quinta-feira, 9 de julho de 2020

Amaral Cavalcante, a vida lhe quer bem!


Publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 8 de julho de 2020  

Amaral Cavalcante, a vida lhe quer bem!
Por Lúcio Prado (Blog Infonet)

Amaral Cavalcante, que já sofria de insuficiência renal crônica, não resistiu aos novos tempos, no isolamento imposto pela pandemia. Não sei se vitimado pelo vírus ou pela solidão! Difícil imaginar ele em quarentena, apesar de que nos últimos anos tenha passado boa parte do tempo recolhido no seu templo da praia, entre plantas, quadros e livros. Resgatado pela Academia Sergipana de Letras e pelo comando da revista Cumbica, da qual era editor-chefe e que a tornou um modelo de publicação para todo o país, Amaral sempre foi um lobo solitário, mergulhado no âmago da sua inteligência profunda e nas contradições da vida. De caráter afirmativo e verdadeiro, dizia o que pensava e por isso chegou a incomodar muita gente, mas a vida lhe queria bem, apesar dos descuidos que tinha com a vida. Coisa de poeta? 

Amaral Cavalcante era da mesma idade do meu irmão Marcos e juntos eles revolucionaram a pacata Itaporanga da década de 50/60. Promoviam jograis literários, rodavam filmes, concursos de miss, para prestigiar as mocinhas da cidade, dos quais eram os organizadores e jurados (ele pegava as medidas do busto e o mano Marcos a dos quadris) e outras peraltices da adolescência. O velho casarão da família Dias era tipo um clube social da cidade, para sessões literárias e culturais e Amaral por lá sempre despontava, com sua inteligência e irreverência, brotando aos turbilhões. E eu, criança de calça curta, ficava com outros meninos da mesma idade, sentado em círculo, extasiado e alegre com todas aquelas manifestações. Mas a diferença de idade entre nós na época era grande, coisa de uns 12 anos e todas aquelas reminiscências ficaram para trás.

Do seu passado, Amaral evoca singela lembrança. “Entre as vastas, mais fugidias margens da memória, as cândidas molecagens nos poções do Vaza-Barris, em Itaporanga d’Ajuda, nadam, pescam siris ovados, camarões espertos. Coisas que o jereré da vida já não nos permite achar, nem sob o lodoso mangue desta cidade Capital – onde vim morar – nem nas gôndolas esquálidas dos seus supermercados. O privilégio da cidade era um rio habitando os quintais. O Vaza Barris cortava respeitoso as trilhas domésticas, como um inquieto horizonte de caudolosas possibilidades. Ele levaria às distâncias do mar a inquietude dos meninos, o zuadento thi-bum dos nossos pulos mortais, levando, lavando os sonhos mais pueris da meninada. Enquanto isso, ao cimo da ladeira do Sapé, o trem de ferro – outro rio a serviço das distâncias – enchia de carvão e fumaça o sonâmbulo destino da cidade. Um dia, todos nós estaríamos longe dali. Como seria o mundo além daqueles rios? Era ela, então, uma pequenina aldeia entre rios, ela mesmo um córrego fiel de silêncios familiares. Tão silenciosa que se podia ouvir nas tardes modorrentas, o alarido das crianças aos sustos e imprecações, provando em acrobáticos mergulhos os seus rituais de incipiente coragem e intrepidez.

O pai de Marcos, o seu Tonico (Antônio Conde Dias) era um grande cronista católico. Escrevia na A Cruzada. Era afável, bem humorado e inteligente. Permitiu que a casa dele se tornasse uma espécie de centro cultural, onde a meninada de Itaporanga podia ler jornais e revistas importantes, o Cruzeiro, Vida Doméstica, inclusive as femininas, de moda, como Burda e Marie Claire, assinadas por Dona Natália e, de vez em quando, nos concedia o beneplácito da sua opinião sobre a nossa incipiente literatura.

   Itaporanga permanece ainda assim, tão querida quanto indelével na memória, mas irreversivelmente aquática: será sempre um rio correndo em priscas eras, onde permanecem submersas as nossas armadilhas jererés.”

Anos depois, em Aracaju, nos reencontramos, dessa vez já adultos, ele envolvido em várias ações como agente cultural profícuo. Marcos entrou na Medicina e os dois nunca mais voltaram a se encontrar de forma regular, um ou outro, aqui ou acolá. Foi a minha vez. O surgimento do Madrigal de Sergipe, organizado pelo maestro Paulo César Prado,  deu a oportunidade de reencontrar Amaral com seu vozeirão afinado de barítono. Com ele, mais Durval e Clóvis, integrávamos o naipe dos barítonos. Foi um tempo inesquecível, com os ensaios aos sábados no Conservatório de Música. O Madrigal de Paulo César fez sucesso com várias apresentações em Sergipe, no Festival de Arte de São Cristóvão e em outros estados na década de 70. Foi a partir daí que passei a ter mais contato com Amaral. 

Nos verões da cidade formávamos uma confraria eventual, graças ao elo Armando Rollemberg (Armandinho) e Bosco Mendonça, que nos unia pela música, pela poesia e, podemos dizer assim, pela peraltice. Num desses encontros, ele colocou no papel uma singela prosa poética, denominada China Querida. Assim ele se expressou: 

“Chego em casa ainda com um pé nas nuvens e o outro no chinelo, arrastando histórias, levantando na poeira de outros tempos a memória de grandes amigos. Não sei por onde é melhor firmar o passo: se com o pé na escala sideral do bem querer que esta noite nos trouxe ou mais humano, na vereda fortuita dos gozos terrenos, digamos assim, da alma escancarada. 

           Ai de mim, escancarado na imensidão desses mundos, descompassado que sou e tão atrapalhado, se não me valesse a sua tranquilidade terrena – querida China – e a loucura santa do seu marido Bosco, este sim, guardião de antigas maluquices e amigo sempre, graças a Deus pra caralho. 

Você, mulher, viu Armandinho Rollemberg se desfazer bonito de amor como eu vi, quando Adriana cantou terna e desassombrada? Viu o olho dele soltando estrelinhas de São João? Durval, ninando o filho temporão, tão suave pai se abrindo em confissões? Viu iluminar-se como fogos de artifício, a voz de Lúcio Prado construindo guirlandas no ar e papoucadas, lindas, em derramadas pirotecnias? Viu, mulher?  Percebeu a firmeza do Comandante acostumado a perscrutar horizontes, viu como ele é pousado e sereno? Viajou no teclado daquele menino, ofereceu ao seu deslumbramento à mesa posta perfeita, ao vinho melhor nos aquecendo, rubras quenturas de amor incendiadas? Raramente se recebe assim a nós, as visitas de outrora. 

Anos depois, Amaral chega à Academia de Letras, com toda a sua irreverencia, numa linda festa de possee e discursos antológicos de Marcelo Deda, que fez o seu panegírico e do próprio recipiendário.  No entanto, absorvido por outras atividades que tomavam muito o seu tempo, pouco frequentava a Academia. Lutava pra editar com regularidade o seu “Folha da Praia”. 

