eleitoral. Foi presidente da Turma Julgadora dos Juizados Especiais (1993/95).

No ano de 2.000 foi promovido a desembargador, tendo sido vice-presidente de 2001/03. Foi presidente da Escola Superior da Magistratura de Sergipe, no mesmo período. Presidente do Tribunal Regional Eleitoral (2003/05) e Presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe ((2007/08), quando se aposentou, ao fim do mandato. Ao longo da sua vida recebeu diversas honrarias e condecorações.

Assumiu o Governo de Sergipe, por uma semana, em janeiro de 2008, num gesto do então governador Marcelo Déda (PT), que lhe disse, naquele momento, que o ato nada mais era do que um reconhecimento do povo sergipano pelo muito que ele fez pelo Estado. Reconhece, também, a importância do então deputado estadual Ulices Andrade, presidente à época da Assembleia Legislativa, que viabilizou essa vontade de Déda.

Foi casado com D. Maria de Jesus Santos Barreto, que conheceu ainda adolescente, cujo casamento durou 40 anos. Com ela teve os filhos João Muniz Barreto Neto, Maria da Conceição Barreto Amaral, Maria Artêmia Barreto Calazans e Pedro Muniz Barreto.

O dia 12 de setembro de 2.000 marcou, para sempre, a vida deste magistrado. Momentos antes da sua posse como desembargador, a sua esposa, Maria de Jesus, sentiu-se mal, e, prontamente, foi levada para um hospital em Aracaju. Terminada a solenidade, ele foi até a Casa de Saúde e recebeu a notícia de que ela acabara de falecer. Uma situação bastante difícil e quase indescritível. Não foi fácil superar tamanha dor num momento tão importante da sua vida profissional.

A vida seguiu e o Dr. José Artêmio Barreto superou tamanha adversidade, com a sua fé em Deus e o apoio da sua família. E assim, por mais oito anos, continuou prestando serviços ao Estado de Sergipe, na condição de desembargador, até aposentar-se no final de 2008.

Viúvo, após três anos, casou-se com a senhora Maria Gidinelde Barreto e residem em Aracaju, no edifício Di Cavalcanti, no bairro 13 de julho.

Texto e imagens reproduzidos do site: radarsergipe.com.br

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

O Meu Amigo Intelectual, por Jorge Carvalho do Nascimento


Publicado originalmente no Perfil/Facebook/JorgeNascimento Carvalho, em 10/02/2020

O Meu Amigo Intelectual
Por Jorge Carvalho do Nascimento*

A segunda metade do século XX no Brasil conviveu predominantemente com dois tipos de intelectual: o herdeiro das tradições da cultura literária e o especialista profissional que verticalizou o conhecimento sobre determinado tema nas academias universitárias. Todavia, alguns intelectuais incorporaram a herança da cultura literária, mas foram bem diferentes da geração com a qual aprenderam, mantendo pari-passu uma relação de parceria em eventuais trabalhos e permanente desconfiança em face da produção acadêmica universitária. Há no Brasil nomes muito importantes situados nessa interseção, não obstantes as distintas escolhas teóricas e ideológicas que fizeram: Antônio Paim, Paulo Mercadante, Jacob Gorender, Leôncio Basbaum, Paulo Cavalcante, Bráulio do Nascimento, Jackson da Silva Lima, Paulo de Carvalho Neto, Paschoal Lemme e Umberto Peregrino, dentre outros.

Com um deles tive o privilégio de conviver e ser parceiro em muitos trabalhos, além de desenvolver uma relação fraternal que ajudou a moldar as minhas formas de ver e estar no mundo: Luiz Antônio Barreto. Certamente foram poucas as áreas do conhecimento das humanidades que não receberam a sua contribuição. Uma nossa amiga comum, costumava afirmar: a curiosidade de Luiz não tem limites. Ele estudou “de formiga a elefante”. Quando morreu aos 68 anos de idade, em 2012, LAB, como gostávamos de chama-lo era fonte importante de referência e análise aos que desejavam compreender a cultura brasileira. A obra deixada por ele, continua a cumprir tal papel, não obstante a dificuldade da dispersão própria do trabalho desse tipo de intelectual, pois a maior parte dos seus textos continua dispersa em artigos de jornais e revistas e em blogs e sites da rede web com os quais contribuiu durante os 53 anos nos quais se dedicou ao ofício de pesquisar e escrever.

