domingo, 12 de julho de 2020

Ave Amaral, Morituri Te Salutant

Na foto: Jorge, AMARAL, Cauê e Luciano - 2014

Publicado originalmente no blog EUCAÇÃO, HISTÓRIA e POLÍTICA, em 07/07/2020

Ave Amaral, Morituri Te Salutant                                               
Por Jorge Carvalho do Nascimento * 
                                        
Salve Cesar, os que vão morrer te saúdam. Assim os gladiadores reverenciavam o poder do Imperador de Roma antes que o combate fosse iniciado. O AVE vem do Latim e foi bastante utilizado no Império Romano para demonstrar alegria, regozijo e felicidade. Servia para cumprimentar uma pessoa de modo efusivo.

É assim que quero me dirigir ao amigo Antônio do Amaral Cavalcante, no triste momento em que ele se despede da vida nos deixando órfãos de inteligência, de fraternidade, de erudição, de agitação cultural. Amaral foi na vida, ao mesmo tempo, gladiador e imperador.

Sabia cobrar e ser ranzinza quando desejava executar os projetos nos quais se envolvia. Editor da revista cultural Cumbuca, no final do ano passado me telefonou falando com muita dureza porque eu deixei de cumprir o prazo de entrega de um texto. Doce, no dia seguinte mandou um motorista na minha casa entregar um bolo diet de laranja, para aplacar a minha mágoa pela bronca que me dera. O fato é que o corretivo funcionou e cuidei de fazer e enviar o texto no mesmo dia.

Exatamente por ele ser criativo, inovador e competente para realizar os projetos, o convidei, em 2013, para exercer a função de editor da revista Cumbuca, criada quando eu era presidente da Imprensa Oficial do Estado de Sergipe e resolvi, juntamente com o governador Jackson Barreto, publicar o periódico. Acertei em cheio. Amaral transformou a Cumbuca num sucesso editorial dirigido por ele até agora. A revista é um dos seus órfãos.

Receber um bolo diet de presente de Amaral me sensibilizava. Também eu gostava de presenteá-lo com este tipo de mimo. Afinal, ambos diabéticos. Todavia, receber o presente vindo de Amaral significava muito. O poeta era conhecido pela parcimônia nos gastos. De acordo com o nosso comum amigo professor Luciano Correia, quem quisesse saber sugestões sobre restaurantes baratos, bastava ligar para o jornalista fundador do periódico alternativo Folha da Praia. Mesmo assim, nenhum de nós dispensava os saraus que algumas vezes Amaral organizava em sua casa. A comida e o vinho, uma delícia. Responsabilizo os maledicentes amigos comuns jornalistas Luciano Correia e Carlos Cauê por esta má fama imputada a Amaral.

É difícil saber que estou perdendo um amigo plúrimo como ele, o poeta que encantou a minha geração. Quando eu o conheci na década de 1970, Amaral havia chegado aos 30 anos de idade, mas era de há muito um irrequieto agitador cultural. Tinha reconhecida a sua competência como intelectual, poeta, jornalista e cronista. Foi bom faze-lo amigo e ser por ele aceito em tal condição. Admiração e amizade que me levaram a saudá-lo quando do seu ingresso na Academia Sergipana de Letras.

O menino de Simão Dias, rebento de Corina Hora do Amaral e José Cavalcante Lima carregou para sempre as marcas educativas do matriarcado familiar e o convívio com os dois irmãos e as duas irmãs, dos quais foi apartado aos quatro anos de idade para viver em Itaporanga D’Ajuda com as tias-avós paternas, nas margens do rio Vaza Barris.

Ali foi forjado o grande poeta e cronista que conhecemos, o bom leitor. Sem ler bem ninguém escreve. Ali recitou com voz impostada os primeiros poemas e discursos festivos, angariando alguns trocados e abrilhantando os eventos sociais da cidade.

Voltou para Simão Dias, estudou. Saiu novamente, adolescente, para ser aluno interno do Colégio Agrícola, em São Cristóvão. Retornou a Simão Dias, onde concluiu o Ginásio. Fez política estudantil e foi liderado pelo padre estanciano Joaquim Antunes Almeida, o Padre Almeida. Fundou o Grêmio Escolar da instituição de ensino onde era aluno, ao lado de Clínio Carvalho Guimarães, sob a influência do seu professor de História, Lauro Pacheco. Concluiu o curso ginasial e foi o orador da sua turma. No tumultuado e tenebroso 1964 Amaral havia, já, vivido 18 anos. A dureza da vida se fez real. Mudou para Aracaju e o comércio foi a alternativa de trabalho que se apresentou, para garantir o próprio sustento e colaborar com a renda da família. À noite, frequentava as aulas do Atheneu.

Ao catapultar-se para Aracaju, na bagagem trouxe os primeiros poemas. Aqui se fez jornalista, escritor e gestor público. O poeta, jornalista, empreendedor e agitador cultural nos deixa. Um senhor de 73 anos de idade. Vida agitada marcada por um temperamento também iconoclasta. Aos amigos, todos órfãos, resta saudá-lo: “Ave Amaral, Morituri Te Salutant”.

* Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.

Texto e imagem reproduzidos do blog educacaohistoriaepolitica

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