domingo, 27 de maio de 2018

Academia Sergipana de Medicina – 20 anos na História

Atento, escuto o discurso de Gileno Lima na sessão inaugural da
Academia Sergipana de Medicina, há 20 anos na História
Foto: acervo ASM

Publicado originalmente no site Infonet/Blog/Lucio A. Prado Dias, em 24/12/2014 

Academia Sergipana de Medicina – 20 anos na História

Por Lúcio Antônio Prado Dias

Parte 1

Vinte anos se passaram desde a memorável noite de nove de dezembro de 1994. Naquele dia, no auditório da Sociedade Médica de Sergipe, vinte e seis médicos sergipanos assinaram a ata de fundação da Academia Sergipana de Medicina, escrita com exatidão pelo secretário geral ad - hoc daquela sessão, o saudoso professor e colega José Leite Primo. Ninguém me contou. Eu mesmo estava lá, de corpo e alma, como presidente da Sociedade Médica, participando desse momento histórico e, mais ainda, assinando a ata, como o mais jovem integrante do sodalício, com apenas 40 anos de idade, fato que honra a minha trajetória de vida associativa e do qual sou eterno devedor.

Uma delegação de médicos vinda da Bahia, liderada por Geraldo Mílton da Silveira, então presidente da coirmã baiana e Thomaz Rodrigues Porto da Cruz, sergipano ilustre que pontifica no cenário médico da terra de Castro Alves, abrilhantou a sessão. Coube ao saudoso Gileno da Silveira Lima fazer a explanação inicial sobre as providências que culminaram com a fundação e instalação da Academia, naquela memorável noite. Liderando um grupo de destacados médicos, Gileno foi de um estoicismo e determinação incomuns. Sabia que outras tentativas haviam ocorrido no passado, sem sucesso, mas mesmo assim aceitou o desafio de levar a cabo tão importante realização e assim o fez. Fica justificado, pois, o pensamento com o qual iniciei esse artigo: “ Algo só é impossível até que alguém duvide e acabe por provar o contrário”.

 Pela sua tenacidade, Gileno da Silveira Lima foi escolhido para ser o Presidente de Honra da Academia. Seu amor e dedicação ao sodalício e sua paixão incontida pela criatura, terminaram sendo reconhecidas pelos seus pares quando se referem à entidade: “A Casa de Gileno Lima”. Como bem disse Ralph Waldo Emerson, "os nossos atos  são os nossos anjos".

Sinto-me, pois, no dever de relatar um pouco da vida de Gileno Lima, em curta pincelada. Quando chegou a Aracaju, vindo de Laranjeiras, onde foi médico na cidade no início dos anos 50, ele veio atuar no Hospital Santa Isabel, chegando à direção do nosocômio em 1958, substituindo a Carlos Firpo, tragicamente assassinado, no rumoroso episódio que ficou conhecido como “A tragédia da Rua Campos”.  

No Hospital Santa Isabel ele implementa uma ampla e geral reforma, transformando a centenária instituição num hospital moderno. Para viabilizar essa grande obra, Gileno recorre a um organismo internacional, a alemã Miserior ( associação católica que através dos donativos recebidos nas missas ajuda obras humanitárias em todo o mundo), que doa recursos significativos para a obra de restauração do hospital.

Outra ação marcante de Gileno Lima foi promover o retorno à casa do ilustre cirurgião Augusto Leite, para as comemorações do Jubileu de Ouro da primeira laparotomia (cirurgia abdominal) feita em Sergipe, em 1914. Conto-lhes o que se sucedeu. Corria o ano de 1962 – ano do Centenário do Hospital Santa Isabel - e com a aproximação da data, Gileno prepara uma solenidade para a inauguração das novas instalações do complexo cirúrgico, a quem denomina de “CENTRO CIRÚRGICO Dr. AUGUSTO LEITE.” Superando todas as dificuldades e apelando para a interferência de  amigos fraternos de Augusto Leite, (que prometera nunca mais pisar os pés no hospital após divergências com a diretoria da entidade), o velho cirurgião finalmente cede aos apelos e comparece ao ato inaugural. Duas grandes surpresas, porém, ainda estavam reservadas. Com mãos firmes e técnica ainda apurada, mesmo com idade já avançada, Augusto Leite repete o procedimento cirúrgico realizado 50 anos atrás, em uma paciente com fibrossarcoma uterino. Sensibilizado com a iniciativa da direção do   Santa Isabel, Augusto Leite, num gesto magnânimo, doa à entidade o BISTURI DE OURO, que havia recebido em 1958, dos seus colegas do Hospital de Cirurgia, por ocasião do Jubileu de Ouro de sua formatura. O bisturi é recebido com todo o carinho pelo Hospital Santa Isabel, que o instala numa redoma iluminada encravada nas paredes centenárias da instituição. Esse episódio é um dos mais marcantes da medicina sergipana e tem em Gileno Lima o seu idealizador e principal articulador.

 Disse Augusto Leite, naquela oportunidade: “ Não há quem possa dizer, nem pressagiar, em termos seguros, a grandeza de seu futuro, nesse seu grande voo de progressos. Estamos tranquilos. Gileno está com ele; está dentro dele, com alma e coração.” E conclui: “Cada instrumento tem uma história. O bisturi conta a história de todos. Ainda estudante, o bisturi me abria caminho à cirurgia, circunscrito às pequenas operações de estreante. Embalou-me, cedo, nas suas promessas, instigado pelos pequenos sucessos operatórios. Não parou mais. Não tive mais sossego aqui, no  Santa Isabel. A história é longa. Chegou afinal à maturidade; envelheceu, radiante, no trabalho. Homenagearam-no, certa feita. Vestiram-no de ouro. Milagres da bondade e generosidade de colegas do Hospital de Cirurgia. Voltou, de surpresa, à Casa Materna. Sentiu-se feliz, acolhido por Gileno Lima. Aqui está, na sua casinha iluminada, a recordar, com santo orgulho, a história da cirurgia em Sergipe”, arremata.

Tempos depois, o bisturi desapareceu de sua casinha iluminada, nem a parede existia, dele não mais se sabia o paradeiro. Conseguimos recuperá-lo e, doado pelo Hospital Santa Isabel, encontra-se hoje no Museu Médico de Sergipe, devidamente restaurado e guardado, como símbolo da Medicina de Sergipe.

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Geraldo Milton com o Medalhão da Academia Sergipana de Medicina, em 2004

28/12/2014 

Academia Sergipana de Medicina – 20 anos na História

Parte 2

No artigo anterior, contei pra vocês um episódio marcante na vida de Gileno Lima, presidente de honra da Academia Sergipana de Medicina que foi o de trazer de volta ao Hospital Santa Isabel, em 1962, o médico Augusto Cezar Leite, para inaugurar as novas instalações do centro cirúrgico e, dois anos depois, em 1964, dessa vez para as comemorações do Jubileu de Ouro da primeira cirurgia abdominal feita em Sergipe, pelo notável cirurgião, em 1914.

   De espírito irrequieto, mesmo já aposentado, Gileno Lima não se afasta das atividades médicas e cabe-lhe, em 1994, desencadear o processo de fundação da Academia Sergipana de Medicina. Instigado pelo primo e médico baiano Geraldo Milton da Silveira, Gileno viaja a Salvador para um encontro com ele. Geraldo Milton presidia àquela época a Academia de Medicina da Bahia. 

Entusiasmado com a ideia de ver fundada a congênere sergipana, o ilustre esculápio baiano fornece-lhe estatutos da coirmã baiana e de outras congêneres,  alimentando-o com preciosas informações. De volta a Aracaju, Gileno forma uma comissão, composta pelos médicos Cleovansóstenes Aguiar, Alexandre Menezes, Hugo Gurgel, Osvaldo de Souza, José Leite Primo e Lauro Porto, para compor os primeiros quadros de patronos e outras providências devidas.

   Convidou-me então para ser um de seus fundadores, após eu colocar, na condição de presidente da SOMESE, toda a infraestrutura da entidade à disposição da comissão. Gileno sempre ressaltava esse fato. Dizia que o meu nome já estava há muito tempo aprovado em função da minha atuação em prol da categoria mas, na oportunidade, ele omite a informação. Somente depois da minha decisão, ele me comunica o fato.

   Gileno Lima poderia ter sido o primeiro presidente. Aliás, deveria. Declinou por humildade e amor à Academia. Queria que outros colegas compartilhassem desse momento de alegria e realização. No seu discurso, ele faz um histórico de todos os passos e ações para que a Academia se tornasse realidade. Traça um breve perfil de cada membro fundador e é aplaudido de pé pela assistência que lota o auditório.