Anos depois, em 2016, abria-se vaga para a Cadeira 36, com a morte do professor Acrísio Torres. Comecei a conversar com cada   acadêmico sobre a minha pretensão de sucedê-lo e fui pessoalmente à casa de Amaral, na Atalaia, na certeza de obter o apoio dele. Para minha surpresa, disse que não me daria o voto porque já havia se comprometido com outro candidato. Saí triste, decepcionado, tinha como certo o voto dele, por tudo que já havia relatado acima. Na véspera do dia da sessão, que aconteceria na segunda-feira, estava com a família terminando de almoçar no Restaurante Carro de Bois, quando o telefone toca. Era ele. “Dá pra você passar aqui em casa hoje à noite? De pronto, respondi: passo, mas só se for agora, estou aqui pertinho…Imaginei o que poderia ser. Por via das dúvidas, não queria deixar pra noite. Ele estava à porta da casa com um envelope na mão. “Fiz uma viagem no tempo, lembrei de seu pai e de sua mãe e, principalmente de Marcos”, e me entregou o envelope que identifiquei na hora. Abracei-lhe a sorrir e ele correspondeu com um sorriso maroto. No dia seguinte, em eleição bem disputada, fui aceito para a Academia com apenas dois votos de diferença…!

Depois desse episódio, ele esteve na minha posse na Cadeira 36 da Academia, um privilégio para mim, depois nos encontramos algumas vezes na Edise, a cada lançamento de uma nova edição da Cumbuca, que cheguei a colaborar atendendo convite dele, e por último no lançamento, na Galeria Mário Brito, do seu livro A vida me quer bem, cuja leitura foi meteórica e deslumbrante! Depois, nunca mais o vi! Ficou o vazio! Ficou agora o silêncio do poeta!

Texto e imagem reproduzidos do site:  infonet.com.br

Adeus Amaral, Adeus Poeta!, por Luiz Eduardo Oliva

Na foto um dos meus últimos encontros com o poeta, numa animada
conversa juntamente com Clóvis Barbosa. Amaral já estava em cadeira de rodas

Publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil no Facebook de Luiz Eduardo Oliva, em 7 de julho de 2020

Adeus Amaral, Adeus Poeta! 
Por Luiz Eduardo Oliva

Acordo com a notícia: morreu Amaral Cavalcante.  Inegável o susto e o sentimento.  É como se houvesse recebido um corte na minha própria formação e construção cultural, é saber que calou-se uma das mais brilhantes vozes da cena sergipana, o poeta, o jornalista, o cronista, o editor.

Ícone e referência de uma geração brilhante, a mesma geração do poeta Mário Jorge, da multifacetada Ilma Fontes, do grande compositor Alcides Melo, do artista plástico Joubert Moraes, do músico Marcos Chulé, da atriz Uilma Rodrigues, do cronista João de Barros, o Barrinhos, da bailarina Lu Spinelli, do cinéfilo Djaldino Mota Moreno, da jornalista Clara Angelica Porto, do poeta Hunaldinho Alencar, da historiadora Terezinha Oliva, do jurista Clóvis Barbosa...

Havia nessa geração o desejo de criar e o fez como qualquer outra geração do planeta, antenada, atualizada, talentosa, duma época em que a comunicação jornalística para além dos limites da cidade se fazia pelo fax e se esperava chegar a tarde para receber os jornais do Sul do país ou à noite quando as ondas médias do rádio possibilitavam uma melhor audição dos programas internacionais e com ele, o rádio, saber o que se passava no mundo em tempo real. A televisão estava só começando, mera repetidora com jornais somente no plano local.

No fim dos anos 60 "Vôos Mitos Coloridos" que na cacofonia formava "vômitos coloridos" disse muito daquela geração, uma antes da minha mas que pude beber e alcançar, como um privilegiado, tudo que aquela geração legou.

Amaral era então o poeta, o jornalista que ousou o mais significativo jornal alternativo de Sergipe, o Folha da Praia, uma mistura meio pasquim com tecidos iconoclastas fazendo uma inovação e abrindo oportunidades à escrita fácil sem as exigências do jornalismo engessado, onde até havia a crônica social em forma docemente irônica. Amaral foi a síntese disso tudo.

Como na música de Belchior, Amaral veio do interior (Simão Dias) “sem parentes importantes"  e trazendo na cabeça muito mais que uma canção do rádio e compreendendo que nem tudo era divino e maravilhoso. Morou em pensões, trabalhou como vendedor na livraria alternativa da Galeria Álvaro Santos, sobreviveu. Mas logo sua inteligência fulgurante fez dele uma referência: era o poeta. Mas o poeta que publicou de poesias somente um livro, depois de ter sido o primeiro vencedor do Concurso de Poesia Falada do Nordeste com o magnânimo poema "Romance da Aparição". 

Irriquieto, no início dos anos 80 escrevia uma coluna diferenciada no Jornal da Cidade chamada "Pique Geral" multifacetada, centrada nos costumes e fazeres daquela geração e que inspirou outras colunas como a minha "Artefatos" (Jornal de Sergipe) e a "Resenha" de Jorge Lins (Gazeta de Sergipe) a que juntos em doce ironia, cognominávamos de "colunistas não alinhados" numa referência ao bloco dos países não alinhados da época da guerra fria.

No surgimento das redes sociais Amaral fez do Facebook sua maior trincheira.  Ali com sua pena fina, com o deboche elegante, o uso inteligente do chiste, um estilo próprio e o domínio incomum da palavra, nos brindou com as mais deliciosas crônicas do cotidiano sergipano, trazendo reminiscências sobretudo dos efusivos anos 80, ou mesclando com sua contundente poesia.  Das crônicas veio "A vida me quer bem: crônicas da vida sergipana” o segundo e último livro dele, o seu canto do cisne, que teve a cuidadosa supervisão de edição de Mário Britto e lançado ano passado.

Também foi o editor da   "Cumbuca" a revista cultural da Editora Diário Oficial, única no gênero, uma válvula de escape para o registro da sergipanidade e da cultura sergipana.

Com a mesma engenhosidade com que escrevia suas crônicas Amaral resumiu sua geração:
“Somos uma geração etílica, nós convivemos nos bares, frente a frente na mesa de bar batendo papo, conversando, discutindo a vida e aprendendo, hoje ficamos mais a frente do computador”.  Aliás sou da geração que sequência a de Amaral e que, portanto, quando me dei conta já estava na mesma contemporaneidade.

Amaral merece uma biografia que, ao ter sua vida contada, contar-se-ia a história de uma das mais brilhantes gerações do fazer artístico inovador de Sergipe.

Nos últimos dois anos o poeta esteve em uma cadeira de rodas e recebendo com bom humor as sessões semanais de diálise e vivia sob os cuidados de Samuel, seu anjo da Guarda a quem chamava de filho.

