Imagem reproduzida do Google e postada pelo blog
"SERGIPE, sua terra e sua gente", para ilustrar o presente artigo.
Publicado originalmente no Facebook/Paulo Fernando Morais, em 28/29 de Julho/2017.
Lembranças de Mário, o Inventor (I).
Por Paulo Fernando Morais.
Não gosto de música. Até os dez anos, não conhecia música.
Naqueles anos, logo depois da Segunda Guerra, gente de engenho de cana de
açúcar ouvia o som agonizante das rodas dos carros de boi, o aboio dos
vaqueiros tocando o gado, o ritmo e as cantilenas das danças folclóricas, o
lamento libidinoso dos jegues, a chilreada dos passarinhos, os sons indistintos
dos bichos do mundo, no mais, baticum e zoada. Melodia, mesmo, fui conhecer em
circunstâncias cruéis e indeléveis, ouvindo Coimbra com a fadista Amália Rodrigues
e Adeus, Cinco Letras que Choram, com Orlando Silva.
Eles cantando pelo alto-falante da Praça da Matriz, em
Maruim, onde fomos morar depois que meu pai adoeceu, e, a duzentos metros dali,
ele, Mário Mesquita Moraes, morrendo em cima de uma cama Patente, na Rua da
Cancela, 26.
21 de setembro de 1952, um domingo de manhã, morre Mário das
Pedras, homem chegado a matemática, desenho e invenções.
A música entrou na mente do menino, como um enterro.
Ainda bem que existe Marisa Monte.
Lembranças de Mário, o Inventor (Final).
Por Paulo Fernando Morais.
Meu pai era seco, como um personagem de Graciliano Ramos.
Aliás, fisicamente lembrava o notável romancista alagoano.
Fumava charutos Suerdieck número 2, e aos domingos
permitia-se um copo de vinho Único, que eu ia comprar na bodega de Seu Osvaldo.
Comia pouco. Tudo doía. Conversava ensinando. – Sabe o que significa L-t-d-a?
Limitada. – Como vai o senhor? Vou bem, obrigado. Se for mulher, vou bem,
obrigada. - Não me lembro de tê-lo visto em mangas de camisa, mas flutuando
dentro de um paletó “engole ele”. Trazia sempre estranhas notícias para um
mundo que, dia e noite, martelava o mesmo prego. Ainda ouço sua voz contando à
minha mãe: - “....foi quando ouviram a pergunta: há alguém aí?”- Esta seria a
frase de um alienígena captada por astrônomos.
Em casa, havia uma mesa grande sobre a qual espalhava seu
material de desenho, folhas brancas de cuja textura ainda tenho a sensação nos
dedos, lápis de várias cores, compasso, régua, frascos de tinta, pincéis.
Desenhava retratos com definição de máquina fotográfica.
Ainda sobre a mesa, colocava seus livros de matemática e
química. Havia cubas contendo substâncias de várias cores. Os livros eram
forrados com papel azul escuro, dobrados e fixados com goma arábica. Minha
curiosidade ante aquele mundo fascinante era freada com um olhar de repreensão.
– Não atrapalhe seu pai – adivinhava minha mãe, lá da cozinha.
Mário Mesquita Moraes conheceu em sua vida anônima um
momento de triunfo: inventou o sabão de lavar roupa mais eficiente daquela
época, ao qual deu o nome de Sabão Pluma. O êxito seria compartilhado com
Dr.Gonçalo Prado, dono da usina Pedras, que custeou o projeto. A ideia não foi
adiante, porque logo em seguida adoeceu e alguns meses depois faleceu.
Seu Mário foi o inventor
Do incrível Sabão Pluma.
Ele limpa e não afunda,
E também não faz espuma.
Textos reproduzidos do Facebook/Paulo Fernando Morais.
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