terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Memorial da Atalaia.

Antigo Farol da Atalaia, em Aracaju/SE.
Foto reproduzida do blog antiguidadecolecoeseartes.blogspot
Publicada pelo Blog SERGIPE..., para ilustrar o presente artigo.

Publicado no blog Primeira Mão, em 23/02/2014.

Memorial da Atalaia.
Por Amâncio Cardoso (Professor dos cursos de Turismo do IFS e sócio do IHGS), e
Francisco José Alves (Professor do Departamento de História da UFS e sócio do IHGS).

A Atalaia - praia e bairro de Aracaju, a cerca de 10 km do centro da cidade - é o nosso atrativo turístico mais famoso e principal cartão postal. Esta percepção é antiga. Já em 1948, o cronista Mário Cabral (1914-2009), em obra sobre Aracaju e referindo-se à Atalaia, afirmava orgulhoso: “a cidade de Aracaju possui uma das mais belas praias do nordeste brasileiro”. (1)

No passado, a Atalaia denominou um mirante, depois um farol, em seguida um povoado de pescadores e lavradores, passando a praia de veraneio da elite aracajuana e, por fim, um cobiçado balneário e bairro turístico. (2)

Noticiemos brevemente esta trajetória.

As notícias mais antigas sobre a Atalaia remontam ao século XIX. Em 1848, o Governo Imperial manda construir na região denominada barra do Cotinguiba (atual do Sergipe), uma guarita com plataforma coberta de chumbo e taboas, de onde se observaria a entrada e a saída de embarcações. (3) Surgia o mirante “Atalaia da Cotinguiba”.

Esta mesma “Atalaia de pau pintado de preto” foi identificada pelo Imperador D. Pedro II (1825-1891), quando de sua visita a Sergipe em 1860. Ele também percebeu a necessidade de um farol no lugar de um mirante. (4) Quase trinta anos depois, essa velha atalaia foi substituída, em 1888, pelo Farol da Atalaia.(5) Este é o mesmo farol no atual bairro Farolândia, tombado em 1995 pelo governo estadual; atualmente desativado, servindo apenas de atrativo turístico. (6)

Em fins do século XIX, a Atalaia era um arrabalde (lugar afastado do centro) e também um povoado (lugar com poucas casas) de São Cristóvão, cujas areias eram “célebres” por produzirem “bons melões e melancias” e cujos “habitantes lavram e pescam”.(7) Por esta mesma época, o sergipano Laudelino Freire, retrata a Atalaia como um lugar quase paradisíaco: “são admiráveis a extensão e a exuberância desses coqueirais, que, independentes dos cuidados dos agricultores, brotam espontaneamente da terra”. (8)

Este quadro permanece no início do século XX.

A região era ainda uma povoação de casas de palha onde viviam pescadores, lavradores de mandioca, colhedores de coco, vendedoras de beiju, que abasteciam a feira de Aracaju, após atravessarem o rio Poxim. (9) Ainda não havia ponte entre o centro da capital e Atalaia Velha.

Esta época é relembrada pelo poeta sergipano, Jacintho de Figueiredo, nascido em 1911. Ele reporta-se à rústica paisagem em versos: “Atalaia, de então, era de palha;/ e o seu melhor transporte era a canoa./ Entre as dunas e o mar, frouxa toalha/ De fina areia se estendia à toa...”. (10) Outro escritor aracajuano, Joel Silveira (1918-2007), também relembra esta velha Atalaia: “Antes você ia de cavalo. (...). Os caminhos eram ingratos. Só valia a paisagem”. (11) Um outro registro desta época é oferecido pelo artista plástico sergipano Florival Santos (1907-1999). Ele também relembra a paisagem bucólica da antiga povoação nas telas “Farol da Atalaia” (s.d.), “Paisagem da Atalaia” (1936), “Coqueiral da Atalaia” (1960). (12)

É somente a partir da década de 1930 que a bucólica Atalaia se transforma em frequentado balneário. Desde então, os aracajuanos bem nascidos substituem, paulatinamente, o banho ribeirinho na praia Formosa pelo oceânico; na Atalaia. Isso está registrado, por exemplo, no magistral romance de Amando Fontes (1899-1967), “Os Corumbas”, publicado em 1933. Numa das páginas, a família Corumba não pode contar com o serviço médico do dr. Barros porque ele “andava nos banhos de mar, lá na Atalaia”.

