quarta-feira, 8 de julho de 2020

O que mais posso fazer? Só agradecer, Amaral Cavalcante

Foto reproduzida da TV SERGIPE e postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil no Facebook de Elton Coelho, em 7 de julho de 2020

O que mais posso fazer? Só agradecer, Amaral Cavalcante
Por Elton Coelho *

Poeta, ator, escritor midiático, jornalista, editor, produtor cultural, inteligente, humano. O que mais posso falar sobre o cidadão simãodiense Amaral Cavalcante, em sua deslumbrante passagem por este plano, durante 74 anos? Pra mim, o Amaral foi um sopro de luz profissional, um amigo de tantas horas, um quase pai do meu jornalismo.

No meio da década de 80, entre 83 e 85, dei alusão à escrita em textos sobre a política brasileira e ao cotidiano de Aracaju/Sergipe. Vivenciava o fim da ditadura militar e o início da democratização do país. Precisava reverberar minha ânsia e o conhecido semanário ‘Folha da Praia’ foi quem me abriu às portas. Lembro-me com riqueza de detalhes da extrema alegria ao ver meu primeiro artigo num jornal tão lido pela intelectualidade sergipana, ser publicado e reverenciado pelo editor, que eu nem conhecia: era ele, Amaral Cavalcante.

Perspicaz, atento e sabendo lapidar o material bruto que se aproximava da Folha, (ou do Folha como chamávamos), Amaral já tinha em suas fileiras tantos outros honrosos colaboradores e de textos impecáveis como Hugo Costa, Luiz Eduardo Costa, Luciano Correia, Barbudo’s, Jorge Carvalho, Fernando Sávio, Carlos Cauê, Marcos Cardoso, Zenóbio Melo, e políticos neófitos que também exalavam as tintas no semanário, como Marcelo Déda, Antonio Samarone, Marcélio Bonfim e, mais, mais.

Nesse meio termo cheguei à Folha e, num momento em que quase fui expurgado pela então secretária, pois estava acostumado às publicações e até exigia suas postagens, foi o poeta que me repatriou e trouxe de volta. Fez-me aprender a elaborar o jornal, aprontar a “boneca” da Folha, junto com Antonio Passos, Guga Oliveira, Clóvis Bonfim, Edson, e também chegar à condição de repórter, entrevistador, colunista do “Senadinho”, assinada por mim, além de vendedor de páginas políticas (as famosas entrevistas), e espaços comerciais. Aprendi muito. Foi a Folha da Praia minha primeira e grande Universidade, aliada ao estudo acadêmico na então Faculdade Tiradentes (FIT’s), na rua Lagarto.

Dali, atirei-me ao mundo do jornalismo já tendo aprendido com a matriz, Folha da Praia, as correções e orientações, e muitas vezes mal humoradas do editor Amaral. Um professor, articulista e antenado. Ali mesmo fiz “minha régua e compasso”.

Hoje, 07 de julho de 2020, perdemos o poeta, o exímio escritor de crônicas tão bem pinçadas, costuradas e douradas do cotidiano dele e de nossa gente. Perdemos o intelectual promissor, cuja estatura maior se deu há poucos anos com sua ascensão à Academia Sergipana de Letras. Mas perdemos o humano, a figura agradável, de paladar amigável florescedor, que juntava cacos de brigas e afagava a todo nós com flores, risos, humor inteligente e sarcástico.

O que mais posso fazer, Amaral Cavalcante, a não ser agradecer pelos seus ensinamentos e proeza cultural? Vá em paz, poeta, amigo, imortal, sabendo que sua honrosa passagem frutificará por anos e anos de uma geração promissora que está aí bebendo de sua sabedoria e convivência. Foi a hora da sua partida, tristemente, para então nos encontramos mais além. Valeu, poeta!

* Jornalista, historiador e Colaborador do Semanário Folha da Praia

Texto reproduzido do Facebook/Elton Coelho

terça-feira, 7 de julho de 2020

Um Intelectual Gigante, por Antônia Amorosa


Publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil do Facebook de Amorosa Sergipana, em 7 de julho de 2020

Um Intelectual Gigante
Antônia Amorosa *

Acordei com a notícia que Amaral partiu na madrugada do sétimo dia, no sétimo mês do ano de pandemia. A amiga Yumah Ilma Fontes me envia um áudio trazendo uma mensagem que a gente para pôr um momento e pensa - como é doloroso não poder ir ao velório de um grande pensador!

A primeira vez que conheci Amaral Cavalcante ele estava exercendo a função de presidente da antiga Fundesc. Falei mais sobre poesia. Depois, viajamos ao Rio, eu, ele, Lu Spinelli, Chiko Queiroga, Joésia e outros bons sergipanos que não recordo todos os nomes (peço perdão por isso!), para participar do Pixingão na sala Funarte. Visitamos Joel Silveira que nos deu uma página inteira no Jornal Última Hora. Fui a sua posse na Academia Sergipana de Letras onde seu texto reverenciou o saudoso conterrâneo e seu amigo pessoal, Marcelo Déda. Nosso último encontro físico foi na exposição de Araripe onde ele ficou impressionado pelo conceito e modelo do sarau que segundo ele "Foi a mais bela que viu, nos últimos anos, em Sergipe!"

Amaral era nosso Guimarães Rosa. Seus textos nos leva a cenas de um filme Suassuna. Amaral não teve filhos mas foi pai de muitos, inclusive na construção de ideias e análises.

Embora cercado de bons amigos de longos anos, havia em Amaral, por ser poeta, uma tristeza no canto dos olhos, pela limitação física, as dores insistentes em incomodar seu gosto pela vida.

No terceiro mês do segundo milênio do vigésimo ano, o mundo mudado, chegou em terras de Aracaju e fomos "convidados" ficar em casa. Durante este tempo, por não ter sido amiga próxima de Amaral, não sei como estavam seus dias, embora eu esteja orando por todos os que permanecem ou irão partir porque a terra está passando por um tempo de colheita.