   Em toda a história da Academia, foi um dos mais assíduos atores, vibrando com todas as suas ações e conquistas e se colocando sempre à disposição para colaborar no que fosse preciso. Tínhamos muito em comum. Fomos amigos e conselheiros. Trocávamos ideias e preocupações. Em várias ocasiões encontrávamos na livraria que eu mantinha na SOMESE e  ficávamos ali, por horas a fio, alimentando sonhos, escalando montanhas, cruzando  rios, perseguindo todos os arco-íris, sonhando com dias cada vez melhores para a nossa Academia.

   Gileno Lima partiu para a sua última morada em 5 de maio de 2006, privando-nos da sua companhia experiente e conciliadora. Mesmo sem a presença física, a sua obra permaneceu,  eterna e imortal a nos guiar, como facho de luz iluminando os nossos caminhos.

   Não poderia, do mesmo modo, deixar de falar de Geraldo Milton da Silveira

(foto). Nesse momento, é imperativo e dever de honra. De temperamento afirmativo e rígido defensor das suas teses e princípios, Geraldo esteve, ao longo de sua vida, sempre à frente das lutas e iniciativas das entidades médicas associativas, científicas e culturais da Bahia. Presidiu a Federação Brasileira de Gastroenterologia e a Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina, comandou com brilhantismo o congresso nacional da entidade em Salvador. Foi também presidente da Academia de Medicina da Bahia e um dos mais atuantes e ferrenhos defensores da vetusta Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, a primeira escola médica do país, lutando pela sua recuperação e preservação. Era um entusiasta em tudo que fazia e muito rigoroso no cumprimento dos princípios que defendia.

   Mas o que eu gostaria mesmo de chamar a atenção é para a sua relação com a medicina de Sergipe. Ele notabilizou-se como um dos principais artífices para a fundação da nossa Academia, fornecendo a Gileno da Silveira Lima, seu primo e fraternal amigo, todas as informações necessárias para o processo de sua criação, fato que me parece justo ressaltar.

   Na sessão festiva de  instalação da nossa Academia, em 9 de dezembro de 1994, na condição de presidente da Academia de Medicina da Bahia, ele proferiu importante discurso de saudação aos seus confrades sergipanos. Veio da Boa Terra chefiando expressiva delegação, com destaque para os doutores Thomaz Rodrigues Porto da Cruz, filho ilustre da terra de Tobias Barreto, Alberto Serravalle, José Ramos de Queiroz, um dos fundadores da coirmã baiana e a professora Maria Tereza de Medeiros Pacheco, professora de Medicina Legal da Universidade Federal da Bahia.

  No discurso, Geraldo manifestou a sua grande satisfação em poder estar naquele momento 
testemunhando o nascimento de mais uma nova academia de Medicina e, sobretudo, a sergipana, para a qual deu todo o seu apoio e entusiasmo.

  Um ano após, em 1995, retornou para as comemorações do primeiro aniversário da Academia, assim se repetindo por ocasião dos festejos dos cinco anos de fundação e finalmente, pela quarta e última vez, na sessão comemorativa do primeiro decênio, ocorrida em 9 de dezembro de 2004, liderando novamente  outra delegação de notáveis baianos. Por tudo que fez pela criação e desenvolvimento da nossa Academia, Geraldo Milton da Silveira foi distinguido com o título de Sócio Emérito.

  O exemplo de vida de Geraldo Milton da Silveira, falecido em Salvador, com 81 anos, em 30 de julho de 2006, curiosamente quase três  meses após a morte do primo, Gileno Lima, permanecerá sempre presente para todos os que tiveram o privilégio de conhecê-lo e para os mais jovens, um caminho a ser seguido.

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Cleovansóstenes, Hamilton e este escriba: os 4 primeiros presidentes, 
sendo que Gileno é Presidente de Honra

02/01/2015

Academia Sergipana de Medicina – 20 anos na História

Parte 3

  Com a morte dos primos Gileno da Silveira Lima e Geraldo Milton da Silveira, ocorrida curiosamente no mesmo ano, a questão da imortalidade volta à cena, não compreendida por alguns. No discurso proferido por ocasião da sessão de instalação da recém-fundada Academia Sergipana de Medicina e traduzindo o sentimento dos coirmãos baianos, Geraldo disse: “A imortalidade se traduz pela preservação e divulgação de feitos, trabalhos e pesquisas dos que nos antecederam, concretizando-se assim o pensamento de Alex Carrel ou, de certa forma, o trabalho desenvolvido pelos monges de Salerno”.

  A preservação da história, cujo entendimento e maior significado vêm sendo cada vez mais aceitos e exercitados no Brasil nos dias de hoje, sobretudo através das academias e dos institutos históricos, mantém acesa a chama da memória e o sentido da verdadeira imortalidade do pensamento e da ideia. O melhor retrato de um povo  é a sua memória, que nos propicia o entendimento para absorver as suas mutações. A história distorcida ou irremediavelmente perdida são crimes irreparáveis. As instituições lutam para evitar que tais danos se concretizem. Portanto, a imortalidade concebida por esta visão, nos distingue e engrandece.

  Coube ao acadêmico Cleovansóstenes Pereira de Aguiar a primazia de ser o primeiro presidente da Academia Sergipana de Medicina, de 1994 a 1996. A recusa de Gileno Lima em assumir a presidência, que vinha ao seu encontro por fluidez natural, levou a Academia a encontrar no sanitarista e professor Cleovansóstenes Aguiar o seu porto seguro, aclamado entusiasticamente pelos seus pares. Fato curioso é que tanto Gileno quanto ele, exerceram, no passado, o cargo de prefeito de Aracaju ambos, pois, com experiência administrativa. Sob o comando do sanitarista, a Academia teve o seu primeiro estatuto e regimento aprovados em assembleia. Com a habilidade e generosidade que lhe são peculiares, o eminente professor e homem público administrou com eficiência os dois primeiros anos de existência da Academia, normalmente anos difíceis para qualquer instituição.  No momento da instalação, em 1994, o quadro inicial de patronos totalizava 35 membros e não os 40 previstos na fundação. O seu modelo se baseava na Académie Française, fundada em 1635 pelo cardeal Richelieu, que acabou se tornando o paradigma das academias modernas, tradicionalmente composta por 40 membros, sendo uma das mais antigas instituições da França. Tivemos a oportunidade, eu e Henrique Batista, em momentos distintos, de visitá-la em caráter oficial, no meu caso, com cartas de apresentação assinadas pelo Dr. Ary de Christan, presidente da Federação Brasileira de Academias de Medicina e pelo Dr. Pedro Kassab, ex-presidente da AMB e pai do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab.

   Pois bem. Instalar inicialmente a Academia sergipana com 35 patronos mostrou-se, no futuro, uma decisão prudencial e sábia dos seus organizadores, com o objetivo de minimizar injustiças. No final do primeiro decenário de existência da Academia, esse quadro estava complementado, bem como gradativamente foram sendo eleitos e empossados os primeiros ocupantes a partir da cadeira 27, sucessivamente, começando em 1998. Até então, nos primeiros quatro anos, a Academia funcionou apenas com os seus vinte e seis membros titulares, que assinaram a ata de fundação.

    Dirigiu a Academia, a partir de 1996, o acadêmico José Hamilton Maciel Silva, dando sequência a sua vida de dedicação ao associativismo, depois de presidir o Conselho Regional de Medicina e a Sociedade Médica de Sergipe, com idêntico sucesso e empreendedorismo.  Na sua gestão foram eleitos e empossados os  acadêmicos William Eduardo Nogueira Soares, na cadeira 27 – Patrono: Maria do Céu Santos Pereira; Anselmo Mariano Fontes, na cadeira 28 – Patrono: Nélson Melo; Sinval Andrade dos Santos, na cadeira 29 – Patrono: Oscar Nascimento; Gilmário Macedo de Oliveira, na cadeira 36 – Patrono: Lourival Bomfim.

   Foi ainda na gestão do Acadêmico José Hamilton Maciel Silva que foi criado o brasão da Academia, mais precisamente em 1997, pelo publicitário Hélvio Dória Maciel Silva, seu filho e prematuramente falecido no primeiro semestre deste ano. A sua sólida formação humanista, sociológica e filosófica foram de fundamental importante para alicerçar, em imagem, todo o simbolismo da nossa Academia.