Com sua morte na madrugada desta terça feira (07/07) se vai um importante pedaço da nossa cultura. Se vai Amaral Cavalcante em um instante tão triste do mundo, um instante de dor e advertência à humanidade pós Covid, um "instante amarelo" que é o título do seu único e marcante livro de poesia.

Vai levando poesias, um baú de recordações e toda a sua grandeza.

Vá com Deus poeta!

Texto e imagens reproduzidos do Perfil do Facebook/Luiz Eduardo Oliva

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Um adeus a Amaral Cavalcante

Foto: Carlos Cauê

Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em 07 de Jul de 2020

Opinião - Um adeus a Amaral Cavalcante
Por Edson Júnior * (Coluna Aparte)

Nesta terça-feira, 7.7, comecei o dia com uma daquelas notícias que a gente torce que seja uma brincadeira fora de época de 1º de abril - o dia da mentira -, mas que logo descobrimos se tratar de uma terrível verdade.

Na madrugada deste 7, o jornalista e poeta Amaral Cavalcante fez sua passagem para o plano celestial. Sentiu-se mal em sua residência, foi levado a um hospital, mas infelizmente veio a óbito.

O jornalismo e a cultura ficam órfãos desse genial cronista, que contava a vida como se ela passasse em frente ao leitor. Amaral transmutava as pessoas para a cena do que escrevia com um repertório vocabular simples e também erudito. Fazia-se compreendido por todos. 

Ninguém descreveu os movimentos de contracultura e as décadas de 70 e 80 como Amaral, mais um simãodiense de “peia” que brilhou em nosso Estado. Contou muitas passagens desse município, pródigo em talentos da cultura e da política.

Foi também ator, produtor cultural e fundador do jornal alternativo Folha da Praia, onde revelou brilhantes nomes do jornalismo sergipano e fez a alegria nos bares da Orla da Atalaia. A edição do jornal era presença certa nas mesas durante a cervejinha e o caranguejinho domingueiro.

O Folha da Praia era mais aguardado que os petiscos. Entre uma conversa e um gole de cerveja, os olhos bebuns, como periscópios, caçavam o entregador do jornal para disputar um exemplar. Muitas vezes a tiragem não dava para quem queria: chegava e acabava.

Mas o espírito coletivo de Amaral reinava e quem já tinha lido o exemplar cedia para quem estava na orfandade. E o Folha da Praia chegava para todos, como um milagre da multiplicação.

Amaral deixou obras escritas e muitas crônicas em seu perfil no facebook. Um espaço de abstração dos dias chatos. Várias vezes fugi de domingos modorrentos encontrando em Amaral um pouco de anarquia e breve licença da realidade. Sempre me recuperava com seus “causos”. E o dia ficava divertido.

Nosso poeta também integrou a Academia Sergipana de Letras. Tornou-se um imortal. Foi um sopro de alegria e de qualidade nessa confraria de letras que ele desfilou com galhardia e mérito.

Atrevo-me, sem receio, a dizer que ele não apenas foi honrado com a láurea, como fez a academia se sentir honrada com um membro de tão alto calibre, que como poucos conhecia a magia de articular letras, transformando signos em vida bem vivida. Um bruxo das palavras.

E uma de suas alquimias recebe o nome de Cumbuca, revista cultural com a assinatura e editoria de Amaral Cavalcante. Um espaço da sergipanidade, com o refino de quem trilhou esse caminho e o venceu.

“Desde o início procuramos pautá-la (a revista) em função de certa atemporalidade, abordando temas contemporâneos e registrando fatos notáveis da nossa memória cultural, de modo a remetê-la ao interesse dos leitores, agora e num futuro qualquer”, registrou o imortal em entrevista ao Jornal do Dia, edição de 14 de março de 2018.

É e no presente, ou "num futuro qualquer", que sempre encontraremos Amaral Cavalcante, seja em uma leitura, uma lembrança, ou um dia chato para buscarmos nele uma inspiração.

Amaral Cavalcante partiu mas está entre nós através do seu legado de vida, para que hoje e sempre possamos falar dos seus causos como ele os contou, sem tirar nem pôr. Vamos falar de um tal Amaral Cavalcante, poeta que fez da vida um lugar bom para passar os dias. Até breve, Amaral!

* É jornalista.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

A morte nos deixa órfãos de Amaral Cavalcanti

Imagem reproduzida do site da SEGRASE, e postada pelo blog
para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 8 de julho de 2020

A morte nos deixa órfãos de Amaral Cavalcanti
Por Ivan Valença (Blog Infonet)

É com imensa tristeza que registramos o passamento do jornalista e poeta Antônio de Amaral Cavalcanti, que nos deixou ontem de madrugada aos 73 anos de idade, vítima de um câncer miserável. Cavalcanti, natural de Simão Dias, veio para Aracaju ainda na pré-adolescência e aqui fixou residência. Trabalhou em diversos setores da vida pública, mas ficou conhecido como integrante do staff da SCAS (Sociedade de Cultura Artística de Sergipe). No comecinho dos anos 80 legou ao nosso público sua obra-prima, o jornal “Folha da Praia” que, com apenas duas edições, tornou-se o xodó do público leitor aracajuano.  Era impressionante a papelada que ele carregava na hora de editar o jornal. Dono de um bom humor fora de série, Amaral Cavalcanti carregava o “Folha da Praia” nas costas praticamente sozinho. O jornal, porém, foi um sucesso de público extraordinário. Poucos veículos impressos em Aracaju conseguiram o prestígio do “Folha da Praia”, embora sob a coordenação de um homem só. O próprio Amaral Cavalcanti. O jornal era um reflexo de sua personalidade, inclusive o retrato fiel do seu bom humor. Naquela época, estava nascendo o pedaço de praia que ficou conhecida como “Praia dos Artistas”. Amaral e mais uns dois ou três amigos chegavam na praia com os inúmeros pacotes contendo a edição daquele domingo.  Mal iniciava a distribuição e uma multidão o cercava em busca de exemplares.  Do “Folha” Poucas vezes se viu coisa parecida em Aracaju. Só não fazia compor os textos. Pelos próximos 15 anos, Amaral Cavalcanti era o faz tudo do jornal: de editor e revisor, a paginador, repórter e redator de matérias especiais. A ele juntou-se anos depois, um companheiro, chamado Samuel que o ajudava nas tarefas mais difíceis. Nos dias que antecediam a circulação do veículo, Amaral chegava na redação carregando uma pasta cheia de papéis riscados, amarrotados: eram as colaborações e todos que queriam ver seus textos publicados nas prestigiosas página do jornal “Folha da Praia”. No âmbito da Praia dos Artistas, Amaral era cercado por amigos e admiradores, todos atrás de um exemplar, que ele entregava com a maior satisfação. Foi uma rotina de quase 30 anos, desde que o jornal surgiu e foi apresentado ao pública. Amante das letras, Amaral era também um poeta de primeira linha. Chegar a publicar pelo menos dois livros, mas praticamente fugia das chamadas “tardes de autógrafos”. Geralmente, preferia aguardar os amigos e admiradores no interior da Livraria Regina, na Rua João Pessoa e ali punha se autografo. Quem, quisesse encontrar Amaral para troca de ideias agradáveis, era só procurá-lo no segundo andar do edifício da Cultura Artística. Nas noites de sarau, via-se Cavalcanti melhor trajado e recebendo com elegância e bom humor os associados da SCAS. Amaral praticamente conhecia todo mundo em Aracaju. Uma pena que se foi tão cedo, sem se despedir. Soube-se agora que ele era portador de um câncer que não largava do seu pé. Dono de um humor ferino, Amaral Cavalcanti, sem dúvida, vai deixar saudades.  Acrescente-se que nos últimos tempos, ele era o editor da revista “Cumbuca”, de caráter cultural, editado pelo Município.