Quando a cidade dormia, um dos maiores intelectuais da história de Sergipe partia - O Atalaia da Cultura Sergipana. Oh, Sergipe...sabes tão pouco de ti! A morte deste homem merece bandeira a meia haste porque hoje Sergipe perde grande - como grande era Amaral Cavalcante. Espero esta honraria para Amaral por parte das nossas autoridades.

Sim! Quando Ilma Fontes, outra gigante, me informava por áudio que não haveria velório, a bandeira nas principais instituições deste Estado, por certo, será um gesto de reconhecimento para um homem da cultura que não fugiu à luta e cumpriu com dignidade sua missão como gestor, pensador, escritor e amigo de muitas gerações.

Certamente, na porta de entrada do lugar para onde ele foi, Déda, Araripe, Santo Sousa, Núbia Marques, Yara Vieira, Lu Spinelli e tantos outros seres encantados, abrirão os braços a dizer: 

"Amaral, aqui tá melhor do que lá! Vem pra um abraço, poeta!"

Que Deus considere sua boa jornada.

* Membro das Academias Itabaianense e Aracajuana de Letras, cantora.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Amorosa Sergipana

Lá se foi Amaral Cavalcante, por Antonio Samarone

Foto reproduzida da TV ALESE e postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo.

Texto publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil no Facebook/Antonio Samarone, em 7 de julho de 2020.

Lá se foi Amaral Cavalcante.
Por Antonio Samarone

Nunca privei da sua intimidade, nem dos seus saraus, nem dos seus vinhos. Já conheci Amaral grande ícone da cultura sergipana.

Sempre mantive uma distância respeitosa. Os gênios são obviamente geniais e geniosos. Não gostam dos importunos. O tempo deles é muito curto. Mantinha uma admiração cheia de prudência.

Escrever foi o seu destino. Escrevia melhor do que falava. Era mais irônico, mais cortante, mais iconoclasta.

Disse Amaral, na posse da Academia Sergipana de Letras.

“Um dia, quando mais uma vez eu apoiava o queixo no balcão do seu cartório, Seu Sininho me abordou”:

“Soube que você gosta de poesia; pois bem, eu tenho aqui um livro de Ascenso Ferreira, um poeta sertanejo como nós. É seu.”

“Catimbó foi o meu primeiro livro de cabeceira.”

“Vim tangendo a mula da poesia, picando palavras por veredas íngremes, calejando o coração em pedregulhos, arejando a alma nos vales sertanejos onde crepita o sonoro matagal das palavras mais simples. Com Ascenso, tostei os dedos no fogaréu dos poemas, sapequei minha alma no fogo de si própria e emergi do caos em fantásticas pirotecnias. Vi queimar-se até a última labareda o cepo mais recôndito da minha alma juvenil”.

Sergipe emburreceu, ficou menos sensível e mais sem graça.

Amaral foi um resistente. Deu combate sem trégua a mediocridade provinciana.

A Peste nos causou mais esse mal! Seu corpo será cremado, sem velório nem despedidas.

Morreu simbolicamente no Velho Hospital de Cirurgia Dr. Augusto Leite.

Minha homenagem ao poeta Amaral Cavalcante.

Texto reproduzido do Facebook/Antonio Samarone

Amaral Cavalcante se foi. Mas é um que "se" fica!

Amaral Cavalcante: *11.07.1947  +07.07.2020

Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em 07 de julho de 2020

Amaral Cavalcante se foi. Mas é um que "se" fica!
Por Jozailto Lima* (Coluna APARTE)

Um beat. Um poeta. Um iconoclasta. Um lúdico. Um lírico. Um memorialista. Um passional. Um jornalista. Um arregimentador de desiguais e de diferentes. Um boêmio. Um que marcou.

Em diversas categorias de definições bem se encaixava o velho Antonio Amaral Cavalcante, que na madrugada deste dia 7 de julho juntou uma bota noutra com o bico pra cima e bateu às portas de São Pedro.

Amaral Cavalcante lutou bravamente, entre uns e vinhos, contra um diabetes indelicado, um câncer de próstata, mas não quis prosa com a Covid-19 que Jair Bolsonaro batizara de uma gripinha.

Amaral Cavalcante morreu nesta madrugada na Urgência do Hospital do Ipes e vai ser cremado na Caueira ainda durante esta terça-feira numa solenidade nada solene: só ele com seu fogo final. No atestado de óbito está contida a inscrição da Covid.

Antonio Amaral Cavalcante nasceu no dia 11 de julho de 1946 em Simão Dias - estava, portanto, a quatro dias de emplacar 74 anos. Foi avexado, e partiu sem arredondar a conta.

Impossível pensar a cena da memória, da cultura beat e do jornalismo sergipano sem que se puxe uma cadeira cativa e fornida para Amaral Cavalcante. Nos anos 70 ele deu dois tiros certeiros nos agitos culturais do lugar.

Com um, funda o irreverente Folha da Praia, que foi laboratório jornalístico e da contracultura de muitos malucos sergipanos e aqui aportados. A Folha da Praia foi, em versão serigyzada, um Pasquim. Um monumento ao jornalismo destabacado, lírico, chutador de paus de barraca. Contestador. Era um inferninho contra botas e quepes de milicos e adesistas da nada branda ditadura militar, hoje irresponsavelmente tão evocada com suspiros de saudade por insanos. A Folha fez história e garantiu a existência e os vinhos de Amaral.

Ainda na mesma década, Amaral Cavalcante causou com "Instante Amarelo", seu único livro de poemas publicado em vida - bom livro, por sinal. Ele era, ao modo arrebentador, signatário da poesia marginal dos 70, que tinha uma visão dos beats bem ativada.

Há em "Instante Amarelo" ecos de Cacaso, Leducha, Leminisk e de muitos dos seus contemporâneo, como Mario Jorge Menezes e Ilma Fontes, que reverberam a poesia dos 70 com dignidade na terra dos cajueiros e papagaios.