   A logomarca da Academia Sergipana de Medicina evoca a medicina através do seu símbolo maior, visto no alto. No quadrante superior esquerdo, está representado o objeto maior da ciência médica: o homem. Abaixo, no quadrante inferior direito, a pena, com a qual são registrados os progressos científicos. Nos quadrantes  superior direito e inferior esquerdo os símbolos representam a visão holística a serviço do bem-estar da humanidade e do povo do Estado de Sergipe. Os louros homenageiam a todos aqueles que, alicerçados nos pilares da ética, do humanismo e da busca científica, alcançam sucesso glorificando a profissão médica, na busca incessante do diagnóstico e tratamento. Daí a expressão contida na faixa verde com letras brancas: “Ubi est Morbus” - Onde está a doença? Somente uma pessoa com sólida bagagem intelectual, formação humanista e sensibilidade, predicados existentes em Hélvio Dória Maciel Silva, poderia expressar em imagem todo o contexto da visão e missão da entidade. 

  Durante o mandato de José Hamilton Maciel Silva foi comemorado o Centenário de Nascimento do Dr. Lauro Hora, patrono da cadeira 25, cabendo à acadêmica Zulmira Freire Rezende, ocupante da cadeira, proferir o discurso de saudação ao eminente médico sergipano. Era a Academia Sergipana de Medicina começando a escrever História, nos seus primeiros cinco anos de existência. Muita coisa ainda estaria por vir, mas contarei na próxima 

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ASM nos 10 anos: Hamilton, Roberto Santos, Paes, Eduardo e Gileno Lima

11/01/2015  

Academia Sergipana de Medicina – 20 anos na História

Parte 4

  Cinco anos se passaram desde a memorável noite de 9 de dezembro de 1994, na sede da Somese, quando foi instalada oficialmente a Academia Sergipana de  Medicina. Estamos agora em 1999. Por uma deferência dos queridos confrades, à frente Gileno Lima, fui eleito como terceiro presidente da entidade, em março desse ano. Meses depois, mais precisamente em outubro, assumi em paralelo a recém-criada Diretoria de Economia Médica da Associação Médica Brasileira, atendendo convite do Dr. Eleuses Paiva. Essa nova atribuição, no entanto, não foi suficiente para diminuir o meu entusiasmo com a nossa Academia.

   Alguns fatos merecem destaque nesse período: a filiação à Federação Brasileira de Academias de Medicina – FBAM -, graças ao decisivo apoio do Dr. Waldenir de Bragança, que veio a Sergipe especialmente para fazer a entrega oficial do diploma legal. Destaco também a realização, em Aracaju, de 4 a 9 de maio de 2001, do Encontro Nacional das Academias de Medicina, com a ilustre presença do presidente da Academia Nacional de Medicina, professor Aloysio de Salles Fonseca e de diversos presidentes de academias de medicina de todo o país, inclusive o da FBAM, o Dr. Ary de Christan, do Paraná.

   Nesse mandato, a academia obteve o título de Utilidade Pública Municipal, graças a projeto da vereadora Jane Melo, sancionado em lei pelo prefeito de então, o saudoso governador Marcelo Déda, que compareceu pessoalmente à sede da Academia, acompanhado do seu vice- prefeito Edvaldo Nogueira, para fazer a entrega do documento.

  Ainda em nossa administração foram eleitos e empossados os acadêmicos Henrique Batista e Silva, na Cadeira 31 – Patrono: Paulo de Figueiredo Parreiras Horta; Antônio Samarone, na Cadeira 32 – Patrono: Renato Mazze Lucas; e Manoel Hermínio de Aguiar Oliveira, na Cadeira 33 – Patrono: Roosevelt Dantas Cardoso Menezes, todas as posses ocorrendo em 2001.

  Uma sessão solene marcou a homenagem aos acadêmicos falecidos Antônio Garcia Filho e Antônio Fernando Dantas Maynard, que foram saudados pelos acadêmicos Francisco Prado Reis e Luiz Hermínio de Aguiar Oliveira, respectivamente. Trouxemos a Sergipe os professores Antonio Carlos Lima Pompeo e Carlos da Silva Lacaz, que proferiram conferências magistrais. Ambos foram homenageados com títulos honoríficos da Academia.

  O acadêmico Hyder Bezerra Gurgel, membro fundador da cadeira de número três, que tem como patrono Augusto Leite, sucedeu-me no comando da Academia Sergipana de Medicina, de 2001 a 2003. Na sua administração, em 2001, ocorreram as posses  das acadêmicas Déborah Pimentel, na Cadeira 34 – Patrono: Theotonílio Mesquita; e Geodete Batista, na Cadeira 37 – Patrono: José Machado de Souza.

De 2003 a 2005, ano comemorativo do seu primeiro decenário, a Academia foi conduzida pelo médico Eduardo Antônio Conde Garcia, cientista e ex-reitor da UFS. A sessão solene para celebrar o 10º aniversário foi marcante e contou com a presença do renomado professor Antônio Paes de Carvalho (RJ), da Academia Nacional de Medicina, a quem lhe foi conferido, na oportunidade, o título de Sócio Emérito. Da Bahia, desembarcou uma delegação de dez médicos, liderada  por Thomaz Cruz, então presidente da congênere baiana e orador oficial da sessão. Entre os baianos, as presenças de Geraldo Milton da Silveira, Antônio Jesuíno Neto, Roberto Santos ( ex-governador da Bahia), do casal Zilton e Sonia Andrade, de Rodolfo Teixeira, Nelson Barros, Aleixo Sepúlveda e José de Souza Costa.

  Na administração de Garcia foram empossados os acadêmicos Marcos Ramos Carvalho, na Cadeira 30 – Patrono: Octávio Martins Penalva e Antonio Carlos Sobral Sousa, na Cadeira 38 – Patrono: Walter Cardoso. Fato marcante para a preservação da memória da medicina sergipana foi a confecção de uma placa de bronze contendo os nomes de todos os professores pioneiros da Faculdade de Medicina de Sergipe, com suas respectivas disciplinas. Essa histórica placa encontra-se afixada na sede da Sociedade Médica de Sergipe, em posição de destaque. A Academia de Medicina da Bahia também foi homenageada, sendo agraciada com uma placa de bronze em agradecimento pela sua participação na fundação da coirmã sergipana. Nesse período foi comemorado o centenário de nascimento do patrono da Cadeira 4, Benjamim Alves de Carvalho e a Academia obteve o Título de Utilidade Pública Estadual, por propositura da deputada Angélica Guimarães e lei sancionada pelo governador João Alves Filho.

  Com participação em diversos eventos nacionais promovidos pelas coirmãs e pela FBAM, em Belo Horizonte, São Paulo, Brasília, Niterói, São Luiz, Maceió, João Pessoa e Recife, a Academia Sergipana de Medicina foi se consolidando a cada ano e novas ações viriam com a posse da primeira mulher, a médica e psicanalista Déborah Pimentel, no comando da entidade, nas eleições ocorridas em 2008.

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Acadêmicos em sessão de posse

23/01/2015 

Academia Sergipana de Medicina – 20 anos na História

Parte 5

  A médica e psicanalista Déborah Pimentel foi a primeira mulher a presidir a Academia Sergipana de Medicina e a primeira a ser reeleita para a função. Nos seus dois mandatos  à frente do sodalício, de 2005 a 2010, ele deu posse ao endocrinologista Raimundo Sotero de Menezes na Cadeira 40 – Patrono: Israel  Bonomo e ao coloproctologista Marcos Aurélio Prado Dias, na Cadeira 39 – Patrono: João Gilvan Rocha, em 2006; ao otorrinolaringologista Jeferson D’Avila Sampaio, na Cadeira 7 – Patrono: Carlos Firpo; ao oncologista José Geraldo Dantas Bezerra, na Cadeira 10 – Patrono: Edelzio Vieira de Melo, ao cardiologista Marcos Almeida Santos, na Cadeira 21 – Patrono: Abreu Fialho e ao dermatologista Fedro Menezes Portugal, na Cadeira 22 – Patrono: Aloysio Andrade, todos no ano de 2007;

  Em 2008, foram empossados o otorrinolaringologista Marcelo da Silva Ribeiro, na Cadeira 5 – Patrono: Canuto Garcia Moreno; o mastologista Virgílio Fernandes Araújo, na Cadeira 8 – Patrono: Clóvis Conceição; ao neurologista Roberto César Pereira do Prado, na Cadeira 12 – Patrono: Eronides Carvalho, ao médico do trabalho Paulo Amado Oliveira, na Cadeira 20 – Patrono: José Thomaz D’Ávila Nabuco; à reumatologista Elizabete Tavares, na Cadeira 24 – Patrono: Júlio Flávio Leite Prado  e  em 2009 foi a vez da médica anestesista Maria Helena Domingues Garcia, na Cadeira 23 – Patrono: Juliano Simões.