Texto reproduzido do site: infonet.com.br

Nem tudo é Coloidiano, por Carlos Magno

Foto de César de Oliveira e postada pelo blog, 
para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente na Linha do Tempo no Perfil do Facebook de Carlos Magno Andrade Bastos, em 7 de julho de 2020

Nem tudo é Coloidiano
Por Carlos Magno

Não conheci Amaral o hippie alucinado que vagava pelas ruas de Aracaju, que ociosamente repousava na alfombra do Parque Teófilo Dantas com sua vasta cabeleira. O conheci como dono de jornal e produtor cultural um verdadeiro executivo. Nem frequentei a loucura do Coloidiano, pra ser bem sincero nem sei onde fica essa localidade entre o rio e o mar. Relutei em discorrer sobre figura tão presente por muitos anos na minha vida como a do poeta Amaral Cavalcante. E nunca foi uma convivência das mais fáceis, mas foram cinco anos de Folha da Praia onde fui um grande aprendiz ao lado de outros colegas que tiveram o privilégio de viver aquele tempo de pura efervescência cultural. Comecei como colunista depois, publicitário e até copydesk de uma enxurrada de textos impublicáveis que chegavam à redação. A Folha foi o meu primeiro emprego de carteira assinada, se tenho hoje o registro de jornalista profissional devo isso a Amaral. Virei uma espécie de braço direito do jornalista e com o tempo ganhei tanta confiança que escrevi por diversas vezes a sua coluna Pique Geral no Jornal da Cidade. Fui para a Gazeta de Sergipe e trabalhei como repórter tendo como meus editores Gilvan Manoel e Fernando Sávio. Mas nunca deixei a Folha.

Amaral comandava a SCAS, a Sociedade de Cultura Artística de Sergipe e era naquela vista maravilhosa para o Rio Sergipe que fazíamos a Folha com muito amor. Sempre fui apaixonado por jornal e Amaral era ainda mais. A Folha reunia pessoas inteligentes e o mundo nos parecia pequeno. Amaral era uma enciclopédia viva, um leitor de grandes romances da literatura mundial e por isso nos surpreendia com sua retórica ilustrada e cheia de riqueza vocabular. Unia os trejeitos do tabaréu simãodiense com o clássico nietzschiano. Era pura filosofia com ares tupiniquins. Sempre com um pé atrás.

 Amaral teve o privilégio de fazer amizade com grandes astros da arte e de carona na sua nave tive momentos únicos. De passar a noite com Nelson Cavaquinho ouvido pérolas do samba. De recital particular com Artur Moreira Lima e Egberto Gismont. De passear com as encantadoras bailarinas do Roial Ballet do Thaiti. E as lindas bailarinas do Balet Stagium. Passeio a beira mar com os Diz Croquetes e muito mais. Noites homéricas no Barbudos ouvindo as tiradas inteligentes do poeta e seus acompanhantes fieis.

Amaral a cada instante nos surpreendia como por exemplo nas cenas do curta Arcanos, e sua aparição no longa Sargento Getúlio de Hermano Pena. Que nos rendeu uma noite na companhia de Lima Duarte. Amaral nos tempos áureos da Scas era uma ponte entre um mundinho medíocre e os apoteóticos espetáculos. Sei que ele me queria muito bem e posso dizer que a recíproca é mais que verdadeira. Mas claro vivíamos às turras, entre momentos de amor e ódio. Se havia esse lado paternal e acolhedor, havia também os conflitos e um lado sombrio, perfeição só de Deus. Anos depois gravamos juntos o CD A voz o poema, onde seus versos imperiosamente nos calou, Que pena poeta, neste momento que você partiu não tivemos tempo de se abraçar e deixar as mágoas de lado. Mas a vida segue, e a morte também, com certeza não faltará oportunidade no além.

 Através de um amigo comum fiquei sabendo de sua alegria diante de cada conquista na minha vida. Hoje para mim é um dia muito triste perdi alguém que além de amigo e mestre foi um pouco pai na minha vida. Amaral era uma referência de responsabilidade e proteção. E aquele adeus nem pude dar.

Texto reproduzido do Facebook/Carlos Magno Andrade Bastos

Artigo de Clara Angelica Porto



Publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil no Facebook de Clara Angelica Porto, em 7 de julho de 2020

Artigo de Clara Angelica Porto

“Eu sempre lhe quis bem”, sussurei ao ouvido dele. “Eu sei”, disse-me de volta. Beijei-lhe os cabelos brancos e quase morri ao perceber que o baton havia deixado a marca dos meus lábios. Tentei esfregar, tirar. Nada. Sussurrei de novo: “Poeta, tatuei seus cabelos com meu baton vermelho e agora não sai”. Tentei de novo. Nada. Ele disse: “deixe aí, eu autografando e carregando sua boca na cabeça”. Saí de fininho, piscando-lhe um olho e só então vi. O poeta estava numa cadeira de rodas.

Nos conhecíamos desde a adolescência, na Academia dos Jovens Escritores de Carmelita Fontes. Ele chegou depois, calado, observando, como um peixe fora daquela água para ele desconhecida. Mas era muito bonito, Carmela lhe dirigia aqueles olhares que eu conhecia bem, de satisfação diante de inteligência jovem maior; e eu também, depois que ele passou no teste escrevendo ali mesmo o poema da prova - fiquei encantada. Tão encantada que ficava inventando meios de me aproximar. Não conseguia. Ele era fechado à moda sertaneja, e não dava muita vez para menina do GA. Principalmente, a queridinha de Carmelita.

Um sábado, estava eu soprando bolinha de sabão na porta da casa da rua São Cristóvão, quando ele passou com uns amigos estranhos. Esmerei-me em soprar bolinhas grandes e voadoras, querendo chamar a atenção dele. Só mereci um “Ôi, você mora aqui, né?” Eu, desconfiada: “É...”

Tempos depois, fui com Mário Jorge para o concurso de poesia que ele levou num Poema da Aparição declamado por Wilma Porto, uma verdadeira aparição em branco, num momento inesquecível. Mário Jorge, triste por não participar, pois havia acabado de sair de uma clínica para desintoxicar, tomou minha mão e juntos vivemos aquele momento em um quase transe.