Neste milênio, convidado por mim a ser um cronista do falecido Cinform, Amaral Cavalcante surpreendeu com um jorro portentoso de escritos na esfera memorialista. Destilou textos fantásticos, onde a linha do afeto memoralístico deu o ritmo, o compasso e a formação do livro "A vida me quer bem", uma reunião do melhor desta fase, que ele lançou dia 7 de novembro do ano passado.

Sim, a vida quis bem a Amaral Cavalcante e ele, inegavelmente, quis bem a ela. Uma pena que ambos tenham levantado o crachá do adeus assim tão cedomente. Tão precocemente. E, ainda mais, em tempo de pandemia de Covid-19, que nos veda de afagar os cabelos ou beijar a testa dos que partem.

Mas incomode-se não, Amaral velho de guerra, e se sinta afagado. Que a terra - ou melhor -, o fogo lhe seja leve.

* É jornalista há 37 anos, tem formação pela Unit e é fundador do Portal JLPolítica. É poeta.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

Amaral Cavalcante (1946 - 2020)

CULTURA SERGIPANA DE LUTO > Amaral Cavalcante (1946 - 2020)

NOTA DE PESAR.

Morre o jornalista Amaral Cavalcante.

É com grande pesar que a diretoria da Segrase comunica o falecimento do jornalista, poeta, produtor cultural, escritor, ator, acadêmico e editor da revista Cumbuca, Amaral Cavalcante.

Amaral nasceu em Simão Dias e faria 74 anos no próximo dia 11 de julho. Foi fundador do Jornal Folha da Praia em 1981, passou por diversas instituições públicas da área de cultura, colaborando com o engrandecimento da cultura sergipana.

Prestamos nossas mais sinceras condolências aos familiares e amigos.

Homenagem a AMARAL CAVALCANTE (1946 - 2020).




> Isto é SERGIPE - Conteúdo digital e multimídia da cultura sergipana.

> Grupo "Minha Terra é SERGIPE" - Memórias de postagens do Facebook/GrupoMTéSERGIPE.

> SERGIPE EM FOTOS - Ontem e Hoje.

> GENTE SERGIPANA - Tradição e cultura de um povo.

> SERGIPE, sua terra e sua gente.

> Enfoque SERGIPANO - SERGIPE em vídeos.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Morre a Doutora Sônia Del Vecchio Silva, 74 anos

Imagem TV Sergipe

Publicado originalmente no Facebook/Sindicato dos Médicos do Estado de Sergipe, em 2 de julho de 2020

Nota de Pesar

É com pesar que o Sindicado dos Médicos do Estado de Sergipe (Sindimed) se solidariza com todos os familiares da médica SÔNIA DEL VECCHIO SILVA, 74 anos, falecida nesta quinta-feira, 02 de julho, em decorrência de complicações da COVID-19.

Doutora Sônia Del Vecchio, com especialidade em Ginecologia e Obstetricia atuou por muitos anos no Hospital Santa Isabel. Ela deixa um importante legado para a Medicina Sergipana.

Nossos sentimentos não só à família, mas a todos os médicos que conviveram com ela. Uma grande perda!

Texto reproduzido do Facebook/Sindicato dos Médicos do Estado de Sergipe

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Tobias Barreto e a mulher


Publicado originalmente no site AJN1, em 20 de junho de 2020

Tobias Barreto e a mulher
Por Vladimir Souza Carvalho

Estamos no mês (Junho) de Tobias. Em junho, nasceu. Em junho, morreu, precocemente, cinquenta anos depois. Uma foto, entre as poucas que já foram divulgadas, o mostra precocemente envelhecido, fruto, por certo, da atrasada medicina da época. Contudo, o meio século de vida foi o suficiente para deixar a marca de sua genialidade ímpar nos textos que produziu, e nestes, a capacidade de bem argumentar, a leveza de sua abordagem, prendendo o leitor do início ao final, e, sobretudo, a audácia de se expor em exemplos que mostram o espírito avançado para quem vivia nas últimas décadas do século dezenove e o perfeito domínio da matéria abordada.

Dir-se-ia que não escrevia: valsava. Aqui e ali um comentário ousado, como ousado é todo comentário de quem tem autoridade para fazê-lo, como se fosse um elo de ligação entre dois segmentos de uma partitura musical, de um frevo, digamos em bom pernambucanês. Um oceano profundo, onde ninguém mergulhou em sua totalidade, ou uma mata fechada, onde poucos não adentraram mais de limitados metros. Encosto-me apenas em Menores e loucos em Direito Criminal, para colher alguns exemplos dos altos voos de Tobias Barreto, a fim de, em meio a uma exposição, lançar mais paus na fogueira.

Tomo a mulher como fonte de inspiração. Um deles: “Para desenvolver as minhas ponderações jurídicas, basta-me, como postulado, que a mulher seja feita à imagem e semelhança da Venus da Canova. Não sou muito exigente”. Outro: “A mulher que na opinião de todos os cavalheiros de um baile, ou de todos os convivas de um banquete, inclusive legisladores e juristas, pois esta inclusão não vai de encontro ao princípio das incompatibilidades, a mulher, que na opinião de todos estes, quando os sons de uma linda walsa convidam a dançar, ou o sabor dos licores é a estrela que mais brilha nas grandes solemnidades, volta a ser no dia seguinte, na opinião dos mesmos peritos, uma creança permanente, que não pode ter completa autonomia, que não deve ser abandonada a si mesma!… Que quer dizer isto? Como se explica e justifica esta falta de coherência e sisudez?”

E lá vem a prova da coragem de focar sem escandalizar: “Isto não basta; pois se isto não torna impossível, como eu já disse, o facto revoltante de um jovem de quinze anos ser condenado á prisão perpetua, também não impossibilita o quadro ainda mais hediondo de uma menina da mesma idade ir acabar de entumescer os seios, de engrossar os lábios e de abrir de todo a rosa da adolescência, na solidão de um cárcere, donde não mais sairá”.