  Ainda na administração da acadêmica Déborah Pimentel foi aprovado, em Assembleia Geral Extraordinária realizada em 28 de novembro de 2007, o novo Estatuto Social e o Regimento Interno e em 2009 foi comemorado o centenário do patrono Edelzio Vieira de Melo. Um ponto a destacar foi a conferência sobre a Vida e a Obra de Delmiro Gouveia, proferida pelo acadêmico alagoano Geraldo Vergetti.

  Outro registro marcante em 2009 foi a comemoração do 15º aniversário de fundação da Academia, oportunidade em que a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos lançou o Selo comemorativo à efeméride, em momento único e esplendoroso. O mandato de Déborah foi concluído de forma exitosa com o lançamento, em 2010, do Dicionário Biográfico de Médicos de Sergipe, uma obra inédita em todo o país e que obteve extraordinária repercussão. Tive a felicidade, ao lado dos colegas Antônio Samarone e Petrônio Gomes, de ser um dos coautores da obra. Em 2015, a sua segunda edição, revista e ampliada, deverá será lançada, contando, novamente, com o patrocínio da Universidade Tiradentes, que entendeu de imediato, desde o primeiro momento, a importância da obra, viabilizando sua publicação. Tal gesto de magnitude e respeito à Medicina de Sergipe coincidiu com o lançamento do seu curso médico e agora, com o patrocínio da segunda edição, da formatura da primeira turma, que vai acontecer no final deste ano.

  Gentil e elegante também foi a decisão da Reitoria em denominar as suas salas de aula com  os nomes de todos os membros titulares da Academia Sergipana de Medicina. Uma distinção e reverência dignificantes. Nas comemorações do 20º aniversário da Academia, ocorridas no final do ano passado, a participação da notável instituição de ensino genuinamente sergipana, foi ressaltada e reconhecida. Ainda nessa profícua administração, a Academia comemorou o centenário de nascimento do patrono Lourival Bomfim, em noite memorável.

  Déborah Pimentel foi sucedida na presidência por Fedro Menezes Portugal, que comandou a entidade de 2010 a 2014, sendo o segundo presidente a ser reconduzido por seus pares. Entre as suas realizações destacamos as comemorações do Jubileu de Ouro da Faculdade de Medicina de Sergipe, ocorrido em 2011, quando foram homenageados os professores pioneiros, especialmente o professor Antônio Garcia Filho, com a inauguração de sua herma nos jardins do Hospital Universitário. Colóquios, seminários, sessão solene conjunta da Academia de Medicina com a Academia de Letras e o Concerto do Jubileu, com a Orquestra Sinfônica de Itabaiana, fizeram parte da vasta programação comemorativa, que teve o apoio integral da UFS, Unimed e Somese.

  Na sua administração, Fedro empossou  o cirurgião cardíaco Vollmer Bomfim, na Cadeira 16 – Patrono: Hercílio Cruz e o dermatologista Emerson Ferreira da Costa, na Cadeira 24, vaga com a morte da acadêmica Elizabete Tavares, ocorrida em 2011.

  Foram ainda comemorados os centenários de nascimento dos patronos Carlos Melo, Roosewelt Dantas Menezes, Lucilo da Costa Pinto, Lauro de Brito Porto e Benedicto Guedes e realizado uma sessão solene em homenagem póstuma aos médicos Marcos Aurélio Prado Dias e Gilton Machado Rezende. Em outubro de 2013, graças ao empenho do presidente Fedro Portugal, foi reativada a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Sobrames Sergipe. Foi na sua gestão que aconteceram as noites gloriosas da Cirurgia, da Ginecobstetrícia e da Pediatria, homenageando vultos das três especialidades. Duas ilustres personalidades abrilhantaram sessões solenes da Academia em 2012 e 2013: o médico e padre Anibal Gil, da UERJ  e Genival Veloso de França, da Paraíba, respectivamente.  As administrações de Déborah Pimentel e Fedro Portugal foram das mais operantes na história dos vinte anos da Academia, com muitas celebrações e posses, que ajudaram a consolidar cada vez mais a entidade no contexto da vida médica, cultural e histórica do Estado.
  Finalmente, em 2014, foi empossado no comando da entidade o médico Paulo Amado Oliveira, em cuja gestão se encontra comungados o entusiasmo e a dedicação, razão pelas quais suas realizações já podem ser contadas. E é exatamente o que farei na próxima semana, dando por encerrada essa série que rememora a trajetória de 20 anos da Academia Sergipana de Medicina.

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Paulo Amado, à esquerda,  com ex-presidentes da ASM

31/01/2015  

Academia Sergipana de Medicina – 20 anos na História


Parte 6 - Final

Em apenas oito meses de gestão, Paulo Amado Oliveira, empossado em 23 de abril de 2014 na presidência da Academia, deu seguimento às ações empreendidas pelos seus antecessores e foi mais além, ao deslumbrar a possibilidade de realização de parcerias estratégicas. Prova disso foi estimular e colaborar decisivamente para o início das atividades da Sobrames – Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Sergipe, reativada na administração anterior. Para demonstrar que o apoio à Sobrames não era uma simples formalidade, fez questão de participar, ao nosso lado, do XXV Congresso Nacional da entidade, ocorrido na cidade de Recife, em outubro, onde manteve importantes contatos com lideranças médicas brasileiras.

  Visionário, liderou movimento pioneiro em todo o país, o de congregar as entidades culturais do Estado em torno de parcerias de cooperação mútua, conforme pôde se observar pela sessão ocorrida em novembro do ano passado e que colocou, numa mesma mesa, a Academia Sergipana de Letras, a Associação Sergipana de Imprensa e o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, fazendo renascer, em parceria com este último, o  Concurso de História da Medicina de Sergipe, em sua quarta edição, cuja ação ocorrerá ainda esse ano. Outra ação conjunta já definida pelas duas entidades será a realização do Colóquio de História da Medicina, em outubro vindouro, como parte da programação comemorativo do Dia do Médico.

   Outra ação marcante foi a Noite dos Anestesistas, dando sequencia à série iniciada na gestão anterior, com as homenagens aos cirurgiões, ginecologistas e obstetras e pediatras. Dessa vez, em parceria com a Cooperativa dos Anestesiologistas do Estado de Sergipe e da Sociedade de Anestesiologia, a Academia homenageou anestesistas sergipanos de todas as gerações. Foi uma noite esplendorosa para a Medicina sergipana. Em 2015, já posso adiantar, a Academia Sergipana de Medicina vai realizar a Noite dos Psiquiatras.

  Em setembro de 2014, ocorreu a posse do médico endocrinologista João Antonio Macedo Santana na Cadeira 39 – Patrono: João Gilvan Rocha. Ele sucedeu ao fundador da cadeira, o médico Marcos Aurélio Prado Dias. Com a posse de Macedo, o ano terminou com todas as quarenta cadeiras ocupadas.

  Novas ações começam agora a ser planejadas e trabalhadas visando a ampliação e preservação da memória médica. Gestões vêm sendo implementadas objetivando a fundação do Memorial da Medicina de Sergipe, em local apropriado para tal fim. Em 2016, quando a Academia Sergipana de Medicina terá a honra de receber, em Aracaju, as Academias de Medicina de todo o país para a realização de mais um Conclave nacional, quem sabe já não teremos o Memorial em funcionamento? Vale ressaltar o  trabalho habilidoso e diplomático do atual presidente Paulo Amado, no último encontro ocorrido em João Pessoa, para viabilizar a captação de tão importante evento, que foi alcançado com a aprovação unânime de todas as academias estaduais.

  Eis, pois, a trajetória vitoriosa da nossa Academia, no instante em que ela comemora o seu Jubileu de Porcelana, em 20 anos de muitas realizações. O presente é a construção da história, da tradição e da cultura. A história é o relato dos fatos que sejam dignos de menção e consideração. A Academia Sergipana de Medicina, a Casa de Gileno Lima, tem por missão preservar a história, a tradição e a cultura da medicina sergipana para, na sua perenidade, deixar esse legado cultural de hoje para o porvir do amanhã.