O tempo passou, fui e voltei e fui mais e voltei mais, até voltar. Frequentávamos os mesmos lugares, encontrávamos as mesmas pessoas, sempre tínhamos o que conversar. Chamava-o sempre de Poeta e sentia nisso um grande prazer - era uma reverência.

Quando voltei, senti-me honrada com o convite para escrever para o Folha da Praia e aceitei feliz. Às vezes, quando levava a coluna, ajudava na capa, nas coisas que faltavam. Até horóscopo fiz. Substituí Zara Zangada por Tara Contente.

E nossos caminhos continuaram se cruzando. Às vezes com dificuldades, com choques, mas sempre com admiração e aquele amor que eu nutria desde os tempos da Academia de Carmelita.

Ficamos um tempo estranhados, até que um dia, no Teimonde, eu tinha acabado de cantar o Super Homem de Gil, acompanhada por Pantera. Ele ficou no gargarejo, embevecido. Depois, chegou-se e disse: “Por que ficar assim longe se a gente gosta tanto do que o outro faz?” Não me dei por rogada. Joguei-me no pescoço do Poeta, enchi-o de beijos e disse: “Por que mesmo, logo eu, que te amo tanto?”. Celebramos com vinho e muita conversa e risadas tresloucadas.

Em alguns momentos, trocamos conversas pequenas e profundas, dizendo tudo com pouquíssimas palavras. Ele me mostrou que tinha gratidão pelo espaço que eu dei a Erê, levando-o para o TV Mulher. E mencionou o brinco de safira que dei ao bailarino. Erê era um príncipe e merecia uma joia de verdade, argumentei. Amaral amava Erê.

Fiz algumas coisas para a revista Cumbuca, mas foi a última matéria, sobre o Jardim Botânico de Marcel Nauer, com muitas fotos, que o encantou: “Ficou muito além do que eu esperava. Ficou lindo”, disse-me e dedicou 10 páginas da revista à minha matéria.

Ha alguns anos, quando Marcelo Ribeiro lançava um livro, nos encontramos e fiquei tão feliz em ver o Poeta que saltei-lhe no colo, onde fiquei um tempo. Um dia aí, ele publicou essa foto no Facebook, tenho que encontrar.

Saber que Amaral Cavalcante morreu, deixou-me muda. Atônita. Ah, ele foi encontrar Cleomar, Proust, os escritores todos no céu. E daí? Ele foi. Ele foi! Não tem mais o Poeta do instante amarelo, o cronista ímpar, a poesia pecadora de beleza afiada, o lirismo sem vergonha, o homem elegante, o orgulho sofisticado e o olho arguto e desconfiado. Não tem mais o homem lindo, a língua solta e o humor de inteligência maior.

Está fazendo festa no céu? Eu queria ele aqui, chegando devagar em um lugar e rapidamente tornando-se o dono absoluto, com todos à sua volta, bebendo com ele e bebendo ele.

É triste perder amigos. É triste perder alguém que você admira e ama.

Estou imensamente triste por saber que não vou mais encontrar o Poeta por aí, que não vou poder convida-lo para um vinho com guloseimas na minha casa, e ainda, com toda reverência, perguntar: “Poeta, quem você gostaria que eu convidasse”? Porque é assim que eu trato os príncipes.

E Amaral Cavalcante não foi só um grande poeta, cronista, jornalista. Amaral Cavalcante era um príncipe.

Minha alma está de luto.

Sim, é verdade, Poeta. A vida lhe quis bem. Eu lhe quero bem.

Texto e imagens reproduzidos do Facebook/Clara Angelica Porto

O que mais posso fazer? Só agradecer, Amaral Cavalcante

Foto reproduzida da TV SERGIPE e postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil no Facebook de Elton Coelho, em 7 de julho de 2020

O que mais posso fazer? Só agradecer, Amaral Cavalcante
Por Elton Coelho *

Poeta, ator, escritor midiático, jornalista, editor, produtor cultural, inteligente, humano. O que mais posso falar sobre o cidadão simãodiense Amaral Cavalcante, em sua deslumbrante passagem por este plano, durante 74 anos? Pra mim, o Amaral foi um sopro de luz profissional, um amigo de tantas horas, um quase pai do meu jornalismo.

No meio da década de 80, entre 83 e 85, dei alusão à escrita em textos sobre a política brasileira e ao cotidiano de Aracaju/Sergipe. Vivenciava o fim da ditadura militar e o início da democratização do país. Precisava reverberar minha ânsia e o conhecido semanário ‘Folha da Praia’ foi quem me abriu às portas. Lembro-me com riqueza de detalhes da extrema alegria ao ver meu primeiro artigo num jornal tão lido pela intelectualidade sergipana, ser publicado e reverenciado pelo editor, que eu nem conhecia: era ele, Amaral Cavalcante.

Perspicaz, atento e sabendo lapidar o material bruto que se aproximava da Folha, (ou do Folha como chamávamos), Amaral já tinha em suas fileiras tantos outros honrosos colaboradores e de textos impecáveis como Hugo Costa, Luiz Eduardo Costa, Luciano Correia, Barbudo’s, Jorge Carvalho, Fernando Sávio, Carlos Cauê, Marcos Cardoso, Zenóbio Melo, e políticos neófitos que também exalavam as tintas no semanário, como Marcelo Déda, Antonio Samarone, Marcélio Bonfim e, mais, mais.

Nesse meio termo cheguei à Folha e, num momento em que quase fui expurgado pela então secretária, pois estava acostumado às publicações e até exigia suas postagens, foi o poeta que me repatriou e trouxe de volta. Fez-me aprender a elaborar o jornal, aprontar a “boneca” da Folha, junto com Antonio Passos, Guga Oliveira, Clóvis Bonfim, Edson, e também chegar à condição de repórter, entrevistador, colunista do “Senadinho”, assinada por mim, além de vendedor de páginas políticas (as famosas entrevistas), e espaços comerciais. Aprendi muito. Foi a Folha da Praia minha primeira e grande Universidade, aliada ao estudo acadêmico na então Faculdade Tiradentes (FIT’s), na rua Lagarto.

Dali, atirei-me ao mundo do jornalismo já tendo aprendido com a matriz, Folha da Praia, as correções e orientações, e muitas vezes mal humoradas do editor Amaral. Um professor, articulista e antenado. Ali mesmo fiz “minha régua e compasso”.

Hoje, 07 de julho de 2020, perdemos o poeta, o exímio escritor de crônicas tão bem pinçadas, costuradas e douradas do cotidiano dele e de nossa gente. Perdemos o intelectual promissor, cuja estatura maior se deu há poucos anos com sua ascensão à Academia Sergipana de Letras. Mas perdemos o humano, a figura agradável, de paladar amigável florescedor, que juntava cacos de brigas e afagava a todo nós com flores, risos, humor inteligente e sarcástico.