Essa bravura, aliás, vinha de longe. Ao passar por Itabaiana, ainda vila, por três anos, em um dos poemas que imortalizou Rita de Cássia de Jesus Noronha, já se mostrava além de seu tempo. Ritinha era magra – e magra foi a vida inteira, pelo que se observa de foto sua na velhice -, tinha treze anos, e, justamente nessa idade os seios começavam a dar sinal. Tobias, no poema, escrito em 1858, anotava o fato se utilizando do termo alma na primeira das quatro quadras: “Em tenra e frágil vergontea / de uns treze anos que tem, / agora é que a alma desponta / no viço e no olhar… pois bem!”

Na defesa dos direitos de igualdade da mulher, sua argumentação se revestia de muita força: ” Ainda estão vivas as belas palavras de Olympia de Gourges, que eu me permitir inverter e repetir: em quanto a mulher não tiver, como o homem, o direito de subir á tribuna, ella não deve ser igualmente com ele, nas mesmas proporções, que ele, o direito de subir ao cadafalso”.

Tobias é Tobias, na ousadia de expor e dar sua opinião, de tratar a matéria com a intimidade de quem só a conhece carrega, de aplaudir e criticar, sem perder a elegância, texto de quem tem pleno e total domínio do que aborda, atleta de futebol que, antes de fazer o gol, dribla o zagueiro e conclui com um banho de cuia no goleiro.

E, para conferir vida ao que escrevia, não perdia a oportunidade para o galanteio: “E não menos que a maneira de falar tem, no bello sexo, um valor pyschologico a maneira de escrever. Se, como ainda hoje se repete, o estylo é o homem, com igualdade de razão se póde affirmar que a calligraphia é a mulher”.

Aqui, só um diminuto grão de areia, ou um pingo d´agua. A montanha desafia escalada. O oceano reclama mergulho.

Texto reproduzido do site: ajn1.com.br

Saudade matadeira



Publicado originalmente no site JORNAL DO DIA, em 01 de Julho de 2020

Saudade matadeira

 Em Sergipe, quando morre um sanfoneiro, todos choram. Ainda mais se for um músico tão querido quanto Edgar do Acordeom. Desde ontem, o estado inteiro está coberto de luto.

Natural de Malhada dos Bois, Edgar é conhecido em todo o estado por ser um dos principais nomes do forró pé de serra e da cultura popular sergipana. Em 2020, já havia completado 55 anos de uma carreira exitosa e reconhecida, inclusive, fora de Sergipe.

Em uma vida consolidada pela dedicação à família e sociedade, deixa um legado de mais de 60 composições próprias e uma história que ainda continuará influenciando uma geração da cultura popular de Sergipe e todos os colegas e amigos que, neste momento, reverenciam sua memória.

Autoridades, amigos e colegas lamentam a perda do músico. A presidência da Fundação Aperipê divulgou nota de pesar, bem como a Funcaju e a Secretaria de Justiça, órgão no qual o sanfoneiro atuava como servidor concursado. Os depoimentos mais comoventes, naturalmente, partiram de quem teve o privilégio da intimidade.

O jornalista Adiberto de Souza se manifestou publicamente. "Sergipe perdeu um grande músico, um filho ilustre, um cidadão de bem e do bem. Eu perdi um amigo, um grande amigo".

O sanfoneiro Lucas Campelo se referiu a Edgard do Acordeom como um verdadeiro mestre. "Muitas saudades, muita aprendizagem ao lado desse grande baluarte de nossa cultura sergipana, nordestina. Lembro do afeto, do cuidado de Seu Edgard para com todos nós, a família da Orquestra Sanfonica de Aracaju".

Campelo também lembra da atenção dedicada ao espetáculo 'Dominguinhos, através', quando dividiram o palco para interpretar 'Saudade matadeira', de Dominguinhos e Anastácia.

"Fui recebido em sua casa com toda calma, tranquilidade e paciência. Conversamos um bocado, uma extensão do que ocorria em nossos ensaios da ORSA, passamos a música. De quebra, ele ainda me mostrou seus discos, prêmios e o gibão de couro, que comprara todo orgulhoso e feliz do Rei do Baião”. Campelo conclui, traduzindo o sentimento geral: "Hoje, a Saudade matadeira é nossa, amigo...".

Edgar é mais uma vítima da Covid-19. Ele estava internado desde o dia 17 de junho no Hospital Cirurgia, onde lutava insistentemente contra a doença. Era casado e tinha cinco filhos.

Texto e imagens reproduzidos do site: jornaldodiase.com.br

Vítima de Covid-19, cantor Edgar do Acordeon morre aos 73 anos

Foto reproduzida do Facebook/Gabriela Correia

Texto publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 30 de junho de 2020

Vítima de Covid-19, cantor Edgar do Acordeon morre aos 73 anos

Morreu na manhã desta terça-feira, 30, aos 73 anos, vítima de complicações decorrentes do novo coronavírus (Covid-19), o cantor sergipano Edgar do Acordeon. O artista estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Cirurgia em estado grave desde a semana passada.

Por meio das redes sociais, Rejanne Costa, filha do cantor, informou que o pai deu entrada na Urgência do IPES, no dia 17 de junho, com uma síndrome gripal. Ainda segundo ela, ele foi levado para a UTI do Cirurgia em estado grave, onde veio a falecer nesta terça.

Natural de Malhada dos Bois, Edigar é conhecido em todo o estado por ser um dos principais nomes do forró pé de serra e da cultura popular sergipana sergipana. Em 2020, já havia completado 55 anos de uma carreira exitosa e reconhecida, inclusive, fora de Sergipe. Além da carreira artística, Edgar era servidor público desde 1985, quando passou a fazer parte do quadro de motoristas da Sejuc.


A Sejuc emitiu nota lamentando profundamente a morte do cantor. O secretário Cristiano Barreto (Sejuc) ratificou a importância que o servidor público tinha para os quadros da administração estadual e reforçou que, além da função exercida no dia a dia, a morte de Edigar é um duro golpe na cultura popular sergipana.