  A morte, companheira inseparável da vida, tirou do nosso convívio os médicos fundadores Álvaro Santana, Eduardo Vital Santos Melo, José Maria Rodrigues Santos, Antônio Fernando Dantas Maynard, Antônio Garcia Filho, Osvaldo Leite, Nestor Piva, José Leite Primo, Gileno Lima e Lauro Porto, a confreira Elizabete Tavares e por último, o acadêmico Marcos Aurélio Prado Dias, querido amigo, companheiro e irmão. Fizeram todos a grande viagem sem retorno, mas permanecem vivos, na memória afetiva de nossa saudade imorredoura.

  Tenho um carinho todo especial pela Academia Sergipana de Medicina, não somente porque nela adentrei ainda jovem, pelo beneplácito unânime da comissão organizadora comandada por Gileno Lima e outros insignes descendentes de Hipócrates, mas principalmente por ver nela um campo fértil para a preservação da memória médica  de Sergipe.

  Tomando por empréstimo as palavras de Thomaz Cruz, proferidas na sessão comemorativa ao decenário da nossa Academia, ocorrida em dezembro de 2004, lembro que “sonhos e feitos  se relacionam porque realizações costumam resultar de aspirações. Às vezes, os feitos se confundem ou se dissolvem em sonhos, mas quando anseios se cristalizam e se tornam história há que comemorar, sobretudo se o caminho é percorrido com afinco, dedicação, pujança”.

  Tal tem sido a trajetória da Academia Sergipana de Medicina. Vida longa, pois, para ela!

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br/blogs/lucioapradodias

sexta-feira, 25 de maio de 2018

O Centenário de João Cardoso (1918 – 2018)


Publicado originalmente no blog de Samarone, em 24 de maio de 2018

O Centenário de João Cardoso (1918 – 2018)

Por Antônio Samarone

Numa manhã chuvosa, lá para os idos de 1981, recém-chegado da residência médica em Saúde Pública, (“sem parentes importantes e vindo do interior”), bati na porta do velho reitor João Cardoso. Fui recebido num pequeno apartamento, com fidalguia, generosidade e atenção, como se fosse um velho amigo. Tinha sido apenas seu aluno. Contei os meus sonhos e dificuldades, e ele me ouviu pacientemente. Em Aracaju há seis meses, morando de favor no Leite Neto, eu precisava trabalhar. Ali eu entendi o que me contavam sobre ele, um homem carinhoso com os angustiados.

Conheci o João Cardoso que na juventude tinha sido simpatizante do Partido Comunista. Torcedor do América, no Rio de janeiro. Um agnóstico convicto. Amigo íntimo dos arcebispos Dom José Vicente Távora e Dom Hélder Câmara. João Cardoso foi exemplo de equilíbrio e conciliação. Pediatra, especializado em puericultura, amigo irmão dos colegas José Machado de Souza e Sílvio Santana. João Cardoso era desprovido de ambições materiais.

Fui seu aluno de Saúde Pública, onde ouvi pela primeira vez um conceito abrangente de Saúde, e da sua relação com a economia. Ele pregava a racionalização da atenção à saúde pela via do planejamento. “A demanda é infinita e os recursos limitados. Administrar é definir prioridades”. Era essa a sua lição de João Cardoso. Um professor de cultura enciclopédica. Um erudito humilde. Em minha curiosidade juvenil, perguntei-lhe certa ocasião o que era homeopatia. Ouvi quase uma conferência com resposta. Reconheço a sua influência na escolha de minha especialização.

João Cardoso foi o primeiro reitor da UFS, entre 1968 e 1972. Logo após o AI -5 e o 477. Tempos sombrios. A pressão do comando militar do Leste foi intensa, para que ele expulsasse os estudantes considerados comunistas. E não eram poucos. Ele abriu a investigação e engavetou. Recebeu pressão para prejudicar alguns professores, entre eles Luiz Rabelo Leite, Gonçalo Rollemberg e Silvério Fontes, mas João Cardoso resistiu. Chegou a enfartar, por conta das pressões, mas não cedeu. Na prática, merecia o título de magnífico.

Entre os estudantes visados pelos militares citava-se João Augusto Gama da Silva, Wellington da Mota Paixão, Benedito de Figueiredo, Moacyr Soares da Mota, Abelardo Silva de Souza, Wellington Dantas Mangueira Marques, Jackson Barreto, Jonas da Silva Amaral, Antonio Jacintho Filho e Francisco Varela. Entre outros.

Nas comemorações de sete de setembro de 1970, no palanque do desfile militar em Aracaju, o General Abdon Sena, comandante da 6ª Região Militar, fez cobranças públicas ao reitor João Cardoso, chamando-o de ingênuo, e exigindo providências contra os subversivos, que segundo ele, infestava a universidade em Sergipe.

João Cardoso foi intimado a comparecer na Bahia, no prazo de quinze dias, levando a comprovação do cumprimento das exigências militares, para a expulsão dos subversivos. João decidiu que não se dobraria, marcou a audiência para dizer não, e deixou instruções com o advogado da UFS, Stefânio de Farias Alves: se até amanhã eu não entrar em contato, distribua uma nota com a imprensa dizendo que o reitor de Sergipe está preso.

No final da gestão como reitor, pela firmeza, habilidade e competência como exerceu a difícil missão, João Cardoso foi convidado pelo Ministro da Educação, Jarbas Passarinho, para continuar no cargo, por mais um mandato. João Cardoso respondeu de pronto: - Ministro, não fica bem, nem para mim nem para o senhor. E agradeceu!

Entrei na UFS em 1974, não alcancei João Cardoso como reitor, mas recebi os cuidados de Antonia Edurvalina Nascimento. A assistente social dona Durvalina, que cuidava dos meninos pobres das repúblicas universitárias, nome pomposo para as casas que nos abrigava. Muitos conheceram João Cardoso através de Durvalina, sua auxiliar por muitos anos.

Muitos estudantes carentes se tornaram professores de biologia, física, química, matemática, por intermediação dela, no período que João Cardoso foi Secretário de Educação do Estado, no Governo de Paulo Barreto. Naquele tempo podia. Pela intervenção de Durvalina, eu me tornei professor do Arquidiocesano, o que viabilizou a minha permanência no curso de medicina.

João Cardoso do Nascimento Junior era um humanista por formação e caráter. Lembro-me que ele citava com frequência, em latim, uma frase famosa de Publius Terentius, insígnia do humanismo: “Homo sum: nihil humani a me alienum puto”. Por coincidência, frase também citada por Karl Marx e Machado de Assis. João Cardoso, envelheceu e morreu entre os livros.

Texto e imagem reproduzidos do blogdesamarone.blogspot.com.br

terça-feira, 15 de maio de 2018

De agricultor a escritor de sucesso: Saracura recorda trajetória...


Publicado originalmente no site do Cinform, em 14 de maio de 2018

De agricultor a escritor de sucesso: Saracura recorda trajetória e incentiva a literatura

Por Fredson Navarro 
  
“De um modo em geral as pessoas não valorizam as obras”, lamenta

O escritor Antônio Francisco de Jesus foi batizado como Saracura em referência ao nome do sítio em que nasceu e morou, localizado no Povoado Terra Vermelha, no município de Itabaiana. Saracura estudou em escolas rurais e trabalhou como agricultor durante sua infância. Em seguida se mudou com a família para Aracaju, estudou no Colégio Atheneu Sergipense e se formou em Economia na Universidade Federal de Sergipe, iniciando sua carreira como escritor aos 62 anos, em 2008.

“Ainda estudei na Universidade do Distrito Federal e Universidade Cândido Mendes. Fui repórter do Jornal A Cruzada e apresentador da Rádio Cultura de Sergipe. Desenvolvi diversas atividades, mas a minha relação com a literatura começou muito cedo”, conta.
Saracura disse que a literatura faz parte da sua vida desde criança. “Desde os meus 5 anos de idade eu ficava encantado com os romances de cordel que meu avó materno lia. Ele morava em um povoado de Itabaiana, nas Flechas. Aos domingos, vinham filhos, netos e vizinhos e meu avô declamava João Grilo, Pedro Malazarte e Pavão Misterioso. O mundo em volta desaparecia. Aos 12 anos, fui enviado ao seminário e me envolvi com bibliotecas, jornais, muitos livros. Ao sair do seminário, trabalhei em jornais e rádio nas bandas culturais. Nunca mais parei de ler e de escrever, mesmo quando a vida me jogou em outros mundos”, garante.