Em 1994, fiz uma tentativa de construir um roteiro intelectual da vida de Luiz Antônio Barreto. Ele estava completando 50 anos de idade. Sentei com ele em diferentes sessões e gravamos cerca de seis horas de entrevistas. Com a colaboração dele reuni textos tendo o seu depoimento como roteiro. Organizei e entreguei a ele um presente de aniversário que ele publicou sob o título de CULTURA: UM ROTEIRO DE ALUSÕES, com apresentação de Bráulio do Nascimento e prefácio de Jackson da Silva Lima. Eu me responsabilizei pela organização, introdução, comentários e notas.

Foi a melhor oportunidade que tive de aprofundar o meu conhecimento intelectual sobre aquele amigo conterrâneo de Sílvio Romero, como ele nascido em Lagarto, no Estado de Sergipe. Luiz, em 1944. Um intelectual que estudou as primeiras letras em escolas públicas e particulares da Bahia e Sergipe, concluindo o curso primário na Escola Rural do município de Pedrinhas, onde o seu pai, José Barreto, era o chefe da Exatoria. Os cursos ginasial e científico ele fez em Aracaju, nos colégios Pio Décimo e Tobias Barreto. Depois disto estudou Direito na Faculdade de Direito de Sergipe e na Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, onde também estudou música e literatura.

O jornalismo foi a carreira abraçada por LAB, a partir de 1959, no jornal Correio de Aracaju, onde foi repórter e colunista. Depois, trabalhou no Sergipe Jornal e na Folha Popular. No difícil ano de 1964, Luiz Antônio Barreto foi amparado pelo jornalista Orlando Dantas e ingressou nos quadros do jornal Gazeta de Sergipe, onde chegou a editorialista, editor e diretor. Integrou as redações de outros veículos e fundou a revista Perspectiva.

Foi também em 1964 que LAB fez sua estreita na Literatura, com Monólogo, mais tarde adaptado para o teatro pelo Grupo Arena da Ilha, do Rio de Janeiro. Depois disto, publicou poemas, artigos de crítica literária, ensaios, crítica de arte e história, destacando-se A Arte Sergipana; Tobias Barreto; A Abolição da Escravatura e a Organização da Sociedade; Um Novo Entendimento do Folclore; A Organização do Poder Legislativo em Sergipe; O Poder Judiciário de Sergipe: 100 Anos de História. Dirigiu a edição em 10 volumes das Obras Completas de Tobias Barreto.

Foi ainda um importante executivo do serviço público nas áreas de Cultura e Educação. Dirigiu a Galeria de Arte Álvaro Santos; chefiou a Assessoria Cultural do Governo do Estado; foi Secretário Municipal de Educação e Cultura de Aracaju; foi Subsecretário de Comunicação Social do Governo do Estado de Sergipe; Assessor Cultural do Instituto Nacional do Livro; Superintendente do Instituto de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais; Secretário de Estado da Cultura de Sergipe; e, Secretário de Estado da Educação de Sergipe.

Como Secretário de Estado da Educação desenvolveu alguns programas que revolucionaram o ensino público estadual. Quando assumiu o comando da pasta, o Estado de Sergipe somente oferecia ensino médio em 17 municípios. Quando deixou o cargo, os 75 municípios sergipanos tinham escolas estaduais de ensino médio em funcionamento. Dentre as suas iniciativas de maior ousadia, vale o registro do Programa de Qualificação Docente – o PQD. Enfrentando todo tipo de incompreensão e resistências, Luiz ousou, implantou cinco polos regionais de ensino no interior do Estado de Sergipe e, em quatro anos, levou às salas de aula 2600 professores de escolas públicas estaduais e municipais que possuíam formação apenas em nível médio e ofereceu ensino de graduação, conferindo-lhes diplomas de licenciados em áreas como História, Língua Portuguesa, Matemática, Geografia, Química e Física.