Carreira

O sanfoneiro Edgar do Acordeon de Malhada dos Bois é músico, cantor e compositor e tem 55 anos de carreira. Em uma das entrevistas ao Portal Infonet, Edgar fala do amor pelo forró. Em 2015, o cantor tocou pela primeira vez no Forró Siri e contou um pouco da sua trajetória na música.

Texto reproduzido do site: infonet.com.br

terça-feira, 30 de junho de 2020

Morre aos 73 anos o cantor Edgard do Acordeon vítima da Covid-19





Fotos reproduzidas do Facebook/Edgard do Acordeon

Texto publicado originalmente no site 93 NOTÍCIAS, 30 de junho de 2020

Morre aos 73 anos o cantor Edgard do Acordeon vítima da Covid-19

Ele estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Cirurgia

Da Redação

O cantor sergipano Edgard do Acordeon, 73 anos, faleceu nesta terça-feira (30) vítima da Covid-19, doença causada pelo Coronavírus. Ele estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Cirurgia desde o dia 17 deste mês com sintomas graves da doença.

O sanfoneiro Edgard do Acordeon era natural de Malhada dos Bois, músico, cantor e compositor. Com 53 anos de carreira, era um apaixonado pelo tradicional forró nordestino e fez parte de diversas festividades da região.

Texto reproduzido do site: 93noticias.com.br

domingo, 28 de junho de 2020

Jozailto Lima ENTREVISTA Juliano Cesar

“Em momentos de crise, não se pode sobrepor o senso comum à ciência”

Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em junho de 2020

Jozailto Lima ENTREVISTA Juliano Cesar

Juliano Cesar: “Esta não é hora nem de falecer nem de falir”

Aos 57 anos, ele mistura tolerância, conciliação e prudência com pragmatismo, muito foco e objetividade, o que fez do seu negócio um dos mais alvissareiros, vistosos e promissores no território da atividade atacadista de alimentos e bebidas no Brasil a partir do pequeno Sergipe, que ele tem como sua terra e paixão.

Ele é Juliano Cesar Faria Souto, um administrador de Empresas por formação acadêmica e empreendedor por descendência genética e por imposição compulsória de um certo DNA paterno.

Tem no histórico Raymundo Juliano Faria Santos, o pai, um esteio. Uma âncora. Um “doutor em vida e em negócio”, para quem ele bate continência de afeto, respeito e naturalmente o replica em tudo que o velho é, foi, fez e faz. “Meu pai é a minha real bússola e meu melhor manual de instruções”, diz Juliano.

De 2013 para cá, Juliano Cesar Faria Souto conseguiu empinar o nariz da Fasouto, espargir lojas da marca pelos territórios de Aracaju, Nossa Senhora do Socorro - neste, um big Centro de Distribuição inaugurado este ano na flor da pandemia de coronavírus -, em Estância, Lagarto e Tobias Barreto, gerar cerca de 500 empregos diretos e se preparar pra um ação que permitirá ao seu Grupo faturar R$ 250 milhões neste ano pandêmico de 2020.

No centro de tudo isso, Juliano Cesar Faria Souto, que emprestou precocemente brancura aos cabelos, ainda encontra tempo e espaço para se converter num ser gregário, participar de entidades de classe do segmento em que atua, em conselhos de governo e, o mais consistente de tudo isso, ter uma cabeça erguida para bem além e acima de dependências e adulações a Governos de plantão.

Não o chamem para brigas desnecessárias e histriônicas que não o terão como um parceiro. “Negociar e fazer amigos é nosso mantra - dele e meu”, diz, numa referência ao pai. “Tento sempre seguir o exemplo de Raymundo Juliano Souto Santos que, mesmo sendo um homem de pensamento político diverso, lembra-me a famosa frase atribuída a Che Guevara, segundo a qual é preciso “ser duro, mas sem perder a ternura jamais””, reforça.

“De modo que, por maiores que sejam o problema, o desafio ou a divergência com os quais me deparo, o faço certo de que as posições e o radicalismo extremados em nada constroem e em nada ajudam na busca da solução. É evidente que devemos e podemos ter posições firmes, porém nunca criar desafetos para fazê-las valer”, diz, do alto desse “mantra”, Juliano Cesar Faria Souto se faz livre, espontâneo e realista - de uma espontaneidade capaz de exibir um conceito justo e muito coerente sobre o presidente Jair Bolsonaro nesta hora de pandemia em que muitos na posição e no status dele jamais o fariam, preferindo o agachamento tíbio e pálido por detrás da moita das conveniências.

“Entendo que é, no mínimo, lamentável. Diria desastrosa”, afirma ele, sobre a falta de responsabilidade presidencial em face do drama da Covid-19. “Em momentos de crise, não cabem voluntarismo e exacerbação de convicções políticas e pessoais. Não se pode sobrepor o senso comum à ciência”, adverte Juliano Cesar.

Ele ainda prefixa esta importante expectativa cidadã: “Espero que essa triste página da história que estamos vivendo, com vidas perdidas, famílias destroçadas e elevados prejuízos econômicos, sirva de ensinamento para que nós brasileiros, quando votarmos, usemos mais a razão do que o fígado”.

“Busquemos lideranças firmes que reflitam nosso modo de pensar a sociedade, mas sem cair em falsas esperanças daqueles que prometem que a solução estará sempre no confronto, pois ao se deparar com situações onde a união é mais importante que ter a razão o líder fica amarrado às suas posições radicais e nos impõe sacrifícios e desgoverno como este que estamos presenciando. Que possamos aprender a fazer escolhas mais assertivas em 2022”, completa.

Portanto, como livre e crítico, Juliano Cesar Faria Souto cunhou na paisagem da economia e da responsabilidade social uma frase que ele capturara Brasil adentro, segundo a qual, o momento da pandemia de coronavírus que se aproximava do pais feito uma nuvem de gafanhoto não seria motivo para falecer pessoas e nem falir empresas.