Carreira

O escritor já lançou seis obras, são elas: Os Tabaréus do Sítio Saracura (2008), Meninos que não queriam ser padres (2011), Minha querida Aracaju (2011), Tambores da Terra Vermelha (2013), Os Ferreiros (2015) e Os curadores de cobra e de gente (2017).
Saracura é membro da Academia Sergipana de Letras, da Academia Itabaianense de Letras e da Associação Sergipana de Imprensa.
“O primeiro livro que escrevi foi um livro técnico de informática tratando do bom funcionamento de um centro de processamento de dados. Teve edição restrita à empresa onde eu trabalhava. O primeiro livro publicado para o mundo foi um romance, ‘Os Tabaréus do Sítio Saracura’. Eu já estava aposentado há oito anos e pude redigir, compilar e depurar textos produzidos desde a adolescência”.

O escritor explica como define o conteúdo de seus livros. “As obras falam de gente boa, do cotidiano de um povo lutando para viver dignamente, mesmo atrapalhado pelos governos equivocados e prejudicado pela natureza adversa. Os livros têm um objetivo sagrado: mostrar ao mundo que aqui na minha aldeia, Itabaiana, vive um povo inteligente, inventivo e digno: fazer um povo invejado pelo modo de ser”.

Desafios
O escritor disse que o maior desafio é encontrar leitores para as suas obras. “Em 2014, começamos o programa de trabalho, ‘O escritor na livraria’, que leva escritores às lojas e os faz interagir com os leitores que circulam nelas. Tem sido muito frutuoso. Tornamo-nos conhecidos dos leitores e livreiros. E aí vendemos mais livros. Até quando não estamos presentes nas lojas. Há outros desafios, mas todos seriam irrelevantes se muitos leitores houvessem. De um modo geral, as pessoas não valorizam as obras. Mesmo quem frequenta as livrarias age como se o livro fosse um supérfluo e reluta em comprar. Satisfaz-se admirando de longe, como se fosse uma estrela”, lamenta.

“Mas há leitores que sabem valorizar os bons livros e muitos compram, até livros de autores sergipanos. Passei a vida inteira lendo bons livros, observando a vida, ouvindo e anotando histórias de minha mãe e de todos que se dispunham a contar. Agora, preciso apenas de tempo e serenidade para construir a obra literária que planejei. Falta muito ainda, acho que não vai dar tempo, estou com 72 anos.”

A falta de recursos é outro desafio enfrentado pelos escritores sergipanos. “Consegui patrocínio para lançar apenas a primeira edição de um livro. As primeiras edições dos demais livros, eu publiquei com ajuda da família e amigos. A internet, os blogs, as redes sociais têm ajudando muito da divulgação dos livros publicados e desperta o interesse de mais leitores para nossas obras. Observamos que mais gente lê hoje. O mercado parece estar em expansão. Ou seria ilusão de ótica?”, questiona.


Incentivo

Saracura disse que nunca é tarde para começar e orienta como ser um escritor de sucesso. “É necessário ler muito para construir um livro superior ao melhor livro lido para não ser mais um perdido na barafunda. Uma dica importante é não ter pressa e nem pena em reescrever, em decepar trechos que parecem sobrar. A obra deve ser submetida a um revisor intransigente e que seja humilde. Palavras, frases, trechos sempre podem ser melhorados. Só publique quando sentir orgulho de sua obra. Quando o livro quebrar os laços que o prendem a você. Quando não tiver mais jeito de segurá-lo. Publicar é uma decisão conjunta e de foro íntimo. Leia livros de autores sergipanos”, recomenda.

O próximo livro de Saracura ainda não foi definido. “Mas vai ser um livro irresistível. Que tenha um título tentador e um conteúdo apaixonante, em cada frase lida provoque um grito de louvor”, finaliza.

Texto e imagens reproduzidos do site: cinform.com.br

sábado, 12 de maio de 2018

Rochinha lembrando um exemplo de ontem


Publicado originalmente no Blog Luiz Eduardo Costa

Rochinha lembrando um exemplo de ontem

Por Luiz Eduardo Costa

Rochinha, que aqui referimos, é o Dr. José Francisco da Rocha, advogado, professor da UFS aposentado, ex-Juiz eleitoral e ativíssimo obreiro maçônico, há sessenta anos frequentando, influindo, comandando, orientando a Loja Maçônica Cotinguiba. É também assíduo frequentador de uma academia de ioga, isso aos 91 anos.

O exemplar Dr. Rochinha

Num dia desses, Rochinha que é um “causer” desses que conferem prazer e gosto ao bate papo, lembrava de algumas figuras públicas de Sergipe, entre elas de Sálvio Oliveira, também, como ele, obreiro da Cotinguiba. Sálvio faleceu em 1986 quando se aproximava dos cem anos. Vindo de Cícero Dantas na Bahia, iniciou-se no comércio e chegou a criar, com um sócio judeu, uma firma de exportação de açúcar. O negócio cresceu muito, mas, na depressão econômica mundial (1929 – 1934), seu negócio fechou as portas, falido. Sálvio dedicou-se então a pagar todas as dívidas, limitou seu patrimônio a casa onde residia, mas não deixou um só credor com uma promissória sem resgate na mão. Já havia se envolvido em todas as revoltas dos anos vinte chefiadas pelo tenente Maynard, que, com a vitória da revolução de 1930, tornou-se interventor em Sergipe. Então, convidou seu amigo de absoluta confiança, Sálvio Oliveira, para ser o Diretor do Tesouro Estadual. Sálvio estabeleceu um estilo de rigor com o dinheiro público e mantinha equilibradas as precárias finanças. Esse estilo, fez com que todos os governadores que se sucederam após a redemocratização o convocassem para permanecer no cargo.

Quando Leandro Maciel assumiu o governo em 1955, levando pela primeira vez ao poder a UDN, derrotada duas vezes antes e com ímpetos de revanche, criou as Mesas Redondas, uma espécie de devassa pelos governos passados. Convocava servidores públicos para interrogatórios transmitidos pelas emissoras Liberdade e Difusora. Havia uma chuva de acusações ao governo passado de Arnaldo Rollemberg Garcez, que era um homem rigorosamente honesto e herdeiro de grande fortuna. Alguns servidores aproveitavam-se para agradar ao novo poder instalado, despejando críticas no anterior. Chegou a vez de Sálvio Oliveira, ele fez um relato sucinto e seguro das finanças públicas, prestou contas sempre se referindo respeitosamente ao ex-governador Arnaldo Rollemberg Garcez, sem preocupar-se em agradar o que chegava. Finda a exposição, respondido todos os questionamentos, Leandro Maciel tomou a palavra e disse: “Estamos diante de um servidor que honra o serviço público e engrandece o seu cargo, eu o convido, publicamente, para que ele permaneça no cargo que ocupa. Meu governo precisa de homens probos”. Sálvio Oliveira aposentou-se no limite da idade. Até então nunca tivera um automóvel, nem usara carros oficiais, a não ser para viajar ao interior. E lembra Rochinha: “usando invariavelmente um terno branco, gravata preta e um guarda chuva à mão, ele saía da sua casa na Barão de Maruim, ia e voltava caminhando do trabalho, nos dois expedientes. Passou à inatividade com proventos razoáveis, uma aposentadoria que o amigo e ético Aloísio de Campos sugeriu ao governador que a Sálvio fosse concedida.

Aposentado, criou, com o filho Augusto Barreto e o cunhado jornalista e Promotor Paulo Costa, uma firma de representação. Vendia pianos Brasil, motonetas, produtos químicos e representava a fábrica gaúcha de armas e munições Amadeu Rossi. Então, comprou um carro para a filha solteira Virgínia, que o levava para aonde ele desejasse. Em 1980, Heráclito Rolemberg, presidindo a Assembleia Legislativa, entregou a Sálvio Oliveira o título de Cidadão Sergipano. O sertanejo que pouco frequentou a escola mas se fez com brilho um autodidata, pronunciou um discurso emocionante, contando a sua vida.

Texto e imagem reproduzidos do blogluizeduardocosta.com.br

Alberto Carvalho

Foto de Ludwig Oliveira e editada/postada pelo blog,
para ilustrar o presente artigo.

Texto publicado originalmente no site Osmário Santos, em  11/05/2002

Alberto Carvalho
Por Osmário Santos

Iniciando com a crítica cinematográfica no ano de 1975, Alberto Carvalho introduziu na imprensa sergipana um novo conceito em crítica de arte, passando a apresentar o “mundo do opinador”, isento dos obrigatórios elogios. Passou a escrever com a verdade, sem visar agradar nem a gregos nem a troianos e tão pouco baianos. Seu nome sempre foi respeitado no mundo cultural sergipano. Além de crítico de cinema, sua grande paixão, sempre atuou na imprensa sergipana no campo da literatura não só na crítica, mas com publicações. Poeta da vanguarda e sempre atuando na prosa, nunca se descuidou e sempre esteve dentro do tempo. Recentemente publicou no ensaio sobre o pintor Adauto Machado e, em conclusão, um trabalho semelhante, sobre a vida e obra do pintor Florival Santos. Alberto é parte da cultura em nossa terra e tem muita coisa para contar, no registro da Memória de Sergipe.