Ao ousar e enfrentar resistências, Luiz Antônio pagou um preço político muito caro. Todavia, o tempo se encarregou de mostrar que ele estava correto. Sua ação mudou Sergipe, principalmente os municípios do interior, onde boa parte da população passou a viver melhor, graças ao seu trabalho.

Se vivo estivesse, LAB completaria hoje 76 anos de idade. Suas ideias e o resultado do seu trabalho ficaram entre nós. As boas lembranças, permanecem vivas no afeto dos verdadeiros amigos. A sua grandeza o fez eterno.

Saudades.

*Doutor em Educação, Membro da Academia Sergipana de Letras e Presidente da Academia Sergipana de Educação.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/JorgeNascimento Carvalho

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Aracaju no meu viver, por Odilon Machado

Foto reproduzida do Google e postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 17 de março de 2010

Aracaju no meu viver

Por Odilon Macahdo (Blog Infonet) 

Quando eu nasci, Aracaju estava vivendo a ressaca de uma noite de festas. Comemorava-se a ascensão da nova constituição estadual, nascida em 1947, em pleno regime de liberdades após o período autoritário de Getúlio Vargas.

Eu nasci no número 192 da Rua de Pacatuba. Neste tempo minha Rua era uma das mais destacadas artérias da cidade. Por ali passava tudo, de procissão a enterro, desfile de bloco de carnaval, marcha de soldado, passeata de estudante, sem falar que o leite vinha de carrocinha e o pão em cesto e quentinho.

A Rua de Pacatuba era e continua limitada pelas praças Fausto Cardoso e Camerino.

Na primeira, a Praça Fausto Cardoso, encontravam-se os poderes legislativo e executivo de Sergipe; o governo no Palácio Olímpio Campos e a Assembléia no Palácio Fausto Cardoso. Hoje estes palácios ali estão, conservando o nome e sem mudança de feitio, mas exibindo des-feitio humano, de rastro e degradação, dizendo somente o que foi, o que não é nada por sinal, como bem dizia o poeta que não amava a pegada marcada, por só pesada.

Mas a Praça dos Palácios também exibia dois grandes hotéis, o de Rubina e o Sul Americano, ocupando duas esquinas, e um casario rasteiro, espaço que continha uma sorveteria Aurora de lembrança fugaz, algumas repartições que não existem mais, restando por persistentes apenas somente os prédios do arquivo e/ou biblioteca pública, e a sede da Delegacia Fiscal Federal.

No mais tudo foi derrubado, surgindo os cinqüentenários Edifícios Walter Franco, São Carlos e do Cine Pálace, então o melhor cinema da cidade, e em tempos mais recentes a prediação do Poder Judiciário, o Fórum Tobias Barreto, e da nova Assembléia Legislativa no Palácio João Alves Filho, bem como grandes espaços vazios usados como abrigo e estacionamento de automóveis.

Se a Praça Fausto Cardoso era vibrante e importante, a Praça Camerino era tranqüila e silenciosa exibindo uma arbórea extensão residencial, e um calçadão excelente para os volteios de bicicleta, centrada com a estátua de Sílvio Romero, livro à mão e de costas ao rio, contemplando o lado mais aristocrático da Praça e seu casario.

A Praça Fausto Cardoso de meu tempo de menino era cortada de jardins num colorido de flores, verdadeiro convite para o deleite das tardes e noitinhas à brisa vinda do Rio Sergipe, acolhedora e amena.

Neste tempo as águas estuarinas do Sergipe por límpidas e convidativas, recebiam levas de banhistas à sua margem direita nas manhãs ensolaradas. Margem que era e continua nossa, enquanto do outro lado a paisagem exibia o longínquo o colar coqueiral da ilha de Santa Luzia. Uma distância maior, porque nesse tempo ainda não existia a canoa motorizada de Xeba, e a travessia se fazia lenta ao sabor da correnteza com velas ao vento, em pirogas preguiçosas e jangadas perigosas.

Vejo-me criança à margem do rio Sergipe na cacunda de meu pai. Seria um dia de domingo talvez, porque eram muitos os banhistas no seu leito. Havia inclusive um trampolim nas imediações do Colégio do Salvador, ou mais além, acessível somente aos bons nadadores que os havia bastante.