“E continuo, 100 dias depois, hasteando a mesma ideia de que esta não é hora nem de falecer nem de falir. Acompanhei e atuo na tentativa de que medidas para minimizar os efeitos dessa tão grave crise possam ser adotadas”, diz

Para Juliano Cesar, foi exatamente com essa visão que os setores de primeira-necessidade do país atuaram e atuam na crise, sustentando fornecimento, suprindo a nação e preservando seus colaboradores da fúria do vírus.

“Essa crise precisa de ações efetivas em saúde: testagem, isolamento, assistência aos primeiros sintomas. Não é somente com abertura ou com fechamento de atividades que será interditada a disseminação do vírus”, recomenda.

Nesta Entrevista, o empresário Juliano Cesar Faria Souto faz um exato raio x do setor de atacadista no país - são mais de um milhão de empregos -, diz qual o planejamento dele e das três filhas para o futuro da Fasouto, expõe visões sobre associativismo, relacionamento com governos e fala do futuro socioeconômico de Sergipe e, sobretudo, derrama um olhar terno, grato e reconhecedor sobre o pai, o empresário Raymundo Juliano Souto Santos, 88 anos, fundador e mantenedor da Disberj por muitos anos - a matriz de tudo.

“Meu pai é meu herói, meu líder, minha real bússola e meu melhor manual de instruções. Ter essa convivência e seus exemplos são minha maior riqueza frente aos desafios de cada dia. Em minha vida tenho somente uma meta: honrar os ensinamentos que recebi e recebo dessa figura maravilhosa”, diz.

Juliano Cesar Faria Souto nasceu em 27 fevereiro 1964 na cidade de Estância. É filho de Raymundo Juliano Souto Santos e de Suele Fontes Faria Souto e casado com economista e comerciante Riane Mendonça Silveira Souto, com quem é pai de três filhas - Fernanda Maria Silveira Souto, de 30 anos, Maria Luísa Silveira Souto, de 28, e Maria Júlia Silveira Souto, de 26.

Ele é bacharel em Administração de Empresas, dono do CRA/SE de número 2684-01, com conclusão do curso em 2007 pela Faculdade de Administração Brasília e tem MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas.

Hoje Juliano se divide entre o comando do Grupo Fasouto e a Vice-Presidência da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores de Produtos Industrializados e é diretor de Comércio Atacadista da Fecomércio de Sergipe e conselheiro no Sincadise - Sindicato Comércio Atacadista Sergipe.

Ternura filial e paterna entre os dois Souto: "Meu pai é meu herói, meu líder, 
minha real bússola e meu melhor manual de instruções"

Juliano Cesar conhece o batente do trabalho desde os 14 anos - começa no famoso chão de fábrica, como auxiliar de escritório na Disberj - Distribuidora Raymundo Juliano.

“Ter a oportunidade de unir pai e professor numa só pessoa e momento, foi e tem sido uma dádiva para mim e para os meus que estão em vias de me suceder. Até 2024 espero ter concluído a personalização da Fasouto e possa deixar a função de sócio administrador, continuando como sócio e conselheiro”, diz ele

Aí, certamente, vai começar uma nova história, envolvendo três meninas, três Marias - Fernanda Maria, Maria Luísa e Maria Júlia.

A Entrevista com Juliano Cesar Faria Souto vale muitíssimo o empenho da leitura.

Juliano Cesar e sua Riane Mendonça Silveira Souto, 
que ele considera seu porto seguro e que lhe deu três belas moças

Texto e imagens reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

Para continuar lendo, clique no link à seguir: https://bit.ly/3ie9uVU

SOMESE 83 anos

Médicos sergipanos no final da década de 30. Augusto Leite 
é o quarto, sentado, a partir da esquerda.

Publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 26 de junho de 2020 

SOMESE 83
Por Lúcio Prado (Blog Infonet) 

A mais antiga instituição representativa dos médicos de Sergipe, em funcionamento de forma ininterrupta, está comemorando, neste sábado, 27 de junho de 2020, oitenta e três anos de existência. É a Sociedade Médica de Sergipe – SOMESE – que tive a honra de presidir por dois mandatos, de 1993 a 1997.

Na verdade, ela não é a primeira entidade representativa da classe médica de Sergipe. Em 1911 surge a primeira tentativa com a criação da Sociedade de Medicina de Sergipe, sob o comando dos médicos Daniel Campos e Helvécio de Andrade. Não dura muito, apenas um ano, mas nesse curtíssimo tempo consegue publicar a primeira revista médica do estado.

Dr. Helvécio Andrade fez uma primeira tentativa

Dr. Daniel Campos

Nova tentativa de organização associativa vai acontecer oito anos depois, com a criação da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Sergipe, em julho de 1919, agora sob o comando do médico clínico Francisco Quintiliano da Fonseca, com a participação ainda de jovens médicos que começavam a se destacar no cenário da nossa medicina,  entre eles os cirurgiões Eronides Carvalho, Juliano Simões e, especialmente, Augusto Leite.

Dr. Augusto Leite Fundador da Sociedade Médica de Sergipe

Na década de 20, até a data da inauguração do Hospital de Cirurgia, ocorrida em 1926, a entidade exerce papel preponderante na elaboração das políticas de saúde do governo Graccho Cardoso. Nesse período de efervescência científica, Graccho traz a Aracaju o sanitarista Paulo de Figueiredo Parreiras Horta, auxiliar de Osvaldo Cruz, que implementa importantes ações de saneamento e controle de endemias e que culmina com a criação do instituto que mais tarde, em justa homenagem, receberia o seu nome.

Com o funcionamento do novo hospital, Graccho oferece a Sergipe finalmente um verdadeiro “ambiente cirúrgico”, nas palavras agradecidas de Augusto Leite. Curiosamente, a partir daí, a entidade vai entrando em declínio e ninguém mais ouve falar dela. Somente em 27 de junho de 1937, graças ao interesse do Dr. Augusto Leite na liderança do processo, surge a atual Sociedade Médica de Sergipe – a atual SOMESE – com sua diretoria sendo empossada na sede da Biblioteca Pública.