Alberto Carvalho nasceu a 3 de novembro de 1932, em Itabaiana, Sergipe, filho de Ivo Carvalho e Maria Elisa Carvalho. Seu Ivo era uma pessoa muito calada, enquanto dona Maria Elisa era bem extrovertida e bem brincalhona. Alberto conta que o seu lado de gozador, é uma boa herança de sua mãe, afirmando que ela realmente era uma “figura”.

Seus pais pertenciam a uma classe média não alta, mas que dava para sobreviver. No início, foi alfaiate, depois passou a exercer a função de funcionário público municipal, levando uma vida controlada. “Meu pai transmitiu a lição, que a gente não deve ir mais além do que o chinelo cabe”.

Curso primário — Na sua cidade natal, com a professora Laurinda Leite, aprendeu as primeiras lições, no Grupo Escolar Guilhermino Bezerra. Antes de chegar aos bancos escolares, já gostava de ler, passando a gostar mais ainda, depois que conheceu o professor José Fortunato Pinto. “Ele fundou um colégio que era vizinho à minha casa, Gostava muito de literatura, escrevia e eu era amigo do filho. Estudei no seu colégio e, ele foi um professor que me marcou muito”.

Naquele tempo, já tinha gosto pela leitura e pelo cinema, pelo qual sempre fui maluco. Conta que tudo iniciou quando chegou em Itabaiana, uma família de Propriá que gostava de ler e por isso o então menino Alberto tratou logo de fazer boas amizades, com bons proveitos. “Foi quando iniciei a ler os meus primeiros romances”.

Foi baleiro de cinema — Uma infância sacrificada, ajudando os pais em casa, com o fruto do seu trabalho de vendedor de revistas e jornais da empresa “A Noite” e de correr fila por fila do cinema de Itabaiana, vendendo bala, com a cesta cheia, sorriso nos lábios e gritos constantes: Olha o baleiro! Bem que alguém desconfiava que o gosto do Alberto Carvalho pelo cinema, era de um outro mundo. Do tempo de baleiro? Também. Conta que o gosto pelo cinema, veio do seu irmão mais velho, Petrônio, já falecido, que chegou a trabalhar no cinema como projetista. Tal emprego proporcionou que ele colecionasse o que era chamado de ponto de fita. Ele cortava um pedaço pequeno do trailer do filme, sempre a parte mais interessante e de posse do rosto do artista na película, montava um álbum de fotografia. “Eu tenho em minha casa milhares de fotografias tiradas do cinema. Também mandava buscar, em Hollywood, fotografias. Naquele tempo, os estúdios faziam questão de mandar todo o material para divulgação. Para tanto era só solicitar”.

Gosto pela leitura — Menino precoce, vendendo balas e assistindo filmes, estava sempre com um livro, para as horas de folga. “Lá em casa tinha uns livros do velho, que, apesar de não ser formado, tinha uma biblioteca razoável. Uns, ele me proibia de ler, pois achava que ainda não tinha idade. Eram os livros de Albino Forjaz de Sampaio: “Palavras Cínicas”, era o nome de um deles. Depois eu li O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas e outros bons livros”.

Fato curioso — Um fato curioso do pai de Alberto Carvalho conforme Alberto conta, era sua grande paixão pelo livro “Quo Vadis” de Henryk Sienkiewez. O entusiasmo por Sienkiewez era tanto a ponto de seu pai batizar os filhos com os nomes de personagens de obras literárias do escritor.

Ginásio em Aracaju — Tendo concluído o curso primário no ano de 1944, fez exame de admissão a ginásio e fixou residência em Aracaju em 1945. “O professor José Fortunato, tinha sido transferido para trabalhar no antigo Instituto Profissionais Coelho e Campos, onde é o Sesi, na rua de Itaporanga. Como diretor, tinha direito a uma casa. Quando ele veio transferido, falou com meu pai, que gostaria que eu viesse, por ter sido um aluno razoável e por causa do filho que também iria fazer exame de admissão. O velho disse que não tinha condições de pagar e terminei vindo. Passei no exame de admissão, que era um vestibular, naquela época e tornei-me aluno do Atheneu”.

Voltando à Itabaiana, para passar alguns dias. Alberto Carvalho pegou tifo, passando 40 dias de cama. Perdeu um mês e meio de aulas. Enquanto estava na fase de recuperação, seu pai conseguiu uma bolsa de estudos do Estado.
O problema da moradia foi resolvido pela vinda do irmão mais velho, Petrônio a Aracaju, já que tendo passado num concurso público, passou a morar em Aracaju numa pensão. Alberto agradeceu a casa do professor Fortunato e ficou com o irmão, até sua entrada no Banco do Brasil.

Cursos — Até o ano de 1951 fez os cursos secundário e colegial, no Colégio Estadual de Sergipe (Atheneu) até 1951. Curso de Técnico em Contabilidade na Escola Técnica de Comércio de Sergipe, concluindo também em 1951. Depois prosseguiu os estudos, fazendo o curso superior na Faculdade de Direito de Sergipe, colando grau em bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1956.

O Atheneu influenciou bastante na sua formação cultural, pelo bom nível dos professores de época. “Tinha um professor, que muita gente criticava por ser meio descuidado, mas ele me ensinou o gosto pela literatura filosófica. Chamava-se Virgínio Santana e eu gostava de conversar muito com ele depois das aulas. Charutinho tranquilo, ele era uma figura e na aula conseguia transmitir de uma maneira extraordinária, tudo que ele sabia.

O CDF do Atheneu — No Atheneu, não chegou a participar de política estudantil. Não havendo programação extra classe, e vivia envolvido com os livros, pois estudava ao mesmo tempo, em dois colégios. Chegava no fim do ano e não sabia quantas provas fazia. “Naquele tempo tinha a prova oral e a escrita. No Atheneu eram umas 10 matérias e na Escola Técnica umas nove. Some aí no fim do ano, escrita e oral. Eu era um verdadeiro CDF com todas as honras e com todas as botas que eu usava, pois me mandavam, sapatos de Itabaiana forrados com pneus de automóvel, pneu mesmo. E com essas botas dava boas passadas”.

Sem tempo para o lazer — De tanto estudar na juventude, pouco tempo para tomar uma cervejinha, que chegava bem miúda, pois ninguém do time, que Alberto conseguia reunir em torno de uma mesa de bar, era empregado. “Eu, Gilvan Cleber, Airton Araújo, uma turma, que conseguia com sacrifício, arranjar uns trocadinhos para a ‘loura’”.

Revela que não pretendia ser advogado. Pelo fato que em Aracaju, naquele tempo só tinha as faculdades de: Direito, Ciências Econômicas e Química. Não tendo condições de sair de Aracaju, para estudar em Salvador, resolveu fazer vestibular para Direito.

No meio do caminho, “não tinha uma pedra”, mas sua cabeça encontrou uma pedra e por pouco não desistiu. Chegou ao fim, recebeu o diploma, guardou o anel e nunca exerceu a profissão. “Era comissionado no Banco do Brasil e não dava condições de advogar. Seu canudo só veio servir, tempos depois, quando passou a ser professor titular de “História Economia Geral e do Brasil”, da Universidade Federal de Sergipe, desde a sua fundação. “Sem o título superior, não entraria na universidade”.

Recordações do Banco — Boas recordações do Banco do Brasil, muito trabalho, uma existência de 30 anos. “O Banco do Brasil era um emprego onde não tinha dono. Tinha o procurador, que era o gerente de fato e uma outra galeria de gerentes. Foi uma carreira, onde não tinha o problema de puxa-saquismo. Fui comissionado, porque sabia fazer o serviço e saí de lá me dando bem com todo mundo. Não tenho nada a dizer do banco”.

Quando Alberto Carvalho entrou no Banco do Brasil, através de concurso, o banco, funcionava onde é hoje o Edifício Oviêdo Teixeira. Em frente ainda existia a ponte do Lima, onde os navios ficavam atracados. “Quando um colega contava uma mentira, a gente levava para a ponte do Lima para ele terminar lá, sua história”.