Assim, em 1937, é construída a ponte velha sobre o rio Poxim, aproximando o distante povoado. Essa ponte facilitou o acesso à praia de Atalaia pois, como nos informa João Pires Wynne (1905-1974), antes da ponte só “se viajava em saveiro, em canoa, ou por terra firme, no lombo de alimária [besta de carga]”. (13) O próprio governo do estado constrói ali, naquela década, o “Palácio de Veraneio”.

A facilidade de acesso à praia após tal construção e a inauguração de uma nova estrada foi anotada pelo já citado Mário Cabral, em 1948: “..., a Praia da Atalaia é servida por estrada de rodagem que, em ponte de cimento armado, transpõe o rio Poxim”. (14)

A melhoria da acessibilidade à Atalaia por automóvel foi registrada também num dos mais famosos romances de Jorge Amado (1912-2001), “Tereza Batista Cansada de Guerra”, publicado em 1972, mas cujo enredo se passa nos anos 1930. Na obra, Tereza e seu amante, Januário, de carro “rumaram para Atalaia” a fim de namorar. (15)

Nos anos de 1950, o acesso à Atalaia melhora ainda mais. Em 1957, é construída a ponte Juscelino Kubitschek (1902-1976), então presidente da república. A obra ficou conhecida como ponte da Atalaia. Ela aproximou o então povoado do centro de Aracaju, sobretudo após a inauguração do Aeroporto Santa Maria, em 1958.(16) Hoje essa ponte sobre o rio Poxim é popularmente apelidada de ponte Parque dos Cajueiros; tanto por conta da proximidade desse equipamento de lazer quanto por falta de uma placa de sinalização.

No começo da segunda metade do século XX, 1954, a Atalaia passa a pertencer ao município de Aracaju, conforme lei de divisão administrativa. A estrada e ponte de acesso transformam o local num subúrbio de veranistas “frequentado de janeiro a março de cada ano”. (17) Segundo uma outra fonte, nas férias de dezembro alguns privilegiados aracajuanos “iam ocupar suas casas de veraneio que ficavam, em sua grande maioria, fechadas durante nove meses do ano”. (18) Conforme os testemunhos, a partir da segunda metade do século XX, a Atalaia passa a servir de área para residência de veraneio da classe média aracajuana.

Nesse período, o bairro já conta com relativa infraestrutura para receber aqueles adventícios. Como exemplo, cite-se a praça de esportes onde se jogava vôlei e basquete (atual praça Alcebíades Paes); o cassino municipal, onde se dançava ao som de conjuntos musicais da capital; o transporte realizado pelas marinetes que faziam o trecho Centro-Atalaia; a iluminação elétrica por gerador; a construção de um mercado; de um posto médico e outro telefônico; de uma delegacia de polícia; de três escolas públicas; e do aeroporto. Desde então, inicia-se a valorização urbana da área.

Embora já tivesse elementos de urbanização, a velha Atalaia continuava sendo o éden de poetas e cantadores. Um exemplo é Luiz Gonzaga (1912-1989). Em 1962, a Atalaia é citada na música “Adeus Iracema”, dele e de Zé Dantas. O rei do baião, nesta toada, menciona as principais praias do Nordeste e sobre a nossa diz: “Navega,/ Oh! Jangada nesse mar/ Enfeitado de coqueiros/ E coberto de luar./ Navega,/ No Nordeste pela praia/ (...)/ Quero ver minha Atalaia”. (19) Neste período, a Atalaia era a mais atraente opção de lazer e veraneio de Aracaju. (20)

Já nas décadas de 1970 e 1980, dois fatos marcam a ocupação e a expansão urbana da velha área. O primeiro é a instalação do antigo TECARMO (Terminal Marítimo de Carmópolis), unidade da Petrobras (atual Pólo Atalaia). Assim, “a Atalaia que até então mantinha um relativo baixo índice de construção toma novo impulso com um número crescente de edificações”, a exemplo dos conjuntos residenciais Beira Mar e Santa Tereza. O segundo fato, é a implantação do Loteamento Aruana e do bairro Coroa do Meio que contribuíram para uma “considerável valorização dos terrenos no perímetro”. (21)

Entre o final do século XX e início do XXI, a Atalaia se consolida como polo residencial e turístico. Ela oferece diversos serviços: bares, restaurantes e conveniências; hotéis de várias categorias; praças de esporte e lazer; equipamentos voltados para moradores e turistas, tais como centros de exposição, oceanário, etc.