Alguns desses nadantes atravessavam o rio a nado, como Zé Peixe e seus irmãos, raça anfíbia que se perpetuou como história viva e que ainda permanece conosco, em braçadas mais ousadas, abraçando ainda o doce rio salgado, hoje menos belo, por maculado.

Porque o Rio Sergipe sempre osculou salgadamente a Rua da Frente da cidade, quer por cota rala e fundura rasa frente ao mar, quer porque o subsolo sergipano é montado em farta camada salina; os sais evaporitos que seriam a grande esperança do Estado.

E o estuário era tão salgado que alguns, por desvio ou pouco avio, o chamavam em desapego de “a maré” , quando se lhe pescavam muitos siris de isca e jereré. Mas que hoje restou pior, virando caudal esgoto da cidade que lhe amou em pequenez.

Um vício da cidade e do bicho homem que em devolvendo o beijo amoroso, no rio resolveu espalhar e emporcalhar com a própria escumalha, em dejeção e excremento.

Isso desde o meu tempo de menino, só para historiar a evolução fecal de coliforme partindo de eras antanhas das “fábricas de cocô”, como assim eram apelidadas as deficientes e mal afamadas estações elevatórias de efluentes, e que eram em número de três; a primeira localizada no oitão da alfândega, ao lado do palácio Serigy e das suas esféricas bolas de cimento armado, a segunda na travessa que prenunciava a larga Avenida do Barão do Maroim, e a terceira no conjunto mais além da fundição, junto ao Cotinguiba Clube ou ao Sergipe seu irmão, nas regatas e no futebol.

Hoje o rio é quase cloaca, um impeditivo para as disputas de regatas e os demais esportes náuticos. E os governos se sucedem em multivariada ideologia, todos bostando no rio. Uns defecando escondidos, outros obrando abertamente, em pouca vergonha ou envergonhados, mas todos cagando no rio.

Uma cagação bem ampliada, porque a cidade no meu tempo de menino era pequena e limitada, que chegava a ser contida por linhas de bondes decadentes, como traços limitantes dos contornos citadinos. Tempo em que a fossa estuarina não se fazia visível como agora, e era agradável os passeios de bonde que me pareciam cômodos e eficientes.

Relembro estes passeios acompanhados de minha Nanan, a nossa cozinheira, segunda mãe que tivera, em carinhos e atenção, com o bonde seguindo uma linha do centro ao sul pela Rua de Itabaiana , salvo engano, depois virando na Avenida Augusto Maynard, estendendo-se em demanda da Rua da Frente, a pouco lembrada Ivo do Prado, depois atingindo a o Bairro Industrial e chegando até o sopé da ladeira do Santo Antônio.

Mas se o rio transmudou em cloaca os bondes foram logo aposentados, sendo-lhes retirados os trilhos em desuso exílio de sucata e ferro velho, igual ao relógio de quatro faces, que nunca exibira exatidão uníssona, bem posto e bem centrado na pavimentação a paralelepípedos entre o jardim da retreta dominical e o entre – vão dos palácios executivos e legislativos, local onde se implantou uma herma do Almirante Barroso junto ao primeiro e último mictório público.

Mijadouro que não mais existe, mas que por uso perfunctório separava a grande tragédia política da cidade; Fausto não mirava Olímpio, e este mesmo que o quisesse tinha na frente um panteão miccional a lhe cobrir o empenho de uma possível mirada fatal.

Voltando agora a esta sequencia de praças chegávamos à sede matriz da igreja catedral, cercada por um belíssimo parque zoológico com direito a aquário, sinuoso leito de canal, repleto de peixes e alevinos, despertando nos meninos o ludo e a inspiração, com direito a araras esganiçadas em farto viveiro de pássaro, capivaras, cotias, caititus e outros roedores, sem falar numa onça que ficava por detrás da igreja, e outros animais como macacos e papagaios, com direito a sabão de macaco, uma frutinha espumosa de fedor empesteante que caia das árvores junto a muitos oitis amarelinhos, todos fustigados pelo lento e pegajoso andar do bicho preguiça,

Assim era Aracaju, com o Parque Teófilo Dantas engalanado para as feirinhas de fim de ano, onde o carrossel do negro Tobias reinava ao centro em apitos de corridas.
  