O que mais posso fazer, Amaral Cavalcante, a não ser agradecer pelos seus ensinamentos e proeza cultural? Vá em paz, poeta, amigo, imortal, sabendo que sua honrosa passagem frutificará por anos e anos de uma geração promissora que está aí bebendo de sua sabedoria e convivência. Foi a hora da sua partida, tristemente, para então nos encontramos mais além. Valeu, poeta!

* Jornalista, historiador e Colaborador do Semanário Folha da Praia

Texto reproduzido do Facebook/Elton Coelho

terça-feira, 7 de julho de 2020

Um Intelectual Gigante, por Antônia Amorosa


Publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil do Facebook de Amorosa Sergipana, em 7 de julho de 2020

Um Intelectual Gigante
Antônia Amorosa *

Acordei com a notícia que Amaral partiu na madrugada do sétimo dia, no sétimo mês do ano de pandemia. A amiga Yumah Ilma Fontes me envia um áudio trazendo uma mensagem que a gente para pôr um momento e pensa - como é doloroso não poder ir ao velório de um grande pensador!

A primeira vez que conheci Amaral Cavalcante ele estava exercendo a função de presidente da antiga Fundesc. Falei mais sobre poesia. Depois, viajamos ao Rio, eu, ele, Lu Spinelli, Chiko Queiroga, Joésia e outros bons sergipanos que não recordo todos os nomes (peço perdão por isso!), para participar do Pixingão na sala Funarte. Visitamos Joel Silveira que nos deu uma página inteira no Jornal Última Hora. Fui a sua posse na Academia Sergipana de Letras onde seu texto reverenciou o saudoso conterrâneo e seu amigo pessoal, Marcelo Déda. Nosso último encontro físico foi na exposição de Araripe onde ele ficou impressionado pelo conceito e modelo do sarau que segundo ele "Foi a mais bela que viu, nos últimos anos, em Sergipe!"

Amaral era nosso Guimarães Rosa. Seus textos nos leva a cenas de um filme Suassuna. Amaral não teve filhos mas foi pai de muitos, inclusive na construção de ideias e análises.

Embora cercado de bons amigos de longos anos, havia em Amaral, por ser poeta, uma tristeza no canto dos olhos, pela limitação física, as dores insistentes em incomodar seu gosto pela vida.

No terceiro mês do segundo milênio do vigésimo ano, o mundo mudado, chegou em terras de Aracaju e fomos "convidados" ficar em casa. Durante este tempo, por não ter sido amiga próxima de Amaral, não sei como estavam seus dias, embora eu esteja orando por todos os que permanecem ou irão partir porque a terra está passando por um tempo de colheita.

Quando a cidade dormia, um dos maiores intelectuais da história de Sergipe partia - O Atalaia da Cultura Sergipana. Oh, Sergipe...sabes tão pouco de ti! A morte deste homem merece bandeira a meia haste porque hoje Sergipe perde grande - como grande era Amaral Cavalcante. Espero esta honraria para Amaral por parte das nossas autoridades.

Sim! Quando Ilma Fontes, outra gigante, me informava por áudio que não haveria velório, a bandeira nas principais instituições deste Estado, por certo, será um gesto de reconhecimento para um homem da cultura que não fugiu à luta e cumpriu com dignidade sua missão como gestor, pensador, escritor e amigo de muitas gerações.

Certamente, na porta de entrada do lugar para onde ele foi, Déda, Araripe, Santo Sousa, Núbia Marques, Yara Vieira, Lu Spinelli e tantos outros seres encantados, abrirão os braços a dizer: 

"Amaral, aqui tá melhor do que lá! Vem pra um abraço, poeta!"

Que Deus considere sua boa jornada.

* Membro das Academias Itabaianense e Aracajuana de Letras, cantora.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Amorosa Sergipana

Lá se foi Amaral Cavalcante, por Antonio Samarone

Foto reproduzida da TV ALESE e postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo.

Texto publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil no Facebook/Antonio Samarone, em 7 de julho de 2020.

Lá se foi Amaral Cavalcante.
Por Antonio Samarone

Nunca privei da sua intimidade, nem dos seus saraus, nem dos seus vinhos. Já conheci Amaral grande ícone da cultura sergipana.

Sempre mantive uma distância respeitosa. Os gênios são obviamente geniais e geniosos. Não gostam dos importunos. O tempo deles é muito curto. Mantinha uma admiração cheia de prudência.

Escrever foi o seu destino. Escrevia melhor do que falava. Era mais irônico, mais cortante, mais iconoclasta.

Disse Amaral, na posse da Academia Sergipana de Letras.

“Um dia, quando mais uma vez eu apoiava o queixo no balcão do seu cartório, Seu Sininho me abordou”:

“Soube que você gosta de poesia; pois bem, eu tenho aqui um livro de Ascenso Ferreira, um poeta sertanejo como nós. É seu.”

“Catimbó foi o meu primeiro livro de cabeceira.”

“Vim tangendo a mula da poesia, picando palavras por veredas íngremes, calejando o coração em pedregulhos, arejando a alma nos vales sertanejos onde crepita o sonoro matagal das palavras mais simples. Com Ascenso, tostei os dedos no fogaréu dos poemas, sapequei minha alma no fogo de si própria e emergi do caos em fantásticas pirotecnias. Vi queimar-se até a última labareda o cepo mais recôndito da minha alma juvenil”.

Sergipe emburreceu, ficou menos sensível e mais sem graça.

Amaral foi um resistente. Deu combate sem trégua a mediocridade provinciana.

A Peste nos causou mais esse mal! Seu corpo será cremado, sem velório nem despedidas.

Morreu simbolicamente no Velho Hospital de Cirurgia Dr. Augusto Leite.

Minha homenagem ao poeta Amaral Cavalcante.

Texto reproduzido do Facebook/Antonio Samarone

Amaral Cavalcante se foi. Mas é um que "se" fica!

Amaral Cavalcante: *11.07.1947  +07.07.2020

Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em 07 de julho de 2020

Amaral Cavalcante se foi. Mas é um que "se" fica!
Por Jozailto Lima* (Coluna APARTE)

Um beat. Um poeta. Um iconoclasta. Um lúdico. Um lírico. Um memorialista. Um passional. Um jornalista. Um arregimentador de desiguais e de diferentes. Um boêmio. Um que marcou.

Em diversas categorias de definições bem se encaixava o velho Antonio Amaral Cavalcante, que na madrugada deste dia 7 de julho juntou uma bota noutra com o bico pra cima e bateu às portas de São Pedro.

Amaral Cavalcante lutou bravamente, entre uns e vinhos, contra um diabetes indelicado, um câncer de próstata, mas não quis prosa com a Covid-19 que Jair Bolsonaro batizara de uma gripinha.

Amaral Cavalcante morreu nesta madrugada na Urgência do Hospital do Ipes e vai ser cremado na Caueira ainda durante esta terça-feira numa solenidade nada solene: só ele com seu fogo final. No atestado de óbito está contida a inscrição da Covid.