No período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) não há registros de ações importantes da entidade médica, somente em 1945 ocorre o que pode ter sido o primeiro movimento organizado da categoria. Uma reunião plenária, com a participação de vários médicos, sob o comando de Eraldo Lemos e Antônio Garcia, define as principais ações de luta da categoria: a criação do conselho de classe, (que na oportunidade a maioria dos presentes se manifestou contrária e não o aprovou), a implantação de um piso salarial e a fixação de médicos nas cidades do interior do Estado.

Augusto Leite mantém-se por doze anos no comando da Somese, sendo substituído em 1949 pelo pediatra José Machado de Souza. Seu sucessor, o alienista João Batista Perez Garcia Moreno, assume a presidência em 1952. Em 1953, ele lidera um movimento para a criação de uma escola médica em Sergipe e chega a criar uma associação mantenedora, mas as condições políticas da época não favoreceram a efetivação do sonho da faculdade.

A partir da segunda metade da década de 50, a SOMESE experimenta uma de suas fases mais áureas, de grande prestígio político. Seu presidente, o Dr. José Machado de Souza, exerce o cargo de vice-governador do Estado, no governo do udenista Leandro Maciel. Machado, com o apoio decisivo de Carlos Firpo, médico e diretor do Hospital

Dr. Eraldo Lemos

Santa Isabel e ex-prefeito de Aracaju, passa o comando da SOMESE para o cirurgião Canuto Garcia Moreno. A partir dessa administração, forma-se um bloco forte e consistente que vai comandar a medicina de Sergipe por uma década, com realizações de grande importância para o seu desenvolvimento, destacando-se a fundação da Faculdade de Medicina em 1961, instalada por Antônio Garcia Filho, após superar indiferenças e obstáculos de todas as naturezas. À época, ele também presidia a Sociedade Médica de Sergipe.

Dr. Antonio Garcia Filho

Ainda na década de 50, nacionalmente, a classe médica se organiza com a fundação da Associação Médica Brasileira – AMB, em São Paulo e um sergipano participa ativamente desse momento histórico, fazendo parte inclusive de sua primeira diretoria: Eraldo Machado de Lemos. Justiça se faça, desde a década de 40, seu nome sempre é citado em todos os movimentos médicos do Estado.

A SOMESE ainda não possuía sede própria, suas reuniões aconteciam na Biblioteca Pública e no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e somente em 1968, na administração de Hugo Gurgel, com a ajuda do Governador Lourival Baptista, isso vem a acontecer.  À frente da SOMESE até 1969, Hugo conta com o apoio de valorosos companheiros, como Alexandre Menezes, Gileno Lima, José Leite Primo, Dalmo Melo.

A SOMESE participa ainda dos primeiros passos para a fundação do Sindicato dos Médicos, criado na década de 60 e apoia a instalação da Unimed Aracaju, fundada em 1984. Nos primeiros anos, essas duas instituições funcionaram gratuitamente na sede da Somese. A tradicional entidade ainda tem participação decisiva e fundamental para a fundação da Academia Sergipana de Medicina, ocorrida no final do século XX – 9 de dezembro de 1994 -, graças à determinação e ao esforço do médico Gileno da Silveira Lima. Ainda hoje a Academia funciona na sede da SOMESE, com seu total e irrestrito apoio.

Inauguração da primeira sede da Somese em 1968. Três ícones da Medicina de Sergipe: 
Machado de Souza, Augusto Leite e Lauro Porto.

As diretorias da SOMESE que se sucedem de Hugo Gurgel até então, cada uma com suas características e realizações, menos ou mais empreendedoras, mantém acesa a chama do associativismo médico, com inestimáveis serviços prestados à comunidade. No momento em que se comemora essa efeméride, não custa cobrar dos colegas médicos o compromisso em prestigiá-la, participando com entusiasmo da vida de sua entidade maior.

Traçando um paralelo histórico, não foi por acaso que as duas maiores conquistas da medicina sergipana do século passado, a meu ver, o Hospital de Cirurgia e a Faculdade de Medicina, tiveram como fundadores respectivamente os presidentes das entidades médicas de então, em pleno exercício de suas funções: os doutores Augusto Leite, comandando a Sociedade de Medicina e Cirurgia e Antônio Garcia Filho, liderando a Sociedade Médica de Sergipe. Difícil imaginar o grande desenvolvimento da Medicina sergipana nos nossos tempos sem a presença marcante, atuante, agregadora e decisiva da SOMESE.

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

domingo, 21 de junho de 2020

Há 78 anos, um inimigo invisível fez 551 mortes em Sergipe

Cemitério dos Náufragos, triste memória dos torpedeamentos

Publicado originalmente no site DESTAQUE NOTÍCIAS, em 21 de junho de 2020

Há 78 anos, um inimigo invisível fez 551 mortes em Sergipe

Há quase oito décadas, os aracajuanos também tiveram que se isolar em suas casas, principalmente à noite, quanto todas as luzes da capital eram apagadas para enganar o inimigo. Diferente do que ocorre hoje com a Covid-19, a ameaça daquela época era de carne e osso, falava alemão e matava principalmente quem se aventurava no mar. Estamos falando da tripulação do submarino alemão U-507, responsável pelos torpedeamentos na costa sergipana dos navios mercantes Baependi, Araraquara e Annibal Benevolo, causando as mortes de 551 pessoas. Essa triste história foi estudada pelo professor Dilton Candido Santos Maynard, da Universidade Federal de Sergipe, e resumida na reportagem que segue abaixo:

Era o ano de 1942. Todas as noites, Aracaju ficava às escuras e com suas ruas completamente desertas por conta de blecautes programados e toques de recolher. Havia o receio de que a cidade, com as luzes acesas, se tornasse alvo fácil e fosse bombardeada.

Situações como essa se tornaram corriqueiras após três navios mercantes próximos à costa de Sergipe serem torpedeados, causando a morte de 551 pessoas. Os ataques foram atribuídos ao submarino alemão U-507 e as embarcações atingidas foram o Baependi (270 mortos), Araraquara (131) e Annibal Benevolo (150). No dia seguinte, 17 de agosto, outros dois navios foram atacados: Itagiba e Arará, na costa da Bahia, vitimando mais 56 pessoas.