Parque de muitos brinquedos. Dos barcos puxados a corda, aos carrosséis aviões; dos chuveiros e rodas gigantes, das rifas e dos tiros ao alvo em espingardas de ar comprimido, pescarias de prenda e laçadas em jogo de argola, sem falar da série de roletas nos jogos par ou impar, vermelho ou negro, com fichas e placas coloridas faiscando de luzes em sons atraentes de promessas.

E porque não falar dos picolés da Yara e do São José, e do sorvete da Cinelândia, preenchidos na casquinha às colheradas? Ah, que saudade do big-bom e do picolé vitaminado da Yara, enrolados cuidadosamente em papeis sedosos! Que dizer também do cachorro quente de Seu João, inigualável? Um pão Jacó apenas, preenchido com carne frita com batatas?

Que dizer das ruas calmas de pouca insegurança, tempo em que os automóveis vinham e voltavam pela mesma via sem contramão, universo de veículos contado a dedos, com as placas enumeradas segundo um status de importância tola, mas social?

Que dizer de outro tempo, onde já maior eu percorria a cidade nos pedais de uma bicicleta, sem vencer as suaves ladeiras do Santo Antônio e as da Rua de Laranjeiras, terríveis, sobretudo a de sentido oeste leste. Tempo em que a cidade se extinguia nos areais suíços do oratório Dom Bosco e de Bebé, nos apecuns alagados junto ao fundo da Igreja e do Colégio São José, justo na Praça Pinheiro Machado onde Tobias Barreto imperava solitário e esquecido, e do Aribé bem longínquo, cedendo o próprio nome a um Siqueira Campos de descabida homenagem, sem falar da Tebaida, do Carro Quebrado e da terrível estrada Timoteana que desapareceram e foram perdidos…

Falar do Aracaju de Santo Doutor, de Escarrate e do Moleque Namorador, que saiam xingando e ameaçando surrar de cacete os meninos que os provocavam. Aracaju de Maria Inocentinha, Sá Maria dos Cachorros e de tantos loucos e pedintes. E de tantas que se vendiam nos prostíbulos do Vaticano, o nosso mercado em cópia espúria de Bramante.

Aracaju de ancoradouro estreito onde os parcos navios vencendo a estreita barra aportavam à ponte do Lima, o principal trapiche portuário. Sergipe que dizia querer um porto para firmar o Estado em soberania. E que depois o porto chegou e muito pouco vingou.

Aracaju de praias distantes como Atalaia Velha, que era uma viagem para lá chegar, vencendo uma ponte que desabou, e Atalaia Nova, esta bem mais distante ainda, lá do outro lado do Rio Sergipe, difícil de atravessar, onde o sonho de uma ponte era impossível. E sem falar do Mosqueiro de impossível acesso.

Aracaju da praia formosa; de uma balneabilidade lodosa e duvidosa, recebendo águas palustres pelos canais das quatro bocas, onde o banho era vertido por bueiros traiçoeiros.

Aracaju heróica e rebelde exibindo coragem e altivez brandindo armas nos movimentos tenentistas do audaz 13 de Julho, hoje mais esquecido que exaltado.

Aracaju cidade projetada em tabuleiro de xadrez, segundo a concepção do Engenheiro Pirro e conforme a ousadia de Inácio Barbosa e de João Gomes de Mello, o Barão de Maroim. Mas que depois perdendo o traço e seu compasso, rejeitou a regra e a simetria, preferindo o caos como engenharia. Um pecado recorrente com a prediação teimando em avançar no passeio do público e no espaço urbano das ruas

Aracaju, Cajueiro de Papagaios, no dizer de muitos e de Garcia Moreno, em seu livro de crônicas assim nomeado.

Aracaju de tantas saudades e encantos. Aracaju cantada em muitos versos e em muitos hinos, como os de Antônio Feijó, Freire Ribeiro e Alfeu Meneses (Hino do Centenário de Aracaju), que poucos cantam por não mais conhecerem o seu refrão, e outros como José Gentil Leite (Hino de Sesquicentenário de Aracaju), Leozírio Guimarães (Aracaju), Antônio Garcia (Aracaju, uma estrela), Cláudio Miguel (Cheiro da Terra), Antônio Vilela (Atalaia), Hugo Costa (Paisagem de Aracaju), e tantos outros bem ou menos recitados...