Na Faculdade de Direito — Quando penetrou nos corredores da Faculdade de Direito de Sergipe, não resistiu e entrou no bloco que fazia política estudantil. Ali foi por problema de amizade. Amigo de Viana de Assis, Jaime de Araújo Andrade, José Rosa, Tertuliano Azevedo, pessoal todo do meu tempo, eles ganharam a eleição, e me colocaram como diretor do jornalzinho “Academus”, órgão do Centro Acadêmico “Sílvio Romeno”, nos anos de 1955 e 1956”.

Jornalismo — Foi num jornal de esporte que circulava em Aracaju, que fez sua estreia no jornalismo sergipano. Não escrevia estava ou não na banheira na hora do gol. Seu trabalho jornalístico todo ele era voltado ao cinema. “Todo o jornal era de esporte, menos a minha parte”.
“Suas publicações nos jornais de Aracaju, na área cultural, representam um marco no jornalismo sergipano. Foi crítico cinematográfico na Gazeta Socialista, escreveu coluna literária contando com a colaboração de Bonifácio Fontes, na Gazeta de Sergipe no período de 1959 a 1960 e de 60 a 61 sem a participação de Bonifácio.

Atuou no Sergipe Jornal, de 1964 a 1965 e no Diário de Aracaju, no ano de 1966. Colaborou com seus artigos em outros órgãos da imprensa sergipana, principalmente revistas. Colaborou por muito tempo no JORNAL DA CIDADE.

Cinema Nacional — De cinema nacional, só fala bem da obra de Nelson Pereira dos Santos, o único cineasta nacional que lhe entusiasmou.

Em termos de experiências de participar de uma produção cinematográfica, chegou a participar de um filme sergipano. “Inclusive, esta fita está com Luiz Antônio Barreto. Eu fiz o roteiro, Lineu filmou, tendo como atores: Orlando Vieira e Chico Varela”.

Literatura — Na Literatura uma outra história “Não me considero um crítico verdadeiramente dito, e sim um leitor interessado, faço questão de dizer que sempre fui um leitor atento”.

Do cinema em sua vida: “Sou apenas um divulgador, pois fazer crítica aqui em Sergipe, é difícil. O pessoal daqui só gosta de elogios e quando você diz uma coisa, os conceitos de literatura provinciana ou estadual, acredito, não resistem a uma crítica séria. Os escritores obedecem aos limites do IBGE. Tobias Barreto, Sílvio Romero, João Ribeiro, Manoel Bomfim e muitos outros, seriam autores sergipanos apenas por terem nascido aqui ou deveriam ser incorporados a vida literária dos outros estados em que viveram e escreveram seus livros? São brasileiros, sim, mas o atraso no acompanhamento do que só faz “lá fora” é bem outra conversa.

Autor vivo — Alberto considera-se um “autor” vivo, não porque seja sagaz e, sim pela pequena atuação que tem.

Certa feita, quando foi dar um depoimento sobre sua presença na literatura sergipana, apresentou a fábula do galo Chantecler. “Não acredito que o sol nasce por detrás da Barra dos Coqueiros porque eu existo. Falo dos que conheço, da minha vivência como miúdo escriba radicado em Aracaju”.

Xingamento — Conta que ao chegar em Aracaju, ficou horrorizado ao ler os jornais. “A crítica local era de xingamentos: não faziam análise das s obras e sim ou autores. Lembro de uma dessas polêmicas em que certo autor era chamado de “neto de uma horizontal...” Traduzindo para a geração de hoje, mulher que trabalha na “cama, prostituta, para maior clareza”.

Para Alberto Carvalho, “o academismo “Borocochô” ainda prejudica a nossa modesta escrita”. Não resiste e fala da pompa de certos escritores que fazem questão de registrar nos seus livros que da Academia de Letras, uma entidade que segundo ele, só funciona na eleição e na posse do “imortal” ou quando ele sobe para um outro mundo. “Pode? Alguns dos seus literatos nunca lançaram qualquer obra (no sentido mais literal do termo); outro publicaram livrecos de justificativa, a posteriori da eleição e outros nem isso”. “São personalidades, figura representativas da nossa melhor sociedade. “Meus sais”, como se diz na imprensa marrom local”.

Visão Crítica — Na sua visão crítica, prossegue, “dando suas pinceladas no movimento cultural, envolvendo os imortais com os meios de comunicação”. A coisa anda safara, diria um acadêmico. E não por falta de meios de comunicação. “Temos várias emissoras de TV, várias emissoras de FM e AM, vários jornais, cujo número aumenta nas épocas eleitorais, quando aparecem mais picaretas. Vejam, ouçam, leiam. Claro que existem as de praxe e honrosas exceções. Seria apenas risível se não fosse triste tal quadro”. “Isso me lembra um observador estrangeiro chegou a Bahia numa sexta-feira (dia consagrado a um santo) e, observando grande número de pessoas vestidas de branco concluiu que estava na cidade mais bem servida no campo da saúde, em todo o mundo”.

Deixando a cidade de Salvador de lado, Alberto Carvalho gosta mesmo de falar é de Aracaju. Revê-la que também é um leitor dos nossos jornais, embora considere entupido de muitas crônicas sociais. “Dar a impressão que a nossa cidade tem uma sociedade brilhante, atuante, bonita, rica, embora, de quando em vez, comentários apontam que tem gente postergando o companheiro (a) unido, no altar sob a leitura da famosa epístola de São Paulo”.

Da literatura de hoje — “A literatura que se faz hoje em Sergipe não está pior em termos de qualidade, mas eu estou achando que a vida literária está superando a literatura, pois se faz muito mais badalação, e essa troca de figurinha, todo mundo é formidável, onde não há análise de nada. Agora existem valores. Antigamente era o contrário. Tinha muita gente se fazendo de valor, sem ter.

Texto reproduzido do site: usuarioweb.infonet.com.br/~osmario

terça-feira, 8 de maio de 2018

As Duas Coréias, a Guerra e Aracaju

Professor Manoel Franco Freire 

Trecho extraído de publicação originária do Blog Luiz Eduardo Costa

As Duas Coreias, a Guerra e Aracaju
Por Luiz Eduardo Costa

          A guerra da Coréia acabou em 1953. Desde que se iniciara uns dois anos antes, os americanos insistiam que o Brasil enviasse tropas para combater ao lado deles. Quando a Segunda Guerra acabou, as tropas japonesas saíram da península coreana que ocupavam, transformando o país em colônia. Americanos ocuparam a parte sul e os russos e chineses a parte norte. Eram separados pelo paralelo 38, que se tornou uma referência importante durante o conflito. A guerra começou quando, depois de escaramuças ao longo do paralelo limite, tropas do norte, apoiadas pelos chineses, teriam invadido o sul e os americanos logo entraram em ação.

          Alguns setores militares se mostravam favoráveis à entrada do Brasil no conflito, alegando que a luta era do “mundo livre” contra o comunismo. Houve reação contra essa ideia idiota de enviar brasileiros para servirem de bucha de canhão, numa guerra longínqua onde não estavam envolvidos nossos modestíssimos interesses de país, pobre, sem presença internacional. Os que se manifestavam contra logo foram carimbados como comunistas. De fato, o Partido Comunista estava envolvido na campanha: Nenhum Brasileiro na Coréia.

          Em Aracaju, durante a campanha para a Prefeitura em 1952, o PCB apresentou como candidato, o professor Franco Freire, um respeitado mestre que ensinava inglês e dirigia o Departamento de Educação. Franco Freire era militante comunista e, junto com outros intelectuais do partido, elaborou um plano de governo para Aracaju, que, estranhamente, colocava em primeiro plano a luta pelo não envolvimento do Brasil na guerra coreana. Nos comícios, os oradores falavam sobre a guerra na Coréia, denunciavam o governo de Getúlio, que estaria preparando o envio de tropas brasileiras para o conflito, resultante do imperialismo americano, que queria o controle da península coreana para, de lá, ameaçar a China, que, desde 1948, se tornara comunista.

          O povo não entendia aquela arenga, não sabia onde ficava nem a Coréia nem a China, e o imperialismo, União Soviética, eram coisas que absolutamente não lhes interessavam. O professor Franco Freire, apesar de ser um homem moralmente integro, intelectualmente qualificado, recebeu um reduzido número de votos.

          Na época se formou, um favelão no Bairro Industrial, numa área aterrada sobre o mangue, em frente onde hoje está quase concluído um novo Shopping. Ao favelão, o povo logo lhe deu um nome: Coréia Sebosa...

Trecho de artigo e foto reproduzidos do blogluizeduardocosta.com.br