Dilton Candido Santos Maynard começou a pesquisa ainda quando bolsista

Durante esse mesmo período, o mundo acompanhava atônito aos desdobramentos de um dos maiores massacres de que se têm registros na história da humanidade: a Segunda Guerra Mundial. O Brasil assistia ao embate entre nações sem tomar uma declarada posição, até que os torpedeamentos nas costas sergipana e baiana forçaram o então presidente, Getúlio Vargas, a declarar guerra contra os países do Eixo – grupo formado por Alemanha, Itália e Japão.

O submarino U-507 viria a ser afundado em 1943 no litoral norte brasileiro, pela Força Aérea dos Estados Unidos, mas seus ataques já haviam deixado, além das centenas de mortos, marcas no cotidiano dos sergipanos.

Longa pesquisa

Ainda quando era estudante, Dilton Candido Santos Maynard começou a pesquisar sobre o cotidiano de Aracaju na Segunda Guerra, como bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), mas acabou interrompendo temporariamente as pesquisas. Agora, como professor do Departamento de História e orientador, resgata o assunto.

“Duas coisas me fizerem retomar o tema: a ausência de trabalhos que tratassem com maior cuidado o período, e ao mesmo tempo, o aspecto político e simbólico que esses torpedeamentos tiveram para o Brasil e para Sergipe naquele momento”, conta o professor.

Além de abordar aspectos históricos e sociais, como as mudanças ocorridas no cotidiano do povo de Aracaju após os ataques, a pesquisa tem por objetivo analisar como os jornais da época tratavam o tema e como a visão dos populares a respeito do conflito foi alterada.

O professor exemplifica como alguns problemas enfrentados ainda hoje pela população aracajuana já afetavam a vida de seus antepassados ainda na primeira metade do século XX, como o transporte público. “As poucas marinetes que a sociedade tinha enfrentavam dificuldades no que diz respeito a peças, ao tratamento dos motoristas, dos condutores. Esses problemas acabaram se aprofundando porque com o passar do tempo e com o avanço da guerra ficou mais difícil chegarem peças aqui”.

Notícias dos jornais

Dilton Maynard revela que além de informações sobre os transportes, os jornais traziam notícias sobre a má qualidade do serviço de fornecimento de energia elétrica e dificuldade com os preços que dispararam na época, embora houvesse uma tentativa de controle por parte do governo.

“Não somente as notícias da guerra aparecem – como, por exemplo, a invasão à França, os avanços de Hitler, a preparação da Inglaterra – mas o próprio linguajar dos jornais é tomado por um certo belicismo. Fala-se em promoções do tipo Blitzkrieg (termo alemão para ‘guerra relâmpago’) contra as tristezas da vida. Quando se fala de um jogo, tratam como um combate entre os dois times. Vários termos ligados ao conflito acabam entrando no linguajar dos jornais”.

Para facilitar a compreensão do que foi aquele momento para os habitantes de Aracaju, o professor compara a um fato mais recente: o incêndio da boate Kiss na cidade de Santa Maria (RS), em 2013, tragédia que vitimou mais de 240 jovens.

O submarino U-507 sendo afundado no litoral brasileiro pela Força Aérea dos Estados Unidos

Rotina modificada

“Se em pleno século XXI não conseguimos conceber a perda de tanta gente, tantos jovens morrendo quando deveriam estar apenas se divertindo, pense o que são mais de 500 pessoas morrendo e parte desses corpos chegando a uma cidadezinha de 50 mil habitantes, onde a coisa mais diferente que havia na rotina do local era o ano novo, ou o carnaval”.

Outro aspecto importante da pesquisa para Dilton Maynard é o fato de Aracaju ser uma das únicas cidades do continente americano a sofrer diretamente as consequências da Segunda Guerra. O outro caso lembrado foi a Batalha do Rio da Prata, ocorrida em Montevidéu, Uruguai, ocasião em que um navio alemão com pesada artilharia foi cercado por três embarcações britânicas e se viu obrigado a bater em retirada.

O pesquisador lamenta haver desconhecimento sobre esse evento histórico ocorrido em Sergipe até por seus próprios habitantes. Entretanto, lembra que existem alguns indicativos que têm como objetivo não permitir que esse fato caia no esquecimento, como a rodovia, o cemitério e a praia dos Náufragos – neste trecho do litoral aracajuano chegou grande parte dos corpos, trazidos pelo mar, vitimados pelos naufrágios. Na capital, há também um monumento dedicado aos pracinhas – soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) enviados à Itália para integrarem as forças aliadas, comandadas pelos Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética, na luta contra os regimes nazista e fascista, representados pelo Eixo – no bairro Siqueira Campos.

Memórias desarticuladas

Contudo, Maynard destaca o problema de não existir um trabalho que articule essas memórias em torno dos navios torpedeados na costa sergipana. “Existem a praia, o cemitério e a rodovia dos Náufragos. Mas existem náufragos desde o tempo em que o homem começou a navegar. Isso não vai colar a memória sergipana a esse acontecimento. A grande exceção, claro, são as pessoas mais velhas que sabem que isso está ligado a esse momento triste de nossa história, mas os mais novos, não”.

O professor conclui que o estudo sobre o cotidiano de Aracaju mostra que, mesmo enfrentando dificuldades para obter alimentos e outros utensílios, os cidadãos acabaram se adaptando ao clima de guerra e seguiram sua rotina. “As procissões continuaram ocorrendo, os cinemas continuaram existindo, a ida às praças, ao futebol. Num determinado momento há o choque como é normal, mas você percebe que aos poucos as pessoas voltam a circular por esses ambientes”.

Por Marcilio Costa e Guilherme Almeida (bolsista)
comunica@ufs.br

Texto e imagens reproduzidos do site: destaquenoticias.com.br