E outros cantos a Aracaju de autoria desconhecida, como a cantata infantil que apresento por final, sem som e sem visual, só por lembrança da minha Tereza menina, neste dia sorridente do 155º aniversário da cidade Capital do meu viver:

Aqui em baixo deste céu azul
Vive coberta pela mão divina
Neste torrão tu és de norte a sul
A linda e bela cidade menina.

O Cotinguiba a beijar-te a fronte,
Tão docemente com carinhos mil.
Ali também o coqueiral defronte
Ama e protege a caçulinha do Brasil

Aracaju, tão pequenina!
Tua beleza encanta a toda a gente
Quem a olhar-te fica enamorado,
E o coração apaixonado sente

Lindo cenário de beleza,
Beleza rara deste céu primaveril.
Aracaju presente que Papai do Céu
Ofereceu para o orgulho do Brasil.

Texto reproduzido do site: infonet.com.br/blogs

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Chorando ainda por Nina

Nina como está no meu livro “Despercebido… 
mas não indiferente.”

Publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 5 dezembro de 2019

Chorando ainda por Nina
Por Odilon Machado

Encontrei com Luiz numa loja de sapato.

La vinha ele, a esposa na frente, ele com um boné na cabeça, olhos escuros na face, meio perdido no lusco-fusco da loja, escurecido pelo óculos que permite olhar, sem desvendar, poder até fingir, não reconhecer, nem identificar, o que não se quer, por melhor escolher.

– Luiz! – gritei eu para seu espanto.

Luiz era o mesmo Luiz Santana, que eu identificara nos meus escaninhos de lembrança, após tantos anos passados.

Luiz olhou para mim, estendeu a mão com uma desconfiada gentileza, logo despertada por um coração que vibrou alegre, radiantemente rejuvenescido.

– Odilon! Odilon Cabral Machado, nós fomos Professores Eméritos juntos!

– Pois é! – adiantei rápido – E eu fui o orador da solenidade, nos quarenta anos da nossa Universidade Federal de Sergipe!

– Odilon! – disse-me ele – Nina, sua irmã, será homenageada no dia 8 de dezembro próximo, por ocasião das “Bodas de Ouro” de nossa formatura como Bacharéis de Direito!

A memória me trouxe Nina de volta, seus sonhos, seus desejos, tudo aquilo que fora perdido, vivido e jamais esquecido, cinquenta anos passados, o que me leva a tomar como tema, chorando ainda por ela, em meio à alegria de seus colegas, como Luiz, que a vida permitiu comemorar o justo jubileu de ouro.

Peço licença a meus leitores para externar um pouco do que me assoma a alma e a lembrança, momentos que me são mais íntimos, mas que merece o destaque, o compartilhamento, puro e simples, mesmo que possa parecer bobo e até desnecessário.

Mas, o que é desnecessário? – Pergunto eu, um velho tolo, que teima em rejeitar a gaveta dos usados e obsoletos, os mortos arquivos de desusados destinos a reter poeira e traça nos armários.

Desta irmã, a título de recordação e não obituário, direi que seu nome era Nina Maria Cabral Machado, nascida em 11 de março de 1946, na Rua de Pacatuba em Aracaju, filha de Maria de Lourdes e Manoel Cabral Machado, nossos pais.

O nome, como era comum na minha família, era uma homenagem a nossa avó paterna, Professora Maria Evangelina Cabral Machado, educadora conhecida como Dona Nina, idealizadora do Asilo São José, na cidade sergipana de Capela.

Como as lágrimas abafam a inspiração e tentando aplacar os meus índices glicêmicos, num desafio que nunca venci, mesmo agora tomando enormes quantidades de pílulas em prévias de insulina, ouso republicar um texto meu, datado dias após a morte de Nina, acontecida no já longínquo 28 de maio de 1978, que restou em mim enquanto tristeza inesquecível.

Segue o texto:

Nina

Você foi embora muito cedo, com 32 anos apenas.

Jamais pensei que você seria tão efêmera, tão frágil e tão fugaz.

Você era forte, disposta, corajosa e eu não ficava atrás.