Antonio Amaral Cavalcante nasceu no dia 11 de julho de 1946 em Simão Dias - estava, portanto, a quatro dias de emplacar 74 anos. Foi avexado, e partiu sem arredondar a conta.

Impossível pensar a cena da memória, da cultura beat e do jornalismo sergipano sem que se puxe uma cadeira cativa e fornida para Amaral Cavalcante. Nos anos 70 ele deu dois tiros certeiros nos agitos culturais do lugar.

Com um, funda o irreverente Folha da Praia, que foi laboratório jornalístico e da contracultura de muitos malucos sergipanos e aqui aportados. A Folha da Praia foi, em versão serigyzada, um Pasquim. Um monumento ao jornalismo destabacado, lírico, chutador de paus de barraca. Contestador. Era um inferninho contra botas e quepes de milicos e adesistas da nada branda ditadura militar, hoje irresponsavelmente tão evocada com suspiros de saudade por insanos. A Folha fez história e garantiu a existência e os vinhos de Amaral.

Ainda na mesma década, Amaral Cavalcante causou com "Instante Amarelo", seu único livro de poemas publicado em vida - bom livro, por sinal. Ele era, ao modo arrebentador, signatário da poesia marginal dos 70, que tinha uma visão dos beats bem ativada.

Há em "Instante Amarelo" ecos de Cacaso, Leducha, Leminisk e de muitos dos seus contemporâneo, como Mario Jorge Menezes e Ilma Fontes, que reverberam a poesia dos 70 com dignidade na terra dos cajueiros e papagaios.

Neste milênio, convidado por mim a ser um cronista do falecido Cinform, Amaral Cavalcante surpreendeu com um jorro portentoso de escritos na esfera memorialista. Destilou textos fantásticos, onde a linha do afeto memoralístico deu o ritmo, o compasso e a formação do livro "A vida me quer bem", uma reunião do melhor desta fase, que ele lançou dia 7 de novembro do ano passado.

Sim, a vida quis bem a Amaral Cavalcante e ele, inegavelmente, quis bem a ela. Uma pena que ambos tenham levantado o crachá do adeus assim tão cedomente. Tão precocemente. E, ainda mais, em tempo de pandemia de Covid-19, que nos veda de afagar os cabelos ou beijar a testa dos que partem.

Mas incomode-se não, Amaral velho de guerra, e se sinta afagado. Que a terra - ou melhor -, o fogo lhe seja leve.

* É jornalista há 37 anos, tem formação pela Unit e é fundador do Portal JLPolítica. É poeta.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

Amaral Cavalcante (1946 - 2020)

CULTURA SERGIPANA DE LUTO > Amaral Cavalcante (1946 - 2020)

NOTA DE PESAR.

Morre o jornalista Amaral Cavalcante.

É com grande pesar que a diretoria da Segrase comunica o falecimento do jornalista, poeta, produtor cultural, escritor, ator, acadêmico e editor da revista Cumbuca, Amaral Cavalcante.

Amaral nasceu em Simão Dias e faria 74 anos no próximo dia 11 de julho. Foi fundador do Jornal Folha da Praia em 1981, passou por diversas instituições públicas da área de cultura, colaborando com o engrandecimento da cultura sergipana.

Prestamos nossas mais sinceras condolências aos familiares e amigos.

Homenagem a AMARAL CAVALCANTE (1946 - 2020).




> Isto é SERGIPE - Conteúdo digital e multimídia da cultura sergipana.

> Grupo "Minha Terra é SERGIPE" - Memórias de postagens do Facebook/GrupoMTéSERGIPE.

> SERGIPE EM FOTOS - Ontem e Hoje.

> GENTE SERGIPANA - Tradição e cultura de um povo.

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> Enfoque SERGIPANO - SERGIPE em vídeos.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Morre a Doutora Sônia Del Vecchio Silva, 74 anos

Imagem TV Sergipe

Publicado originalmente no Facebook/Sindicato dos Médicos do Estado de Sergipe, em 2 de julho de 2020

Nota de Pesar

É com pesar que o Sindicado dos Médicos do Estado de Sergipe (Sindimed) se solidariza com todos os familiares da médica SÔNIA DEL VECCHIO SILVA, 74 anos, falecida nesta quinta-feira, 02 de julho, em decorrência de complicações da COVID-19.

Doutora Sônia Del Vecchio, com especialidade em Ginecologia e Obstetricia atuou por muitos anos no Hospital Santa Isabel. Ela deixa um importante legado para a Medicina Sergipana.

Nossos sentimentos não só à família, mas a todos os médicos que conviveram com ela. Uma grande perda!

Texto reproduzido do Facebook/Sindicato dos Médicos do Estado de Sergipe

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Tobias Barreto e a mulher


Publicado originalmente no site AJN1, em 20 de junho de 2020

Tobias Barreto e a mulher
Por Vladimir Souza Carvalho

Estamos no mês (Junho) de Tobias. Em junho, nasceu. Em junho, morreu, precocemente, cinquenta anos depois. Uma foto, entre as poucas que já foram divulgadas, o mostra precocemente envelhecido, fruto, por certo, da atrasada medicina da época. Contudo, o meio século de vida foi o suficiente para deixar a marca de sua genialidade ímpar nos textos que produziu, e nestes, a capacidade de bem argumentar, a leveza de sua abordagem, prendendo o leitor do início ao final, e, sobretudo, a audácia de se expor em exemplos que mostram o espírito avançado para quem vivia nas últimas décadas do século dezenove e o perfeito domínio da matéria abordada.

Dir-se-ia que não escrevia: valsava. Aqui e ali um comentário ousado, como ousado é todo comentário de quem tem autoridade para fazê-lo, como se fosse um elo de ligação entre dois segmentos de uma partitura musical, de um frevo, digamos em bom pernambucanês. Um oceano profundo, onde ninguém mergulhou em sua totalidade, ou uma mata fechada, onde poucos não adentraram mais de limitados metros. Encosto-me apenas em Menores e loucos em Direito Criminal, para colher alguns exemplos dos altos voos de Tobias Barreto, a fim de, em meio a uma exposição, lançar mais paus na fogueira.

Tomo a mulher como fonte de inspiração. Um deles: “Para desenvolver as minhas ponderações jurídicas, basta-me, como postulado, que a mulher seja feita à imagem e semelhança da Venus da Canova. Não sou muito exigente”. Outro: “A mulher que na opinião de todos os cavalheiros de um baile, ou de todos os convivas de um banquete, inclusive legisladores e juristas, pois esta inclusão não vai de encontro ao princípio das incompatibilidades, a mulher, que na opinião de todos estes, quando os sons de uma linda walsa convidam a dançar, ou o sabor dos licores é a estrela que mais brilha nas grandes solemnidades, volta a ser no dia seguinte, na opinião dos mesmos peritos, uma creança permanente, que não pode ter completa autonomia, que não deve ser abandonada a si mesma!… Que quer dizer isto? Como se explica e justifica esta falta de coherência e sisudez?”