Como vimos, do século XIX ao XXI, a Atalaia denominou mirante/farol; povoado de pescadores; praia balneária, estação de veraneio e, finalmente, bairro residencial e turístico.

Neste sentido, supomos que o velho mirante de madeira está na origem do nome da região. Ou seja, teríamos assim a seguinte sequencia: mirante da Atalaia da Cotinguiba (1848); Farol da Atalaia (1888); povoação de pescadores e lavradores (1900 a 1930); região balneária e de veraneio (1940 a 1960) e bairro residencial e turístico (1970 a 2010).

Eis, em largos traços, um breve histórico do nosso mais famoso cartão postal.

Fontes:
1 – CABRAL, Mário. Roteiro de Aracaju. 3. ed. Aracaju: Banese, 2001. p. 79. 1ª edição 1948 e 2ª de 1955.

2 – WYNNE, J. Pires. Aracaju de outros e passados tempos – crônica da cidade. In: História de Sergipe. Rio de Janeiro: Pongetti, 1973. v.2. p. 419.

3 – Relatório do presidente da província de Sergipe à Assembleia Legislativa. São Cristóvão, 28 de abril de 1848. p. 53 e 54.

4 – OLIVEIRA NETO, Urbano de (Editor). Diário do Imperador D. Pedro II na sua visita a Sergipe em janeiro de 1860. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, n. 26, v. 21, p. 64-78, 1961-1965. Citação p. 64.

5 – Repartição de Fharoes. Gazeta de Aracaju. 20 de setembro de 1888, n. 604, p. 04.

6 – SERGIPE. Governo do Estado. Secretaria de Estado da Cultura. Conselho Estadual de Cultura. Relação Geral dos Monumentos Tombados no Estado de Sergipe (decreto nº 15.295, de 21 de abril). Aracaju, 15 de setembro de 2003.

7 – SILVA LISBOA, L. C. Chorographia do Estado de Sergipe. Aracaju: Imprensa Official, 1897. p. 86 e 150.

8 – FREIRE, Laudelino. Quadro chorographico de Sergipe. 3. ed. Rio de janeiro: H. Garnier, 1902. (1ª edição de 1896). p. 80 e 83.

9 – WYNNE, J. Pires. Aracaju de outros e passados tempos – crônica da cidade. In: História de Sergipe. Rio de Janeiro: Pongetti, 1973. v.2. p. 419.

10 – “Atalaia”. In FIGUEIREDO, Jacintho de. Motivos de Aracaju. 3. ed. Aracaju: P.M.A./Funcaju, 2000. p. 33.

11 – SILVEIRA, Joel. Aracaju cheia de graça. In: Revista de Aracaju. Aracaju, PMA, v. 01, p. 166, 1943.

12 – CARVALHO, Alberto (Org.). Florival Santos. Aracaju: Habitacional, 1995.

13 – WYNNE, J. Pires. Aracaju de outros e passados tempos – crônica da cidade. In: História de Sergipe. Rio de Janeiro: Pongetti, 1973. v.2. p. 419.

14 – CABRAL, Mário. Roteiro de Aracaju. 3. ed. Aracaju: Banese, 2001. p. 79.

15 – AMADO, Jorge. Tereza Batista cansada de guerra. 24 ed. Rio de Janeiro: Record, 1987. p. 45 e 55.

16 – FERREIRA, Jurandyr Pires (Coord.). Enciclopédia dos municípios brasileiros. Rio de Janeiro: IBGE, 1959. v. XIX. p. 237.

17 – Idem. p. 235.

18 – MELINS, Murilo. Aracaju romântica que vi e vivi. 3. ed. Aracaju: Unit, 2007. p. 327.

19 – Disponível em: <http://www.luizluagonzaga.mus.br>. Acesso: 04 out. 2013.

20 – Melins, Murillo. Aracaju romântica que vi e vivi: anos 40 e 50. 3. ed. Aracaju: Unit, 2007. p. 267-274.

21 – ALVES, Francisco José. “Praias do Aracaju”: um esboço histórico. Sergipe Mais. Aracaju, n. 45, p. 16-17, março de 2003.

TEXTO PUBLICADO EM:
- Jornal da Cidade. Aracaju, 17 de janeiro de 2014. p. B-6, (Caderno Cidades, Opinião).
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Texto reproduzido do blog primeiramao.blog.br

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