Em casa, e só em casa, chamavam-nos ‘a Leoa’ e ‘o Tigre’. Um equívoco, uma coisa da qual nunca gostáramos, por depreciativa e chata, e porque a finalidade era ‘desleonizar’ a leoa e ‘destigrar’ o tigre.

Uma coisa equivocada, sobretudo, vendo o que foi sua passagem pela vida…

Mas, deixa pra lá! Ficou a lembrança e a missão de fazer diferente com a prole felina que chegasse.

Você chegou sempre na minha frente, e assim foi na vida e na morte.

Você viu a luz primeiro, quer quando abriu os olhos em 11 de março de 1946, e eu ainda não existia, quer quando os fechei (e fui eu que os fechei!) em 28 de maio de 1978, dia em que você partiu em busca do criador, nossa causa e objetivo.

Nossa diferença de idade, pouco mais que catorze meses, nos tornou alunos da mesma aula com Tia Anita (Professora Helena Barreto), no Educandário Brasília, pesquisadores da mesma experiência de vida e, sobretudo, forjadas foram as nossas personalidades no mesmo fogo e no mesmo cadinho.

Tínhamos as nossas diferenças, tão naturais à concepção psicossomática.

Era até compreensível que existissem entre nós as divergências infantis e até adolescentes, afinal malhados na mesma bigorna, nunca abdicaríamos das nossas identidades, que se eriçavam mais das vezes, afinal todo jovem é sedento de afirmação. E é um equívoco tolhê-la, afinal alguém já disse para os jovens, aquilo que bem pode ser aplicado a todo filho; “aos jovens só podemos dar raízes e asas!”

Passada esta fase juvenil em que andamos paralelamente os mesmos passos, veio-nos o amadurecimento e com ele a responsabilidade de viver. E assim passamos a trilhar caminhos diferentes, porque você constituiu família logo, e eu pouco depois, em busca da realização integral, só possível com a preservação da espécie.

E Deus lhe deu o marido amado e três filhos amoráveis. Mas, o destino não lhe reservou uma alegria plena, afinal o seu primogênito seria um quase vegetal sorridente.

E aí você virou realmente uma leoa.

Não uma leoa raivosa e ameaçadora, mas a leoa que lutou até quando lhe faltaram as forças.

E assim estou a vê-la incansável, viajando com o esposo na busca da solução científica que curasse a sua criança. Vejo a revolta dos dois com os diagnósticos pessimistas e irreversíveis, se repetindo sucessivamente.

Estou a vê-la se exaurir em repetidos exercícios inúteis, tudo fazendo pela cura da criança, que era linda, sem manchas, tinha olhos de um puríssimo azul, mas que na vida só aprenderia a sorrir. Um sorriso de ternura que encantava a todos que o viam. Um santinho, por que não?

Mas, se as mães existem também para santificar os filhos, as mães padecem o seu calvário quando sua criança não enseja a plena esperança de vida.

E assim carregando a sua cruz, sem entrega-la a um Simão Cireneu qualquer, as forças de sua vida começaram a faltar. Era o seu coração que enfraquecia, que não resistia.

Estou a lembrar um seu diálogo (o último e derradeiro) me dizendo que Deus a curaria, pois não deixaria que seu pequeno Manoel Francisco ficasse para ser cuidado sem mãe. Seria uma provação muito grande, e Deus não o permitiria que fosse missão de outrem.

Mas Deus o quis diferente. E o remédio que lhe seria de sua cura foi-lhe fulminante e letal. E você sumiu da minha frente, brusca e terrivelmente, numa convulsão tão violenta, que parecia tudo estar se avessando no seu corpo por inteiro.

E assim você passou.

Partiu sem conseguir o milagre da recuperação, que pedia para aquele risonho e indefeso ser, que por certo está a sentir a sua partida.

Agora, finda sua passagem entre nós, contemplando a sua vida, vejo-a a como um exemplo de provação.

Se a vida é mais tristeza que alegria e felicidade, seus 32 anos de vida foram incontestes exemplos desta assertiva.

Porém, como aqueles que Deus mais ama são os que mais cedo chama para o seu convívio, poupando-os da tarefa terrena de continuar ou destruir a criação, creio que você está agora no convívio de nossos antepassados e amigos, intercedendo junto ao Pai por todos nós aqui na terra.