E lá vem a prova da coragem de focar sem escandalizar: “Isto não basta; pois se isto não torna impossível, como eu já disse, o facto revoltante de um jovem de quinze anos ser condenado á prisão perpetua, também não impossibilita o quadro ainda mais hediondo de uma menina da mesma idade ir acabar de entumescer os seios, de engrossar os lábios e de abrir de todo a rosa da adolescência, na solidão de um cárcere, donde não mais sairá”.

Essa bravura, aliás, vinha de longe. Ao passar por Itabaiana, ainda vila, por três anos, em um dos poemas que imortalizou Rita de Cássia de Jesus Noronha, já se mostrava além de seu tempo. Ritinha era magra – e magra foi a vida inteira, pelo que se observa de foto sua na velhice -, tinha treze anos, e, justamente nessa idade os seios começavam a dar sinal. Tobias, no poema, escrito em 1858, anotava o fato se utilizando do termo alma na primeira das quatro quadras: “Em tenra e frágil vergontea / de uns treze anos que tem, / agora é que a alma desponta / no viço e no olhar… pois bem!”

Na defesa dos direitos de igualdade da mulher, sua argumentação se revestia de muita força: ” Ainda estão vivas as belas palavras de Olympia de Gourges, que eu me permitir inverter e repetir: em quanto a mulher não tiver, como o homem, o direito de subir á tribuna, ella não deve ser igualmente com ele, nas mesmas proporções, que ele, o direito de subir ao cadafalso”.

Tobias é Tobias, na ousadia de expor e dar sua opinião, de tratar a matéria com a intimidade de quem só a conhece carrega, de aplaudir e criticar, sem perder a elegância, texto de quem tem pleno e total domínio do que aborda, atleta de futebol que, antes de fazer o gol, dribla o zagueiro e conclui com um banho de cuia no goleiro.

E, para conferir vida ao que escrevia, não perdia a oportunidade para o galanteio: “E não menos que a maneira de falar tem, no bello sexo, um valor pyschologico a maneira de escrever. Se, como ainda hoje se repete, o estylo é o homem, com igualdade de razão se póde affirmar que a calligraphia é a mulher”.

Aqui, só um diminuto grão de areia, ou um pingo d´agua. A montanha desafia escalada. O oceano reclama mergulho.

Texto reproduzido do site: ajn1.com.br

Saudade matadeira



Publicado originalmente no site JORNAL DO DIA, em 01 de Julho de 2020

Saudade matadeira

 Em Sergipe, quando morre um sanfoneiro, todos choram. Ainda mais se for um músico tão querido quanto Edgar do Acordeom. Desde ontem, o estado inteiro está coberto de luto.

Natural de Malhada dos Bois, Edgar é conhecido em todo o estado por ser um dos principais nomes do forró pé de serra e da cultura popular sergipana. Em 2020, já havia completado 55 anos de uma carreira exitosa e reconhecida, inclusive, fora de Sergipe.

Em uma vida consolidada pela dedicação à família e sociedade, deixa um legado de mais de 60 composições próprias e uma história que ainda continuará influenciando uma geração da cultura popular de Sergipe e todos os colegas e amigos que, neste momento, reverenciam sua memória.

Autoridades, amigos e colegas lamentam a perda do músico. A presidência da Fundação Aperipê divulgou nota de pesar, bem como a Funcaju e a Secretaria de Justiça, órgão no qual o sanfoneiro atuava como servidor concursado. Os depoimentos mais comoventes, naturalmente, partiram de quem teve o privilégio da intimidade.

O jornalista Adiberto de Souza se manifestou publicamente. "Sergipe perdeu um grande músico, um filho ilustre, um cidadão de bem e do bem. Eu perdi um amigo, um grande amigo".

O sanfoneiro Lucas Campelo se referiu a Edgard do Acordeom como um verdadeiro mestre. "Muitas saudades, muita aprendizagem ao lado desse grande baluarte de nossa cultura sergipana, nordestina. Lembro do afeto, do cuidado de Seu Edgard para com todos nós, a família da Orquestra Sanfonica de Aracaju".

Campelo também lembra da atenção dedicada ao espetáculo 'Dominguinhos, através', quando dividiram o palco para interpretar 'Saudade matadeira', de Dominguinhos e Anastácia.

"Fui recebido em sua casa com toda calma, tranquilidade e paciência. Conversamos um bocado, uma extensão do que ocorria em nossos ensaios da ORSA, passamos a música. De quebra, ele ainda me mostrou seus discos, prêmios e o gibão de couro, que comprara todo orgulhoso e feliz do Rei do Baião”. Campelo conclui, traduzindo o sentimento geral: "Hoje, a Saudade matadeira é nossa, amigo...".

Edgar é mais uma vítima da Covid-19. Ele estava internado desde o dia 17 de junho no Hospital Cirurgia, onde lutava insistentemente contra a doença. Era casado e tinha cinco filhos.

Texto e imagens reproduzidos do site: jornaldodiase.com.br

Vítima de Covid-19, cantor Edgar do Acordeon morre aos 73 anos

Foto reproduzida do Facebook/Gabriela Correia

Texto publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 30 de junho de 2020

Vítima de Covid-19, cantor Edgar do Acordeon morre aos 73 anos

Morreu na manhã desta terça-feira, 30, aos 73 anos, vítima de complicações decorrentes do novo coronavírus (Covid-19), o cantor sergipano Edgar do Acordeon. O artista estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Cirurgia em estado grave desde a semana passada.

Por meio das redes sociais, Rejanne Costa, filha do cantor, informou que o pai deu entrada na Urgência do IPES, no dia 17 de junho, com uma síndrome gripal. Ainda segundo ela, ele foi levado para a UTI do Cirurgia em estado grave, onde veio a falecer nesta terça.

Natural de Malhada dos Bois, Edigar é conhecido em todo o estado por ser um dos principais nomes do forró pé de serra e da cultura popular sergipana sergipana. Em 2020, já havia completado 55 anos de uma carreira exitosa e reconhecida, inclusive, fora de Sergipe. Além da carreira artística, Edgar era servidor público desde 1985, quando passou a fazer parte do quadro de motoristas da Sejuc.


A Sejuc emitiu nota lamentando profundamente a morte do cantor. O secretário Cristiano Barreto (Sejuc) ratificou a importância que o servidor público tinha para os quadros da administração estadual e reforçou que, além da função exercida no dia a dia, a morte de Edigar é um duro golpe na cultura popular sergipana.

Carreira

O sanfoneiro Edgar do Acordeon de Malhada dos Bois é músico, cantor e compositor e tem 55 anos de carreira. Em uma das entrevistas ao Portal Infonet, Edgar fala do amor pelo forró. Em 2015, o cantor tocou pela primeira vez no Forró Siri e contou um pouco da sua trajetória na música.

Texto reproduzido do site: infonet.com.br