Assim, você agora é nossa Santa!

É desse modo que a vejo nesses dias de tristeza, quando ainda é tão recente o seu afastamento.

Interceda, ó minha irmã, por todos aqueles que ainda respiram  e possuem a alegria de ser e ter, para que esse mundo seja melhor do que foi o seu. Por seus filhos pequeninos, sua razão de rir e sonhar. E em particular peço por nós, sua família, nós que sentimos a falta da sua voz, de seus verdes olhos, de seu sorriso e de sua presença, mas que esperamos, após cumprir a tarefa que nos foi destinada, encontrá-la para sempre no convívio eterno.

Deixando agora o texto escrito após o passamento de minha irmã, a Bacharela Nina Maria Cabral Machado, em 28 de maio de 1978, aos 32 anos de idade, volto ao encontro mantido com o seu colega de Faculdade Direito, Luiz Santana, para dizer algo mais sobre minha irmã e sua colega.

Nina, como as meninas da minha família, após o Curso Primário no Educandário Brasília das Professoras Helena Barreto e Alaíde Oliveira, cursou o Ginásio e o Científico no Colégio Nossa Senhora de Lourdes das Irmãs Sacramentinas.

Prestou Concurso Vestibular da Faculdade de Direito de Sergipe, graduando-se em 8 de Dezembro de 1969, no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.

Nina gostava de idiomas. Naquele tempo a gente estudava Latim, Francês e Inglês. Ela também estudou piano com a Professora Maria Guimarães Gesteira, chegando a se apresentar em público nos Concertos infantis da época.

Enquanto estudante de Direito, Nina exerceu a função de Promotora Substituta de Justiça na comarca de Capela, tendo atuado muito jovem no tribunal do júri daquela cidade, fazendo-o com desenvoltura e competência sem alardes.

Logo após a formatura, Nina se casou com o Engenheiro Agrônomo Jorge do Prado Sobral com quem teve três filhos, Manoel Francisco, o filhinho excepcional que lhe sobreviveu por sete anos e morreu aos 14 anos, o Médico Jorge Junior que lhe daria dois netos, Francisco Manoel e Nina, e o Engenheiro Agrônomo Paulo Henrique, pai de dois garotos, Paulo e Jorge.

Nina redigia muito bem, tinha boa oratória, e com certeza teria bom futuro na carreira jurídica, não fosse uma opção assumida, viver para o lar, que a afastou da profissão, sobretudo após o nascimento do filho primogênito doentio a lhe reivindicar toda atenção.

Dos colegas de Faculdade, estou a lembrar de alguns: Luiz Santana, Elvira Dina, Isabel Amaral, Ana Lúcia Campos, Anderson Nascimento, Cândida, Carlos Alberto Sobral, Mario Jorge Vieira, Wellington Mangueira, Artêmio Barreto, e outros cuja lembrança escapa.

No contexto de memória, conta-se que perguntado ao Abade Sieyès (1748-1836), único revolucionário a atingir a velhice, mesmo após ter escrito o sedicioso texto “O que é o Terceiro Estado?”, por ocasião dos “Estados Gerais”, passando depois pelo “Julgamento do Jogo da Pela”, posar de “Regicida” cortando a cabeça de Luís XVI, o Capeto, conseguindo escapar do “Terror” e de sua revanche em “Termidor”, virar Cônsul com Napoleão e Roger Ducos, vingar ministro do Império até cair em desgraça em 1815 com Waterllo e a restauração da monarquia, conservando o cocar e a cabeça, sendo único revolucionário a morrer de velho, o Ex-Abade respondeu sucinto: – “O que eu fiz?;  Vivi!”

Em tempos menos tormentosos, a mesma pergunta bem poderia ser feita agora aos colegas de Nina que jubilosos festejam a vida e os cinquenta anos de profissão vitoriosa.

Que Deus os cubra de bênçãos até para lhes dizer que Nina não viveu para poder abraçá-los como bem gostaria.

Deus quis que nós, vocês e eu, vivêssemos. Ela não viveu!

Texto e imagem reproduzidos do site:  infonet.com.br